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"Passei batom vermelho e fui ser estrela em Paris"

Diva dos palcos nos anos 60, Rogéria (1943-2017) contava que não arrumaria confusão com a ditadura militar por causa de política. "Eu já era confusão, meu amor. Tava vestida de mulher e nem o pau tinha cortado."

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Divulgação/Sextante

Rogéria nasceu em Cantagalo (RJ), em 1943. “Rogéria não tem uma vida de bicha triste para contar”, disse ela em entrevista a Leandra Leal para o documentário Divinas Divas. Contou que foi criada com amor e sem nenhum senão por sua mãe, Eloá Barroso, que lhe teria dito: “Você não tem nenhum problema. Mamãe foi quem passou muito hormônio para você”.

Rogéria em cena do documentário Divinas Divas, último espetáculo da atriz.
Divulgação

Rogéria em cena do documentário Divinas Divas, último espetáculo da atriz.

A primeira vez em que Astolfo Barroso Pinto (nome que nunca abandonou) vestiu-se de mulher foi aos 14 anos. Era Carnaval. Usou um maiô e um pequeno chapéu para esconder o cabelo curto. Não usou maquiagem. Foi flagrada por uma tia, que contou a sua mãe. Levou bronca por permitir ser vista naqueles trajes femininos.

Como Astolfo.
Divulgação/Sextante

Como Astolfo.

Antes dos palcos, Rogéria começou no mundo dos artistas como maquiadora. Astolfo maquiava as cantoras de rádio e as estrelas de TV. Foi numa conversa com Fernanda Montenegro que decidiu que seria artista: atriz, cantora, performista. Fernanda lhe disse que, no palco, um artista poderia ser quem quisesse. "Passei um batom vermelho e fui ser estrela em Paris", contou ela em Divinas Divas.

Divulgação/Sextante

Assim como a de outras transformistas, a carreira de Rogéria decolou durante a ditadura militar no Brasil. As travestis eram as novas vedetes dos palcos do Rio, como o Teatro Rival, onde, na primeira fila, havia três cadeiras reservadas para os censores.

Rogéria sempre usou os cabelos louros. Nos anos 60, fazia performances no estilo Marilyn Monroe.
Camila de Souza /GOVBA

Rogéria sempre usou os cabelos louros. Nos anos 60, fazia performances no estilo Marilyn Monroe.

"Era um momento horroroso do país politicamente, mas nós tínhamos de ficar caladas porque se vestir de mulher… a gente tava ali na fronteira com o precipício. Eu ainda ia arrumar confusão como? Eu já era confusão, meu amor. Tava vestida de mulher e nem o pau tinha cortado. Quê isso? Ninguém falava em política. A gente ficava horrorizada, calada; e deixavam a gente trabalhar. Foi um boom. O brasileiro não tinha para onde ir. Todo mundo fugindo do tal golpe. A única coisa que podia divertir os brasileiros era quem? Nós? E foi assim que tudo começou", disse ela a Leandra Leal no documentário Divinas Divas.

Rogéria e Dudu Bertholini no programa Amor e Sexo, da Globo.
Globo/Caiuá Franco

Rogéria e Dudu Bertholini no programa Amor e Sexo, da Globo.

Foram muitos espetáculos de grande repercussão no Brasil, mas o que Rogéria considerou o maior marco foi o "Les Girls", de1967. "Nem em Paris nós tivemos um espetáculo como em Les Girls. Éramos atrizes", contou ela. O espetáculo Divinas Divas reuniu as amigas atrizes mais uma vez no Rio e no documentário de mesmo nome.

Rogéria, ao centro, com as amigas transformistas no show Divinas Divas.
Divulgação

Rogéria, ao centro, com as amigas transformistas no show Divinas Divas.

Há um ano, a editora Sextante lançou a biografia “Rogéria: uma mulher e mais um pouco”.

A biografia de Rogéria.
Divulgação

A biografia de Rogéria.

Foi autorizada e não teve censura por parte da biografada, que só leu o livro do escritor Marcio Paschoal depois de pronto. "Procuramos entrar no bas-fond da minha vida, mostrar também meu lado mais homem. Sou Astolfo sempre, e Rogéria toujours [todos os dias]", resumiu ela em entrevista ao Globo no ano passado.

Divulgação/Sextante

Ela nunca quis fazer uma cirurgia de transgenitalização mas fez uma operação para se tornar a Rogéria definitiva: uma plástica no nariz. Já era loura, depilada e havia tomado os hormônios de modificação do corpo.

Divulgação/Sextante

Diz trecho da biografia da artista: "O teste final aconteceria no metrô de Paris, entre as estações de Pigalle e Montparnasse, na companhia da transformista Dany Dan e da transexual Capucine. 'Vamos ver se você passa por mulher, vagabunda, bicha ou homem', disseram. Rogéria, de rabo de cavalo, vestido simples e um salto não muito alto, recebeu alguns olhares de cobiça, mas ninguém riu nem debochou dela. A maioria das pessoas sequer tomou conhecimento. Rogéria havia passado no teste, com louvor. Estava pronta. O veredicto foi de Dany: 'Tu es prêt à voler!' Você está pronta para voar."

Divulgação/Sextante

Artista versátil, Rogéria era carismática. Rompia barreiras desde os anos 70 e assim foi com a televisão aberta, onde participava de programas de auditório e entrevistas. Fez cinema e participou de novelas. Como atriz de teatro, ganhou o prêmio Mambembe.

Rogéria, em entrevista a Jô Soares.
Globo/Reinaldo Marques

Rogéria, em entrevista a Jô Soares.

Quando sofria bullying, era capaz de sair no braço com os detratores. Não tinha papas na língua. Criou para si um slogan: "Rogéria, a travesti da família brasileira".

Em "Rogéria rasga o verbo", em 2014.
Camila de Souza /GOVBA

Em "Rogéria rasga o verbo", em 2014.





Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

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