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Mulheres contam como é sentir medo a toda hora e em todo lugar — e o que fazem para se proteger

"Um homem andando à noite pela rua vai ter medo, no máximo, de roubarem seu celular. Enquanto nós, mulheres, pensamos nas mil e uma possibilidades diferentes de coisas ruins que podem ocorrer.
"

Depois que publicamos o post Estas são as coisas absurdas que as mulheres fazem para se sentirem seguras ao correr, muitas mulheres comentaram como é sentir medo de violência o tempo todo e em qualquer lugar.

Conversamos com algumas delas, que contaram o que fazem para se proteger:

Jessica Cavalcante, 30 anos, de São Vicente (SP)

Jessica Cavalcante

Use um coque. Cabelo solto é fácil de pegar, rabo de cavalo mais ainda. Coque é curto.

Outras sugestões: sombrinha na mão, chaveiros enfiados nos dedos da mão direita (porque meu soco é melhor com ela rsrs) e sapato baixo.

Mas não saio pra andar de bike ou correr na orla sozinha. Sem meu namorado pelo menos. Porque tenho medo. Nem com coque, nem com chave, nem com nada rsrs e olha que amo a orla da praia.

Ficar de olho em tudo que passa ou se aproxima, isso é o tempo todo. Você olha o cara vindo. Olha ele passando e disfarça pra olhar se ele continua andando ou diminuiu o passo ou até parou te olhando.

Camila Santos, 24 anos, de Recife (PE)

Camila Santos

Levo sempre na bolsa um "empurra cutícula" e sempre ando com chave na mão quando estou na rua, pronta pra passar no rosto de alguém.

Há uns cinco anos mais ou menos, quando eu morava em Paranaguá (PR), fui abordada na rua por um homem dentro de um carro pedindo pra eu entrar no carro e ele estava se masturbando. E no ano passado, já morando aqui em Recife, um homem saiu de um carro e me assaltou.

Eu sinto medo o tempo todo. Depois que fui assaltada, fiquei uns meses sem querer sair sozinha de casa. Hoje, quando vou para a universidade, ando com a chave na mão e olhando pra trás sempre.

Natália Cerqueira Dantas, 21 anos, de Buenos Aires (Argentina)

Natália Cerqueira Dantas

Eu sempre que saio de casa assim. Homens nunca entenderão.

Sempre ando com as chaves entre os dedos, bem firmes, quando me sinto ameaçada em algum lugar/situação (para mulheres, quase o tempo todo). Sempre que passo por um grupo de homens, principalmente à noite, penso: "Com um, talvez eu conseguisse me proteger e correr, mas com vários assim não tenho a menor chance" e meu coração aperta enquanto passo por eles. Além disso, eu tenho cabelo curto, então abaixo a cabeça e tento andar da maneira mais "masculinizada" possível, e se estiver de moletom ainda cubro a cabeça com o capuz. Tem noção do que é uma mulher ter que fingir ser um homem só pra se sentir mais segura?

Um homem andando à noite pela rua vai ter medo, no máximo, de roubarem seu celular. Dificilmente vai pensar em algo pior que isso. Enquanto nós, mulheres, pensamos nas mil e uma possibilidades diferentes de coisas ruins que podem ocorrer.
 Tenho medo de que, além do estupro propriamente dito, se deem conta de que sou lésbica e me violentem ainda mais, como o famoso "estupro corretivo". Então, na verdade, tenho medo de estupro e homofobia associados. Moro em Buenos Aires mas passo uns quatro meses por ano no Brasil, e as mesmas coisas que se faço por aqui se aplicam ao meu cotidiano de lá.

Clarissa Pereira, 25 anos, de São Paulo

Clarissa Pereira

Eu volto bem tarde pra casa do serviço, e normalmente venho com chaves no meio dos dedos. Mas, quando saio pra caminhar, sempre que posso levo a minha vira-latinha. Quando entro no parque e tá muito vazio, só com algum homem por perto, faço questão de soltar a Isis e mostrar que ela obedece quando falo pra fazer algo (não que ela saiba algum comando de ataque, mas as pessoas que tão perto não sabem disso, kkkk).

Juliana Franco, 24 anos, Itanhandu (MG)

Juliana Franco

Pretendo guardar um dinheiro para comprar uma lanterna taser [aparelho que dispara eletrochoques]. Ela por si só é quase uma arma, já que é de um ferro pesado. Mas o maior truque dela ainda é o choque e fato de não parecer nada além de uma inocente lanterna.

