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Yago desabafou na internet sobre preconceito dos pais e depois se matou. Agora, a família tenta entender o que aconteceu

Para piorar, sites publicaram que a mãe comemorou sua morte.

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"Afinal, como eles dizem, ser gay é pecado, mas ser racista, corrupto, assassino, estuprador, pedófilo e não criar os filhos tá de boa. O importante é você não ser gay."

Assim o estudante de psicologia Yago Oliveira, 25, encerrou seu desabafo no Facebook, quando "lavou a roupa suja" do histórico familiar e contou ser perseguido pelos pais por ser homossexual.

O relato foi feito em janeiro, depois de uma discussão com o pai. A mãe, a professora Ivanilda, conta que chegou em casa depois da postagem do texto e encontrou o filho com uma corda no pescoço.

"Eu achei que ele estava fazendo isso para se mostrar, de pirraça, entendeu? Essa corda eu peguei, cortei todinha e coloquei no lixo. Eu achei que não tinha mais corda", disse Ivanilda ao BuzzFeed News.

Mas não era pirraça — e Yago tinha, sim, outra corda. Em 14 de março, depois de inúmeras outras brigas com os pais, Yago se enforcou em seu quarto, no primeiro andar da casa da família em Sapé, a 47 quilômetros de João Pessoa. Faltavam três meses para que ele concluísse a faculdade de psicologia na UFPB.

Enquanto família e amigos tentam entender e assimilar o que aconteceu, o post da "roupa suja" tornou-se viral, com mais de 44 mil compartilhamentos no Facebook, como um alerta contra a intolerância e o preconceito dentro de casa.

"A gente sabe que a família não aceitava ele ser gay", afirmou um de seus amigos, o professor de inglês e estudante de letras Tulio Cordeiro, 22, ao BuzzFeed News. "É muito louco conviver com pessoas que não aceitam você. Ele estava para sair de casa, para se formar", disse Cordeiro.

Outro amigo, o cirurgião-dentista Raphael Chagas Galvão, 27, diz que a homofobia era uma questão recorrente nas brigas da família.

O pai, Afrânio Sobreira, nega.

"Eu nunca briguei porque ele nunca disse que era homossexual. Ele disse que gostava dos dois sexos. Ele queria dar festa aqui, muitas das vezes sem eu estar em casa. Eu só não queria aqui festa regada a drogas, eu dormindo aqui e eles virem me matar como fizeram com aquele casal Richthofen. Ele trazia amigos escondido. Qual o pai quer ver isso dentro de casa? Eu não fui criado nesse estilo de vida. Eu dizia a ele: o seu tempo é um, o meu é outro. Eu sou do passado. Eu seleciono minhas amizades", disse Afrânio, técnico em eletrônica e ex-marinheiro.

A mãe de Yago o acusava de roubar coisas em casa — ela desconfiava que o filho cometia furtos caseiros para comprar maconha. Foi por causa de uma dessas acusações — infundadas, segundo seus amigos — que aconteceu a última briga, contou Raphael Galvão.

O BuzzFeed News conversou com os pais, uma tia e amigos do estudante. Aos amigos Yago dizia se sentir humilhado pelos pais por ser homossexual. E disse que, nas brigas, chegou a ouvir que os pais preferiam que fosse Yago, e não seu irmão, que tivesse morrido num acidente de moto há oito anos. Era seu único irmão.

"Quando a gente conta uma história para os amigos, conta apenas o nosso lado", disse Carla Sobreira, tia paterna de Yago. "Toda casa tem regras e normas, e Yago queria fazer o que quisesse. Não era que os pais eram homofóbicos, era por causa da turma [de amigos]."

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Declaração atribuída à mãe revoltou os amigos

É em meio a esse clima de guerra entre os amigos e a família de Yago que surgiu uma suposta declaração da mãe do estudante — como se comemorasse a morte do filho. "Prefiro um filho morto do que vivo e pecador, seria uma eterna vergonha e uma desonra sem tamanho", teria dito ela a um site. A frase repercutiu em sites paraibanos. Mas Ivanilda nega que sequer tenha conversado com o site.

