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Como boatos no WhatsApp se tornaram uma crise na Índia

A desinformação e a propaganda política na maior democracia do mundo passam frequentemente despercebidas — até terem um impacto brutal no mundo real.

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Às 8 horas da noite do dia 8 de novembro, o primeiro-ministro da Índia Narendra Modi baniu inesperadamente 86% da moeda corrente do país de circulação. O objetivo disso era acabar com o “dinheiro negro” — um termo usado na Índia para definir o dinheiro que é guardado fora do sistema bancário para sonegar impostos. As notas antigas de 500 e 1.000 rúpias não teriam mais validade. No lugar delas, o governo emitiria novas cédulas remodeladas de 2.000 rúpias.

Horas após a bomba do primeiro-ministro, os rumores começaram a se espalhar a todo vapor pelo WhatsApp, o aplicativo de mensagens instantâneas pertencente ao Facebook e utilizado por mais de 160 milhões de indianos: as novas cédulas incluiriam um chip GPS embutido que permitiria ao governo rastrear as pessoas que acumulam as notas.

Rapidamente um vídeo com a finalidade de mostrar uma dessas cédulas com GPS sendo rastreada pelo Google Maps se tornou viral no WhatsApp e em seguida no Facebook. E menos de 24 horas após o começo do boato, a Zee News, um canal televisivo de notícias em hindi, exibiu uma matéria de 90 segundos sobre a cédula tecnológica, fazendo com que o banco central da Índia finalmente desmentisse o assunto.

Os Estados Unidos vivem atualmente uma crise de notícias falsas – matérias jornalísticas falsas disfarçadas para parecerem reais com intuito de confundir as pessoas, influenciar a opinião pública e/ou simplesmente utilizar seu enorme alcance para colher frutos com publicidade. Essas operações são sofisticadas, orientada por dados e altamente direcionadas. Mas em países como a Índia, onde a penetração da internet e o nível de alfabetização ainda estão bem distantes dos encontrados nos EUA, a desinformação tende a ter uma qualidade mais local. O Twitter é um solo fértil para todos os tipos de propagação de boatos , mas com apenas 30 milhões de usuários no país, o impacto é limitado.

O vetor principal de desinformação na Índia é o WhatsApp. O mensageiro instantâneo é rápido, gratuito e está presente em quase todos os 300 milhões de smartphones da Índia. E além disso possui criptografia de ponta a ponta, o que torna quase impossível rastrear o que circula através do aplicativo. Suas ramificações no mundo real, entretanto, podem ser brutais.

Em novembro, rumores no WhatsApp sobre uma suposta escassez de sal despertou pânico em pelo menos quatro estados indianos e causou debandadas a supermercados, com as pessoas se apressando para estocar o produto. O governo acabou desmentido os boatos – mas não antes da morte de uma mulher.

Uma Modalidade Diferente de Notícias Falsas

O problema da desinformação na Índia é algo que existe antes da internet. No começo dos anos 90, agitadores no norte da Índia tentaram incitar tensão em comunidades hindus e muçulmanas produzindo gravações falsas em fitas com tiros, gritos e cânticos de "Allah-ho-Akbar", reproduzindo-as nos falantes dos carros em volume máximo na calada da noite para incitar a violência nas comunidades.

E assim que a internet e as mídias sociais chegaram ao país, os boatos ganharam vida própria. Em 2008, a Pepsi foi forçada a desmentir publicamente um vídeo que alegava que sua filial indiana produzia Kurkure — o Cheetos da Índia — feito de plástico. Alguns anos depois, os fabricantes do Frooti, uma famosa bebida de manga, passaram a oferecer excursões guiadas às suas instalações após um boato sobre o produto conter sangue HIV positivo ter se espalhado. Em 2015, o comissário de polícia de Mumbai criou uma linha direta para pais preocupados e solicitou às pessoas que ignorassem os boatos no WhatsApp, que alegavam que gangues de mulheres estavam sequestrando crianças em idade escolar.

"Eu acho que é injusto traçar um paralelo entre o tipo de indústria organizada de notícias falsas que nós vimos na manipulação das eleições americanas e o que acontece na Índia", disse o estrategista de mídias sociais de um proeminente partido político em Deli que não quis ser identificado. "Nosso problema é o WhatsApp, porque ele é rápido, simples e muito mais familiar que o Facebook. Há mais incentivos para que os autores de desinformações na Índia espalhem os boatos no WhatsApp em vez do Facebook, porque as chances de ter um impacto no mundo real através do WhatsApp são maiores."

