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e minhas expectativas de glamour foram superadas

"Se cair no palco, já abre um espacate. É o que eu sempre digo." Esta foi uma das primeiras coisas que Kalil falou quando nos conhecemos. Uma frase que mostra não só resiliência mas também a capacidade das drags de manter a pose. Seu rosto estava sério mas manteve o sorriso no olhar. Um sorriso de quem sobreviveu a muita coisa e certamente sobreviveria, com autenticidade e dignidade, às dificuldades ao longo de sua trajetória.

Seja como Kalil ou como Divina.

Divina Raio-Laser, apresentadora multifacetada, cantora, psicóloga motivacional, latifundiária, doadora de órgãos e, além disso, fina e elegante, passou por três grandes fases na vida dela: todas responsáveis por sua maravilhosa peculiaridade. Fez aula de stiletto e twerking, se acostumou com o salto alto, aprendeu a se maquiar com tutoriais do YouTube, lançou o seu próprio programa na plataforma e, de quebra, quando descobriu sobre uma hérnia no estômago, informou que não abriria mão do salto de forma alguma. Ainda bem que, por ordens médicas, ela não precisaria fazer isso.

Mas, antes da Divina, existia o mundo das drag queens. Como mulher, sempre achei tudo muito fascinante e cativante mas, por mais que parecesse envolver um trabalho árduo por trás, não imaginava a extensão daquilo. Kalil e Divina abriram meus olhos através de uma experiência transformadora (literalmente!) e empática em tantos e tantos níveis.

"Quando você se torna uma reprodução da sua própria imaginação, é a coisa mais poderosa que você pode fazer na vida." Estas palavras da maior inspiração drag, RuPaul, ajudam a começar a ter uma noção do que realmente significa ser uma drag queen. É mais do que uma simples mudança estética: é um personagem que você molda de dentro para fora e que acaba inspirando a sua vida de fora para dentro.

Divina nasceu da imaginação de Kalil há 10 anos como uma personagem de uma peça de teatro. Ela foi inspirada em duas grandes mulheres: sua mãe, que é artista plástica, e sua irmã, que sempre conseguiu encarar a vida com positividade, e foi evoluindo e mudando com o passar do tempo.

"Quando você se torna uma reprodução da sua própria imaginação, é a coisa mais poderosa que você pode fazer na vida."

O próprio universo drag foi algo que se transformou, em conjunto, ao longo dos anos. Existem registros de drag queens (e drag kings também) desde o início do século XIX onde a roupa parecia ser o foco da transformação. Naquela época era perfeitamente aceitável (e até popular) se transformar em drag queen para fins teatrais, mas a partir do momento em que aquela personagem era levada às ruas, os policiais inventavam motivos para prendê-la. O mais comum sendo prostituição.

Apesar da própria Divina ainda ter que ouvir insultos como "aberração" quando chega à Bienal do São Paulo Fashion Week, ela fala com absoluta certeza que existe sim um mundo das drags divididos em a.RP e d.RP: Antes de RuPaul e Depois de RuPaul. Esta figura emblemática surgiu na década de 80 e iniciou seu programa em 2009. Não por coincidência, o número de drags aumentou muito. Ru havia transformado "drag" em algo humanizado. Mas — mais do que isso — Ru fez com que vários sonhos de se tornar drag fossem recebidos, incentivados e, principalmente, acolhidos. As pessoas teriam SIM espaço no mundo para libertar suas imaginações e transformá-las em arte para o mundo.

Depois de ouvir tanta coisa interessante a curiosidade estava saltando pelas minhas veias. O que esta transformação significaria para mim? Sim sou mulher cisgênera. Sim sou hétero. Sim acordo de manhã e passo um pouco de rímel e isso é maquiagem para mim. Mas se assumir um personagem é buscar dentro de mim algo que precisa vir à tona, o que será que eu mostraria para o mundo a partir daquele momento? E foi assim: com as pernas não depiladas e abraçando o conceito de lady drag, que caminhei com o então Kalil para a frente do espelho.



