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Kate Ferro for BuzzFeed News

Nove histórias que mostram como é fazer um aborto ilegal

“Ninguém deveria passar por isso sozinha.”

publicado

O aborto é completamente proibido em seis países, mesmo quando necessário para salvar a vida da mãe. Em dezenas de outros, há pouquíssimas exceções para que o aborto seja realizado legalmente.

Enquanto o acesso ao aborto continua sendo ameaçado, discutido e debatido calorosamente no mundo todo, há um ponto de vista que não se ouve com muita frequência: o das mulheres que de fato passaram pela experiência.

O BuzzFeed Health pediu às mulheres do BuzzFeed Community que contassem sobre suas experiências com o aborto. O formulário foi amplamente compartilhado e traduzido para várias línguas, inclusive para o português.

Várias respostas vieram de mulheres que vivem em países com algumas das leis mais restritivas do mundo em relação ao aborto. Abaixo, algumas histórias que representam as experiências compartilhadas conosco.

Abi, 25 anos, Chile.

O Chile proíbe o aborto, sem exceções. Mulheres que abortam e médicos que realizam o procedimento estão sujeitos à prisão.

“Fazer um aborto no Chile é muito difícil e muito perigoso. Fiz dois abortos voluntários na minha vida. O primeiro foi quando ainda estava no ensino médio. Era muito jovem e não tinha informação nenhuma sobre o assunto, mas tomei a decisão automaticamente depois de ver o resultado do teste de gravidez. Não tinha dinheiro, e meu namorado era
ainda mais novo que eu! Ter aquele bebê estava fora de cogitação. Acho que foi a melhor e mais importante decisão que tomei até aqui.

"Ficou claro para mim que ninguém deveria passar por isso sozinha, então estudei o assunto e me tornei tipo uma especialista em aborto."
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Abortei com remédio (misopostrol).

É um medicamento seguro, mas pode ser letal se você usá-lo sem ter as informações corretas. Quando tinha 16 anos, não tinha ideia de nada, mas tomei mesmo assim, porque não havia alternativa e a única coisa que eu queria era não ser mãe. Não foi nada traumático, porque estava 100% certa da minha decisão.

Depois disso, ficou claro para mim que ninguém deveria passar por isso sozinha, então estudei o assunto e me tornei tipo uma especialista, porque no meu país é tudo ilegal, não existe nenhum tipo de informação oficial. Tento ajudar todas as mulheres que posso, e é isso o que tenho feito desde então.

Quando tive de passar por isso de novo, oito anos mais tarde, fiquei aliviada, porque sabia tudo."


Anônima, 18 anos, Emirados Árabes Unidos/Jamaica.

Os Emirados Árabes Unidos proíbem o aborto, a menos que seja para salvar a vida da mãe. Na Jamaica, o aborto só é permitido para salvar a vida da mulher ou para preservar sua saúde física ou mental.

“Fiz meu aborto há cerca de um ano na Jamaica (onde a prática é proibida), porque estava morando em Abu Dhabi na época (onde a prática é muito, muito proibida). Transei e não percebi que ele tinha tirado a camisinha. Minha madrinha é uma médica de renome na Jamaica, então ela nos colocou em contato com uma pessoa que faz abortos gratuitamente.

Apesar de o aborto ser ilegal na Jamaica, médicos privados ainda o fazem, mas por meio de cirurgia. Então voltei na manhã do dia seguinte, depois de chorar durante horas, para
fazer o aborto. Lembro de entrar na sala e sentar numa cadeira, com as pernas abertas em cima de um balde. Estava chorando de medo quando colocaram o soro no
meu braço.

"Fiz meu aborto há cerca de um ano na Jamaica (onde a prática é proibida), porque estava morando em Abu Dhabi na época (onde a prática é muito, muito proibida)."

Meus pais disseram para eu não contar para ninguém, pois poderia pegar mal para a família. Não contei para nenhum amigo ou parente, não conseguia conversar com meus pais, e o cara que me engravidou era um completo idiota. Minha madrinha era a única pessoa com quem eu podia conversar, mas fui embora do país no dia
seguinte e, com uma diferença de oito horas de fuso, era muito complicado manter contato.

O estigma em relação a mulheres que fazem aborto mexeu mais comigo do que o procedimento em si. Durante um bom tempo me sentia suja. Intimidades, mesmo ficar abraçada com alguém na cama, eram difíceis porque eu achava que não merecia mais ser amada. Aos poucos comecei a superar, mas aquela sensação sempre estava lá no fundo – meu segredo.”

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Anônima, 26 anos, Irlanda.

A Irlanda proíbe o aborto, a menos que a vida da mulher esteja em risco. Milhares de mulheres viajam para o Reino Unido anualmente para realizar o procedimento. Outras usam remédios comprados pela internet para induzir abortos.

“Comprei os remédios de aborto em um site de uma instituição de caridade. Eles foram entregues na Inglaterra depois do Natal, e o dinheiro estava curto, mas eu estava ficando cada vez mais enjoada e tive de contar para minha mãe. Ela nos emprestou dinheiro para fazer um procedimento cirúrgico.

