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Porque "preguiça" não é uma desculpa boa o suficiente, né?

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“Ai… preguiça” foi a resposta da minha amiga solteira sobre por que ela nunca tinha dado uma chance para o Tinder. Já ouvi esse comentário algumas vezes das minhas amigas solteiras e tenho que admitir que entendo, mas não concordo em absoluto. Se uma pessoa está disposta a sair, conhecer, experimentar e continuar alimentando a vida social, por que será que o Tinder aparenta ser um caminho mais complexo se, na verdade, pode funcionar como um atalho? Eu queria que ela entendesse isso e desse uma chance como se dá para uma balada nova em um bairro que você acha esquisito.

Ela entendeu. E mesmo quando convencida e prestes a baixar o aplicativo, ela ficou com vontade de fazer xixi e saiu correndo.

Renata: 1, Tinder: 0.

A verdade é que ela vinha reclamando de como a vida amorosa dela estava parada e que ela tinha vontade de conhecer alguém novo, fora da bolha que já estava acostumada, longe dos mesmos rostinhos de sempre. Mas, ao mesmo tempo, o Tinder apresentava uma solução que talvez fosse pragmática demais para a história de amor que ela queria criar para si mesma.

“Acho que é um aplicativo onde as pessoas colocam o que as outras querem ver. Algo raso. Parece que a conversa vira um troca-troca de informações básicas — Onde trabalho? De onde sou? Tenho cachorro? — e nunca chegamos a aprofundar no que interessa de verdade.”

E ela tinha mais para falar. Muito mais. Aliás, Renata é uma pessoa que sofre desse mal (ou desse enorme bem). Baiana, Canadense e residente de umas cinco cidades diferentes, ela já conheceu o mundo bem de perto e tem uma opinião sobre tudo. Não entendo como que uma das preocupações dela é não conseguir aprofundar um papo.

“Vou conhecer gente nova? Ô, se vou. Mas é de um jeito não-natural, sabe? Parece que no Tinder você pula a etapa da paquera com o match. Onde está o mistério da conquista?”

Fui toda ouvidos e depois canalizei aquelas aulas de psicologia da faculdade para me oficializar como conselheira deste momento tão avant garde na vida de alguém. Um passo para fora da zona de conforto é, aqui, um pequeno movimento do dedo indicador na tela para abrir o aplicativo. Nunca foi tão fácil. Para voltar para dentro, é o mesmo movimento. E aí é como se você nunca tivesse se arriscado. Então, honestamente, o que ela teria a perder?

"Um passo para fora da zona de conforto é, aqui, um pequeno movimento do dedo indicador na tela para abrir o aplicativo."

“Encare como uma experiência social que pode te render uns bons papos, risadas e, quem sabe, uma nova pessoa em sua vida”, eu arrisquei.

Ela apertou o botão de download.

Tinder: 1, Renata: 1.


Baiana | Canadense | Publicitária | Gin & Tônica | Livros | Filmes | Café | Acarajé | GoT (mas esse último acho que todo mundo, né)

Após três tentativas fracassadas de About Me, chegamos a esta síntese perfeita sobre Renata para um aplicativo de relacionamento. Nove palavras e uma piadinha que, honestamente, tem realmente tudo a ver com ela. Mas esta foi uma parte polêmica do processo já que ela não gosta de inserir um About Me (“será que coloco só de onde eu sou?”), mas espera que o das outras pessoas tenham informações suficientes para ela poder se identificar.

“Ah, tem que incluir onde trabalha, sim. Se gosta de viajar, também. Tem que falar se gosta de beber. Vai que tem alguém por aí que não bebe? Socorro.” Uma bíblia.

Com as fotos não foi muito mais fácil não. Precisava ser atual, mostrar variedade e evitar muitas selfies (“tem que mostrar que tem amigo também, né?”). Encontrei no meu celular uma foto dela de quando ela teve caxumba e sugeri com uma risada. Ela só respondeu:

"Não vou mostrar minha caxumba pro mundo não!"

Eu acho que só mostraria o carisma dela que conquista todo o mundo. Mas tudo bem.