Por ora, o que eu uso pra me proteger são coisas que encontro pelo chão mesmo. Pedras, canos, essas coisas. Não sei se funciona, mas procuro manter "postura firme" quando homens aparentemente alterados em uma rua meio deserta me seguem com aquele olhar estranho de quem tem intenções ruim. Geralmente fecho punho, piso forte e fecho a cara. Não sei se pra mim é mais fácil falar isso por ser alta — e muitas vezes esses caras que me abordam terem minha altura ou menos.

Lorrayne Damasio, 19 anos, de Brasília

Lorrayne Damasio

Eis o que eu uso pra me defender.

Ser mulher é desembolsar uma grana alta todo dia pra voltar da faculdade de Uber porque a minha rua não tem iluminação e é deserta quando dá dez da noite. E, ainda assim, ter medo do Uber.

Eu, quando saio de casa, fico preparando possíveis rotas de fuga: caso alguém queira me seguir, eu saio correndo entre os becos e chego em um local com movimento.

É um medo rotineiro.

Uma vez, fui abordada por um cara que queria que eu entrasse no seu carro. Ele ficava pegando nas partes íntimas dele e apertando. Eu tinha 16 anos, estava no ensino médio ainda. Eu o mandei pro inferno e sai correndo. Fiquei com trauma de andar sozinha. O pior é que era de manhã ainda e isso já tinha me acontecido.

Eu usava blusa branca, que era o meu uniforme. Diziam que mostrava meu sutiã. Nem dava pra ver.

Na minha faculdade, como o ônibus passa longe, a gente tem que usar de tudo: carona solidária, Uber e o ônibus que a faculdade disponibiliza pra deixar a gente na parada ou na estação de metrô.

Mas é aquilo, a gente nunca está segura. Nem em público.

Patrícia Ichikawa, 38 anos, de São José do Rio Preto (SP)

Patrícia Ichikawa

Quando saio do escritório, levo esse spray de pimenta na bolsa. Sempre que pego Uber mando o print com os dados do motorista, veículo e localização em tempo real pelo WhatsApp para alguém. A hora que mais fico tensa sem dúvida é a noite — quando paro o carro no sinal vermelho, sempre deixo espaço um mínimo de dois carros à frente (para qualquer aproximação duvidosa poder sair), cuidando pelos espelhos se vejo algo suspeito aos lados e atrás.

Racquel Tomaz, 28 anos, de Toronto (Canadá)

Racquel Tomaz

Hoje moro num país muito mais seguro que o Brasil e não sinto esse medo constante que sentia por aí. Sou feliz por isso. Mas, mesmo assim, nunca deixei de estar alerta porque o perigo sempre existe. E já tive umas poucas situações estranhas por aqui também.

Recentemente fiz um minicurso de defesa pessoal e quero muito voltar a treinar esse tipo de coisa porque foi impactante e libertador.

Inclusive, fica a dica: não usem as chaves entre os dedos porque, se vocês acabarem batendo em algo mais firme, quem vai sair com a mão ferida vai ser você, o que vai dificultar muito continuar lutando.

Isso fui uma orientação de um dos instrutores. Não acho que seja necessariamente ruim usar. Mas talvez seja bom ter esse cuidado (mesmo que na hora seja difícil ter tempo de avaliar). A gente também aprende muito que tem que usar o que está ao nosso alcance e não desistir de forma alguma. Então, se o que está ao alcance são as chaves, tem que tentar!

Outra dica é, pra quem puder, faça pelo menos algumas aulas de defesa pessoal. Vocês vão amar saber que têm mais chance de se proteger.

Clarissa Mendes, 23 anos, de Duque de Caxias (RJ)

Clarissa Mendes

Eu ando com alicate de unha, qualquer desconfiança já pego.

Para ir ao trabalho, preciso passar por uma rua que tem mais de dez bares, um próximo ao outro. Já precisei falar pra um homem que eu ia furar ele todo porque ele me segurou pelo braço pedindo um beijo.

Antes do alicate, eu andava com estilete. Mas, numa sexta feira, meu esposo me buscou no trabalho e fomos parados numa blitz da Polícia Militar. Tive problemas pra explicar o porquê do estilete na bolsa, quase fui parar na delegacia. Então resolvi andar com alicate de unha porque fica fácil de explicar que é para meu uso.

Bruna Morais, 25 anos, de Ilmenau (Alemanha)

Arquivo pessoal

Eu ganhei um spray de pimenta da minha mãe com 12 anos. Sempre guardei. Hoje moro na Alemanha e não pude trazer, né? Tive que arrumar um e mesmo por aqui ando com ele por todo lugar. Não confio em ninguém a não ser em mim mesma.

O medo que sinto é uma condição enquanto mulher. Todas as mulheres que eu conheço já tiveram alguma experiência de violência, não tem uma que não.

