11 de fev de 2020

    Estudos meia-boca sobre o coronavírus estão viralizando e alimentando o pânico

    Cientistas estão publicando na internet suas descobertas sobre o novo surto de coronavírus, aumentando a velocidade das descobertas científicas — e da desinformação.

    Anthony Wallace / Getty Images

    Na manhã da sexta-feira passada, uma semana após o surto de coronavírus ter sido declarado uma emergência de saúde pública internacional, um grupo de cientistas da Índia publicou um estudo na internet. Diversas sequências genéticas do novo coronavírus equivalem àquelas encontradas no HIV, informaram os cientistas, sugerindo que essa “semelhança estranha” significava que as duas doenças estavam relacionadas.

    Um cientista na Índia anunciou a descoberta polêmica a seus mais de 200.000 seguidores no Twitter: “Elas sugerem a possibilidade de que esse vírus chinês tenha sido projetado [‘não fortuito’]. Assustador se for verdade”. Um pesquisador de Harvard com dezenas de milhares de seguidores descreveu o estudo como “muito intrigante”. O artigo com cara de oficial e altamente técnico levou dezenas de curiosos ao pânico, declarando no Twitter que ele mostrava que o vírus havia sido “criado por humanos”, que era “artificial” e “provavelmente não aleatório”.

    Mas, naquele dia e durante o fim de semana, um exército de cientistas também dissecou as alegações do estudo e apontou que não havia provas de que as sequências iguais fossem mais que uma coincidência sem importância.

    Pela segunda vez em duas semanas, um segmento das redes sociais entrou em pânico graças a um estudo sobre o coronavírus que não havia sido revisado por especialistas ou publicado em um periódico acadêmico. Era uma “pré-publicação”, ou um rascunho preliminar, publicado no BioRxiv, um repositório gratuito que hospeda milhares de artigos não verificados sobre as ciências biológicas.

    Os servidores de pré-publicação evitam os cronogramas extensos e trabalhosos da publicação tradicional de artigos científicos revisados por pares, levando ao compartilhamento rápido de informações durante epidemias como essa. Mas o coronavírus também está trazendo à tona as limitações desse novo sistema pela primeira vez, já que todos — dos os mal-intencionados aos ingênuos — agarram-se a novas informações em um clima dominado pelo pânico.

    O artigo “estranho” foi retratado por seus autores no domingo, pondo fim a uma situação inegavelmente caótica que espalhou desinformação sobre um vírus ainda pouco compreendido e que, até o momento, tem mais de 40 mil casos confirmados pelo mundo e que já matou mais de 1.000 pessoas, a maioria próxima do epicentro do surto, em Wuhan, na China.

    Ainda assim, também foi um caso de novas pesquisas sendo compartilhadas, debatidas e corrigidas em tempo real — algo que cientistas queriam há muito tempo que acontecesse. Muitos ainda dizem que os benefícios de publicar estudos científicos instantaneamente superam de longe as desvantagens.

    Russel Neches, pós-doutorando em ecologia viral no Instituto Conjunto do Genoma em Berkeley, na Califórnia (EUA), disse ao BuzzFeed News: “É exatamente para isso que o BioRxiv serve, como um lugar de discussões sobre os resultados em tempo real”.

    Defensor da chamada “ciência aberta”, na qual estudos são gratuitamente acessíveis em vez de limitados a assinantes, Neches publicou uma chamada no Twitter durante o fim de semana, pedindo a cientistas que deem seu feedback às pré-publicações sobre o novo coronavírus, que agora são mais de 300 e cujo número aumenta a cada dia.

    Desde que a pré-publicação “estranha” foi ao ar, vários pesquisadores deixaram críticas em sua seção de comentários, comentaram em outras pré-publicações e tuitaram suas observações sobre as descobertas. Neches sente-se grato por assistir às correções da pré-publicação “estranha”, mas também gostaria que mais especialistas tivessem reagido ao artigo logo após ter ido ao ar.

    “Em parte, o que fez as teorias conspiratórias se espalharem foi a quantidade de tempo que se passou no qual a pré-publicação esteve no ar recebendo muita atenção, mas ainda não havia sido comentada por cientistas”, disse Neches. Se o artigo tivesse sido imediatamente desmistificado, as pessoas “provavelmente não teriam se empolgado tanto com ele”.

    O furor breve, porém intenso, ressalta como todas as pesquisas atuais sobre o coronavírus — seja na forma de uma pré-publicação ou não — evoluem rapidamente. Na semana passada, um artigo em um dos periódicos de maior prestígio do mundo, o Jornal de Medicina da Nova Inglaterra, causou impacto com suas descobertas de que um paciente sem sintomas ainda poderia transmitir o vírus. Temendo que o vírus pudesse se espalhar ainda mais amplamente do que se pensava, autoridades americanas da área da saúde citaram o estudo na última sexta ao declarar situação de emergência na saúde pública. Mas, em poucos dias, falhas significativas no estudo tornaram-se aparentes.

