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Wesley Allsbrook for BuzzFeed News

Agente do Medo

A história de como um oficial da agência antidrogas americana se safou após assediar uma brasileira com quem teve um caso extraconjugal — mesmo após ela suplicar por ajuda do governo dos Estados Unidos.

publicado

Um agente de inteligência dos Estados Unidos, que atuava em São Paulo, compartilhou informações sigilosas sobre investigações relacionadas a tráfico de drogas internacional com uma mulher com quem manteve um caso extraconjugal — e então, após ela terminar o relacionamento, passou a persegui-la e ameaçá-la, comportamento que perdura até hoje.

Mesmo para os padrões da DEA (Agência de Combate às Drogas dos EUA), órgão frequentemente criticado por falhar em punir agentes que desrespeitam a lei, as ações do agente especial Scott Nickerson se destacam. Até hoje, meses após ter voltado para os Estados Unidos, ele frequentemente envia mensagens à mulher, a brasileira Larissa Carvalho. Ele descobre a localização exata dela, com precisão de metros, apesar de estar a milhares de quilômetros de distância. Ele parece ter hackeado o site do casamento de Larissa, no qual foram publicadas imagens explícitas dos dois.

Em mensagens no WhatsApp, Nickerson, 35 anos, também mencionou ter contratado prostitutas, o que seria uma violação das normas da DEA. A partir de seu email profissional, com endereço do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, ele enviou a Larissa detalhes operacionais secretos sobre suspeitos de integrar grandes cartéis na América do Sul.

A DEA informou ao BuzzFeed News que Nickerson está sendo investigado há 10 meses. Mas apesar de Larissa ter registrado ao menos cinco queixas formais contra Nickerson — anexando mais de 100 mensagens de texto e emails que registram o comportamento dele —, nem a DEA, nem o Departamento de Justiça adotaram medidas contra o agente ou buscaram impedir que ele continuasse a perseguir ela e seus familiares.

"Meus chefes não estão nem aí, eu disse a eles que você é louca pra caralho e eles acreditaram", Nickerson escreveu, em inglês, num email enviado em agosto. Na continuação, enviada 1 minuto depois, ele acrescentou: "Na verdade eu contei pra todo mundo que você é louca pra caralho e ninguém vai ajudar uma pessoa maluca."

Dias depois, ele escreveu: "Eu posso fazer o que quiser e ninguém vai ligar pra você."

A vizinhança do Consulado dos Estados Unidos em São Paulo, na região do Brooklyn, sempre foi um recanto de tranquilidade para Larissa Carvalho. Criada no bairro, ela sentia-se segura para caminhar à noite por ali graças à segurança extra das redondezas, por causa dos diplomatas.

Ultimamente, porém, o muro alto em volta do prédio imponente tornou-se uma lembrança constante do agente americano que passou de namorado a abusador. Larissa disse que seu cabelo está caindo pelo estresse, perdeu quase 7 quilos, e não consegue dormir sem tomar remédios.

Em 2014, meses após se formar na universidade, Larissa conheceu Scott Nickerson, um agente especial da DEA casado, lotado no consulado, em uma academia de ginástica. Os dois rapidamente iniciaram um affair.

Meses depois, Nickerson pediu ajuda a Larissa com uma emergência — o primeiro de diversos pedidos para que ela traduzisse documentos sobre detalhes operacionais de investigações que seriam compartilhados com autoridades brasileiras. À época, ela perguntou se era seguro ele compartilhar essas informações.

Ao todo, o agente enviou ao menos cinco documentos que continham informações sobre traficantes internacionais. Um dos traficantes, cujo nome foi excluído do documento enviado a Larissa, negociou pessoalmente a venda de centenas de quilos de cocaína com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), e depois realizou voos entre a Colômbia e o Paraguai, onde fica sua fazenda.

Eles brincavam que "o Obama paga", referência às diárias de hotel e outras despesas quitadas com dinheiro público.
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Outro traficante, cujo nome e número de celular estavam no documento, coordenou o envio de meia tonelada de cocaína da América do Sul para Europa e África.

Uma lista atualizada incluía o número de celular secreto usado por um dos líderes do Cartel do Golfo, maior facção de crime organizado da Colômbia.

