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Por Que Qualquer Coisa Contra O Veganismo Viraliza?

O motivo pelo qual a entrevista com o ex diretor do Zoológico argentino viralizou

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O veganismo se tornou viral. E o anti-veganismo também.

Uma entrevista a um ecólogo argentino correu o mundo por supostamente provar que o veganismo é pior para o ambiente e os animais. O texto "Os vegetarianos acreditam que não matam animais e isso não é verdade" expõe a opinião de Claudio Bertonatti , autor do artigo "A Confusão do Veganismo" e argumenta que os vegans também impactam e por isso não faz sentido parar de consumir carne. Vai além, diz que a agricultura causa mais destruição que a pecuária extensiva.

Respondi as alegações no meu artigo "A desconfusão do veganismo ,o pós-verdade e o efeito viralizador do anti-veganismo". Uma coisa, porém, me deixou bastante preocupado: os argumentos do senhor Bertonatti são completamente furados. Aliás, argumento é uma palavra forte: ali só tem opiniões, nenhum dado verificável, nenhuma fonte, uma porção de falácias e de brinde uma carteirada de cientista. Como é que um negócio desses foi tão compartilhado ? Muita gente me pediu para responder e os furos no texto não são difíceis de pegar. Algo está bem errado.

Quem quiser ver a refutação completa pode ver meu artigo original. Nesse aqui vou só responder os pontos principais e depois passo para a análise de um fenômeno mais amplo: por qual motivo as coisas sobre e principalmente contra o veganismo viralizam com tanta facilidade?

As alegações

O texto do senhor Bertonatti erra em não apresentar dados que comprovem as conclusões que tem além de incorrer em falhas graves de raciocínio. Os pontos que vou responder nesse artigo são os seguintes:

# Veganos pensam que não matam animais

# Veganos matam mais animais que não veganos

# Veganos só se importam com animais domésticos

# Veganos são fundamentalistas irracionais e opor-se a eles é ser científico

# Veganismo implica em redução da biodiversidade

Vamos às respostas :)

1.Veganos pensam que não matam animais

O título do texto já começa com uma falácia do espantalho, que é quando se ignora a posição do adversário em um debate e apresenta uma versão distorcida que passa a refutá-la. É como se um boxeador odiasse seu rival e em vez de derrotá-lo fizesse um espantalho parecido com ele, destroçasse o espantalho na porrada e saísse orgulhoso cantando vitória.

De fato, veganos não pensam que não causam impacto em vidas animais. Isso é simplesmente impossível ( a não ser que você flutue, se comunique por telecinese e viva de luz) . Veganos defendem que devemos fazer o melhor possível para evitar a morte de seres sencientes. Isso é bastante diferente de supor que nada cause impacto. Se, por um lado, é verdadeiro dizer que toda atividade causa impacto , por outro , é falso reduzi-las todas e tratá-las como se os impactos se equivalessem entre si.

O autor iguala diferentes graus de impacto tanto do ponto de vista do efeito ( o impacto em si) quanto do ponto de vista moral ( quando analisamos as motivações). Incorre, portanto, na falácia do Continuum. Ao reduzir ambas as posições ( de ser vegano e não ser) a "causam impacto" o autor ignora quanto cada posição causa de impacto, sugere e efetivamente diz que veganos causam mais impacto.

Há ainda outro problema. Exigir que os veganos não causem qualquer impacto para que o veganismo seja válido como ferramenta para reduzir o sofrimento e o impacto nos ambientes naturais é incorrer em outra falácia , a Exigência da Perfeição. O vegano Leandro Hundertmarck deu um exemplo bastante didático no erro desse raciocínio:

(Imagine) 20 pessoas se afogando em alto mar e há um bote salva-vidas com capacidade para apenas 12. Segundo a falácia, você não poderia salvar as 12 porque não tem como salvar as 20. Seriam 20 mortos.
Segundo o veganismo, posicionamento ético em que se faz o máximo possível e praticável, você deveria tentar salvar o máximo possível de pessoas, podendo reduzir o número de mortos para 8.

Segundo o senhor Bertonatti é a mesma coisa deixar que os 20 morram ou tentar salvar o máximo possível e poupar 12 vidas.