Começamos com o que talvez seja a parte mais importante na transformação para uma drag queen: a pele. Ela precisa estar impecável como uma tela em branco para que a arte dos olhos e da boca pareçam saltar sobre ela.

Poros? Inexistentes.

A primeira lição que aprendi — e que me acompanhará até o fim dos tempos — foi como passar o hidratante corretamente. Sim, isso faz diferença. É preciso sempre passar o produto em movimentos para cima.

"Você ainda tem que olhar para o espelho e encarar diretamente o alienzinho que você se tornou."

"Você não quer que nada caia, né?", Kalil exclamou. Parece óbvio mas mudou o meu mundo.

Depois de um trabalho intenso de base (não pode esquecer do pescoço, hein) chegou o momento mais problemático do dia: o de esconder a sobrancelha. Eu tive uma pequena vantagem sobre o Kalil já que há anos brinco que minha "sobrancelha" é composta de três fios e nunca tive que tirar um pêlo na vida para domá-la. Com esse diferencial, ele até adiantou que talvez eu tivesse nascido para ser drag já que este é um processo longo e emocionalmente doloroso. Além das quatro principais camadas de produto (cola, base, cola bastão, mais base, pó, pó, pó) e constantes penteadas, você ainda tem que olhar para o espelho e encarar diretamente o alienzinho que você se tornou naquele momento.

De quebra, foi neste momento que incluímos a toquinha para prender os meus cabelos rebeldes: Alienzinho meets Tio Chico da Família Addams. É como sempre falam: Todo mundo quer ir para o céu mas ninguém quer morrer. Ver a minha pouquíssima sobrancelha virar inexistente foi uma pequena morte dentro de mim. Mas algo me dizia que valeria a pena.

Acabamos fazendo todo o countouring e usando pó para definir os triângulos do rosto (onde era importante iluminar) e — PASMEM — não é que o nariz afina MUITO mesmo?

Outro ponto importante é que não importa o que você faça no rosto — base, contouring, iluminação — você sempre vai precisar estar retocando (constantemente) com pó. E dá-lhe pó. Acho que eu nunca tinha tido tanto contato com tanto pó na minha vida. Minha calça preta que o diga.

"É como sempre falam: Todo mundo quer ir para o céu mas ninguém quer morrer."

Este momento tão importante da maquiagem estava praticamente completo e, junto a ele, aprendi também sobre o momento fundamental para o nascimento da Divina: aquele em que Kalil interpretou esta personagem em uma peça de teatro chamada "Babel Genet" no ano de 2008. Ela começou como uma travesti prostituta que estava bem ferrada na vida e, mesmo assim, continuava lutando pelo seu espaço e felicidade. Continuava plena. Kalil pegou aquela Divina embaixo do braço e a transformou em Divina Raio-Laser que, de ferrada, não tinha absolutamente nada.


Só queria constar que mesmo depois de 10 anos fazendo esta super produção quase semanalmente, a Divina também abre a boca quando passa maquiagem no olho, viu? Bem gente como a gente. E em 10 anos, ela também nunca descobriu a ciência por trás disso.

A partir desse momento em que migramos para os olhos, a escolha de cores e a combinação delas é algo essencial. Como a mais nova filha da Divina Raio-Laser, ou Divinette, se preferir, encarei os tons de roxo para a sombra e a sobrancelha que desenharíamos. Mas ao pegar o palette de sombras da Natura vi um rosa BEM rosa que complementaria o meu côncavo de forma brilhante.

Divina começava, eu imitava. E assim fomos até eu ter um olhar expressivo e cheio de vida. Ela enfatizou a importância de fazer o "blend" dos tons para não ficar aquela coisa estampada no rosto de forma estática.

Migramos para a sobrancelha (ALELUIA!) e Divina revelou que tinha moldes que você podia baixar da internet que facilitam na hora de desenhar aquelas linhas super mega blaster arqueadas. Olha, mesmo de toquinha eu já tava sentindo um certo poder exalar do meu interior.

Mas uma grande dúvida me tomava: quem era aquela pessoa que começava a surgir?

