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Algumas das lutadoras mais fodas do mundo estão no Senegal

"Se você é uma mulher diola, você luta até ter filhos. A luta é o nosso jeito de mostrar feminilidade", disse Marie-Thérèse Sambou, bisavó de 67 anos,

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ZIGUINCHOR, Senegal — Era a hora do almoço, e Marie-Thérèse Sambou, uma bisavó de 67 anos, relembrava sua juventude como lutadora em torneios nas aldeias próximas. "Se você é uma mulher diola, você luta até ter filhos."

"A luta é o nosso jeito de mostrar feminilidade", disse ela, sentada na frente de sua casa em Djibetene, pequena aldeia entre os arrozais da região da Casamansa, no sul do Senegal.

Entre os parentes reunidos ao redor dela — incluindo sobrinhos, sobrinhas e um idoso que gentilmente tirava um espinho da perna de uma cabrita —, estavam duas das maiores lutadoras da África.

Eveline Diatta, 41, filha de Marie-Thérèse, foi uma das primeiras lutadoras a representar o Senegal internacionalmente e hoje é a treinadora principal da Seleção Feminina de Luta Livre. Ela estava cuidadosamente trançando o cabelo de Isabelle Sambou, que ganhou nove medalhas de ouro no Campeonato Africano de Luta Livre e que também representou o Senegal duas vezes nas Olimpíadas.

A luta livre feminina ainda é relativamente nova nas Olimpíadas; ela estreou somente em 2004, um século depois que os homens começaram a competir nesta modalidade nos Jogos Olímpicos modernos. No entanto, na Casamansa, ela está longe de ser um fenômeno moderno, remontando a milhares de anos e à cultura do esporte em toda a África subsaariana.

O estilo de luta livre mais popular no Senegal, uma variante chamada laamb, remonta a séculos, quando era usada para celebrar as colheitas. Entre o povo diola, as técnicas eram passadas durante os ritos secretos de iniciação masculina, que culminavam com apresentações em festivais. Na maior parte do Senegal, no entanto, as mulheres ainda estão proibidas de lutar — em parte por causa de valores religiosos conservadores e, em parte, porque elas são proibidas de assistir a alguns dos ritos místicos que cercam o esporte.

"Em algum ponto, a corte real de Oussouye decretou que algumas mulheres também poderiam mostrar suas habilidades nesses festivais", explicou Abdou Ndao, antropólogo de Dakar. Essa decisão, possivelmente tomada nos anos 1400, de início visava o "entretenimento" durante certos festivais patrocinados pelo próprio rei.

Ricci Shryock for BuzzFeed News

À esquerda, Eveline Diatta, treinadora principal da seleção nacional feminina de luta livre do Senegal, trança o cabelo de Isabelle Sambou, que representou o Senegal duas vezes nas Olimpíadas. À direita, jovens competem na luta tradicional antes que as mulheres entrem no ringue no Festival do Rei de Oussouye.

Marie-Thérèse disse que sua avó lhe contou por que as mulheres lutavam no passado. "Para defender a honra de nossa aldeia", disse sem rodeios. "Uma vitória para mim era uma vitória para a aldeia."

Hoje em dia, a glória vem na forma de combates televisionados apoiados por patrocinadores. Os melhores lutadores masculinos recebem o patrocínio de empresas, dezenas de milhares de dólares por luta e o carinho de fãs que acompanham o esporte mais popular do Senegal. Para as mulheres, é diferente. Espera-se que elas abandonem a luta livre após o casamento — para se concentrar em ter filhos —, então a breve chance de se tornarem lutadoras profissionais vem durante alguns festivais locais. Centrados nos combates de luta livre, esses eventos atraem grandes multidões — e olheiros do país inteiro.

Em 1997, Lansana Coly, então treinador-júnior da seleção masculina, estava em uma reunião internacional no Egito quando teve uma súbita iluminação. Naquela época, as mulheres já competiam internacionalmente há uns 10 anos, mas ninguém nem sequer havia considerado a possibilidade do Senegal ter uma seleção feminina. "Eu via outros países que tinham seleções femininas e pensava: Eu tenho vizinhas que lutam melhor que isso", disse Coly, hoje treinador da seleção nacional masculina. Visto que as regras do laamb são semelhantes às da luta livre internacional, Coly achou que muitas mulheres poderiam participar. Ele voltou para casa e começou a tentar influenciar autoridades a tornar a seleção feminina uma realidade.

