back to top

"Agora fiquei sozinho", diz jornalista, ameaçado de morte e demitido de TV

Um dos repórteres investigativos mais importantes do Paraná teve de deixar o país depois de série de reportagens sobre primo do governador Beto Richa (PSDB). Voltou e foi demitido por afiliada da Globo.

publicado

Afiliada da Globo em Curitiba, a RPC demitiu um jornalista que vive sob ameaça de morte após reportagens sobre uma máfia de auditores fiscais que envolve um primo do governador Beto Richa (PSDB).

James Alberti, 45, foi avisado por sua chefia no dia 11 que estava numa lista de repórteres demitidos por "corte de gastos".

"A versão oficial é que fui mandado embora por corte de gastos. Isso já é preocupante, por si só, para todos que fazem jornalismo investigativo. Tentaram me assassinar, tive de deixar a família, perdi um ano na universidade, e os caras me mandam embora por corte de gastos", desabafou Alberti, em entrevista ao BuzzFeed Brasil.

Alberti foi um dos autores por uma das mais impactantes investigações jornalísticas do Brasil da história recente.

Publicada pelo jornal Gazeta do Povo e pela RPC em 2010, a série de reportagens "Diários Secretos" desvendou um esquema milionário de desvio de recursos e contratação de funcionários fantasmas na Assembleia Legislativa do Paraná.

As reportagens estancaram uma sangria de centenas de milhões de reais e resultaram em na prisão do então diretor-geral da Casa, Abib Miguel, e houve 15 condenações em primeira instância. Os condenados recorrem. O desvio comprovado ultrapassou R$ 250 milhões.

A série de Alberti e dos colegas Katia Brembatti, Gabriel Tabatcheik e Karlos Kohlbach foi laureada com o Grande Prêmio Esso, a mais importante honraria do jornalismo brasileiro, e foi reconhecida como a melhor reportagem investigativa da América Latina e com Global Shining Light Award.

James Alberti trabalhou 16 anos na emissora.

Em março do ano passado, o produtor viajou para Londrina, a segunda maior cidade do Paraná, para investigar um escândalo envolvendo a corrupção de auditores fiscais, alvo da operação Publicano, da Polícia Federal.

No centro da trama, duas figuras influentes no governo Richa: Luiz Abi Antoun, que é primo do governador, e o ex-inspetor da Receita no estado Marcio de Albuquerque Lima.

No meio da cobertura, no início de abril de 2015, Alberti recebeu um telefonema de sua chefia. "Fica na redação que vamos te tirar daí".

Tratava-se um plano para matá-lo. Ele foi retirado da redação com um carro blindado e escolta policial. Passou três dias em um hotel antes de ir para São Paulo. De lá para o Rio e Santa Catarina e, no final, para seis meses no Canadá.

"Poderia ser um assalto ou um atropelamento", contou ele ao BuzzFeed Brasil.

Perdeu o ano do curso de Direito que faz na Universidade Federal do Paraná, se afastou da família. Só não deixou de trabalhar. Em dezembro, voltou a Santa Catarina de férias, desta vez para rever os pais. Retornou para a redação de Curitiba em janeiro deste ano.

Quando retornou, ficou mais nos bastidores das reportagens. Saiu da linha de frente da cobertura do governo e foi integrado aos jornalistas que cobrem a operação Lava Jato.

Sua demissão foi anunciada no dia 11 de outubro.

Alberti não acusa a empresa de ter cedido a pressões do governo para demiti-lo. "A versão oficial me basta. Não quero acreditar que fui 'vendido' para o governo. Sou cristão e dou a eles (empresa) o benefício da dúvida", disse o jornalista.

Alberti contou que seu salário era acima da média da redação, mas "nem de longe era o maior salário". "Fui demitido com 15 colegas importantes, com muitos anos de casa", diz ele.

Mas o jornalista diz que se sente em risco "pela segunda vez": "Querendo ou não, a TV era o meu escudo. Estou sozinho agora. E não sei se estou seguro."

Em nota, a assessoria de imprensa da emissora disse que "a demissão de James não tem qualquer relação com a série de reportagens".

Questionada pelo BuzzFeed Brasil sobre o suporte que seria dado a Alberti em relação às ameaças, a RPC acabou confirmando que elas existem: "Por procedimento interno, em virtude da necessária proteção aos direitos e aos interesses de todos os envolvidos, adota-se por política o sigilo acerca das situações elencadas", diz a nota da emissora.

Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

Contact Tatiana Farah at Tatiana.Farah@buzzfeed.com.

Got a confidential tip? Submit it here.