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Dezenas de ex-funcionários do “Ellen Show” acusam produtores-executivos de assédio e conduta sexual inadequada

Ex-funcionários disseram que um produtor-executivo “tinha a fama de ter uma ‘mão boba’ com as mulheres” e um outro pediu a um funcionário que fizesse sexo oral nele durante uma festa do trabalho.

Frederick M. Brown / Getty Images

Da esquerda para a direita, os produtores Jonathan Norman, Andy Lassner, Kevin Leman, Ed Glavin e Mary Connelly posam com o prêmio Daytime Emmy de Melhor Talk Show de Entretenimento por “The Ellen DeGeneres Show” em 2015.

Ser convidado para a sala de controle do “The Ellen DeGeneres Show” é algo cobiçado em Hollywood, mas, segundo dezenas de homens e mulheres que trabalham nos bastidores, o escritório é um local onde o assédio sexual e condutas inadequadas dos produtores-executivos rolam soltos.

Um ex-funcionário disse que o roteirista-chefe e produtor-executivo Kevin Leman perguntou se ele poderia masturbá-lo ou fazer sexo oral nele no banheiro em uma festa da empresa em 2013. Outros disse que viu Leman pegar no pênis de um assistente da produção.

Em maio de 2017, outra ex-funcionária disse que viu Leman apalpar um assistente da produção dentro de um carro e beijá-lo no pescoço.

Mais de uma dezena de funcionários, desde veteranos funcionários do alto escalão a assistentes de produção, disseram que era comum Leman fazer comentários sexualmente explícitos no escritório, como apontar os volumes nas virilhas de colegas homens ou fazer perguntas do tipo: “Você é ativo ou passivo?”.

“Era disfarçado de sarcasmo, mas isso não era sarcasmo”, afirmou um ex-funcionário.

Muitos dos seus alvos, acrescentaram os entrevistados, eram funcionários jovens ou do baixo escalão que achavam que não tinham influência suficiente para denunciar o caso.

“Ele provavelmente faria isso na frente de 10 pessoas, e todos ririam porque ‘era apenas o Kevin sendo o Kevin’, mas, se você está em uma posição de poder em uma empresa, não pode tocar em mim dessa maneira”, disse um ex-funcionário.

Em uma declaração divulgada após a publicação deste artigo, Leman afirmou que negava categoricamente “todo tipo de conduta sexual inadequada”.

“Comecei no 'Ellen Show' como assistente de produção há mais de 17 anos e dediquei minha carreira a trabalhar até chegar na posição que hoje ocupo. Apesar de meu trabalho como roteirista-chefe ser criar piadas – e, durante esse processo, ocasionalmente passamos do ponto –, fiquei estarrecido com o fato de que algumas das minhas tentativas de humor possam ter ofendido alguém”, afirmou.

“Sempre busquei tratar todos os funcionários com bondade, inclusividade e respeito. Durante todo o tempo em que estou programa, que eu saiba, nunca houve uma única reclamação no RH ou interpessoal a meu respeito, e fiquei profundamente triste com a publicação de um artigo malicioso e deturpado como este.”

O BuzzFeed News conversou com 36 ex-funcionários, muitos dos quais confirmaram independentemente os incidentes de assédio, conduta sexual inadequada e abusos cometidos pelos produtores do alto escalão como Leman. Todos os ex-funcionários, muitos dos quais demitiram-se voluntariamente do programa, pediram para permanecer anônimos sob medo de retaliação.

A Warner Bros. não quis comentar sobre acusações específicas, citando uma investigação interna em curso que foi aberta após uma reportagem anterior do BuzzFeed News na qual funcionários e ex-funcionários disseram que enfrentaram racismo, medo e intimidação no trabalho.

Mas em uma declaração divulgada na quinta-feira, o estúdio afirmou que “esperava averiguar a validade e extensão das denúncias reportadas publicamente e compreender a amplitude da cultura cotidiana”.

“Era importante, tanto para a Warner Bros. quanto para Ellen, que o máximo possível de pessoas ligadas ao programa fossem ouvidas”, acrescentou a Warner Bros. "O ‘The Ellen DeGeneres Show’ é, e sempre almejou ser, um local que leva positividade ao mundo. E apesar de nem todas as denúncias terem sido comprovadas, ficamos decepcionados pelos resultados preliminares da investigação indicarem algumas deficiências relacionadas à administração cotidiana do programa."

