A polícia do RJ nunca matou tanto jovem negro ou pardo como no 1º trimestre de 2019

    O número de negros mortos em ações policiais no Rio de Janeiro aumentou 28,57%, e o de pardos, 20,18%. O número de brancos mortos caiu 13,64%.

    Agatha Vitória Sales Félix, 8, foi morta com um tiro nas costas quando estava com a mãe dentro de uma Kombi, no Complexo do Alemão. Lucas Rodrigues de Melo, 18, foi atingido por um disparo quando ia comprar pão na comunidade da Nova Holanda. Dyogo Coutinho, 16, estava a caminho do clube onde treinava futebol, na comunidade da Grota, em Niterói, quando foi baleado.

    Negros ou pardos e com menos de 25 anos, os três fazem parte do perfil mais comum entre os mortos no Estado do Rio de Janeiro durante ações policiais.

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    Parentes carregam o caixão de Ágatha, 8 anos, em seu velório no domingo (22).

    Números do primeiro trimestre de 2019 do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP), órgão responsável pela centralização e divulgação dos dados referentes a segurança pública no Estado, indicam que o número de jovens negros e pardos mortos por intervenção de agentes do Estado nunca foi tão alto, enquanto o número de brancos diminuiu em relação ao mesmo período de 2018.

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    Protesto a caminho do funeral de Ágatha, 8, no último domingo (22), no Rio.

    Os dados foram obtidos pelo BuzzFeed News via Lei de Acesso a Informação. O ISP só tem microdados — que indicam se os mortos eram negros, pardos ou brancos — das estatísticas a partir do ano de 2006. Os microdados no segundo trimestre deste ano ainda não estão disponíveis.

    Mortos em ações policiais no Estado do Rio de Janeiro, no primeiro trimestre de 2019, por raça:

    Quadro com números trimestrais. SI/I representam Sem Informação e Ignorados.

    Em 2018, no primeiro trimestre, 85 negros e 178 pardos foram mortos durante ações policiais, enquanto em 2019 o número foi de 119 e 223 — um aumento de 28,57% e 20,18 %, respectivamente. Já o número de brancos caiu de 66 para 57, uma redução de 13,64%.

    No primeiro trimestre de 2019, 27,29% dos mortos pela polícia no Rio eram negros, 51,15% eram pardos e 13,07%, brancos.

    Dos 436 mortos em ações policiais no Rio neste período, pelos menos 342 eram negros ou pardos. (Do total de mortos, 37 não tiveram a raça identificada.)

    E 127 (29%) eram negros ou pardos e tinham menos de 25 anos.

    Os números do ISP mostram que desde 2008, com o início da implementação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), os números da letalidade policial vinham caindo. Em 2017, os números voltaram a crescer, inclusive sendo o segundo ano que negros mais morreram por intervenção policial (97, no total).

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    Agatha Félix, 8, foi morta com um tiro nas costas.

    "Isso é um efeito específico das políticas de segurança pública que apostam no aumento da violência institucional, o que acaba aumentando o racismo estrutural. Quanto mais o Estado mata, mais atinge as pessoas mais vulneráveis. Nesse grupo se incluiu os jovens pretos de favela", disse Daniel Lozoya, atuante no Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh) da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro.

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    Um parente durante o velório de Ágatha, no dia 22, no Rio.

    Esse crescimento na taxa de letalidade policial foi observado também no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019, divulgado recentemente pelo Fórum Brasileiro da área.

    Os números, referentes a 2018, apontam um crescimento de 19,6% no número de mortes decorrentes por intervenção policial em todo país, enquanto o número de mortes violentas no geral teve uma queda de 10,8%.

    O estudo mostrou que o Rio de Janeiro é o Estado com a maior proporção de mortes decorrentes de intervenções policiais em relação às mortes violentas intencionais.

    "Para nós, que estudamos violência, sabemos que não é só recorde no Brasil, mas um número com poucos paralelos no mundo. Esses dados são alarmantes e fora dos padrões. Esse quadro só se agrava, e nos perguntamos: isso serve para quê? O que verificamos é que tráfico e milícia nunca estiveram tão fortes em áreas de favelas no Rio de Janeiro", disse a conselheira do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Silvia Ramos.

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    Parentes durante o velório de Ágatha, no dia 22, no Rio.

    Dos mortos pela polícia no Brasil, o anuário aponta que 99,3% são homens e 75,4% são negros.

    Atualização (23 de setembro de 2019, 17h):

    Em resposta a um pedido de comentário feito pelo BuzzFeed News, a Secretaria de Estado de Polícia Militar do Rio de Janeiro enviou a seguinte nota:

    "A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Polícia Militar do Rio de Janeiro informa que a Corporação vem ampliando suas ações para reduzir os roubos, sobretudo em áreas urbanas e em vias expressas, e combater facções criminosas fortemente armadas que invadem comunidades.

    Nas duas frentes de atuação, as operações da Polícia Militar do Rio de Janeiro são pautadas por planejamento prévio e executadas dentro da lei, sempre com a preocupação de preservar vidas. Muitas vezes, no entanto, os criminosos fazem opção pelo enfrentamento, dano início ao confronto.

    Nas ações em áreas conflagradas, a missão da Polícia Militar é primordialmente a prisão de criminosos e apreensão de arma e drogas. Essa prioridade pode ser comprovada pelo saldo operacional dos oito primeiros meses. Até ontem, foram apreendidas mais de 5.880 armas de fogo, entre as quais 397 fuzis. O número de fuzis retirados de circulação nesse período já é superior ao registrado em todo o ano passado. Nesses oito primeiros meses, 31 mil criminosos foram presos, o que representa uma média de 5 prisões a cada hora do dia.

    Como resultado desse trabalho incansável da Polícia Militar, os indicadores criminais mais impactantes vêm registrando reduções expressivas desde o início do ano. Nos sete primeiros meses deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado, os índices de homicídios dolosos foram reduzidos em 23%, os de latrocínios em 31%, os de roubos de veículos em 22% e os de roubos de carga em 19%."

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