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Por que “Cara Gente Branca” chegou em boa hora

O retrato bem-humorado, corajoso e bastante crítico feito por Justin Simien da vida de estudantes negros em uma faculdade predominantemente branca nos EUA possui implicações culturais que vão muito além dos muros do seu campus.

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Era o último dia de gravações de "Cara Gente Branca", série de 10 episódios da Netflix criada por Justin Simien e baseada no seu filme homônimo.

Compreensivelmente, todos estavam cansados após meses de gravações, mas uma sensação de alegria tomava conta da equipe naquela tarde. Uma mistura de emoções que relembrava um último dia de aula: tristeza e alegria se combinavam enquanto o elenco pulava de uma cena para a outra. Dava quase para sentir o set vibrando com uma euforia implícita. No entanto, em vez de estarem aguardando ansiosamente pelas férias, eles estavam empolgados com o futuro, tanto da série quanto do país.

Isso porque o último dia de gravações caiu em 8 de novembro, e quase todos estavam ansiosos pela vitória da candidata democrata Hillary Clinton. No entanto, conforme a noite avançava, Simien se viu entre os 65 milhões de americanos que foram surpreendidos por um choque de realidade: o republicano Donald Trump seria o 45º presidente dos Estados Unidos.

“Eu fiquei abatido. Todos ficaram — bem, todos que, na minha opinião, tinham noção do que estava acontecendo”, disse Simien ao BuzzFeed News. “Foi um dia deprimente, um dia triste para a democracia.” Apesar disso, ele tinha que afastar a tristeza que pairava sobre a equipe, pelo menos temporariamente.

“Houve um momento em que tive de dizer a todos: ‘Pessoal, eu sei, o mundo está desabando, mas eu preciso de uma hora do seu tempo para que a gente possa sair daqui.’ Foi difícil e eu estava muito irritado, triste. Mas tínhamos que arrancar o band-aid. Os negros já conheciam esse lado ruim dos EUA, mas acho que os brancos não conheciam. Não creio que muitos brancos liberais e bem-intencionados soubessem o quão ruim a situação estava neste país. … A única coisa que posso fazer é sentar e esperar que todos abram os olhos para essa merda.”

Em 28 de abril, o mundo pode ver o trabalho de Simien, quando todos os 10 episódios de "Cara Gente Branca" foram liberados na Netflix. Como em seu filme, a série se passa dentro da predominantemente branca Universidade de Winchester e, inicialmente, é centrada no mesmo pequeno grupo de estudantes que se irrita com o antiquado status quo da faculdade. Há a locutora de rádio Sam White (Logan Browning, substituindo Tessa Thompson), o seu namorado meio que secreto Gabe (John Patrick Amedori, substituindo Justin Dobies), o cara mais popular do campus Troy Fairbanks (Brandon P. Bell reprisando o seu papel), a aluna obcecada com sua reputação Colandrea “Coco” Conners (Antoinette Robertson, substituindo Teyonah Parris), o tímido jornalista Lionel Higgins (DeRon Horton, substituindo Tyler James Williams) e o paladino do campus Reggie Green (Marque Richardson reprisando seu papel).

Mas a série amplia vertiginosamente a visão de mundo do filme, apresentando outros personagens, como a melhor amiga de Sam, Joelle Brooks (Ashley Blaine Featherson), a sensual professora Neika Hobbs (Nia Long) e inúmeros outros personagens que Simien está ansioso para desenvolver nas próximas temporadas.

A série "Cara Gente Branca" começa logo após os eventos do filme — quando uma festa “blackface” organizada por estudantes brancos é interrompida por estudantes negros e acaba dividindo as opiniões no campus.

No desdobramento daquela noite chocante, os personagens reagem de várias maneiras: Sam expressa sua opinião nas ondas do rádio, Reggie começa a mobilizar o movimento estudantil negro, Lionel escreve e Troy se esforça para apaziguar os estudantes. “De certa forma, meus personagens estão passando por uma catarse pela qual todos estamos passando, porque todos eles, de alguma maneira, estão lidando com a resistência”, disse Simien. “Com se importar tanto e tão passionalmente com algo que acaba não dando certo e que, apesar de suas melhores intenções, acaba explodindo na sua cara. Eu precisava ver uma série assim. Por isso, criei uma.”

Mas Simien não quis dedicar muito tempo do primeiro episódio relembrando o que havia ocorrido no filme. “Sou um nerd e fã de super-heróis, por isso estou cansado de ver outra história de origem sempre que alguém resolve fazer um reboot”, afirmou, soltando uma gargalhada grave e convidativa. “Eu já entendi. Ele foi mordido por uma aranha. OK. Como parte do público, gosto de ser jogado em um mundo que parece que já existia antes de eu chegar lá e que é muito mais vasto do que consigo perceber com apenas uma olhada.”

Cada um dos cinco primeiros episódios é dedicado à experiência de um estudante diferente no desdobramento da festa. Então a série passa para um episódio ainda mais incendiário, e os episódios subsequentes narram os efeitos colaterais disso. Simien prefere não revelar de antemão o que seria esse momento, pois o mistério é de extrema importância para a trama, mas que a cena aborda as realidades mais “letais” de ser negro em 2017.