"Eu nem dei entrevista. Como vou estar aliviada? Queria os meus dois filhos aqui", disse Ivanilda ao BuzzFeed News.

"Perdi um filho há cinco anos, de acidente de moto. Se eu quisesse que meu filho Yago tivesse o destino do outro, eu teria dado uma moto a ele", disse ela, afirmando que nunca permitiu que Yago usasse uma das motocicletas da casa.

O BuzzFeed News entrou em contato por email com o site Mixturando, o primeiro a atribuir a declaração a Ivanilda. Na sexta-feira à noite, o Mixturando afirmou que um de seus repórteres havia conversado por telefone com Ivanilda, quando ela teria dado a declaração. "Ela, após a repercussão da reportagem, pediu para que a declaração fosse removida pois estava sendo ameaçada", diz o email enviado ao BuzzFeed.

Ivanilda diz que o filho não se abria com ela sobre sexualidade e que o motivo de seu conflito com ele era o uso de maconha. "Ele não se abria comigo. Eu acho que o preconceito estava com ele mesmo. Porque ele dizia ao pai que gostava dos dois sexos. O que ele dizia era isso. E eles tiveram uma discussão por conta disso."

Como Yago não trabalhava, por estudar em período integral, a mãe desconfiava que ele estivesse vendendo coisas pessoais para comprar a droga, o que a deixava em constante atrito com o estudante. A última briga aconteceu no dia da morte. Yago deixou uma carta — à qual ninguém fora da família teve acesso.

"A carta que ele deixou desta vez... ele não devia estar normal. Ele culpa a mãe dele, a família e os amigos. Por quê? Porque o suicida nunca quer assumir a culpa. Ele sempre tem alguém para colocar [a culpa]. E a carta estava toda suja de droga", disse a mãe, referindo-se a maconha.

A mãe também tentou aliviar as críticas de que Yago faz à família no post que viralizou. "Ele gostava muito de aumentar as coisas. Aquelas coisas que ele colocou na carta é de gente que nem existe mais. De gente que tá tudo enterrada, parente do meu marido", disse ela.

O caso foi registrado como suicídio na delegacia de Sapé. A família e amigos serão ouvidos pela polícia nos próximos dias. "Agora vão dizer que a gente quer pôr a culpa na droga e tirar a culpa da gente", afirmou Ivanilda.

Segundo os amigos, Yago tinha um comportamento tranquilo e afável. De uma família de classe média baixa, estudava em período integral na UFPB, em João Pessoa. Estava dedicado a finalizar o trabalho de conclusão de curso, sobre drogas. "Ele dizia que queria que nós fôssemos na apresentação do TCC", disse sua mãe.

Gostava de livros de psicologia e de literatura, e lia de Paulo Coelho a Fiódor Dostoiévski. "Ele devorava um livro em dois dias. Gostava de música, de David Bowie, de reggae, de videogames. Tinha vários, até um Atari", contou Murilo Fernando Araújo, 20 anos.

Amigo de Yago há quatro anos, ele lembra que foi Yago que o estimulou a trocar o curso de estatística na faculdade pelo de redes de computadores. "Ele me dizia que a gente tinha de fazer o que gostava. O sonho dele era ter o lugar dele. E faltou tão pouco para conseguir... Não compreendo", lamentou.

Apesar dos conflitos com os pais, havia momentos de harmonia, como em setembro do ano passado, quando ele participou de um evento com a mãe na escola. Ele deu uma palestra aos alunos dela do EJA (Educação de Jovens e Adultos) sobre suicídio, na semana de combate a esse problema.

De acordo com o CVV (Centro de Valorização da Vida), o suicídio mata um brasileiro a cada 45 minutos — e poderia ser evitado em 9 de cada 10 casos. A entidade presta serviço voluntário e gratuito de amparo emocional para quem precise conversar sobre isso, com discrição. Os telefones são 188 ou 141, de acordo com a região do país. Mais informações: www.cvv.org.br.

Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

Contact Tatiana Farah at Tatiana.Farah@buzzfeed.com.

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