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É isto que os sobreviventes da bomba atômica gostariam de dizer às gerações futuras

"Os humanos causam a guerra. Assim, apenas os humanos podem evitá-la".

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Em agosto de 1945, o Japão tornou-se o primeiro – e até agora o único – país a sofrer um ataque nuclear. As bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos transformaram Nagasaki e Hiroshima em cinzas e mataram mais de 200 mil pessoas. Setenta e dois anos depois, a ameaça das armas nucleares ainda ronda nosso planeta.

Conforme o número de hibakushas, ou sobreviventes da bomba atômica, diminui devido à velhice, vale refletir sobre suas histórias e os caminhos que o mundo está tomando.

No seu último projeto, 1945, a fotógrafa documental Haruka Sakaguchi retratou hibakushas que conheceu em Nagasaki e Hiroshima. Ela, então, pediu às pessoas que escrevessem uma mensagem para as gerações futuras.

Abaixo, uma seleção do seu trabalho.

Você só recebe
Uma vida
Então, aprecie este momento
Aprecie este dia
Seja gentil com os outros
Seja gentil consigo mesmo

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Eu rezo para que todo ser humano encontre a paz.

O local do bombardeio — Matsuyama-machi — agora é um parque intocado. Naquela época, no entanto, era uma cidade movimentada onde muitas pessoas viviam e trabalhavam.

Uma única bomba atômica detonou 500 metros acima dessa cidade, destruindo tudo abaixo dela. Casas e famílias desapareceram na hora.

Os humanos causam a guerra. Assim, apenas os humanos podem evitá-la.

Eu desejo uma sociedade pacífica onde todos possam viver e morrer com dignidade.

A paz não é algo que esperamos passivamente. A paz é algo que devemos buscar e cultivar.

Caro leitor, por favor, faça com que Nagasaki seja o último local que sofreu com uma bomba atômica.

A vida é um tesouro curioso.

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Muitas vezes penso que os humanos entram em guerra para satisfazer sua ganância.

Se nos livrarmos da ganância e ajudarmos uns aos outros, acredito que possamos coexistir sem guerra.

Este é apenas um pensamento meu — cada pessoa tem pensamentos e ideologias diferentes, o que torna as coisas desafiadoras.

Arakawa tem poucas lembranças de como sobreviveu ao bombardeio; seus pais e seus quatro irmãos foram mortos no ataque. Quando solicitada a escrever uma mensagem para as gerações futuras, ela respondeu: "Nani mo omoitsukanai" (não consigo pensar em nada).

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A bomba atômica é incomparável a outras armas. Ela não apenas envolve calor e uma explosão mortal, mas também uma radiação duradoura que mata indiscriminadamente, em massa. É uma arma desumana que contamina o solo e destrói o meio ambiente. A humanidade deve lutar pelo fim de todas as armas nucleares.

As armas nucleares são a pura manifestação do mal.

Jamais devemos criar vítimas de bombas atômicas como eu, nunca mais.

Sem armas nucleares. A abolição nuclear é a origem da paz.

"A bomba atômica matou suas vítimas três vezes", disse um professor universitário. Na verdade, a explosão nuclear tem três componentes — calor, onda de pressão e radiação — e foi sem precedentes na sua capacidade de matar em massa...

Eu tinha 11 anos de idade quando a bomba caiu, a 2 km de onde eu morava. Nos últimos anos, fui diagnosticado com câncer de estômago e fui operado em 2008 e 2010. A bomba atômica também tem afetado nossos filhos e netos.

É possível compreender os horrores da guerra nuclear visitando os museus da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, ouvindo os relatos em primeira mão dos hibakushas e lendo documentos de arquivo desse período.

As armas nucleares nunca deveriam ser usadas contra os humanos. No entanto, as potências nucleares, como os EUA e a Rússia, possuem um estoque de quase 15 mil armas nucleares. Não apenas isso, mas os avanços tecnológicos deram lugar a um novo tipo de bomba que pode provocar uma explosão mais de 1.000 vezes superior à do bombardeio de Hiroshima.

Armas assim devem ser abolidas da Terra. No entanto, no nosso clima político atual, lutamos para chegar a um consenso e ainda não implementamos uma proibição de armas nucleares. Isso é em grande parte devido ao boicote das potências nucleares ao acordo.

Já me conformei ao fato de que as armas nucleares não serão abolidas durante a vida da primeira geração de hibakushas. Eu rezo para que as gerações mais novas se unam para trabalhar em direção a um mundo livre de armas nucleares.

Como um hibakusha, tudo o que posso fazer é rezar pela paz mundial. Que possamos viver o resto dos nossos dias sem guerra nuclear.

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A guerra é uma das duas coisas: ou você mata ou você é morto.

Muitas crianças são vitimadas pela pobreza, desnutrição e discriminação até hoje.

Uma vez encontrei um bebê que morreu de hipotermia. Na boca dele estava um pequeno seixo.

As crianças são a nossa maior benção.

Eu acredito que os adultos sejam responsáveis pela guerra.

