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O Game of Thrones da eleição no Corinthians

Néscio, canalha, vagabundo, ladrão, acéfalo, 171, filho da puta, ratazana, duas caras, pederasta, chefe de quadrilha, verme, coisa ruim, câncer, curva de rio. Esses foram alguns dos adjetivos trocados entre os envolvidos na disputa para presidente do Corinthians.

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— Como você vai fazer para pagar a Arena?

— Você vai arrumar as goteiras das churrasqueiras?

— Vai deixar o Carille no cargo?

A sabatina regada a pizza e cerveja, numa sobreloja nos arredores da praça Roosevelt, no centro de São Paulo, tem como alvo Felipe Ezabella, o mais jovem candidato a presidente do Sport Club Corinthians Paulista.

A fauna presente inclui senhores grisalhos, mulheres, estudantes e advogados, todos sentados em volta de uma velha mesa de madeira. Esse tipo de reunião é frequente nos dias que antecedem a eleição, que acontece neste sábado, 3 de fevereiro — principalmente porque esta promete ser a disputa mais acirrada para o cargo nos últimos anos, com a possibilidade de ser definida só nos tribunais.

O cargo de presidente do Corinthians não é remunerado, mas representa a possibilidade de governar uma das maiores forças esportivas do Brasil.

O Parque São Jorge, a sede social do clube, no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo, conta com 158 mil m², o maior conjunto aquático brasileiro, ginásios poliesportivos, playground, restaurantes, academia e lanchonetes — além das já citadas churrasqueiras, cujas goteiras são tema recorrente de preocupação dos sócios.

A administração do clube funciona em um edifício revestido em mármore com cinco andares, que ainda abriga um memorial do Corinthians, um salão nobre que pode acomodar 2.200 convidados e estacionamento para 800 carros.

Em termos de marketing, o atual campeão brasileiro possui a marca mais valiosa entre os times de futebol das Américas. Conforme a revista Forbes, o valor de mercado do Corinthians é aproximadamente R$ 1,8 bilhão. O orçamento do clube em 2018 prevê a arrecadação de R$ 282 milhões.

A representatividade, a visibilidade e o prestígio associados à cadeira de presidente do Corinthians ajudam a explicar a luta pelo poder no clube.

AQUI TEM UM BANDO DE LOUCO

São cinco candidatos a suceder Roberto de Andrade, que faz parte do grupo "Renovação e Transparência", no controle do Corinthians desde a eleição de Andrés Sanchez (presidente do clube por dois mandatos, de 2007 a 2011):

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Néscio, canalha, vagabundo, pilantra, ladrão, cachorro, idiota, acéfalo, 171, filho da puta, imbecil, calhorda, ratazana, duas caras, pederasta, bandido, chefe de quadrilha, criminoso, verme, coisa ruim, câncer e curva de rio.

Esses foram alguns dos adjetivos que escutei dos envolvidos na disputa pela presidência do Corinthians — candidatos ou seus apoiadores — a respeito de seus adversários políticos.

Os candidatos a presidente até conseguem evitar os ataques pessoais em público ou diante de câmeras e gravadores. Os apoiadores costumam ser mais descuidados.

O primeiro escândalo envolvendo a eleição no Corinthians se tornou público no início de dezembro. Em um áudio de WhatsApp, o atual secretário-geral do clube, Antônio Rachid, pediu a seus contatos que reunissem sócios inadimplentes para regularizar a situação deles no clube — e avisou que o candidato Paulo Garcia, da Kalunga, é quem vai pagar.