A primeira foto escolhida foi mais a cara dela impossível: ela e uma amiga em uma piscininha inflável na praia, tomando uns bons drinks. Depois ela escolheu uma de rosto que ela “tava bonitinha”, uma bem Carnavalesca (“porque eu gosto de Carnaval e gente que gosta de Carnaval é legal”), uma de viagem e a última em uma praia paradisíaca que eu escolhi. Acabou que a da piscininha ficou por último na ordem, já que era a que menos dava pra ver o rosto. Só dava pra ver bem a personalidade mesmo.

O primeiro contato trouxe uma grande decepção. Ele estava lá e, em um segundo, não estava mais. Com voz tremida e olhar desesperado ela grita em minha direção:

"Cadê aquele gatinho que tava aqui, hein?!"

Eu respondi que já já ele aparecia de novo, sem saber direito se aquilo tinha chance de ser verdade ou não.

Já o segundo tinha um nome peculiar e dormia com mosquiteiro. Algo que ela estranhou e não quis ver mais. Primeiro X aplicado. Primeiro não da vida moderna.

Mas aí veio o Zé. Zé é o sentimento de empoderamento que o Tinder pode trazer. Zé é a possibilidade. Zé é a escolha. Zé foi o primeiro like. Mas Zé também foi o primeiro match.

“OLHA! OLHA! OLHA! UHU. Tô bombany."

Zé também foi o portal para um novo mundo de empolgação e curiosidade. Abriu caminho para novos matches de todas as cores, de várias idades e de muitos amores.

Engraçado ver coisas que se destacam em um aplicativo como esses. Teve quem recebeu like porque tinha foto com uma lhama. Teve About Me que ganhou das fotos. Tiveram fotos que nem despertaram vontade de ler About Me. Teve de tudo um pouco. Teve até o gatinho que apareceu no começo e este foi um match super comemorado.


Tiveram, inclusive, conclusões alcançadas sobre o mundo moderno:

“Por que todo mundo tem gato hoje em dia, hein?” Renata perguntou enquanto deslizava seu dedinho para a esquerda.

“Porque cachorro é caro.” respondeu, definitivamente, uma colega de trabalho.

Até faz sentido. Desculpa, cat lovers.

Em aproximadamente dez minutos, comemoramos dez matches ao total. Que é melhor do que dez piscadelas em um bar, já que aquele match mostra, também, o consentimento.

Tinder: 2, Renata: 1.

O sentimento no geral era de otimismo. Vinte e sete matches depois, muito ainda estava por vir a partir de algo que a princípio parecia tão pequeno.

"Olha! Ele falou 'Oi, tudo bem contigo?'. E uma carinha piscando. Que que eu respondo?"

Não tinha mais saída: aqueles matches eram prova viva de que toda essa experiência havia se tornado real e oficial. Por trás daqueles perfis bem pensados e montados com fotos que poderiam facilmente ser de um banco de imagens, realmente existia carne, osso, coração e tatuagens.

As conversas fluíam sem parar e enquanto alguns andavam dez casas para trás neste grande jogo da vida, outros avançavam cinco ao falar sobre filme, música e até lançar uma piadinha ou outra que rendia não só o emoji mais querido do Brasil, mas também um sorriso sincero fora do ambiente virtual.

"Não tinha mais saída: aqueles matches eram prova viva de que toda essa experiência havia se tornado real e oficial."

O meu preferido foi o que começou fazendo uma piadinha sobre como Renata devia escrever no About Me dela uma lista de “10 motivos pelos quais Renata é a pessoa mais legal do Tinder”. Ela riu.

E esqueceu de responder.

Mas afirmo alegremente que o amor triunfou de qualquer jeito — ou pelo menos triunfaria se isso aqui fosse um desenho animado de uma hora e meia. Das várias abordagens que ela recebeu, algumas valeram a devolutiva. Em uma semana, foram um total de

27 matches;
12 que vieram falar;
10 que ela respondeu;
4 que ela realmente conversou;
4 que marcaram um encontro;
e 2 que (por enquanto) ela gostaria de conhecer melhor.

Já que não estamos lidando com robôs e nada acontece no automático, dois encontros foram marcados... mas estes mesmos dois encontros foram cancelados também. Talvez este seja um dos motivos por trás daquela "preguiça" ao usar o aplicativo. Preguiça de achar uma brecha nos compromissos das pessoas e conciliar os calendários do mundo moderno que, além de líquidos, ainda funcionam na base do imediatismo.

E aí, como um sinal do destino, ela recebeu isso:

Sem explicação, sem convite, sem palavras. Apenas um emoji de uma fatia de pizza.