Dentro do vernáculo budista, há um pássaro chamado Gumyo. Esse pássaro tem um corpo e duas cabeças. Mesmo que duas entidades tenham ideologias ou filosofias diferentes, suas vidas são unidas por uma única forma — esse é um princípio budista manifestado sob a forma de um pássaro.

Seria ideal se todos pudéssemos cultivar em nós a capacidade de dignificar uns aos outros em vez de ficarmos bravos com nossas diferenças.

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Caros jovens que nunca vivenciaram a guerra,

As guerras começam secretamente. Se você sente que ela está chegando, pode ser tarde demais.

Na Constituição japonesa, você encontrará o Artigo 9, a cláusula de paz internacional. Nos últimos 72 anos, não mutilamos nem fomos mutilados por um único ser humano no contexto de guerra. Nós desabrochamos como uma nação pacífica.

O Japão é a única nação que sofreu um ataque nuclear. Devemos defender a ideia, com muito mais urgência, de que as armas nucleares não podem coexistir com a humanidade.

A administração atual está lentamente levando nossa nação à guerra, e estou com medo. Aos 78 anos, tomei a decisão de falar claramente contra a proliferação nuclear. Agora não é o momento de ficar de braços cruzados.

Os cidadãos comuns são as principais vítimas da guerra, sempre. Caros jovens que nunca vivenciaram os horrores da guerra — temo que alguns de vocês possam tomar essa paz duramente conquistada como garantida.

Eu rezo pela paz mundial. Além disso, rezo para que nenhum cidadão japonês seja vítima das garras da guerra, nunca mais. Eu rezo, com todo o meu coração.

Sob aquela nuvem de cogumelo, em um único momento, inúmeras vidas inocentes foram consumidas por uma explosão de ar, uma onda de calor e uma radiação catastróficas. Aqueles que sobreviveram foram assolados por doenças incorridas pela radiação e estão sofrendo até hoje.

Eu sou uma dessas pessoas.

A guerra é concebida dentro dos corações das pessoas; assim, ela também pode ser evitada pela vontade das pessoas.

A verdadeira paz não é alcançada por meio de convenções ou ideologias complicadas. Desejo cultivar a "paz interior" por meio de simples gestos de amor e bondade.

Por favor, aprecie cada dia que você está vivo. Deixe todos nós apreciarmos a paz que temos agora.


Uma única bomba atômica

queimou casas, despedaçou sonhos, levou muitas, muitas vidas

e, como se isso não bastasse,

trouxe tristeza, sofrimento e instabilidade para aqueles que sobreviveram.

Pelo bem dos nossos filhos, que ainda não conhecemos,

devemos considerar seriamente o fim de todas as armas nucleares.

Devido ao ataque com a bomba atômica no dia 9 de agosto às 11:02, nossa escola perdeu as preciosas vidas de 207 alunos e sete funcionários, e nosso campus foi reduzido a pó. Nossa escola instantaneamente se tornou um pináculo de dor e sofrimento, de desesperança.

Ainda assim, nossa escola, Junshin, resistiu ao teste do tempo e existe até hoje, em 2017. O que nós defendemos? Qual tem sido o nosso dever por todos esses anos?

Na verdade, nós sobreviventes somos obrigados a assumir a responsabilidade de viver e contar essas histórias da guerra, e, por fim, comunicar aos outros a virtude da paz. Fazemos isso levantando todas as manhãs para a oração do Rosário e cantando o hino Senbazuru — rituais e gestos que retratam a dignidade da paz.

A paz mundial é derivada da paz individual, ou a paz encontrada no interior. A virtude do cuidado, a virtude do perdão, a virtude do amor — nos esforçamos para cultivar e sustentar todas essas virtudes dentro de nossos próprios corações.

Deus, a encarnação do amor, criou todos nós à sua semelhança. Ao orar pelo dia que, nós, como seres humanos, formos capazes de nos reconstruir para encarnar o amor e a paz, esperamos fazer o pouco que podemos para continuar cumprindo a nossa preciosa missão.

A paz é a nossa prioridade número um.

1º de março de 1951 é o dia do meu nascimento.

Eu também sou uma hibakusha da segunda geração. Eu nunca vivenciei a guerra. Eu aprendi sobre o ataque com a bomba atômica por meio de testemunhos de hibakushas, entrevistas em vídeo e fotografias/artefatos dessa época.

Esta é a minha situação atual.

Minha mãe tem 92 anos de idade. Ela foi exposta à bomba atômica quando tinha 20 anos e perdeu seus pais e três irmãs de uma hora para outra.

Até hoje, ela não fala sobre o bombardeio.

Eu sou um hibakusha da terceira geração; no entanto, não fui muito ciente disso durante toda a minha vida. Ainda assim, há cicatrizes visíveis do momento do bombardeio em toda Nagasaki, como as paredes carbonizadas. Espero que os visitantes de Nagasaki transmitam as histórias de terror envolvendo a bomba atômica.

Através do encontro [com membros da geração futura] no Parque Memorial da Paz de Hiroshima, fui capaz de contemplar as pessoas e seu modo de vida.

Este post foi escrito originalmente em japonês.


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