Via WhatsApp

“Bom dia, amigos, fiéis escudeiros. Vocês todos já devem saber que a diretoria lá mudou a regra do jogo, né? Na última hora. Então é o seguinte: se algum de vocês, na relação de votos tem alguns inadimplentes, que com certeza votarão na nossa chapa, eu vou ficar no clube lá até mais ou menos umas duas horas. Deve terminar lá pelas quatro, não sei, para tentar colocar alguém em dia. Quem achar que isso vale a pena. Mas com certeza de voto, né? Porque não vão pagar para os outros para votar em inimigo, não é verdade? Então, quem achar que dá, que vale a pena, vai me passando WhatsApp. Eu vou fazer o possível para colocar o maior número. Um abraço para vocês todos, bom domingo”, disse Rashid na mensagem.

A mudança das regras do jogo citada por Rachid é uma campanha da atual diretoria que dava até 50% de desconto para que sócios reativassem seus títulos, apesar de o estatuto do clube proibir qualquer anistia financeira um ano antes da realização das eleições.

Numa eleição, uma prática parecida com essa – oferecer vantagem financeira ao eleitor – tem rendido processos na Justiça Eleitoral e até cassação de mandatos por compra de votos.

Via WhatsApp

Em outro áudio, Rachid fala que quem vai proporcionar o pagamento é Paulo Garcia.

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"Eu não vejo problema nenhum em pagar para quem está apertado", disse Paulo Garcia ao BuzzFeed News. "Foi pouco. Tem que ver de onde algumas pessoas tiraram dinheiro para regularizar os inadimplentes. Os poucos que paguei eu passei no débito."

O vazamento dos áudios acabou gerando a retirada de 845 nomes da lista de sócios aptos a votar por parte da comissão eleitoral. (Apenas sócios adimplentes podem votar.)

A decisão prejudicou dois candidatos: Paulo Garcia, que estava se oferecendo para regularizar a situação dos sócios, e Andrés Sanchez, que poderia ser beneficiado pela campanha de descontos da atual diretoria.

“Essa comissão é uma bosta e não manda nada”, disse o vice-presidente do clube, André Luiz de Oliveira, o André Negão, apoiador de Andrés.

A suposta atuação de André Negão na campanha de descontos e a frase proferida renderam a ele um pedido de investigação no Conselho de Ética do Corinthians.

André Negão — que já trabalhou como cambista de jogo do bicho e sobreviveu a uma tentativa de assassinato em que levou sete tiros — é um dos personagens mais conhecidos da política do Parque São Jorge. Ele também foi alvo de condução coercitiva durante a 26ª fase da operação Lava Jato, em março de 2016.

Segundo a Polícia Federal, André Negão aparece com o codinome de "Timão" em uma planilha da Odebrecht e é suspeito de ter recebido R$ 500 mil em esquema que envolveu a construção do Itaquerão, o estádio entregue ao Corinthians em 2014. Na ocasião, André negou envolvimento em esquema de pagamento de propina para a obra.

Ele é o principal cabo eleitoral de Andrés Sanchez dentro do Corinthians.

O FAVORITO

“Todos veem o que você parece ser, mas poucos sabem o que você realmente é.” A frase do pensador renascentista Nicolau Maquiavel (1469-1527) adorna a parede da antessala do escritório político de Andrés Sanchez, no Tatuapé, zona leste de São Paulo.

Funciona também como um generoso aviso. Andrés Sanchez tem uma imagem folclórica por suas frases de efeito e os deslizes na norma culta do português, mas é capaz de dar um nó nos adversários que o subestimam.

Sua capacidade de criar fatos e manchetes é admirada até por rivais. “Você viu aquela declaração dele cutucando o Palmeiras e a [patrocinadora] Crefisa? Nisso ele é foda. A gente tem que reconhecer”, disse um conselheiro do Corinthians.

“Adoraria ter uma Crefisa. Só que no Corinthians a presidência não está à venda” (do eterno rei do sorriso e candid… https://t.co/OZJny2Pvvn

Dentro do escritório há outra frase: “Se não conseguir ajudar seu próximo, pelo menos... Não prejudique”. Dessa vez a citação é da lavra do próprio Andrés e explica um pouco de seu pragmatismo na política do clube.