    A ciência está sempre sujeita a debates contínuos, algo que os cientistas orgulhosamente indicam ser uma característica, não um defeito. Mas no caso de uma epidemia que toma rumos inéditos na internet, descobertas preliminares — algumas das quais não resistem a uma análise mais aprofundada — podem subitamente ganhar uma audiência imensa.

    Str / Getty Images

    Tradicionalmente, a publicação de artigos científicos é lenta. Pesquisadores enviam suas descobertas uma a uma para periódicos. Em seguida, o manuscrito é enviado para alguns especialistas externos que dão seu feedback e, às vezes, pedem mais experimentos.

    Se o rascunho final for aceito, ele é publicado, geralmente na internet primeiro — contudo, apenas para assinantes, tornando-o inacessível para muitos. Muitos cientistas reclamam do processo por ser demorado demais, ocasionalmente parcial e repleto de ineficiências. A revisão por pares é reconhecidamente inconsistente na detecção de erros, e retratar estudos falhos pode levar meses ou mesmo anos.

    O BioRxiv, fundado em 2013, tenta acelerar o processo significativamente. Cientistas enviam seus primeiros rascunhos ao site, onde uma equipe própria separa “o que é obviamente spam ou besteira”, assim como submissões que não são científicas por natureza, segundo o cofundador Richard Sever. Todos os artigos publicados têm avisos que indicam que não são revisados por pares e não devem ser tratados como definitivos.

    Um repositório mais recente, o MedRxiv, opera de forma parecida, mas com mais algumas barreiras para a publicação, dados os altos riscos de publicar informações sobre a saúde das pessoas. Os cientistas precisam declarar que possuem o consentimento do paciente e a aprovação de um conselho de ética independente. E, segundo Sever, a equipe do MedRxiv filtra mais estudos que crê que devam passar primeiramente pela revisão por pares — por exemplo, um artigo que sugira que vacinas são perigosas e que possa ser transformado em arma por grupos antivacinas.

    Pré-publicações existem há poucos anos, mas seus benefícios para a comunidade científica já estão ficando claros. Em 2017, após um estudioso do câncer encontrar uma pré-publicação e contatar o cientista que a conduziu, a dupla começou a realizar experimentos juntos e publicaram seus resultados — sete meses antes do que se tivessem esperado até que o artigo original aparecesse em um periódico.

    E no caso da epidemia de coronavírus, pré-publicações têm ajudado a divulgar medicamentos existentes que podem ser eficazes no tratamento dos pacientes.

    Mas a natureza de uma epidemia se desdobrando ao vivo nas redes sociais significa que todos os resultados, em especial os mais sensacionalistas, podem viralizar antes de serem verificados.

    Uma dessas pré-publicações apareceu no MedRxiv em 24 de janeiro. Estima-se que o grau de contágio do coronavírus, conforme medido por uma variável chamada R0, era de 3,8. Isso significava que — sem intervenções como quarentenas ou hospitalizações — cada pessoa que pegasse a doença poderia transmiti-la para quase quatro outras pessoas. Essa estatística viralizou após Eric Feigl-Ding, um economista da saúde afiliado à Escola T.H. Chan de Saúde Pública em Harvard, tuitar sobre a pré-publicação.

    “SANTA MÃE DE DEUS — o novo coronavírus é um 3,8!!!”, ele tuitou. “Quão grave é esse valor R0 de reprodução? É tão grave quanto uma pandemia termonuclear — na minha carreira inteira, nunca vi um coeficiente de viralidade desses fora do Twitter. Não estou exagerando.”

    Enquanto isso, muitos outros cientistas no Twitter — incluindo especialistas em virologia, o que Feigl-Ding não é — criticaram os problemas óbvios na metodologia do estudo e na falta de contexto, assim como os tuítes sensacionalistas e imprecisos de Feigl-Ding. Eles apontaram que o R0 não é a palavra final sobre o grau de periculosidade de um vírus, mas sim um retrato do momento, que muda conforme medidas são tomadas para limitar o contágio. E, no momento em que Feigl-Ding começou a tuitar, mal sabia ele que os pesquisadores já estavam revisando o artigo sobre o R0 para ter uma estimativa mais baixa.