“Não há como fazer essa série e não ‘falar disso’”, afirmou, referindo-se aos eventos do episódio 5. Simien parou por um momento, escolhendo suas palavras, e as proferiu com a mesma clara convicção: “Não há como. O ponto é, estamos em uma era em que as pessoas confundem intolerância e preconceito com racismo. São coisas diferentes, e a razão pela qual é importante ressaltar isso é porque apenas as pessoas oprimidas pelo racismo morrem. Ser negro é fatal, e ponto final. Não é apenas ser negro em certas situações ou quando você é parte de determinada classe social. Eu, com esse moletom e em alguma parte ‘errada’ do país, poderia levar um tiro apenas por andar rápido demais na rua ou por passar muito tempo olhando para a pessoa errada. Essa é a realidade no nosso país. E fazer uma série que supostamente é sobre a experiência negra e não tratar disso parecia algo muito irresponsável. … Simplesmente é parte da vida — infelizmente.”

O crescimento do nacionalismo branco nos Estados Unidos de Trump é outro fato concreto do mundo no qual "Cara Gente Branca" foi lançado — algo do qual Simien já tinha consciência antes, mas que constatou novamente em fevereiro, quando a Netflix lançou um vídeo com uma prévia da série.

O vídeo foi criado apenas para anunciar a data de estreia, mas a reação negativa, que Simien já havia enfrentado em uma escala menor em 2014 por causa do título do seu filme, ressurgiu dez vezes maior, graças ao megafone cultural da Netflix. Uma campainha para negativar o vídeo no YouTube foi lançada e muitas pessoas afirmaram que cancelariam sua assinatura da Netflix para protestar contra a mera existência da série.

No entanto, esse tipo de agressão, familiar e anônima, não doeu tanto dessa vez quanto em 2014. “Fiquei calejado”, explicou, repetindo o que escreveu em um extenso artigo (em inglês) no site Medium, que foi publicado durante o período de maior controvérsia. “O que eles estão falando não é sobre mim. Todo esse papo de genocídio branco e supremacia negra, isso é coisa deles. Há muita projeção: todas aquelas coisas que eles projetaram em Obama… essas são as coisas que os políticos deles estão fazendo! E isso é muito triste. Mas quer saber? Eu entendo. É dor. Eu sei como é ser confrontando por algo que você não consegue conceber que é verdade. Eu entendo. Isso acaba com você, com os seus valores fundamentais. É parte da condição humana. Todos fazemos isso, em níveis diferentes.”

É uma conclusão que, em parte, decorreu de uma tentativa de compreender aqueles que vivem fora de sua caixa de ressonância: uma visão de mundo limitada fez com que muitos norte-americanos, incluindo os que trabalharam na série, ficassem arrasados com o resultado da eleição americana. Ao longo da entrevista, Simien falou repetidas vezes de dissonância cognitiva — uma teoria que afirma que as pessoas são forçadas, por forças internas, a uma sincronização de todas as suas crenças. É uma mentalidade que ele compreende plenamente. “Eu sei como é ser confrontando por algo que você não consegue conceber que é verdade”, afirmou, citando o amor por certas divas do pop há muito esquecidas pelo mundo como um exemplo insolente.

“Tenho de escrever sobre essas pessoas e tenho de responder ao que elas estão fazendo de uma maneira inteligente, por isso tenho de me abrir a como eles chegaram a isso”, explicou. “Mesmo que eu não queira, mesmo que eu não ache que isso seja algo do meu interesse, politicamente falando, como artista eu tenho que fazer. Tenho que entender isso porque não faz sentido para mim, não faz nenhum sentindo que o fato de uma pessoa negra ser igual a você possa ameaçar os valores fundamentais de algumas pessoas. Porém, por alguma razão, essa é uma experiência que existe e eu tenho que entendê-la, porque as pessoas negras não criaram o racismo. As pessoas brancas criaram o racismo e apenas as pessoas brancas podem acabar com ele. Então, se eu serei parte da mudança, tenho que entender isso. Tenho que entender as pessoas que estão contra mim — Tenho que compreendê-las.”

Na tentativa de entender aqueles que, aparentemente, permanecem contra ele, Simien encontrou uma fonte infinita de inspiração artística. Quando trolls e bots voltaram seus olhos para o anúncio de estreia da série, o namorado de Simien lhe explicou o quão sofisticados os haters haviam se tornado desde o último encontro deles, e seu horror logo se transformou em obsessão. “O modo como os racistas modernos -- que se denominam direita alternativa ou supremacistas brancos ou qualquer outro termo-- o modo como eles operam … honestamente me surpreendeu. Anteriormente era engraçado, agora é fascinante”, disse. “E quando fico fascinado com algo, isso passa para o meu trabalho, então vamos falar sobre essas coisas.”