Ele disse ao BuzzFeed News que, se vencer a eleição, irá se licenciar do cargo de deputado federal por cinco meses, mas não garante que não irá retomar o mandato ou se candidatar à reeleição na Câmara. “O futuro a Deus pertence.”

O telefone não parava de tocar e sinais de mensagem no celular apitavam constantemente. Andrés ignorava tudo isso enquanto falava sobre as acusações — infundadas, segundo ele — de envolvimento na Operação Lava Jato, por conta de sua proximidade com André Negão.

“É muito desagradável para mim e para minha família essa coisa de falar que estou na Lava Jato. Todo mundo sabe que é mentira. Eu tenho apenas averiguações lá no Supremo Tribunal Federal”, afirmou Andrés.

A história de Andrés Sanchez com o Timão começou cedo — precisamente em fevereiro de 1969, quando o seu pai adquiriu o título de número 100.492 do Corinthians. Com cinco anos, Andrés passou a frequentar o Parque São Jorge.

Aos 13 anos chegou a passar na peneira do dente de leite do Corinthians como lateral-direito, mas não conseguiu seguir o caminho até o futebol profissional.

Andrés fez fortuna trabalhando com um primo na empresa Sol Embalagens, que produzia redinhas para embalar frutas na central de abastecimento de São Paulo.

Passou a atuar na política do Corinthians em 1997, quando se tornou diretor-adjunto das categorias de base e conselheiro do clube. Acabou afastado do cargo no fim de 1999, durante a gestão de Alberto Dualib como presidente.

Por influência de André Negão, Sanchez voltou a frequentar o universo político do clube e em 2003 se tornou conselheiro vitalício. A partir daí começou a formar o "Renovação e Transparência", que fez oposição a Dualib até conseguir afastá-lo do clube — que presidia desde 1994 — em 2007.

Com Dualib fora, Andrés foi eleito presidente em eleição indireta no conselho do clube exatamente sete jogos antes da queda do Corinthians para a Série B do Brasileirão.

Apesar do baque inicial pelo rebaixamento em 2007, parte da torcida e dos sócios tem a percepção de que foi a gestão de Andrés que pavimentou o caminho para as conquistas do clube nos últimos anos, como os títulos da Libertadores e do Mundial de Clubes em 2012 — tanto que ele é considerado o favorito para a eleição deste ano.

A decisão de segurar o técnico Tite após uma eliminação vexatória para o pequeno Tolima, da Colômbia, na Libertadores de 2011 é considerada um dos grandes acertos de Andrés. Foi Tite quem comandou o time nas conquistas de 2012.

Seus opositores enxergam ingerência de Andrés nas duas últimas administrações. “Todo mundo fala que eu sou a pessoa mais influente no Corinthians. Eu também acho, mas não mandei em nada na presidência de ninguém”, disse Andrés.

Pergunto sobre uma acusação feita por Roque Citadini: que Andrés seria responsável pelo abismo financeiro no clube ao não ter recolhido impostos em sua administração.

Irritado, ele responde com outra acusação: “Pergunta para o Roque se houve recolhimento de impostos em 2003 e 2004 [quando Citadini era vice-presidente de futebol do clube]? Isso é ridículo. Não é que eu soneguei. Eu deixei de pagar. O dado estava no balanço e todo mundo no clube sabia que o clube estava devendo”, disse.

“Muita gente fala o que quer. Falam que sou bandido. Falam que você é péssimo jornalista. Falam que não-sei-o-quê. Cada um fala o que quer!"

Em defesa à Arena, Citadini lembra crime fiscal de Andrés: 'Arrebentou com as finanças' https://t.co/i8lmlEvRjl

Também incomodam Andrés as propostas de seus rivais para lidar com a dívida do Itaquerão — o clube deve R$ 977 milhões para a construtora da Arena Corinthians e mais R$ 491 milhões para a Caixa Econômica Federal.