E com isso, Hiro ganhou espaço e nome no meio daqueles 27 matches. Ele se disse tímido, mas parecia saber falar sobre tudo e não demorou para marcar um encontro em um barzinho descolado, às 20h de uma quarta-feira.

Não teria pizza, mas teria cerveja e bons papos.

Às 23h15 desta mesma quarta-feira, ela me ligou para contar como foi.

“Cara… foi muito legal porque ele é muito legal. A gente tem muita coisa em comum e rolaram vários assuntos legais.”

“Tipo?”

"Ah, falamos de série, comida, filme. O mais legal é que ele realmente é legal. E não faltou assunto em nenhum momento. Nem quando ele começou a mastigar batata frita."

Acho que quando as pessoas gostam de alguma coisa elas começam a ser redundantes e não sabem decifrar, exatamente, o que fez aquela experiência ser de fato tão boa. “O mais legal é que ele realmente é legal”. Entendo.

A verdade é que nestas aproximadas quatro horas em que eles foram legais juntos e falaram sobre tudo que é interessante, ele comeu batata frita pra caramba e foi uma tortura porque ela tava de promessa de fritura. Mas lá ela ficou. Lá ela aguentou. Por quatro horas inteiras. Em meio a papos sobre cachorros adotados e avaliações dos perfis do Tinder de cada um.

A noite encerrou com a promessa de um hambúrguer caseiro nos próximos dias e um desafio lançado no ar: ele teria que dar uma chance para a série preferida dela e conseguir assistir até o final da terceira temporada.

No dia seguinte não só eles continuaram o papo no ambiente virtual, mas ele também começou a ver a série conforme prometido.



Sabe aquele papo de que todo fim é um novo começo? Nem sempre é assim. Mas ao encerrar este relato eu sei que ainda tem muita água para rolar por aí. Um incentivozinho, um ouvido aberto e um ombro amigo foram suficientes para fazer Renata olhar por cima das barreiras que privavam ela de apertar aquele botão de download e ir em frente, rumo ao desconhecido. Ou desconhecidos (literalmente).

Infelizmente ainda existe aquela frustrante noção de que para uma mulher é mais difícil se aventurar no escuro, já que não se sabe o tipo de risco que pode correr. Para o homem a preocupação é um pouco mais simples: a) se as fotos são fiéis ao que a pessoa é, e b) se a sintonia dos chats existirá, também, fora das telas. Ao lidar com o desconhecido, ou desconhecidos, o corpo fica em alerta por alguns minutos até baixar a guarda e conseguir curtir de verdade aquele momento.

"Infelizmente ainda existe aquela frustrante noção de que para uma mulher é mais difícil se aventurar no escuro, já que não se sabe o tipo de risco que pode correr." 

Mas foi acompanhando o dia a dia desta experiência, entendendo as frustrações e compartilhando as risadas, que pude perceber que, seja no Tinder ou no balcão de um bar, você está sujeito às mesmas experiências: um papo sem conteúdo, um papo que te envolva em tantos sentidos; um xaveco tosco, uma fatia de pizza que te faça acreditar em um mundo melhor; uma sumida injustificável, uma presença surpreendente; um comentário que você abomina, um sorriso que você compartilha.

E por aí vai.

Acho que aquela preguiça lá do começo está erroneamente concentrada em um aplicativo de relacionamento, enquanto ela representa a dificuldade de abraçar o novo e dar aquele primeiro passo — sempre o mais difícil — para fora da zona de conforto.

Mas que fique pelo menos um pensamento final aqui: é fora da nossa zona de conforto que toda a magia acontece.

Com exceção de pizza e um edredom quentinho em tardes chuvosas. Aí existe magia demais também.

Contagem final:

Mais 13 emojis trocados com alguém;
mais 7 cervejas que entraram e desceram gelada;
mais 6 histórias para contar para os amigos;
mais 3 novas pessoas para conversar e conhecer;
mais 1 nova companhia para compartilhar um hambúrguer;
e mais 1.000 possibilidades.

E a única subtração dessa lista é a barreira que estava na frente dela.

Tinder: 3, Renata: 1. Baixe aqui e subtraia a sua barreira também.


Emojis cedidos por http://emojione.com
Todas as imagens são de BuzzFeed Brasil.
Design feito por Lyla Ribot.


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