Regras específicas do governo americano determinam como informações desse tipo devem ser tratadas, a fim de garantir a intregridade da investigação bem como a segurança de inocentes. Enviar documentos sigilosos a pessoas que não estão autorizadas a vê-los é uma infração das normas da DEA e pode levar a demissão; não está claro se as ações de Nickerson desrespeitaram a lei.

Em meio à brecha, Nickerson fez apenas um pedido: "Eu sei que você vai [ter cuidado], mas tenha cuidado com os números", escreveu o agente a Larissa, sobre os celulares dos traficantes.

Enquanto isso, ele e Larissa viajaram juntos. Várias vezes, em mensagens, eles brincavam que "o Obama paga", uma referência, segundo ela, às diárias de hotel e outras despesas de viagem quitadas com dinheiro do contribuinte americano. Em um resort romântico no litoral paulista, conforme mostram mensagens trocadas entre Larissa e Nickerson, o agente reservou uma suíte VIP com jacuzzi e vista para o mar, cuja propaganda no site prometia "o lugar ideal para uma lua-de-mel". As suítes custam cerca de R$ 800 por dia, segundo o site — o triplo do preço de outros hotéis mais baratos na região.

A transcrição das conversas entre eles tem mais de 30 referências a "Obama" pagando por despesas de viagem do casal.

Em algumas das mensagens, Nickerson mencionou ter contratado prostitutas. Em determinado momento, escreveu: "Você ficar com o seu ex não é muito diferente de eu ficar com a minha mulher aqui [em São Paulo] ou com prostitutas quando eu viajo."

Em meados de 2015, Nickerson disse a Larissa que a mulher dele havia descoberto o caso dos dois e retornado aos Estados Unidos.

Em São Paulo, o affair continuou por algum tempo, até que Larissa terminou o relacionamento, dizendo a Nickerson que ela iria se casar com um alemão que havia conhecido. Isso, ela disse, fez Nickerson perder a cabeça.

Larissa viu a SUV de Nickerson pelo retrovisor, com a placa diplomática azul e os vidros pretos — "para segurança e boquetes", como ele explicou a ela certa vez.

Segundo Larissa e três pessoas próximas a ela, o agente a perseguiu pela cidade durante meses. Nickerson aparecia do nada, segundo ela: no shopping, em lugares onde ela e os amigos costumavam ir; ou então a duas fileiras dela no cinema, esperando ela ir ao banheiro. Ela bloqueou o celular dele e mudou de academia para evitá-lo.

Uma vez, no trânsito, voltando para casa após se exercitar, ela viu no retrovisor a SUV de Nickerson, com a inconfundível placa diplomática azul e os vidros pretos — "para segurança e boquetes", como ele explicou a ela em certa ocasião. Desta vez, o agente colou o carro no dela e a perseguiu, segundo Larissa. Pouco tempo depois, começaram a chegar ameaças a ela e ao noivo, por email.

Contrariando seu melhor julgamento, Larissa manteve contato ocasional com Nickerson. Eventualmente, ela decidiu que bastava. Bloqueou ele nas redes sociais e escreveu: "Se você não parar eu vou chamar a polícia. Deixe-me em paz!"

Mesmo assim, Nickerson ficou de olho em Larissa, a milhares de quilômetros de distância — e garantiu que ela soubesse disso.

"Se divertiu no shopping hoje?", ele perguntou em agosto. Em outro dia, também em agosto, ele falou para Larissa mandar um abraço a uma amiga que havia passado o dia com ela. Em uma única semana de julho, ele enviou quase 40 emails — que variavam de pedidos ("Você vai falar comigo, queira ou não"), passavam por cantadas ("Por favor, fale comigo, não desista da gente"), e chegavam a ameaças ("Seria tão triste ver seu namorado alemão se machucar, né?"). A festa de casamento deles, disse o agente — que continua casado —, "será um desastre".

Larissa afirmou ao BuzzFeed News que cogitou entrar em contato com a polícia brasileira diversas vezes, quando o assédio de Nickerson se intensificou. No fim das contas, ela achou que o risco era alto demais: no Brasil, diz Larissa, queixas de violência doméstica são frequentemente ignoradas, e Nickerson seria facilmente informado por suas conexões com autoridades.