"Identificamos diversas mudanças de pessoal, além das medidas adequadas para abordar os problemas levantados e estamos caminhando para implementá-las.”

Frederick M. Brown / Getty Images, Michael Buckner / Getty Images

Ellen DeGeneres posa com seu prêmio Emmy de Melhor Apresentadora de Talk Show em 2008.

Em uma carta aos funcionários que foi obtida pelo BuzzFeed News, DeGeneres pediu desculpa na quinta-feira, afirmando que desde a sua concepção, a intenção era que o programa fosse um local de “felicidade” onde “todos seriam tratados com respeito”.

“Obviamente, algo mudou, e estou decepcionada por saber que a realidade é diferente. E, por isso, eu peço desculpa. Todos que me conhecem sabe que isso é o oposto do que eu acredito e desejo para o nosso programa”, escreveu a apresentadora.

Entre as denúncias levadas até o BuzzFeed News, cinco ex-funcionárias disseram que o produtor-executivo Ed Glavin tocava nelas de uma maneira que as deixavam desconfortáveis, com carícias nos ombros e costas e colocando a mão em suas cinturas.

Dezenas de ex-funcionários também disseram que Glavin “tinha a fama de ‘mão boba’ com as mulheres”, principalmente na sala de controle, e liderava a equipe através do medo e da intimidação.

“Definitivamente dava para ver o fator repulsivo, aquele contato repulsivo. E ele não escondia isso, era aos olhos de todos”, disse outra ex-funcionária ao BuzzFeed News, afirmando também que Glavin frequentemente tocava nela na sala de controle. “Obviamente, ninguém quer aquilo e ninguém quer sentir-se desconfortável com o toque de outra pessoa... mas não queríamos irritá-lo para não sermos demitidos, basicamente era uma cultura do medo.”

Outra ex-funcionária disse que Glavin telefonava chamando produtoras e assistentes para sentarem ao seu lado quando o programa estava filmando segmentos nos quais elas haviam trabalhado e, na frente de quase 30 outras pessoas na sala de controle, tocava nelas de maneira imprópria.

“Apesar de ser constantemente abusada [no trabalho], Ed colocar o braço em seus ombros na sala de controle era, tipo, a melhor experiência que você tinha durante o dia todo, por mais absurdo que isso possa parecer”, afirmou. “Você passou a noite anterior chorando, mas agora o seu segmento está indo bem… e você meio que acha que está recebendo os créditos por algo diretamente do produtor-executivo. ... Aquela brincadeira amistosa acompanhada de uma mão amistosa.”

A reportagem tentou contato com Glavin sobre as denúncias, mas não obteve retorno até a publicação da matéria.

No total, 47 ex-funcionários que falaram com BuzzFeed News disseram que Glavin liderava através de intimidação e medo diariamente. Um ex-funcionário disse que, quando apresentou sua demissão, Glavin derrubou uma mesa e uma cadeira enquanto gritava.

Cinco ex-funcionários também disseram ter visto Glavin usar um botão em sua mesa para fechar remotamente a porta do seu escritório, “como tática de intimidação”, durante repreensões.

“Parecia mais uma manifestação de poder do que qualquer outra coisa”, disse uma ex-funcionária.

Ex-colaboradores também disseram que ficavam incomodados quando Glavin usava seu chuveiro particular no banheiro do seu escritório.

“Você entrava no escritório dele para uma reunião importante, via a porta do chuveiro aberta e pensava: ‘OK isso é um pouco estranho’”, disse um ex-funcionário. “O banheiro com o chuveiro ficava logo na entrada, à direita. Antes mesmo de ver a mesa dele, você via o chuveiro. Ele não escondia que estava tomando banho e aparecia nas reuniões com o cabelo molhado.”

Outro ex-funcionário disse que o coprodutor-executivo Jonathan Norman tentou aproveitar-se dele, levando-o para shows e oferecendo regalias relacionadas ao trabalho durante um certo período, até que certa noite tentou fazer sexo oral nele. Três dos colegas de trabalho do ex-funcionário corroboraram que, à época, ele falou sobre o incidente e que ainda discutem sobre isso até hoje.