“Tem gente que quer tirar a Odebrecht no outro dia. Eles que são ricos que façam o cheque. Se tiverem dinheiro para pagar eu vou aplaudir", afirmou Andrés.

"Falam é que o estádio é elitizado. Porra! O valor médio do ingresso é R$ 32. Isso é caro? O ingresso do Corinthians é um dos mais baratos entre os times grandes... Tirando os desesperados do São Paulo."

LIMINAR

Fui recebido por Antonio Roque Citadini, veterano em eleições no clube, em sua casa na Bela Vista no dia duelo entre Al-Jazira e Real Madrid pelas semifinais do Mundial de Clubes da Fifa. A partida estava inacreditavelmente sendo vencida pelo time árabe com gol do ex-jogador corintiano Romarinho.

“Gosto muito desse menino. Ele não sente pressão. Jogar contra o Real Madrid ou jogar o Paulistão é a mesma coisa para ele”, disse Citadini. O clube espanhol acabou virando o jogo logo depois.

Citadini concentra seus ataques verbais a Andrés Sanchez, que considera culpado pela atual situação financeira do clube. “Na gestão do Andrés se recolhia imposto e não se repassava para a receita. A consequência disso é que isso acabou abrindo um buraco.”

A situação financeira do Corinthians é bastante complicada. Reportagem da Folha de S.Paulo do último dia 16 aponta que o clube tem o maior título de dívidas registradas em cartório entre as 12 maiores agremiações no país. Os 53 protestos juntos somam R$ 799.967,24.

Conforme o último balanço oficial, o Corinthians deve R$ 472 milhões, sem contar os valores financiados do Itaquerão — que, sozinhos, chegam a R$ 1,338 bilhão se descontados os valores dos CIDs (Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento) emitidos pela Prefeitura de São Paulo na gestão de Gilberto Kassab.

Os CIDs foram contestados pelo Ministério Público de São Paulo, que enxergou irregularidades no projeto de lei que criou os títulos.

A insegurança jurídica provocada pela investigação foi o maior empecilho para a venda de papéis, segundo o clube. Com a atualização monetária, os CIDs valem atualmente cerca de R$ 490 milhões.

Até o momento o Corinthians conseguiu comercializar R$ 50 milhões destes títulos. Ou seja: sem levar em conta o valor dos CIDs, a dívida da Arena salta para quase R$ 1,8 bilhão.

Citadini é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Ele disse que, caso eleito, irá conseguir conciliar suas atividades profissionais com a gestão do clube.

A comissão eleitoral do Corinthians, no entanto, decidiu impedir a candidatura de Citadini no último dia 15, sob a justificativa de que a Constituição Federal veda que magistrados ocupem outro cargo, com exceção de um de magistério. Ele se manteve na disputa graças a uma liminar obtida uma semana depois.

"CORINTHIANS NÃO É CARIDADE"

Quem também teve a candidatura cassada pela comissão eleitoral é Paulo Garcia — justamente pela acusação de pagar as dívidas de sócios inadimplentes. A decisão é de segunda-feira (29) e Garcia anunciou que vai recorrer.

A família de Paulo Garcia é uma das mais tradicionais do Corinthians — tanto que sua empresa foi a primeira a ter uma longa relação de patrocínio com o clube, exibindo a marca na camisa do Corinthians entre 1985 e 1994. A Kalunga é a maior rede de papelarias do país, com 175 lojas e faturamento bilionário.

Agora, Paulo Garcia quer ser presidente do clube com o discurso de que vai implantar de vez uma gestão profissional no Corinthians.

"Eu quero ser presidente do Corinthians porque eu tenho condições de ajudar e tempo", disse Paulo Garcia. "Só não vou colocar dinheiro da Kalunga porque o Corinthians não é caridade."