O que também serve de desincentivo é a pequena receita média que cada usuário indiano gera para o Facebook, apesar de a Índia ser o maior mercado do Facebook fora dos Estados Unidos. Segundo os próprios números da empresa, cada usuário da região da Ásia-Pacífico gera menos de 8 dólares de receita anualmente, contra 62 dólares de um usuário dos EUA. Isso torna a Índia um alvo menos atrativo para pessoas como os adolescentes na Macedônia, por exemplo, que receberam milhares de dólares em receitas de publicidade vendendo histórias falsas favoráveis a Donald Trump no Facebook para milhões de norte-americanos.

Uma Onda Nacionalista.

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Em 2014, Narendra Modi, um político de direita conhecido por seus laços estreitos com o grupo supremacista hindu RSS, ganhou por grande margem de votos a eleição para primeiro-ministro da Índia Assim como Trump, Modi é uma figura polarizadora – e sua ascensão ao poder deu origem a milhares de boatos e campanhas organizadas de desinformação nas mídias sociais.

“Tudo mudou” , disse o autor Rupa Gulab, que é um crítico declarado de Modi. "Os boatos que se espalharam alguns anos atrás eram apenas bobagens, mas com Modi e seus fanáticos houve um aumento acentuado na quantidade de mensagens que você recebe no WhatsApp e que são apenas propaganda do governo."

A intensificação começou ainda quando Modi estava em campanha em 2014. Em janeiro daquele ano, uma citação sobre Modi atribuída a Julian Assange se tornou viral no Twitter, WhatsApp e Facebook, turbinada por compartilhamentos de membros do partido de Modi, o Partido do Povo Indiano (BJP).

Narendra Modi for Prime Minister!! "@PreetamV: "

O WikiLeaks negou a citação.

Narenda Modi's #BJP has been pushing this fake #Modi endorsement http://t.co/kyryXQpmht - but #Assange has never said anything about #Modi

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Isso não impediu a onda de encaminhamentos relacionados a Modi no WhatsApp.

Em outubro de 2015, uma foto de Modi varrendo o chão durante um comício do RSS em 1988 —  uma tentativa de destacar a origens humildes do primeiro-ministro  —  explodiu nas redes. Mais tarde ficou claro que a imagem foi modificada com Photoshop.

Descobriu-se que uma foto do primeiro-ministro Modi varrendo o chão durante um comício do RSS em 1988 (à esquerda) foi alterada com Photoshop a partir da imagem original (à direita) em 2015.

No ano passado, o Departamento de Informações de Imprensa da Índia, a agência que controla a comunicação do governo com a mídia, ficou ruborizada após publicar uma imagem editada com photoshop do primeiro-ministro olhando uma cidade inundada no estado atingido pelas enchentes de Tamil Nadu através de sua conta oficial no Twitter. Uma nova hashtag #PhotoshopSarkar — Utilize Photoshop no Governo — foi criada.

.@PIB_India Has now deleted the tweet with the photoshopped pic...

E em agosto o próprio Modi teve que desmentir uma notícia que se espalhou alegando que ele solicitava aos cidadãos que boicotassem fogos de artifícios produzidos na China.

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Few appeals with PM’s ‘signature’ are circulated on social media. Such documents are not authentic.

Mais recentemente, em um tópico que se tornou viral, o usuário do twitter @samjawed65 desconstruiu como um relatório não corroborado pró-governo em uma famosa publicação indiana terminou em uma câmara de ressonância agregada com meia dúzia de outros meios de comunicação reproduzindo-o, até que o Huffington Post finalmente revelou ser uma notícia falsa.

Um livro publicado recentemente detalhou como o BJP criou deliberadamente campanhas abusivas em mídias sociais utilizando tanto o WhatsApp quanto o Twitter para ludibriar indianos importantes e espalhar mentiras.

“É evidente o quão a sério a direita política hindu na Índia usa o espaço online como um campo de batalhas ideológicas”, Rohit Chopra, professor de estudos de mídias na Universidade de Santa Clara que está trabalhando em um livro sobre o nacionalismo hindu e a nova mídia, disse ao BuzzFeed News. "Eles investiram dinheiro nisso, eles têm mecanismos para inundarem plataformas como o Twitter com mensagens seja promovendo seus pontos de vistas ou atacando opiniões contrárias, e eles aparentam empregar um número significativo de pessoas em diferentes posições para gerenciar o espaço."

