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Ele construiu um império com o Angry Birds. Agora, quer ir para debaixo da terra — literalmente

Após acumular bilhões de downloads com seu game de sucesso, Peter Vesterbacka — o pai do Angry Birds — quer construir o túnel submarino mais extenso do mundo.

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Peter Vesterbacka anda cansado da destruição. Seu famoso game para aparelhos móveis, Angry Birds, dominou o mundo após ser lançado em 2009, gerando continuações, produtos oficiais e um longa-metragem, todos eles dedicados a pássaros derrubando torres. Atualmente, depois de quase uma década, ele está pronto para se afastar da franquia e construir algo inteiramente novo: um túnel gigante de 18 bilhões de dólares entre dois países.

O porém? O túnel, que medirá mais de 128 km, será quase completamente subaquático.

"A escavação custa só uns bilhões [de euros]", disse Vesterbacka, vestindo jeans e o casaco vermelho que é sua marca registrada, ao BuzzFeed News em dezembro, em um restaurante em Manhattan (Nova York, EUA).

Para Vesterbacka, um túnel e uma ferrovia de alta velocidade entre Helsinque, a capital da Finlândia, e Talin, a capital da Estônia, fazem todo o sentido. O túnel proposto começaria no aeroporto de Talin, mergulharia sob o Golfo da Finlândia no Mar Báltico e teria três paradas na Finlândia — uma ilha artificial que Vesterbacka pretende construir perto de Helsinque, outra na própria cidade e, finalmente, uma no aeroporto de Helsinque.

"Digamos 15 bilhões, e aí está feito. É bem grande", disse, entre uma mordida e outra no seu hambúrguer.

A ideia de conectar os dois países surgiu pela primeira vez em 1871, em um plano que não pareceria absurdo em uma fase de Angry Birds, com estudantes finlandeses propondo a construção de uma ponte que seria elevada por balões enormes que a manteriam acima do mar. A ideia de construir um túnel veio à mente de Vesterbacka durante um jantar em uma conferência em Talin, em maio de 2016. "Quando finlandeses e estonianos se reúnem, geralmente começam a conversar sobre a necessidade de cooperarem mais", disse. "Aconteceu novamente e aí eu pensei: 'OK, eu vou construí-la'. Vamos fazer acontecer."

Vesterbacka, confiante como sempre em seu casaco do Angry Birds, levantou-se e andou até a mesa de jantar da então ministra de Relações Exteriores da Estônia, Marina Kaljurand. "Acabamos de decidir que vamos construir um túnel", disse à ministra.

"Quem exatamente?", perguntou ela. Os dois nunca haviam se encontrado antes.

"Meus amigos e eu. Eles estão sentados em uma mesa logo ali."

Kaljurand confirmou para o BuzzFeed News o relato da primeira conversa de ambos feito por Vesterbacka. "Olhei para ele um tanto ceticamente, como um finlandês empolgado e bem ingênuo. Mas quando ele apresentou seu histórico, começou a soar mais convincente", disse Kaljurand.

Sua primeira impressão foi sólida: Vesterbacka era ingênuo. Após se comprometer a concretizar o projeto em cinco anos, ele percebeu que o túnel de base de São Gotardo, que atravessa os Alpes Suíços, levou 20 anos para ficar pronto. Atualmente, é o maior túnel de transporte do mundo, tendo sido inaugurado finalmente em 2016.

Hoje, 18 meses depois, ele diz que não precisa ser um especialista para construir o túnel — há outras pessoas para isso.

"Construir um túnel é diferente de desenvolver um jogo, mas não tão diferente assim", disse ao BuzzFeed News. "É uma questão de fazer as coisas acontecerem e de reunir as pessoas certas."

Algumas pessoas continuaram céticas quanto à sua capacidade de cumprir a proposta. "Se elas optaram por subestimar minha capacidade de fazer as coisas acontecerem, o problema é delas", disse Vesterbacka.

Ele já reuniu duas empresas de engenharia com experiência na construção de túneis em grande escala, incluindo um túnel de água servida no México, medindo mais de 60 km, e um depósito de combustível nuclear irradiado em construção na Finlândia. Elas já iniciaram o planejamento preliminar do que, quando finalizado, será, na realidade, um par de túneis gêmeos paralelos, mas ainda estão aguardando a verba ser oficialmente empenhada antes de começarem a construção.

Markku Oksanen, o presidente da unidade da Pöyry no norte europeu, disse ao BuzzFeed News que a tecnologia utilizada para construir o túnel Helsinque-Talin seria a mesma atualmente em uso no México. "Tecnicamente não é nada muito especial e é viável", disse Timo Saanio, vice-presidente do AINS Group e responsável pela engenharia geológica e ambiental, em uma entrevista pelo Skype.

Vesterbacka diz que 70% do dinheiro pelo qual todos estão aguardando virá da China — mas ele ainda não revelou precisamente quem na China fornecerá o dinheiro. (Em uma entrevista ao jornal finlandês "Helsingin Sanomat" em setembro, Vesterbacka disse ter aprendido mandarim como parte do processo, porque "se for para pedir 15 bilhões de euros, é mais educado fazer isso no idioma deles".) O resto viria de fundos de pensão pública administrados por bancos escandinavos.