2. Veganos matam mais animais que não veganos

Apresento aqui alguns critérios , fontes e dados que desmentem o senhor Bertonatti: as mortes diretas e indiretas de animais, a pegada de carbono, a água virtual e a parcela da agricultura destinada à pecuária.

a) mortes diretas e indiretas

Em um artigo de 2003 no Journal of Agricultural and Environmental Ethics Steven Davis argumentou que consumir herbívoros alimentados em pasto ( gado) é melhor do que se consumíssemos vegetais. O autor do texto usa esse conceito talvez sem saber não apresentando a fonte e apresento aqui aos leitores no original ( ver aqui). Gaverick Matheny identificou um erro crucial no cálculo de Davis : ele assume que a igual quantidade de terra produzirá igual quantidade de comida no pasto e na agricultura e apresentou uma resposta no Journal of Social Philosophy ( ver aqui). Na verdade, a mesma quantidade de terra produzirá muito mais comida pela agricultura do que se fosse pasto para alimentar rebanho e se corrigirmos o erro de Davis no cálculo o resultado advoga para a tese oposta: o veganismo reduz muito o número de animais mortos tanto diretamente quanto indiretamente.

Andy Lamey apresenta outras falhas no argumento de Davis (ver aqui) e toda a discussão pode ser acompanhada neste artigo do Animal Visuals que tem um ótimo gráfico interativo ( ver aqui ). Colocando na ponta do lápis o argumento de que o não-veganismo seria menos danoso aos animais e ao ambiente vira piada.

Numero de animais mortos por milhão de calorias em oito categorias de alimentos

Animal Visuals.org / Via animalvisuals.org

Uma dieta baseada em plantas implica em menos animais mortos tanto diretamente quanto indiretamente

O gráfico apresenta oito categorias de comida ( frango, ovos, carne de boi, porco, leite, vegetais, frutas e grãos) e correspondente quantidade de animais mortos para produzir um milhão de calorias desses alimentos. Ele divide as mortes em dois grupos, as diretas, que acontecem quando o próprio animal morre para produzir o produto ( o abate) , e as indiretas, que é quando a produção do alimento depende de circunstâncias que causam a morte de animais. O gráfico pode ser detalhado para apresentar apenas as mortes indiretas e fica assim:

Numero de animais mortos indiretamente(agricultura) em oito categorias de comida

Animal Visuals.org / Via animalvisuals.org

Ainda que retiremos os animais diretamente mortos em abate, indiretamente se mata muito mais animais quando consumimos derivados animais do que quando consumimos hortaliças, frutas e grãos

Enquanto a produção de grãos mata em média 1.65 animais indiretamente por milhão de caloria, a produção de carne de boi mata em média 27.4 animais e a de leite 4.74 animais indiretos. Cabe ressaltar, ainda, que a dieta dos vegetarianos se baseia em grãos, não em vegetais, já que os vegetais oferecem poucas calorias relativas( e é por isso que são mais pesados em relação às mortes indiretas) enquanto os grãos oferecem muitas e são a fonte de proteína adequada para comparar com a carne e derivados animais.

b) Pegada de carbono

Mostrar uma evidência para uma hipótese pode não ser suficiente para convencer as pessoas mais céticas e por isso é de bom tom mostrar que muitos critérios confluem para o mesmo resultado. A pegada de carbono é um bom critério para se medir o impacto por duas razões. A primeira é porque o gás carbônico em si causa morte indireta dos animais, já que produz acidificação dos oceanos, chuva ácida, derretimento de calotas polares e o desequilíbrio climático. A segunda é porque quando temos uma economia baseada em petróleo e em combustíveis fósseis que necessariamente liberam gás carbônico, o CO2 acaba sendo um sinal da intensificação das atividades humanas que necessariamente geram impacto. Quando um trator destrói uma floresta ele libera gás carbônico ao oxidar o combustível e por destruir sequestradores de gás na atmosfera, as plantas, o que também acaba matando animais. Quando um boi respira ele libera gás carbônico e por aí vai.

O Projeto Carbon Footprint calculou a pegada de carbono de várias atividades e estudos como o Climate Change and Food Systems ( ver aqui) corroboram para o mesmo resultado. Veja o gráfico comparativo da pegada de carbono entre diferentes hábitos alimentares:

Pegada de carbono de cinco padrões alimentares diferentes

Shrink That Footprint / Via carbonfootprint.com

Cada padrão alimentar está considerando o que efetivamente consome e o quanto isso impacta na pegada de carbono

O estudo comparou veganos, ovo-lacto vegetarianos, abstêmios da carne, consumidores médios de carne e amantes de carne. O resultado é que a pegada de carbono de alguém que ama carne é mais que o dobro que a de um vegano. Uma explicação mais completa do estudo pode ser vista na página do Shrink That Footprint ( ver aqui).

c)Pegada Hídrica

A produção de pesticidas consome água, pecuária consome água, agricultura consome água : qualquer atividade humana consome água. A água é essencial para a vida geral na Terra e o consumo de água implica, indiretamente, em morte de animais. Seja pelo impacto direto causado pela destruição dos ecossistemas, seja como indicativo geral da atividade humana que, novamente, mata animais.