Minha família tem histórico de fortes náuseas. Se eu tivesse esperado, corria o risco de ficar hospitalizada durante semanas ou meses, o que significaria que o aborto não
seria mais uma opção. Tivemos de marcar um aborto cirúrgico de emergência para
o fim da semana numa clínica inglesa, ou então nem sequer teria conseguido viajar.

"Tivemos de marcar um aborto cirúrgico de emergência para o fim da semana numa clínica inglesa, ou então nem sequer teria conseguido viajar."

De certa maneira me senti melhor – seria muito pior tomar os remédios e correr o risco de passar mal e ir parar no hospital. O procedimento cirúrgico também significaria que a náusea melhoraria quase imediatamente (os remédios levam várias horas para fazer efeito, e sintomas como enjoo podem demorar semanas até
desaparecer.)

A espera no aeroporto foi horrível, tanto na ida como na volta. A equipe da clínica e o motorista que trabalhava para eles não poderiam ter sido mais gentis, mas eu me sentia muito mal e preferiria ter feito tudo em casa.

Isso tudo aconteceu há cinco dias. Ainda sinto algumas dores, mas já voltei a trabalhar. Não é fácil fingir que você saiu de licença médica por causa de algo genérico. Tenho 100% de certeza de que foi a decisão correta, mas meu corpo parece vazio, como se alguma coisa estivesse errada. E ainda sinto um pouco de culpa.

Tenho sorte, pois consegui pegar dinheiro emprestado e pude conversar com alguém da família – mas a viagem e os sintomas tornaram toda a situação muito mais difícil e exaustiva.”


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Anônima, Honduras.

Honduras proíbe o aborto, a menos que seja para salvar a vida da mãe.

“Tinha 20 anos quando fiquei grávida de novo. Tinha uma bebê de quatro anos e estava aterrorizada com a ideia de uma segunda criança. Achei que não daria conta, com a universidade e o emprego.

Apesar de estar com meu marido, nós dois estávamos com medo, e tinha sido difícil ser mãe
adolescente. Não dava para imaginar ter dois filhos, então começamos a procurar maneiras para abortas. No meu país, o aborto é completamente ilegal – tanto
a mãe quanto os responsáveis pelo procedimento podem ir para a cadeia.

Descobrimos uma maneira por intermédio de um amigo. Eu estava grávida havia umas quatro ou cinco semanas; não senti tanta culpa. Hoje estou com 26 anos, e eu e meu marido sentimos o peso do aborto. Choramos juntos várias vezes. Temos apenas nossa filha e confiamos que Deus vai nos permitir ter outros bebês. Hoje em dia nos arrependemos e não recomendamos o aborto para ninguém.”


Anônima, 27 anos, Venezuela.

A Venezuela proíbe o aborto, a menos que seja para salvar a vida da mãe.

“Eu tinha 20 anos. Uma amiga conhecia uma menina que tinha feito um aborto e me ajudou a conseguir os remédios. Tomei um ou dois oralmente e outros vaginalmente e me deitei de barriga para baixo, com as pernas levantadas, até sentir vontade de fazer xixi. Tive sangramento por vários dias – como se fosse uma menstruação bem pesada – e
tive de tomar chá bem quente.

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Chorei durante vários dias e hoje, sete anos depois, ainda choro às vezes. Tomei a decisão sozinha porque não me sentia pronta para ser mãe. Não tenho orgulho do que fiz e não acho que fosse capaz de repetir a experiência, mas não me arrependo. Só que estou triste até hoje. Às vezes esqueço, às vezes a decisão me persegue.

Fiz tudo sem acompanhamento médico e em segredo. Minha família não sabe de nada. Tive muito medo e me senti muito sozinha.”


Anônima, Brasil.

O Brasil proíbe o aborto exceto em casos de gravidez decorrente de estupro e incesto, para salvar a vida da mãe e em casos de anencefalia fetal.

"Fiz ambos abortos em situações inimagináveis, na residência de uma senhora que eu não sabia se tinha conhecimentos cirúrgicos"
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"Fiz aborto duas vezes e para dizer isso e conviver com isso levou um tempo até ser dito (escrito) com naturalidade. Sempre acreditei que o aborto acontecia em situações em que a gravidez e a média de idade da mulher fosse no máximo de 16 anos, no modo mais estereotipado possível.

Comigo a situação foi diferente, sou mãe, casada e abortei quando fiquei grávida pela segunda e terceira vez, sem planejamento meu e do meu companheiro (o mesmo companheiro nas minhas três gestações).

Fiz ambos abortos em situações inimagináveis, na residência de uma senhora que eu não sabia se tinha conhecimentos cirúrgicos e deitada em um tapete da residência dela. Na primeira vez foi de certa forma 'tranquila' comparando com a segunda, onde tive certeza de que fosse morrer, desmaiei, quis ir para um hospital, passei uma semana com febre muito alta e senti saindo de dentro de mim o feto enquanto urinava, tenho a memória exata disso dentro de mim.