Aqueles que acompanham os esforços de Vesterbacka permanecem cautelosamente otimistas com o que estão vendo. Dois dentre os que conversaram com o BuzzFeed News — o ex-primeiro-ministro estoniano Taavi Rõivas e o empresário do setor de TI Taavi Kotka — conhecem Vesterbacka pessoalmente e estão a par do projeto do túnel. Nenhum deles duvida que ele possa obter o dinheiro para financiar o projeto, apontando para o histórico de Vesterbacka nos negócios e suas visitas bimestrais à China durante os últimos seis anos. "Apesar de eu achar que ele tenha uma boa chance de conseguir o dinheiro, temo que ele esteja otimista demais quanto ao tempo que levará para obter todas as licenças ambientais necessárias", disse Rõivas, que atualmente é membro do Parlamento. (Nem Kotka nem Rõivas serão beneficiados financeiramente pelo projeto de Vesterbacka.)

Vesterbacka diz que, segundo um estudo solicitado à PricewaterhouseCoopers (PwC), o projeto pagaria a si mesmo em 37 anos. A PwC confirmou ter realizado o estudo, observando que "37 anos foram mencionados no relatório — apesar de haver certas suposições por trás dessa estimativa". Uma porta-voz da PwC declarou que, pelo fato de o relatório ser confidencial, a empresa não poderia fazer mais comentários publicamente sobre ele.

"Fazer um plano detalhado, anunciar os parceiros chineses e garantir a verba, obter as licenças, começar a perfuração. É basicamente isso", disse Vesterbacka, contando os próximos passos — que parecem um tanto intimidadores para quem vê de fora.

Mas são as licenças e outras questões legais que têm se provado as mais difíceis de resolver. Atualmente, a União Europeia está conduzindo um estudo preliminar sobre a viabilidade de construir o túnel, com resultados iniciais previstos para o mês que vem. Vesterbacka reconhece que o prazo que ele propôs é agressivo — ele quer começar a perfuração ainda neste ano — mas acredita que as licenças ambientais podem ser aceleradas.

Nesse sentido, ele afirma que regularmente se reúne com políticos de ambos os países para mantê-los a par do projeto e ganhar apoio político. Ele diz ter informado o primeiro-ministro finlandês, Juha Sipilä, pela última vez no início de dezembro, durante um evento comemorativo dos 100 anos da independência da Finlândia. Os primeiros-ministros dos dois países, reunidos em Paris para uma conferência sobre o clima em dezembro, concordaram, entre outras coisas, em marcar uma reunião sobre o túnel em fevereiro, após a conclusão do estudo realizado pela União Europeia. (Quando contatado, o gabinete do primeiro-ministro não confirmou nem negou a realização da reunião entre Vesterbacka e Sipilä.)

Vesterbacka argumenta que o túnel não apenas ligaria duas cidades, como também criaria uma grande região metropolitana. Quando o túnel for finalizado, o tempo de viagem para as 10 milhões de pessoas que viajam entre as duas cidades anualmente cairá das duas horas atuais em uma balsa para 20 minutos em um trem de alta velocidade. Segundo ele, isso faria da região — rotulada por ele "the FinEst Bay Area" (um trocadilho em inglês com as três letras iniciais de cada país do túnel e a palavra "finest", "a mais bela", além de uma referência à Bay Area, famosa região metropolitana no Estado americano da Califórnia) — o novo coração da Europa e, por fim, da Eurásia.

Um Vale do Silício Nórdico, mas "sem seus enormes problemas habitacionais", é a verdadeira meta de Vesterbacka, e o túnel é apenas uma peça do quebra-cabeças. Ele também pretende construir moradias para 50 mil pessoas ao longo das paradas do túnel, inclusive na ilha artificial. Ele também quer trazer 150 mil estudantes estrangeiros para a Finlândia e 30 mil para a Estônia, tudo com a finalidade de fazer a região crescer mais rapidamente e ser mais competitiva do que a China.

O túnel vai além dos negócios, segundo Vesterbacka. "É importante para a Europa também. França, Alemanha e o Reino Unido são completamente incapazes de fazer qualquer coisa. É muito importante que os países nórdicos avancem e mostrem liderança", disse.

Uma boa data para abrir a conexão seria 24 de dezembro de 2024, disse Vesterbacka, acrescentando que, contudo, seria um pouco mais tarde do que ele gostaria. "Com todas as licenças, talvez seja realista. Se pudermos fazer mais rápido, ótimo. Se não, no Natal de 2024 está bom."

Quando questionado sobre para qual direção o primeiro trem a atravessar o túnel irá, ele pausou para pensar na pergunta. "Teremos dois túneis, portanto provavelmente teremos um trem indo até cada uma das pontas ao mesmo tempo."

Este post foi traduzido do inglês.

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Journalist

Contact Holger Roonemaa at holger.roonemaa@gmail.com.

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