    Em seguida, na sexta-feira, um grupo de cientistas em Nova Déli, na Índia, enviou ao BioRxiv sua pré-publicação sugerindo que o vírus estava ligado ao HIV. Novamente, Feigl-Ding, que a essa altura já havia acumulado dezenas de milhares de seguidores em questão de semanas, tuitou as descobertas sensacionalistas. Em nove tuítes que reverberaram pela internet, ele citou o estudo extensivamente, observando que não havia sido “revisado por pares”: “Não vamos tirar conclusões ainda”. Ao mesmo tempo, ele descreveu as descobertas como “muito intrigantes” e “corajosas”.

    O artigo HIV-Coronavírus também atraiu críticas imediatas. Matthew Frieman, da Escola de Medicina da Universidade de Maryland, disse ao BuzzFeed News que as sequências semelhantes de genes, que os autores do estudo ligaram ao HIV, são encontradas em todos os tipos de vírus. E Amesh Adalja, da Sociedade de Doenças Infecciosas da América, disse que, mesmo que as sequências se pareçam com as do HIV, “isso não nos diz nada de novo sobre esse coronavírus”.

    Feigl-Ding apagou ambos os tópicos que fez no Twitter sobre os estudos, no entanto, não antes de serem retuitados milhares de vezes. E os resultados também já haviam se espalhado rapidamente para outras partes da internet. O blog ZeroHedge citou a pré-publicação do HIV, assim como os tuítes de Feigl-Ding a respeito, para promover uma teoria conspiratória de que o coronavírus possa ser “uma arma biológica criada artificialmente”. (O site foi expulso do Twitter por, segundo a rede social, “violar nossa política de manipulação da plataforma”.)

    Durante epidemias aceleradas como esta, os críticos dizem que os guardiões tradicionais — como a revisão por pares, os periódicos científicos ou a imprensa — podem impedir que as pessoas obtenham as informações atualizadas de que precisam.

    Em uma entrevista, Feigl-Ding disse ver as redes sociais como uma forma crucial de explicar ciência aos leigos que não leem ou que não acreditam em fontes tradicionais de notícias. “Há toda uma convergência de razões diferentes pelas quais precisamos explorar formas alternativas de nos comunicarmos diretamente com o público”, ele disse.

    Os eventos da semana passada fizeram Feigl-Ding propor uma nova política nas redes sociais, uma que identifica as pré-publicações como o problema. “Não vou mais tuitar sobre pré-publicações antes que outra pessoa que seja um especialista tenha tuitado a respeito”, ele disse, acrescentando: “Há muitas coisas na vida nas quais a gente gostaria de voltar atrás”. (Um porta-voz de Harvard se recusou a comentar sobre os tuítes de Feigl-Ding.)

    Maia Majumder, uma bioestatística e epidemiologista na Escola de Medicina de Harvard e no Hospital Infantil de Boston, disse que, agora que o público está demonstrando interesse pelas pré-publicações, os cientistas poderiam tomar atitudes para gerenciar proativamente a conversa. Por exemplo, páginas de pré-publicações poderiam ser cobertas por marcas d'água grandes dizendo que são preliminares, em vez de simplesmente terem um aviso no topo.

    E, no caso de autores de estudos compartilhando suas pré-publicações no Twitter, Majumder disse por e-mail: “Acredito que meus colegas e eu temos a obrigação de enquadrar as pesquisas de forma acessível ao público”.

    Steven Salzberg, professor de engenharia biomédica, ciências da computação e bioestatística na Universidade John Hopkins, estava entre os críticos do estudo do HIV. Naquela noite, ele tuitou: “e os teóricos de conspiração agora aprenderam a publicar artigos no @biorxivpreprint… que ótimo.”

    Mas até ele achou que “esse evento é uma demonstração fantástica sobre o valor dos servidores de pré-publicações”, disse Salzberg por e-mail na segunda-feira, após a retratação do estudo.

    “O artigo foi escrito rápido demais para reagir a uma crise, e os autores o enviaram sem dar a ele o tipo de escrutínio de que precisava”, ele escreveu.' “Se tivessem recorrido a um periódico, eles teriam que esperar meses para descobrir as falhas”. Na internet, ele apontou, o processo de correção foi concluído em apenas alguns dias.

    Contudo, só porque cientistas consideram o assunto resolvido, isso não significa que o público pense da mesma forma. Mesmo após a remoção da pré-publicação, ela continua a circular no Twitter.

    Na noite de segunda-feira, um usuário direcionou seus 18.000 seguidores a ela: “Por que a grande mídia anda tentando minimizar essa informação de como a gripe chinesa foi certamente criada em laboratório…”

    Dan Vergano contribuiu para esta matéria.


    Este post foi traduzido do inglês.

    Stephanie M. Lee is a science reporter for BuzzFeed News and is based in San Francisco.

    Contact Stephanie M. Lee at stephanie.lee@buzzfeed.com.

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