Em fóruns e redes sociais, torcedores e sócios do clube levantam a possibilidade de que sua candidatura é apenas um balão de ensaio para dividir ainda mais os votos da oposição e favorecer a candidatura de Andrés. "Não me incomoda que falem. Isso é Corinthians... Tem sempre alguém tentando inventar história."

Uma de suas principais bandeiras de campanha é aprovar um plano diretor para os próximos dez anos.

"O Corinthians é hoje um clube social envelhecido, praticamente só de homens. Você vê poucas crianças e mulheres. O sujeito vai para o clube no fim de semana e, em vez de ter um prazer, tem um dissabor porque quando chega em casa a mulher reclama que não tem atenção no fim de semana", afirmou.

DEMOCRACIA CORINTIANA

Romeu Tuma Jr., ex-delegado, ex-deputado estadual, ex-secretário nacional de Justiça no governo Lula e agora inimigo declarado do PT, disse que decidiu se candidatar a presidente do Corinthians por estar "cansado de ver coisas erradas".

Acionou a comissão eleitoral do Corinthians para anular o direito de voto dos sócios beneficiados pela onda de descontos. E está processando o jornalista Juca Kfouri por um texto em que o chama de "mitômano" (aquele que tem o hábito de mentir ou fantasiar desenfreadamente, segundo o dicionário Houaiss) e o critica por usar o nome "Democracia Corinthiana Participava" para sua chapa na disputa a presidente do clube.

Democracia Corintiana é o nome do movimento liderado por jogadores politizados do Corinthians no início dos anos 80, como Sócrates e Casagrande, que defendia a redemocratização do país. O Brasil ainda vivia a ditadura militar (1964-1985).

"O Tuma usa [o nome] Democracia Corintiana, que é, evidentemente, um movimento que não pertence a nenhuma chapa de candidatura no Corinthians. É uma coisa histórica que não pode ser usada da maneira que ele usou", disse Juca Kfouri ao BuzzFeed News. "Ele acrescenta ainda a palavra 'participativa'. Eu pergunto se você conhece alguma democracia que não seja participativa. Essa é minha crítica."

Tuma Jr. acredita que tem todo o direito de usar o nome da Democracia Corintiana em sua chapa.

“Meu pai [Romeu Tuma, morto em 2010] foi membro do CORI [Conselho de Orientação Fiscal] na época da Democracia Corintiana. E eu recebi o apoio do Wladimir, ídolo do Corinthians e um dos principais nomes da Democracia Corintiana. Ele me apoia porque ele conhece o meu projeto.”

LAVA JATO

A eleição de 2018 marca uma mudança nas regras. Até a última disputa, três anos atrás, cada candidato a presidente encabeçava uma chapa com mais 200 conselheiros. (Para efeito de comparação, a ala de baianas da Mangueira tem 70 integrantes.)

O vencedor automaticamente passava a ter uma maioria no conselho deliberativo do clube.

O modelo foi alterado para o das chapinhas: grupos de 25 candidatos ao conselho do clube que podem apoiar uma candidatura a presidente ou se posicionar como independentes. Um dos grupos apoiadores de Tuma Jr. é a chapinha "Lava Jato".

É liderada pelo empresário Roberto W. Miguel, dono de um perfil no Facebook com 100% de postagens dedicadas à política no Corinthians.

“Montei esse perfil com a única finalidade de acabar com o André Negão. Esse cara é um câncer dentro do clube. É o que mais faz falcatrua", disse. André Negão foi procurado pela reportagem, mas não quis comentar.

O nome da chapinha era inicialmente "Lava Jato no Timão". "Meu filho fez a numerologia disso e me convenceu a usar apenas 'Lava Jato'", disse Miguel.

O nome também é, claro, uma alfinetada em Andrés Sanchez. “O Andrés é o Lula aqui dentro. Essa é a verdade. Tanto que tem gente que fala 'Eu sei que ele rouba, mas eu voto nele'. Eu não penso dessa maneira. Eu sou da linha de que bandido bom é bandido morto. Só que aqui no Brasil não se pode matar... Infelizmente”, afirmou Miguel.