Encerramos os olhos com a máscara, o lápis (abaixo da linha d'água para abrir o olho) e delineador — depois de intercalar com uns retoques de pó, claro — que obviamente precisava fazer um delineado 100% dramático.

Mesmo usando a tática da fita crepe para fazer uma linha reta (inclusive, a melhor ideia para deixar os dois lados iguais é usar uma só fita crepe da ponta da sobrancelha, passando por baixo do nariz, e subindo até a ponta da outra sobrancelha, fazendo um grande V no rosto), cometemos alguns borrões que, com a pele já preparada, é um grande risco.

"O importante é fazer do erro uma coisa boa. Aqui, a gente trabalha em cima dele e não deixa prejudicar a obra como um todo. Olha só." Conselhos divinos, execução divina. Onde estava o borrão mesmo?

"Inclusive sempre falo pras Divinettes: Se cair no palco, já abre um espacate."

E assim chegamos ao segundo momento crítico da Divina: quando ela colocou um vestido de grife de R$12.000 e teve certeza de quem era naquele momento — uma senhora rica e elegante. E se ela se sentia daquele jeito, nenhuma brusinha na promoção ia convencer ela do contrário.


Aqui encerramos a maquiagem: sempre com mais pó, blend do rosto inteiro, blush, batom e cílios postiços. Para Divina, o batom é o estopim da transformação. Ela contornou os lábios (dica para aumentar o beiço e ficar bem blogueira) e escolheu um vermelho gritante para preencher. Eu deixei os meus lábios ainda maiores com a mesma tática mas optei pelo roxo, que achei que nunca usaria na vida.

Mas mesmo com uma boca tão lacradora daquelas, para mim o estopim foi em outro momento: depois da aplicação dos cílios postiços.

Tenho que admitir que quando vi o tamanho daquilo fiquei bem intimidada, já que meus olhos são sensíveis e aquilo mais parecia um espanador. Mas Divina repousou eles nos meus olhos com tamanha delicadeza que, uns três minutos depois, abri (e enxerguei!) com a maior facilidade. Claro que a gente releva aquela pequena nuvenzinha preta que ocupa um terço do campo de visão.

Quando olhei para o espelho sabia que Paula tinha ficado para trás. O sentimento que começava a dominar o meu corpo era de êxtase total.

E foi assim, com olhos levemente pesados e uma encarada arrebatadora, que descobri o último momento crítico da vida da Divina. Aquele toque final que de "toque" não tem absolutamente nada.

O momento em que a Divina se tornou um ícone, uma inspiração, uma heroína, e fundou a CoverGirl: competição entre drags com direito a jurado, lip synch, prêmio, empoderamento e aprendizado. Naquele momento, Divina deixou de ser uma senhora fina e elegante de 40 anos e se tornou mãe: acolheu as suas Divinettes que, diferente dela, tinham histórias tristes para contar sobre como foram expulsas de casa a partir do momento em que decidiram ir atrás deste incrível sonho.

"É necessário combater o preconceito com informação."

Enquanto ela me contava sobre como foi abordada no centro de São Paulo por um senhorzinho que perguntou "quanto ela cobrava", eu pensava em todas as expressões artísticas que foram mal-interpretadas. Lembrei das Gueixas que também passavam por um processo similar de transformação para, no fim, exibirem diferentes personagens e divulgarem seus incríveis talentos e, muito frequentemente, eram incompreendidas pelos outros.

Sobre este tipo de abordagem, sabe o que a Divina pensa?

"É necessário combater o preconceito com informação." E explicou ao senhorzinho como seu trabalho realmente funcionava.

Pisa menos, Divina!


Com a maquiagem pronta, começamos a escolher o nosso look. Já que sou filha da Divina Raio-Laser eu tinha que transmitir elegância e riqueza no meu estilo também. Escolhi um tomara-que-caia curtinho preto e completei com um casaco de faux fur que me apaixonei desde o início.

Mas a Paula? A Paula nunca usou um casaco daqueles. Quem diria.