Foi então, afirma Larissa, que ela resolveu procurar jornalistas. O americano Brad Brooks, que trabalha em São Paulo para a agência de notícias Reuters, foi um dos primeiros a responder. Brooks entrevistou Larissa e buscou confirmar as declarações durante meses, segundo ela. De algum modo, Nickerson ficou sabendo disso também. "Talvez seu jornalista se importe [com o assédio], mas quem liga para ele?", escreveu o agente em um email a Larissa.

Meses depois, após as reclamações dela provocarem uma resposta da corregedoria do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, ele enviou três emails num único dia dizendo que Larissa deveria "ficar calada". Uma das mensagens incluía os nomes de três mulheres da família de Brooks que vivem no Brasil.

A Reuters decidiu desistir da história. "Um dos nossos repórteres em São Paulo recebeu uma dica para uma reportagem e a investigou", disse um porta-voz da agência, Abbe Serphos, em um email ao BuzzFeed News. "Com outras prioridades naquele momento, ele desistiu da história." O jornalista não quis comentar o assunto, afirmando que não está autorizado a falar sobre deliberações internas. Chefes da Reuters enviaram uma carta ao Departamento de Justiça expressando preocupação com as informações em poder de Nickerson, incluindo o calendário de viagens de Brooks.

Depois, Nickerson pôs em prática a mesma tática contra o repórter Daniel Wagner, do BuzzFeed News. O agente enviou mensagens a Larissa com detalhes da vida pessoal do jornalista, bem como informações sobre a fotógrafa que atuou nesta reportagem.

Um dia, Larissa entrou no site de seu casamento por sugestão de uma amiga que estava preocupada. Ela ficou chocada ao ver fotos explícitas dela e de Nickerson.

Larissa deitou-se no chão, segundo ela, tremendo "como uma louca". Com medo pela segurança de seus convidados, ela e o noivo decidiram mudar a data do casamento e contratar uma empresa de segurança.

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O Departamento de Justiça recebeu várias queixas em relação à conduta do agente, vindas de Larissa, amigos e parentes dela, e da Reuters. Nas reclamações que fez, diz ela, havia mensagens de texto e emails anexados a fim de provar o assédio.

Uma das primeiras queixas formais, que a mãe de Larissa registrou em maio do ano passado, detalhou o hábito de Nickerson de pedir à jovem que traduzisse documentos oficiais da DEA, afirmando que ele a forçou a lidar com "informações sensíveis sobre pessoas perigosas, que não deveriam ser enviadas a ninguém que não estivesse envolvido nessas operações". A "irresponsabilidade" e o "descuido" de Nickerson puseram Larissa em "risco extremo", dizia a carta. A mãe de Larissa também ofereceu "todas as evidências para provar o que estou dizendo", por email.

Ao menos duas queixas receberam como resposta que o inspetor-geral "analisou detidamente o material e concluiu que o assunto não é objeto de investigação deste gabinete".

O gabinete do inspetor-geral do Departamento de Justiça, um órgão de fiscalização interna, é responsável por investigar as alegações mais graves contra funcionários da DEA. Duas das questões que o inspetor-geral acredita serem problemas recorrentes na agência é o comportamento sexual dos agentes (incluíndo a contratação de prostitutas) e o compartilhamento de informações sigilosas.

Larissa disse que o gabinete do inspetor-geral jamais confirmou o recebimento das cartas enviadas pela mãe dela. Cinco meses depois, Larissa enviou um email reclamando que suas queixas haviam sido ignoradas. Por isso, segundo ela, decidiu compartilhar com repórteres algumas das evidências que tinha contra Nickerson. Foi então que um agente especial sênior, Michael Fletcher, enviou emails a ela pedindo para conversarem por telefone. Registros de ligação no celular de Larissa mostram que ela tentou ligar para ele ao menos sete vezes, mas ela diz que nunca conseguiu o contato. Fletcher não quis comentar o assunto.

Ao menos duas outras pessoas que registraram queixas em nome de Larissa receberam respostas dando conta que o inspetor-geral "analisou detidamente o material e concluiu que o assunto não é objeto de investigação deste gabinete". As cartas concluem: "Este gabinete não tomará ações em relação à sua correspondência e considera o assunto encerrado."