“Fechei com o Tuma porque ele é da minha raça. A gente que é libanês acredita muito na força da palavra. Nossa palavra é maior que a lei. Para o Tuma eu garanto uns 200 votos sozinho. E pode escrever aí que a nossa chapa será a primeira colocada”, disse.

FESTA NA FAVELA

Nenhum candidato sabe exatamente o tamanho do colégio eleitoral do clube.

Historicamente votam cerca de 3.000 sócios, mas o número de remidos — associados que não pagam mais mensalidade, seja pela compra de cotas no passado ou por terem sido agraciados com o título por algum dirigente — que podem comparecer é incerto.

Entre as 8.280 pessoas que desfrutam dessa condição no Corinthians, muitas já estão mortas, como mostrou reportagem do UOL.

O dinheiro da campanha é gasto em camisetas, jingles, bandeiras, adesivos, churrascos, cerveja, chope, eventos e cachês das modelos que fazem a panfletagem no clube.

“Em vez de investir dinheiro com churrasco, pernil e cerveja, a gente decidiu investir em um estudo da Universidade do Futebol que pode ser baixado por qualquer um. Se nossos rivais vencerem podem acessar e usar essas ideias”, disse Felipe Ezabella, sócio-fundador de Goffi Scartezzini Advogados Associados e especialista em gestão esportiva pela FGV.

A chapa de Ezabella não revela os valores investidos, mas o custo desse tipo de estudo varia entre R$ 30 e R$ 50 mil.

A chapinha "Só Corinthians" critica o estilo de campanha dos adversários.

“Somos uma chapa formada por gente que se conhece da arquibancada", disse o corretor de seguros Albertino Junior, o Tico, um dos fundadores do grupo.

"Não temos padrinhos nessa eleição e nossas propostas são puramente ideológicas. A gente vai brigar com ideias e não ficar fazendo essas festas e churrascos aí para tentar convencer alguém."

A possibilidade de contratar modelos para panfletagem foi descartada. “Não temos mulheres seminuas panfletando nossas propostas porque não acreditamos que esse seja o papel da mulher em uma eleição no Corinthians", disse a jornalista Leonor Macedo.

"A gente defende que a mulher ocupe lugares de decisão, que possa dar a sua opinião, ser ouvida, e não meramente sorrir, acenar e entregar propostas feitas por homens que não pensam ou pensaram nelas na hora de redigi-las”, afirmou a integrante da chapinha.

BATALHA JURÍDICA

Uma das últimas notícias que abalaram a eleição do Corinthians se deu com a revelação, pelo blog de Ricardo Perrone, de um empréstimo de R$ 200 mil pelo empresário Carlos Leite ao clube. Parte da oposição acusou a atual direção de usar o dinheiro para ajudar a pagar sócios inadimplentes em troca de votos para Andrés Sanchez.

“Se o Carlos Leite tem um amigo no Corinthians que pediu dinheiro emprestado e esses valores foram depositados oficialmente no clube... Qual o crime disso? Sou contra dar desconto para inadimplente. Mas a decisão da diretoria foi feita às claras”, disse Andrés.

No último dia 22, o caso foi analisado pela comissão eleitoral do Corinthians — e a candidatura de Andrés foi mantida.

A briga na Justiça continua, no entanto, para Roque Citadini, considerado o oposicionista com as maiores chances eleitorais e mantido no páreo por um liminar (decisão provisória), e para Paulo Garcia, que ainda depende de uma decisão favorável na Justiça comum até sexta-feira, dia 2.

No final do dia 3, se o vencedor não estiver com a situação pendente, mágoas e rivalidades devem ser paulatinamente apaziguadas entre cumprimentos, cervejas, chopes e a fumaça dos churrascos. É assim a democracia no Parque São Jorge.

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Jornalista e roteirista

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