Krishna Prasad, ex-diretor da revista semanal de notícias indiana Outlook, concorda. Uma vez, lembra-se Prasad, um estrategista de mídias sociais perguntou a ele durante uma reunião com políticos do BJP: “O que você tem para destacar no Twitter hoje?” “Há claramente pessoas nos partidos políticos da Índia comprando hashtags e tentando influenciar tópicos em evidência”, disse ele ao BuzzFeed News.

“Pessoas tentando influenciar tópicos de destaque são consideradas spammers e podem ter suas contas suspensas temporariamente ou permanentemente", um porta-voz do Twitter disse ao BuzzFedd News, e indicou a página do Twitter que destaca as regras para tópicos em destaque.

Mídias Obscuras

Jornais locais divulgaram em novembro que um médico no estado oriental de Bihar morreu de ataque cardíaco após fiscais da receita vasculharem sua casa e apreenderem moeda ilegal – exceto que isso não era verdade. Os boatos se espalharam primeiramente no WhatsApp antes de chegarem à imprensa local, que divulgou a história sem verificar a autenticidade. Por fim o médico teve que convocar uma coletiva de imprensa para declarar que ainda estava vivo e que não houve nenhuma varredura em sua casa.

A Índia é o principal mercado para o WhatsApp no mundo. O mensageiro instantâneo é a plataforma mais popular para envio de mensagens que conecta todas as pessoas, desde amigos de escola até os políticos indianos. Grupos no WhatsApp são as conexões que unem a maior parte dos indianos -- mas eles também são notórios por serem ninhos de encaminhamentos de boatos e spam.

“A maioria dos indianos pertencem a grupos do círculo restrito no WhatsApp, tais como de amigos e da família”, disse Harsh Taneja, professor assistente na Escola de Jornalismo do Missouri, cuja pesquisa é direcionada ao estudo de comportamento da audiência e uso da internet. “Porém, redes digitais como o WhatsApp são projetadas para nos conectarmos com grupos de conhecidos também, que talvez nós não tenhamos interagido frequentemente."

Esses "laços fracos", como Taneja os chama, são a razão pelo qual a informação se espalha rapidamente em redes fechadas como o WhatsApp. "A maioria das desinformações que se originam no WhatsApp é disseminada através da rede restrita dos laços fracos", disse Taneja. Mas é complicado analisar o WhatsApp. A plataforma de mensagens é criptografada de ponta a ponta sem API, algoritmos ou tópicos de destaque – fazendo com que seja praticamente impossível rastrear exatamente como o conteúdo se espalhou por ele.

Um porta-voz do Hindu Sena, um partido nacionalista hindu que em dezembro comemorou a vitória de Donald Trump em Déli , disse ao BuzzFeed News que ele faz parte de mais de 50 grupos de direita no WhatsApp e envia "milhares de encaminhamentos pelo país todos os dias".

No ano passado, a polícia de diferentes estados prendeu meia dúzia de administradores de grupos do WhatsApp, acusando-os com o crime de espalhar informações deturpadas, mesmo que um administrador não tenha controle sobre o que outros integrantes publicam em um grupo do qual fazem parte.

Em outras ocasiões, as autoridades indianas recorreram ao uso da arma mais incisiva possível: tirar do ar por completo a internet móvel. Nos nove primeiros meses de 2016, o governo indiano tirou 22 vezes a internet do ar em diversas partes do país – incluindo um período de quatro meses na violenta Caxemira – apenas para prevenir que boatos fossem espalhados pelo WhatsApp.

"Precisamos fazer perguntas duras ao Facebook, Twitter e Google em um contexto indiano, assim como eles estão sendo investigados nos EUA", disse Prasad. "Em um país como a Índia que é tão diverso e diferente culturalmente dos Estados Unidos, essas empresas não podem mais se safar dizendo que são apenas plataformas."

O Facebook se negou a comentar sobre o WhatsApp no contexto das notícias falsas. Um porta-voz do Facebook em vez disso direcionou o BuzzFeed News ao post de Mark Zuckerberg sobre o assunto. "Nos alcançamos um progresso significante", diz a publicação. "Mas ainda há muito trabalho a ser feito."

Este post foi traduzido do inglês.


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Pranav Dixit is a tech reporter for BuzzFeed News and is based in Delhi.

Contact Pranav Dixit at pranav.dixit@buzzfeed.com.

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