A ironia, segundo Simien, é que as próprias pessoas que estão reclamando de um negro criando uma série chamada "Cara Gente Branca" (ele aponta para a série livre de controvérsias do programa de Stephen Colbert, "Hey White People!" [Ei, Pessoas Brancas! em tradução livre]) são as mesmas que se divertiriam mais com ela. “[Eles] não me amedrontam porque, se a pessoa é tão covarde a ponto de criar centenas de milhares de contas falsas para passar a impressão de que sua opinião é mais proeminente do que verdadeiramente é, isso é triste”, afirmou, com um tom calmo que ressaltava o pouco crédito que dá aos haters. “Ninguém acha que vocês são pessoas de verdade, então quando vocês dizem que vão boicotar a Netflix, ninguém dá a mínima. Porque isso não se reflete nos números ou na cultura. Nenhum desses supostos boicotes — contra a Starbucks, a Target ou qualquer outra coisa — funcionaram porque… é uma, odeio usar essa palavra, uma minoria de pessoas muito vocal. É triste. É realmente triste. Porque o ponto é, eu sei como é ser realmente oprimido, eu sei como é ser realmente marginalizado, e se é assim que você se sente, ver essa série será a coisa mais reconfortante que você pode fazer.”

Como o filme, a série analisa a interseção e a interação entre raças e classes, porém ainda mais importante do que esses rótulos superficiais são as questões sobre nossa humanidade que estão no cerne da série. “Como você descobre quem você é quando o que você é tem uma importância maior para as pessoas da sociedade na qual você acaba inserido?”, pergunta Simien. “Você é uma mulher negra. Esqueça quem você é, isso representa o que você é. E, francamente, essa meio que é a experiência universal de ser parte de qualquer comunidade marginalizada.” É um dos muitos conceitos trazidos do filme. A série, contudo, oferece a Simien a oportunidade de explorar novos territórios que talvez tenham sido abordados no seu roteiro original de mais de 200 páginas, mas que acabaram removidos para que o filme chegasse às telas.

Em razão do vasto número de experiências pessoais que Simien gostaria que a série abrangesse na primeira temporada, era essencial que as forças criativas por trás fossem tão diversificadas quanto as histórias que ele queria compartilhar com o mundo. Por isso, ele e Yvette Lee Bowser, produtora-executiva e showrunner da série, entraram em contato com algumas das vozes mais provocativas do ramo atualmente. Além de Simien, que escreveu e dirigiu três episódios, também trabalharam na direção da série Barry Jenkins, ganhador do Oscar com o filme "Moonlight: Sob a Luz do Luar", Tina Mabry (da série "Queen Sugar") e Nisha Ganatra (que já dirigiu de tudo, inclusive as séries "Transparent" e "Better Things"). A série ainda contou com os roteiros de Njeri Brown (da série "Black-ish"), Jack Moore (da série "Difficult People") e Nastaran Dibai (das séries "Living Single", "3rd Rock From the Sun").

“Eu pensei: ‘Que porra que eu estou fazendo contando uma história sobre mulheres negras sem mulheres negras por trás das câmeras — ou simplesmente mulheres e ponto final?’”, declarou, quase como se quisesse colocar um pouco de bom senso no universo para que outras pessoas também possam prestar atenção a isso. Ele também destacou as inúmeras contribuições de Bowser. “Coco, Sam, Kelsey e Joelle, elas são uma parte importante da série, então, para mim, contar suas histórias sem uma influência feminina não fazia sentido. Simplesmente parecia errado.”

Essa colaboração reforça as inspirações que Simien tem para as próximas temporadas, para as quais ele espera ter o sinal verde da Netflix: “O feminismo é algo com o qual estou interessado em trabalhar em temporadas futuras”, disse. “Há uma disparidade — especificamente em relação à experiência negra, porque ser uma mulher negra é diferente de ser uma mulher. É assim. Desculpe, mas é assim. E qualquer um que tente dizer a uma mulher negra que os problemas dela são iguais aos de mulheres brancas está errado.”

E esse é só o início dos planos de Simien para o gigantesco mundo de "Cara Gente Branca". “Não consegui fazer metade do que queria na primeira temporada”, disse gargalhando. “Na 1ª temporada, apresentamos os personagens e tivemos um início divertido e estimulante, mas acho que é hora de tratar de outra coisa, do fato de que há muitos segredos neste país que escondemos uns dos outros. Tentamos solucionar esses grandes problemas e não chegamos a lugar nenhum, porque muito disso tem a ver com o fato de que nós não admitimos de verdade qual é o cerne da questão. Acho que, conforme esses personagens ficarem um pouco mais velhos, alguns deles serão expostos, no decorrer da temporada, de tal maneira que eles se sentirão desconfortáveis. Acho que está na hora de tratar de algumas dessas coisas mais profundas — tanto em termos de com o que lidamos como país, mas também com o que lidamos em nossas vidas pessoais.

“Eu simplesmente tenho mais histórias”, acrescentou com nítido entusiasmo. “E acho que é o bastante para fazer um bocado de temporadas. Espero que tenhamos mais, porque me sinto mais encorajado do que nunca.”

Este post foi traduzido do inglês.

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