Cresci ouvindo que meninas e mulheres não podem se portar de certa maneira, andar por determinados lugares ou vestir algumas roupas porque serão punidas da pior forma. Então é claro que o medo internalizou.

Eu moro há quase dois anos num país que é tido como muito seguro para mulheres. É claro que eu tenho uma liberdade surreal em comparação ao Brasil, mas, no meu grupo de estrangeiros e alemães, eu sou a única a ainda andar com spray de pimenta, a desconfiar de TODOS os caras e a prestar atenção a cada passo meu.

Daniela Gonçalves, 23 anos, de Presidente Prudente (SP)

Daniela Gonçalves

Ser mulher é viver cercada de medo.

É entrar no Uber pensado no que você pode fazer se o motorista for para outro lugar. Pensar no que você tem dentro da bolsa que pode te ajudar a se defender… Não é fácil. Eu às vezes levo uma tesoura pontiaguda ou um estilete.

É um medo constante. Eu evito ficar muito tempo sozinha, ou andar sozinha. Como não tenho carta, sempre peço para meu marido ou meu pai me levar em algum lugar e depois buscar.

Carol Ribeiro, 25 anos, de Itupeva (SP)

Eu estava voltando do treino esses dias e um homem parou com o carro do meu lado e mandou eu entrar dizendo que me dava uma carona, já que estávamos indo pro mesmo lado. Eu disse que não precisava. Mas eu precisei dizer pra ele que estava indo encontrar o meu pai pra ele ir embora, liguei pro meu namorado e fui falando com ele pelo telefone até estar segura dentro de casa. Fiquei com medo de o tal homem estar esperando algumas esquinas pra frente.

Eu sempre ando com as chaves enganchadas nos dedos ou um canivete e nesse dia estava sem nenhum dos dois. Foi apavorante o jeito como ele disse "entra no carro". Só mulheres sabem o medo que passamos ao andar sozinhas nas ruas.

Quando um homem sai pra rua o único medo que ele sente é de ser assaltado. Uma mulher, quando sai pra rua, sente o medo de ser assaltada, assediada e estuprada.

Jamile Ferreira, 32 anos, de Itumbiara (GO)

Jamile Ferreira

Quando voltava da faculdade e precisava andar quase 1 quilômetro para chegar em casa, eu passava por um condomínio deserto que tinha carros estacionados dos dos lados da rua, o que deixava a calçada encoberta, sem visibilidade e iluminação. Então eu sempre andava pelo meio da rua, e sempre com o molho de chaves espalhado entre os dedos.

Ana Dudley, 51 anos, de Atlanta (EUA)

Ana Dudley

O medo de violência foi o principal motivo da minha mudança para os Estados Unidos.

Eu morava no Morumbi [em São Paulo] e a situação lá é caótica. Eu via assaltos e tiroteios quase diariamente da minha varanda. Os relatos de assaltos na minha rua e no grupo de segurança do bairro começaram a gerar síndrome de pânico e ataques de ansiedade.

A maioria dos alvos, pelo menos no Morumbi, são mulheres sozinhas nos carros e funcionárias domésticas nas ruas, na época de pagamento. Sem contar o medo de estupro que todas nós temos.

Eu mantinha um taser [aparelho que dispara eletrochoques] e um canivete na bolsa. E continuo usando aqui nos EUA.

Aqui sou muito mais relaxada do que eu era aí, especialmente porque vivo no "suburb", a uns 40 minutos de Atlanta, mas assim mesmo checo portas todas as noites pra ver se estão trancadas e olho ao redor pra ver se não tem ninguém seguindo quando vou entrar no carro em um estacionamento.

B. A., 28 anos, de Ribeirão Preto (SP)

Arquivo pessoal

Uma coisa que aconteceu comigo ano passado ilustra bem por que nós mulheres sentimos tanto medo. Eu estava retornando do meu trabalho, de carro, quando vi um casal andando na calçada. A moça parecia encolhida, achei que fosse frio. Mas aí o homem deu um soco tão forte na nuca da mulher que ela caiu ajoelhada. Estacionei o carro e peguei o taser na bolsa (que comprei pra me proteger de um ex-namorado que me agrediu e deslocou meu maxilar). Ele a agrediu de novo, e eu acionei o taser que faz um barulho muito alto. Ele parou assustado e pude olhar pra moça. Fiz que "sim" com a cabeça e ela correu, entrando numa farmácia. O cara estava bem bêbado e ainda gritou alguma coisa. Apertei o botão de novo e ele finalmente cedeu e foi embora.



Contact Mauro Albano at mauro.albano@buzzfeed.com.

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