“Éramos jovens que estávamos formando nossas carreiras e, infelizmente, fomos submetidos a um ambiente de trabalho tóxico em um dos nossos primeiros empregos após sair da faculdade”, afirmou o ex-funcionário. “E alguns de nós fomos assediados sexualmente, e foi isso que moldou nossas carreiras em nosso primeiro ano fora da faculdade.”

Em uma declaração divulgada na quinta-feira à noite, após a publicação desta matéria, Norman afirmou que “nega categoricamente e 100% essas denúncias”.

“Nunca houve uma única reclamação a meu respeito durante minha carreira inteira. Eu nunca ‘me aproveitei’ de ninguém”, disse. “Nunca fiz algo para magoar outro membro da equipe. Nunca. A pessoa sobre a qual acredito que você esteja referindo-se tem segundas intenções, ele quer acabar com o programa e vem agindo maliciosamente com esse intuito.”

Ex-funcionários disseram que não havia um processo formal para a apresentação confidencial de queixas e que os produtores do alto escalão pressionavam para que ninguém procurasse o RH da empresa matriz do programa.

“Não havia isso de conversa confidencial”, disse uma ex-funcionária. “Não havia uma orientação clara do tipo ‘se algo acontecer com você, procure esta pessoa. Vai ser tudo confidencial e não haverá nenhuma retaliação’.”

Um ex-funcionário da Warner Brothers que trabalhou com o “The Ellen Show” disse que a empresa “fechava os olhos“ para as supostas condutas inadequadas porque o programa “é uma galinha dos ovos de ouro”.

“A Warner Brothers tem uma responsabilidade não apenas para com as pessoas que trabalham no ‘The Ellen Show’, mas também para com os seus telespectadores e acionistas, de garantir que as pessoas estejam protegidas no trabalho, não estejam sendo assediadas e não estejam trabalhando em um ambiente tóxico e nocivo”, disse o ex-funcionário.

Alguns ex-funcionários disseram que não acham que DeGeneres tem ciência do tamanho das coisas que acontecem nos bastidores, porque ela não passa muito tempo no escritório ou interagindo com a equipe para ter uma boa noção da cultura. Eles também disseram que os produtores a “protegem” dos detalhes e controlam a narrativa no set.

“Todos agem de uma maneira muito diferente perto dela”, disse uma ex-funcionária. “Há um programa que rola por trás do programa, o showzinho que temos de fazer para Ellen quando ela aparece nos escritórios.”

Dave Kotinsky / Getty Images

Justin Bieber e Ellen Degeneres na estreia do programa nas duas costas dos EUA, em Nova York em 2015.

Em uma carta para a sua equipe divulgada na quinta-feira, DeGeneres disse que passou a depender dos outros para manter-se no controle das operações diárias, mas acrescentou: “É o meu nome que está no programa e em tudo mais que fazemos, e eu me responsabilizo por isso.”

“À medida que crescemos exponencialmente, não pude controlar tudo e passei a depender de outras pessoas para que trabalhassem do modo que eu queria. Claramente, algumas pessoas não fizeram isso”, acrescentou. “Isso mudará agora, e estou determinada a garantir que isso nunca mais acontecerá novamente.”

Mas outros ex-funcionários disseram que é improvável que DeGeneres não soubesse das mesmas histórias e condutas, principalmente quando supostamente envolvem os produtores-executivos do alto escalão com quem ela passa a maior parte do tempo.

“Para alguém tão envolvida com o programa e o aspecto criativo, e tendo participado de reuniões com ela, não entra na minha cabeça que ela não ouve as mesmas fofocas”, disse uma ex-funcionária que trabalhava de perto com DeGeneres. “A não ser que ela realmente viva em sua própria bolha.”

Outro veterano ex-funcionário que também trabalhou com DeGeneres disse que a apresentadora “não quer saber” do que acontece nos bastidores, e “ninguém quer contrariá-la” porque ela É a marca do programa.

“Ela sabe”, disse o ex-funcionário. “Ela sabe das merdas que acontecem, mas ela também não quer ouvir nada a respeito.”

Este post foi traduzido do inglês.

Krystie Yandoli is an entertainment reporter for BuzzFeed News and is based in New York.

Contact Krystie Lee Yandoli at krystie.yandoli@buzzfeed.com.

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