O projeto Water Footprint calculou a pegada hídrica de vários alimentos e os resultados corroboram com os anteriores: alimentos vegetais impactam menos que os de origem animal.

d) Parcela da agricultura destinada a Pecuária

Já mostrei ser falso que a criação de animais em pasto impacte menos do que pela agricultura ( já que a produtividade na agricultura é maior do que no pasto). Além disso, até 50% das terras do planeta são usadas ou foram degradadas pelo uso da criação de animais. Ao menos 30% da superfície terrestre do planeta é ocupada pela pecuária e até 70% da superfície agrícola pertence à criação de animais. O magnífico relatório da FAO (Food And Agriculture Organization of the United Nations) Livestock's Long Shadow detalha a "herança" que a pecuária deixou no mundo. O site ONCA, ainda , reuniu uma série de fontes do gênero e recomendo aos leitores ( ver aqui).

Os dados do impacto da pecuária ( seja extensiva ou intensiva) decorrem de um princípio simples da biologia: a pirâmide energética ou de biomassa. É a ideia de que é simplesmente mais caro consumir consumidores primários que produtores.

3. Veganos só se importam com animais domésticos

Como demonstrado, como o impacto do não veganismo é maior que o do veganismo simplesmente causamos menos mortes de animais selvagens por reduzir a pressão por destruição dos ecossistemas. Além disso, há santuários de animais não-domésticos mantidos e administrados por veganos como o Rancho dos Gnomos, eu mesmo já participei de operações de apreensão de tráfico de animais silvestres , produzi artigos científicos envolvendo a questão dos animais selvagens ( aqui e aqui) e temos trabalhos de veganos brilhantes que se ocupam dessa questão como o Luciano Cunha e a Lara André . Recomendo ainda o site Perspectiva Animal e o Ética Animal que tratam muito bem do tema. A descrição do Ética Animal, aliás, já começa com o alerta da importância dos animais na natureza:

A Ética Animal tem o prazer de anunciar uma nova seção de seu site, dedicada à situação dos animais na natureza. Este é um tema muito importante que afeta um número enorme de animais, mas tem sido pouco abordado e recebido pouca atenção em pesquisas até recentemente. Felizmente, contudo, isso está mudando, conforme mais pessoas estão percebendo que os animais na natureza precisam de nossa ajuda da mesma forma que aqueles que são explorados por humanos.

A crítica externa seria muito bem vinda caso o senhor Bertonatti trouxesse algo que fosse verdadeiro e novo. Não é o caso, porém: tanto a prática vegana por si só reduz o sofrimento de animais selvagens no geral quanto a crítica interna já foi feita de forma a aumentar a eficiência da proteção aos animais.

4. Veganos são fundamentalistas irracionais e opor-se a eles é ser científico

O autor opõe a imagem do cientista à do fundamentalista. Contrasta ambos os arquétipos e propõe que a posição alinhada com o veganismo corresponde à irracionalidade enquanto a postura não vegana corresponde ao racional. O senhor Bertonatti poderia ter apresentado dados e não o fez, poderia ter apresentado argumentos que não incorressem em falácias e não o fez, poderia ter considerado hipóteses alternativas e não o fez. Eu, por outro lado, destrinchei falácia por falácia, apresentei dados, estudos, fontes verificáveis. Quem é o cientista aqui?

A postura lamentável mistura um Argumento contra a Pessoa , que tenta invalidar um argumento por características de quem o emite, com o falso dilema, como se ser "cientista E antivegano" e "vegano E fundamentalista" fossem as únicas opções possíveis e minimamente representativas.

É de bom tom que discutamos argumentos então por favor, senhor Bertonatti, apresente-os. As caricaturas a meu respeito e ao seu são irrelevantes para a validade das nossas teses : cientistas de verdade discutem evidências, hipóteses e lógica. Deixemos o name-calling para as crianças.

