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A polícia entrou na faculdade e perguntou o conteúdo da aula, diz diretor ameaçado de prisão

"Uma professora de Direito Processual, grávida de oito meses, ficou muito assustada. Imagine o que é entrar um pelotão de sete, oito pessoas armadas na sala de aula."

O diretor da Faculdade de Direito da UFF (Universidade Federal Fluminense), Wilson Madeira Filho, ameaçado de ser preso pelo TRE (Tribunal Regional Eleitoral), afirmou que, a mando de uma juíza no Rio de Janeiro, a polícia invadiu salas de aula e perguntou aos professores qual o conteúdo das aulas ministradas.

O episódio aconteceu na terça (23) à noite. Ontem (25) a faculdade foi obrigada a retirar uma bandeira com mensagem antifascista sob pena de o diretor ser preso.

"Eles entraram nas salas de aula, interpelaram os professores, queriam saber do que eram as aulas. Uma professora de Direito Processual, grávida de oito meses, ficou muito assustada. Imagine o que é entrar um pelotão de sete, oito pessoas armadas na sala de aula", disse o diretor ao BuzzFeed News.

Reprodução

Madeira Filho disse que, na segunda, alunos de movimento estudantil colocaram uma bandeira em que estava escrito "Direito UFF antifascista" na fachada do prédio.

"Isso provocou denúncias anônimas [ao TRE]. Não sabemos os conteúdos delas", afirmou o diretor. "Na terça-feira, eu já estava em casa quando me ligaram dizendo que os agentes do TRE, com a polícia, tinham adentrado a faculdade, o que já é um absurdo porque PM [Polícia Militar] não pode entrar em universidade pública."

O diretor contou que os agentes fizeram buscas e teriam encontrado dois adesivos contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL). "Parece que havia um decalque em um armário e outro em um poste. São dois mil estudantes. Vai saber onde alguém meteu um decalque", disse Madeira Filho.

"Eu questionei os agentes, queria saber qual a denúncia e eles disseram que era uma decisão verbal da juíza. Isso só poderia acontecer diante de absoluta urgência de crime eleitoral. E eu queria saber como uma frase escrita 'UFF antifascista' era uma urgência eleitoral. Só se o TRE estava entendendo que havia uma candidatura que se anunciava como fascista para se ter essa conclusão."

O diretor disse que na quarta houve um ato de desagravo diante da faculdade, mas na quinta o TRE voltou a agir, desta vez obrigando a faculdade a retirar a bandeira antifascista. "Havia uma decisão da juíza, diante desse decalque encontrado na porta, de que, por alusão, o tal do fascista da flâmula seria o Jair Bolsonaro."

A juíza é Maria Aparecida da Costa Barros, da 199ª zona eleitoral, de Niterói.

"Se o TRE entende que uma candidatura é fascista, é o tribunal que está diante de uma polêmica e tem de cancelar a candidatura fascista. E, se o candidato repudia esse título, deve tomar as medidas legais e processar o tribunal, que está abalando a imagem dele", disse Madeira Filho.

Nesta sexta, alunos e funcionários da faculdade fizeram uma assembleia. A universidade ingressou com um pedido de habeas corpus coletivo na Justiça e com um mandado de segurança para garantir a liberdade de expressão. "O habeas corpus coletivo é porque a comunidade inteira está ameaçada", disse o diretor.

Professor há 20 anos, Madeira Filho disse que essa foi a primeira vez que passou por esse tipo de constrangimento. "Assim, amanhã, a gente nem pode dar aula. Não estou aqui para ouvir esse tipo de asneira. A sala de aula é onde se faz um debate sério. Este é o nosso papel. Não é para vir qualquer pessoa imbuída de senso comum para fazer leituras pueris e ficar falando bobagem."

Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

Contact Tatiana Farah at Tatiana.Farah@buzzfeed.com.

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