Um ano depois, Coly assistiu aos combates de luta livre feminina no final do Festival do Rei de Oussouye, uma festa de colheita anual de duas semanas, e escolheu três das lutadoras mais promissoras. Eveline, na época com 22 anos, estava entre elas. Depois de apenas 10 dias de treinamento intenso na capital, Dakar, a seleção viajou para o campeonato africano de luta livre no Marrocos. Eveline voltou para casa com a medalha de prata.

Duas décadas depois, Eveline trabalha como treinadora da seleção feminina e tenta convencer jovens a competirem fora do país. Paradoxalmente, embora tenham surgido oportunidades para lutar além da Casamansa, poucas mulheres diola querem continuar no esporte.

Uma estranha mistura de tradição e modernidade diminuiu a popularidade do esporte entre as mulheres. Existem barreiras tradicionais: apesar de ser uma lutadora talentosa, a mãe de Eveline fugiu à regra ao permitir que sua filha continuasse competindo, mesmo depois de se casar. Além disso, a vida moderna atropelou os valores tradicionais. "As pessoas viajam hoje em dia; elas saem da aldeia e têm vidas diferentes. Quando voltam para casa, elas veem a luta livre como algo do passado e querem ser mais modernas", disse Coly.

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Mas, para Isabelle, cujo comportamento articulado e amistoso esconde o arrependimento de nunca ter terminado o ensino fundamental, a luta livre abriu as portas. E ela luta para mostrar que o esporte pode fazer o mesmo por outras mulheres.

Quando começou a alistar as cidades em que lutou — Nova York, Rio de Janeiro, Las Vegas, Moscou, Tóquio, Montreal, Bucareste — uma de suas primas posicionou um monte de folhas de amargoseira na frente do rosto dela, como se estivesse segurando um microfone. Ela riu e deu um soco de mentirinha.

Existe um misto de orgulho e incredulidade, entre as famílias, de que uma menina que nasceu em uma casa de blocos de concreto de três cômodos tenha chegado tão longe. Em seu quarto, com paredes rebocadas decoradas com um quadro solitário da Virgem Maria, Isabelle cuidadosamente colocou cinco das medalhas que ganhou ao longo dos anos. Ela ficou em quinto lugar nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, no ano passado, mas considerou esse o ponto alto de uma carreira que começou em 2001 e culminou com sua nomeação para lutadora africana da década.

"Eu luto desde que era deste tamanho", disse ela, posicionando a mão na altura do joelho. "Eu enfrentava os meninos também." Depois de uma briga feia com um grupo de meninos, um primo sugeriu que ela se tornasse profissional. Quando ela tinha 21 anos — "a idade para casar" —, amigos e desconhecidos passaram a desencorajá-la: "Seu corpo vai ficar igual ao de um homem; você vai parecer um homem. Você não vai encontrar um marido; não vai poder ter filhos."

Mesmo assim, entre o trabalho como empregada e babá, Isabelle treinava o máximo possível. "Eu não dei ouvidos à negatividade. Eu gostava de lutar."

"Sempre que você faz algo diferente na vida, mesmo que não seja luta livre, tem gente querendo desincentivar você."

Sua persistência acabou valendo a pena quando Coly a selecionou durante o festival. Essa é uma mensagem que ela tem passado às jovens antes das festividades deste ano, em que ela estará presente com Eveline e Coly para procurar novas lutadoras. Muitas vezes, é bem difícil, admitiu. Menos de 24 horas antes de terem uma chance no ringue, todas as jovens que ela conhecia estavam cuidando dos campos de arroz. "Nós, meninas, não temos tempo para treinar", disse ela.

Na última manhã do festival, três mulheres jovens — todas da seleção nacional — estavam deitadas na cama de Isabelle, conversando e dividindo um pote de doce de leite.

Binette Diatta, 23, comentou como todas as suas amigas, uma por uma, deixaram de praticar o esporte que amavam quando eram crianças. "Isso me magoa, porque todas nós costumávamos brincar juntas; a gente lutava no festival todos os anos", disse ela.

Em um país com uma grande disparidade de gênero, o patrocínio dos esportes femininos é quase sempre deixado em segundo plano. Binette só continuou porque tinha uma tia que a incentivou — a treinadora Eveline. "Saber que eu tive a coragem de continuar lutando me ajudou a progredir em outros campos. Você aprende tantas lições — não tem só a ver com o esporte", disse ela.