5. Veganismo implica em redução da biodiversidade

Já foi demonstrado tanto que a pecuária extensiva é menos produtiva do que a agricultura e que a maior parte da pressão ambiental sobre os ecossistemas se dá para abastecer a criação de animais. Há, ainda, estudos específicos sobre a redução da biodiversidade na pecuária e sobre o impacto geral comparando produção animal e vegetal . Os resultados? A pecuária é um desastre. Resumindo: não procede.

O veganismo está crescendo

O vencedor do prêmio Nobel de Economia de 2012, Alvin Roth, acredita que em um futuro próximo o veganismo será dominante. O professor de economia, teoria dos jogos e design de mercados de Harvard estudou o conceito de repugnância como uma força restritora de mercados e enxerga que o mesmo que aconteceu com a proibição da carne de cavalo na Califórnia acontecerá com os outros derivados animais.

Parece um pouco exagerado mas começamos a ter dimensão do que está acontecendo no o veganismo quando várias fontes confluem para o mesmo resultado. Isso vai desde o crescimento incomum de empresas veganas em plena crise atingindo a marca de 40% ao ano no Brasil, passando pelo crescimento de 633% na oferta de alimentos veganos na Alemanha em cinco anos segundo a Mintel, líder em análise de mercado, até o aumento de 350% no número de veganos na Grã-Bretanha em uma década, que só no ano passado aumentou em 1.500% as vendas de produtos veganos. Números que não podem ser ignorados.

Os pecuaristas, apesar do subsídios, começam a sofrer crises por várias razões, sobretudo econômicas, a exemplo da quase falência da indústria leiteira na Nova Zelândia e da pecuária de corte em Portugal que reflete uma queda de 30% no consumo de carne.

A viralização da oposição ao veganismo se explica, antes, pelo crescimento do próprio veganismo. Saca só esse crescimento:

veganismo versus Hitler

O termo "Hitler" é um bom contraste de popularidade já que toda discussão na internet cedo ou tarde cai em uma comparação com Hitler ( sem falar nos trabalhos escolares e afins). Um termo ultrapassar Hitler é um feito e tanto. E o veganismo passou de longe.

Por que coisas viralizam?

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A epidemiologia da informação

Por que é que vegan é viral?

Você deve conhecer a notícia da vegana que morreu tentando escalar o Everest. Não obstante o Everest seja uma máquina de moer humanos, a culpa foi atribuída ao veganismo e as pessoas compartilharam a notícia defendendo essa ideia. Estranhamente, um número menor de pessoas ficou sabendo que pouco depois um vegano escalou com sucesso e que um monte de não veganos morreram tentando.

Também deve ter ouvido que tentaram proibir o veganismo para crianças na Itália mas provavelmente não sabe que muitas sociedades de nutrição pelo mundo recomendam uma dieta vegana como segura para todas as idades, entre elas a Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos ( ver também aqui), a Associação Dietética Britânica ( ver também aqui), a Kaiser Permanente, uma das maiores empresas de medicina dos EUA, o Ministério da Saúde do Brasil, a Unimed, a Harvard School of Public Health e muitas outras.

Mesmo com abundância de informação o conteúdo contra o veganismo se propaga muito fácil mesmo que contem mentiras. Esses dois que respondi reúnem os elementos da surpresa , já que sabemos que o veganismo é bom para o ambiente; raiva, já que opõe pessoas que são julgadas ( os não veganos) com os julgadores, que estariam, ora, errados; o medo, já que essa coisa chamada veganismo pode ser ruim para o ambiente e a alegria, já que podemos comer nossos hambúrgueres com a consciência tranquila . Tem dois artigos muito bons que explicam esses fatores da viralização , o primeiro mais científico e o segundo mais voltado para o pessoal de marketing digital. Basicamente: os artigos contra o veganismo reúnem os sentimentos que facilitam o compartilhamento. É por isso que se tornaram virais.

Outro conteúdo que ficou viral é o de uma suposta ex-vegetariana que se derrete de alegria ao comer carne. Esse vídeo reúne os mesmos elementos e tem o mesmo efeito. O Mic The Vegan fez um ótimo vídeo sobre esse "movimento de reação" ao veganismo. Basicamente: qualquer coisa contra o veganismo tem grandes chances de viralizar simplesmente porque o veganismo se tornou uma pauta importante demais para ser ignorada e os ataques se valem das nossas emoções para se espalharem.

Independente de você ser ou não vegano é bom saber como os mecanismos de disseminação da informação se valem das nossas emoções para promover uma ideologia ( no caso , a de que devemos consumir animais). Caso acabe não aderindo ao veganismo é de bom tom ter algum cuidado para não acabar propagando mentiras por aí.

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