Após responder às queixas, o inspetor-geral as enviou à DEA, conforme o registro.

Em resposta a perguntas sobre Nickerson, o gabinete do inspetor-geral enviou uma nota genérica em que reafirma o comprometimento em combater condutas reprováveis de agentes, e acrescentou que "não confirma nem nega a existência de uma investigação".

Um porta-voz da DEA, Rusty Payne, confirmou ao BuzzFeed News que Nickerson está sendo investigado: "Em junho de 2016, o Gabinete de Responsabilidade Profissional da DEA iniciou uma investigação sobre as acusações em questão. O assunto continua sob análise em nosso processo disciplinar interno e não podemos tecer mais comentários."

O Departamento de Justiça não comentou.

Em ao menos cinco ocasiões, nos últimos 15 anos, o Gabinete do Inspetor-Geral alertou que o sistema disciplinar da DEA não funciona, que o mau comportamento sexual dos agentes é desenfreado e raramente punido e que agentes atuando em outros países são mal treinados — e não possuem uma compreensão básica de quais atividades fora de serviço são permitidas pelas normas da agência. Em um caso, ocorrido em 2012, agentes da DEA na Colômbia participaram de orgias financiadas por um cartel local, mas receberam apenas advertências ou suspensões breves. Alguns desses agentes, depois, receberam bônus atrelado a performance.

O inspetor-geral, Michael Horowitz, afirmou no ano passado que unidades de agências subordinadas ao Departamento de Justiça "falharam em reportar alegações de desvio de conduta aos escritórios-sede, falharam ao não investigar as alegações completamente, possuem processos falhos e têm falhas em detectar e preservar mensagens e imagens de cunho sexual".

O inspetor-geral também criticou a DEA repetidas vezes por tornar quase impossível uma fiscalização rigorosa ao recusar o compartilhamento de documentos que, pela lei, a agência é obrigada a repassar.

Membros do Congresso dos Estados Unidos também afirmaram que a DEA trata agentes sob investigação de maneira leniente. O senador Chuck Grassley (Republicano), que comanda a poderosa comissão responsável por fiscalizar o Departamento de Justiça, expressou durante uma audiência em junho a necessidade de consertar "o sistema disciplinar falho da DEA".

"Tem havido alguns problemas na DEA, e parece que falta transparência", ele disse, acrescentando que a agência possui "um longevo problema" de evitar a fiscalização.

Na carta que enviou ao Departamento de Justiça em maio, a mãe de Larissa escreveu que queria apenas "ter certeza de que minha queixa será ouvida, que esse agente não poderá fazer isso de novo e que não poderá fazer nada para machucar minha filha".

Doze meses depois, as ameaças de Nickerson continuam.

Na semana passada, ele escreveu:

Presta atenção. Eu sei que você é burra, mas pelo menos se esforce.

Você não vai se comunicar com o Daniel ou qualquer outro jornalista. Eu vou falar pra eles que você é louca pra caralho e que minha família confirma que você está me assediando, porque todos acreditam que você é uma sociopata.

Você inventou aquelas acusações, eu nunca enviei nada a você e você nunca traduziu nada para a DEA, e eles já sabem que você é disléxica e burra.

Eu vou dizer que você é louca e vai ser o fim da linha pra você...

A não ser que você decida ser uma boa garota.

Diga a eles que você não vai mais cooperar e que vai negar tudo.

"Você sabe que eu não a machucaria", ele continuou, mas então mencionou os pais dela, o namorado, e o sobrinho, que tem 5 anos de idade.

Larissa lamentou quanto de sua vida foi eclipsada pelo assédio de Nickerson.

"Eu quero ser uma noiva normal, alguém que se preocupa com flores, não alguém que se preocupa se um louco está se escondendo atrás de alguma árvore", ela disse.

“Eu só quero que isso acabe." ●

Este post foi traduzido do inglês.


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Daniel Wagner is an investigative reporter for BuzzFeed News and is based in Washington, DC.

Contact Daniel Wagner at daniel.wagner@buzzfeed.com.

Alexandre Aragão é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ele pelo email alexandre.aragao@buzzfeed.com

Contact Alexandre Aragão at alexandre.aragao@buzzfeed.com.

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