Imagino como seria se eu tivesse tido esses dois filhos, semana passada peguei me questionando se as pessoas do meu convívio me perdoariam por isso, mas respondo incessantemente a mim mesma que eu não fiz nada de errado, só eu quem fui ferida nisso, eu quem vou guardar esse sentimento dentro de mim e eu não preciso me redimir."


Anônima, El Salvador.

El Salvador proíbe o aborto sem exceções.

“Descobri que estava grávida com menos de um mês. Estava na faculdade e era impossível ter o bebê, porque estava no meio da minha carreira. Estava na escola e tinha de pagar o financiamento estudantil.

Não tive de pensar em nada – estava certa de que não queria ter o bebê, porque ele iria atrapalhar meus planos e minha carreira. Comecei a procurar métodos na internet e achei comprimidos que tinham o aborto como efeito colateral. Obviamente eles não eram
vendidos sem receita, mas era possível encontrá-los no mercado negro. Os vendedores dizem que dose tomar. Eles juravam que a informação vinha de médicos, pode ser verdade.

Cada comprimido custava 50 dólares, e eles me deram três porque a gestação estava no começo. Pelo que sei, quanto mais avançada a gravidez, maior a dose. Inseri dois dos comprimidos na vagina, e coloquei o terceiro embaixo da língua.

Comecei a sentir os efeitos em meia hora. Achei que fosse morrer por causa das contrações violentas, sem falar no sangramento. Não dormi nada aquela noite e não podia tomar analgésicos: vomitava com um simples copo d’água.

Como me senti emocionalmente? Pedi perdão a Deus, porque entendo que o que fiz é errado. Mas não iria sacrificar meu futuro. Além disso, nunca me empolguei muito com a ideia de ser mãe. Entendo que muitos vão me julgar e que todos vão falar de mim, mas não estou nem aí. Não pedi autorização para ninguém. Faz três anos que tudo aconteceu, e vivo minha vida normalmente.

A dor física foi a pior parte. Com certeza ajudaria alguém que decidisse fazer o mesmo que eu, mas não julgo as mães altruístas que decidem ter o bebê. Sou a favor da
descriminalização do aborto. Quem achar que é a melhor decisão que vá em frente; quem achar que é a pior, não faça. Isso também permitiria a regulamentação dessas atividades, sem colocar em risco a saúde da mulher e desestimulando o mercado negro.”


Anônima, 27 anos, Guatemala.

A Guatemala proíbe o aborto, a menos que seja para salvar a vida da mãe.

“Fiz três abortos autoinduzidos. O pai era o mesmo nos três casos e ele acha que perdi os bebês. Mas a verdade é que não quero ter filhos, pelo menos não por enquanto. Em meu
país o aborto é ilegal, então as pessoas recorrem a coisas naturais (misturas
preparadas por curandeiros) ou falsificam receitas para obter remédios.

"As pessoas recorrem a coisas naturais (misturas preparadas por curandeiros) ou falsificam receitas para obter remédios."

Cada um dos meus abortos foi pior que o anterior. A dor é horrível. Mas a verdade é que é menos doloroso que trazer ao mundo um bebê indesejado. Não me arrependo. É algo que nunca contei para ninguém pois aborto é tabu na sociedade em que vivo. Seria crucificada se admitisse que induzi três abortos.

Minha opinião pessoal é que toda mulher deveria ter o direito de escolher o que fazer com seu próprio
corpo. Se pela razão X ou Y ela não quiser continuar com a gravidez, os
recursos deveriam ser obtidos com facilidade.”


Lola, 24 anos, República Dominicana.

A República Dominicana proíbe o aborto sem exceções.

“Induzi um aborto quando tinha 20 anos. Foi uma decisão em conjunto com meu parceiro, mas mais dele que minha. A verdade é que ele me pressionou psicologicamente, mas isso não justificou meus atos. Usei um comprimido de Cytotec, vaginalmente, em casa. Estava com cerca de três meses. Foi um processo muito doloroso, que levou cerca
de três horas do momento em que inseri os comprimidos (três) até o feto ser
expelido. É uma lembrança que vai me acompanhar para o resto da vida.

Nunca achei que fosse fazer algo assim; sempre fui contra o aborto. É um ato pelo qual sinto muito e que jamais repetirei.

Agora tenho uma linda filha de 2 anos, em relação a quem nunca tive dúvidas. Mas não julgo quem tome a decisão de interromper a gravidez.

Não acho que seja uma decisão ou processo fácil para a maioria das mulheres. Nunca tinha dividido essa experiência com ninguém além da minha melhor amiga.”



As respostas foram editadas pro questões de clareza. Karla Agis, Jessica Lima, Flora Paul e Luísa Pessoa ajudaram a selecionar as histórias e a providenciar traduções para a versão deste post em inglês.

Este post foi traduzido do inglês.


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