Subi num salto 15cm — coisa que não fazia há muitos meses — e tive que treinar o equilíbrio por alguns minutinhos. Enquanto isso Divina caprichava nas camadas de meia calça para incluir suas curvas femininas. Felizmente as minhas já estavam lá: 102cm de curvas no hemisfério sul do meu corpo.

"Chegou o momento da coroação."

Posso dizer que o cílio foi um momento dramático da minha transformação mas não chegou nem perto do momento em que minha mãe Divina me coroou com a peruca roxa e pude me olhar no espelho totalmente "completa".

Uma imagem vale mais do que mil palavras.

Paula? Que Paula? Ali nasceu a Divina do Dendê.

O nome é muito importante na transformação de uma drag. O meu foi inspirado em quem me guiou nesta transformação (Divinette com orgulho!) e também nas minhas origens baianas. Sim, a minha personagem tinha o pouquinho de mim que importava: retada, empoderada, apimentada, cheia de atitude. Em gírias baianas, eu não estava lá para "comer reggae de ninguém". E olha, o sabor do dendê é um que não passa tão fácil.

O meu não passaria também, eu sabia.



Óbvio que o desfecho perfeito seria uma lip sync battle, inspirada nas batalhas de rap dos guetos americanos. A partir de um filme que retrata a cultura LGBT underground de Nova York, que nos anos 80 era composta por jovens que expressavam a sua homossexualidade numa época de pobreza e muito preconceito, foram tirados os famosos bordões atualmente presentes na cultura drag. O famoso "shading" que ocorre nas competições vem do termo "reading" que é nada menos do que a arte do insulto: uma provocação verbal sutil em que você encontra um defeito no outro e exagera com o intuito de fazer graça.

"Amiga, tem uma sujeira no seu dente. Ah, desculpa, é só ele podre, mesmo."

Entre nós não rolou o shading, mas a batalha não podia ficar de fora. Divina Raio-Laser escolheu Believe, a música que disputaria com Ru se seu sonho de conhecê-la se realizasse. Eu escolhi algo que estava fincado no desenvolvimento de Paula, mas que ganhou muito mais atitude sob o domínio de Divina do Dendê: Spice Girls.

Naquele momento migrei de pessoa tímida, retraída e encolhida naquele fundo branco do estúdio para mulher cheia de atitude. Descobri um requebrado que nunca me pertenceu, desfilei como se fosse a Gisele (SEM tropeçar no salto 15cm) e encarei a câmera como se fosse um hambúrguer suculento. Aquela câmera me pertencia, aquele momento era MEU. Me permiti ser confiante, ter o mundo nas mãos, fazer carão e me sentir linda sem ser julgada.

"Um pouco de Kalil inspirou Divina sim, mas Divina inspira Kalil todo dia."

Pode soar um pouco dramático, mas parece que o poder veio tão grande e tão forte de dentro de mim para fora que, enquanto dançava, eu praticamente perdia todas as peças do meu look. Peruca? Quase voou longe. Vestido? Escorregava sem parar. Acho que nem na minha imaginação eu teria conseguido me sentir tão maravilhosa assim.

Agradeci à ambos Kalil e Divina por me guiarem até uma realidade que encontrei dificuldade em me desvencilhar. Uma realidade que, depois daquele momento, vai inspirar a minha rotina daqui para frente. Assim como reconheço que um pouco de Kalil inspirou Divina sim, mas que Divina inspira Kalil todo dia.

E para você que leu até aqui, reforço as palavras que ele me disse no começo do nosso dia juntos: "Acho que todo mundo tinha que fazer drag uma vez na vida. É você se colocar no lugar do outro e aprender com isso." Além de descobrir bastante sobre si mesmo no processo também.

Terminamos com um: "Se juntas já é Divina, imagina juntas."

Que parceria, que momento, que banho de empatia. E claro: quanto glamour.

Fecho esta reflexão com um pensamento da drag onipresente na vida de todas as outras drags:

"Todos nós viemos ao mundo pelados. Todo o resto é drag."

Fotos: Daniel Ávila

Canais Divina Raio-Laser:

instagram.com/eusoudivina

https://www.youtube.com/divinaraiolaser

Maquiagem: Natura

Design: Laura Hoerner

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