Nem todas as meninas que estão cotadas para a seleção nacional têm essa mesma confiança. Helen Sambou, de 14 anos, com covinhas e tranças rasteiras, é tão tímida que parece quase se desculpar por existir. No dia do festival, ela estava tão nervosa que não conseguia nem falar.

"Nós a colocamos na lista — agora depende dela provar seu valor", disse o treinador Coly.

O sonho de Helen é seguir os passos de sua prima, Isabelle, e um dia ir para as Olimpíadas. Mas, naquela manhã, ela tinha sido tomada por um ataque de ansiedade, com dúvidas se conseguiria agarrar a oportunidade de lançar sua carreira no festival.

Sua prima mais velha a tinha chamado de lado e falado gentilmente com ela. "Eu disse que a luta livre tem que vir do coração; ninguém pode obrigá-la. Mas ela não tem nada a perder tentando."

As centenas de pessoas reunidas para as festividades não ajudaram nem um pouco a acalmar Helen. Sua expressão ficou ainda mais franzida à medida que homens e meninos entravam na arena empoeirada, abrindo a cerimônia. Ela ficou observando silenciosamente, com as mãos suadas bem fechadas e os olhos se movendo nervosamente entre os combates simultâneos que aconteciam. O ar estava carregado de testosterona. Os espectadores gritavam alegres comemorações depois de cada vitória.

Por fim, chegou o momento de glória das meninas.

Havia garotas com penteados afros e blusinhas com babados, adolescentes que marcavam o chão enquanto suas adversárias caíam e outras que riam e ajudavam as perdedoras depois de uma vitória. Mulheres mais velhas separavam as lutas que ficavam muito difíceis.

Os combates são livres, e as adversárias normalmente se juntam espontaneamente quando duas lutadoras entram no ringue; outras vezes, uma lutadora desfila na frente dos espectadores, com os braços levantados de forma ameaçadora, e outra lutadora aceita o desafio.

Hoje, ninguém queria lutar com Helen. Dez minutos se passaram. O tempo estava se esgotando — as lutas femininas ocorrem bem no final do festival, e tudo acontece em pouco mais de meia hora. Depois de mais alguns minutos, a própria Isabelle se juntou à prima dentro do ringue, pedindo a alguém — qualquer pessoa — para dar um passo à frente. Em certo ponto, ela ficou na frente de um grupo de jovens lutadores, todos homens. Eles desviaram o olhar.

Por fim, outra adolescente deu um passo à frente.

Uma coluna de força, a desafiante estava toda vestida de preto e vermelho, com os cabelos presos para trás numa rede. A feição de Helen mudou completamente, revelando seu nervosismo. Mas ela deu um passo à frente, fechou os olhos e começou a lutar. A multidão ficou em silêncio. Mudando de base de repente, a adversária jogou Helen atordoada na areia. Fazendo uma careta, Helen inclinou o corpo de tal forma que seus ombros não tocassem o chão — ela havia caído, mas não estava fora.

Existem três formas de uma luta de laamb terminar: quando os ombros, as duas mãos ou os joelhos de um lutador tocam o chão, se a multidão apoiar esmagadoramente um lutador, ou se o juiz entrar para separar os lutadores em um desempate. Com as duas meninas pingando de suor após minutos de luta, uma juíza acabou estabelecendo um desempate. A multidão reclamou. "Ainda não acabou!", alguém gritou.

"Ela ainda tem que fazer mais para provar seu valor", disse Coly, balançando a cabeça, enquanto Helen, abatida, se afastava.

No entanto, ele estava contente, pois havia encontrado outras duas estrelas em potencial — na teoria, também rivais de Helen. Uma delas, Alouisia Sambou, de 14 anos, é filha de um ex-campeão de luta livre. Seu pai, orgulhoso, não parava de falar sobre ela, enquanto Coly perguntava se ela queria receber treinamento. "Deixe-a falar por si mesma!", disse Eveline, exasperada. O pai ficou surpreso, mas depois concordou. "Tá, tá, você está certa, você está certa", respondeu encabulado.

Alouisia sorriu e ficou mexendo os dedos por um momento. "Eu estava com medo antes de entrar no ringue", disse. "Eu não achava que ia ganhar. Mas eu entrei e ganhei."


Este post foi traduzido do inglês.

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Monica Mark is the West Africa Correspondent for BuzzFeed News and is based in Dakar, Senegal.

Contact Monica Mark at monica.mark@buzzfeed.com.

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