Por que o sofrimento das mulheres vale menos do que o dos homens?

    Aprendemos que as meninas precisam se preocupar com os sentimentos dos meninos, as vidas dos meninos. No entanto, será que os meninos também são ensinados a se preocupar conosco?

    A autora deste post aos 18 anos.

    Quando eu estava na terceira série, bati em um menino que chamarei aqui de Andrew (esse não é o seu nome verdadeiro) enquanto brincávamos de pega-pega.

    Em vez de alcançar os outros com as mãos, deveríamos usar bastões de espuma amarelos. A intenção da escola, provavelmente, era evitar qualquer tipo de contato que pudesse derrubar ou machucar o colega. Mas o tiro saiu pela culatra; quando bati em Andrew com meu bastão e ele tentou fugir, o objeto acertou em cheio seu olho.

    "Ai!", ele gritou. Quando me aproximei para ver se estava tudo bem, ele me empurrou no peito. Ele estava chorando. Enquanto o professor de educação física o levava para a enfermaria, fui tomada por uma terrível onda de culpa.

    Naquela noite, me corroí por dentro pensando em como poderia consertar as coisas. De alguma forma, eu sabia que ele tinha ficado chateado comigo mais por causa do constrangimento que tinha passado do que pela dor. Apesar disso, foi horrível pensar nele sentindo qualquer tipo de dor, fosse ela emocional ou não. Ele era um garoto lindo, loiro, de olhos azuis, um dos meus primeiros crushes – e nutria certo respeito invejoso por mim porque, embora eu fosse bem desinteressante, conseguia enfrentá-lo no futebol na hora do intervalo. Eu queria preservar qualquer possível sentimento positivo que ele nutrisse por mim. Queria ser uma boa pessoa.

    Naquela noite, durante o jantar, tive uma atitude incomum e pedi conselhos à minha mãe. Ela recomendou que eu escrevesse um cartão de desculpas. Então redigi um pequeno recado em um pedaço de papel e o deixei na carteira de Andrew no começo da manhã. Do outro lado da sala, assisti quando ele e um amigo abriram o bilhete e começaram a rir sem parar. Minha culpa virou humilhação. Eu me preocupei tanto com a dor dele só para vê-la depois se voltar contra mim.

    Desde muito pequena – como aconteceu com muitas outras pessoas que foram socializadas como meninas e mulheres – sempre fui hiper consciente do sofrimento dos meninos.

    Aquele incidente na terceira série ainda está gravado na minha memória. Eu me lembro da expressão exata de Andrew chorando. Lembro de como me senti péssima, tanto naquele dia quanto no dia seguinte, quando minha tentativa desajeitada de pedir perdão foi recebida com risadas e escárnio.

    Me lembro daquela vez da mesma forma que me lembro de muitos outros momentos em que machuquei os garotos ou os homens que conheci, com ou sem intenção. Meu primeiro namorado, por exemplo, que se machucava com a ponta de um lápis quando achava que eu ia terminar com ele ou o menino do ensino fundamental de quem ri uma vez por usar um casaco coberto de pelo de gato para ir à aula – uma piada maldosa da qual ainda me arrependo.

    Ao longo da minha vida, sempre estive tão consciente dos sentimentos dos homens que ocasionalmente os priorizava em detrimento dos meus próprios (como em todas as vezes em que fiz sexo mesmo não estando a fim) — tanto para fazer aqueles homens se sentirem melhores quanto para me proteger da ira deles; às vezes ambos. Apesar disso, nunca consegui descobrir a medida certa para acalmá-los sem fazê-los se sentir emasculados.

    Aprendemos que as meninas precisam se preocupar com os sentimentos dos meninos, as oportunidades dos meninos, as vidas dos meninos. No entanto, será que os meninos também são ensinados a se preocupar conosco?


    Meus seios haviam acabado de se desenvolver quando uma das minhas melhores amigas me trancou em um armário minúsculo com o irmão dela. Nós estávamos na casa deles, e só percebi que não era ela que tinha entrado comigo lá dentro quando a porta já estava fechada.

    Gritei para a minha amiga abrir, mas ela tinha ido para outro lugar da casa. Ainda não tenho certeza do que ela queria me trancando lá. Nós fazíamos muitas brincadeiras uma com a outra, e nosso comportamento não era bem aquele que se espera de garotas pré-adolescentes — nós duas vestíamos bermudas jeans na altura do joelho e camisas de basquete. Eu era um tomboy, uma lésbica em potencial, e talvez ela também. Perdemos contato depois do ensino médio.

    Aprendemos que as meninas precisam se preocupar com os sentimentos dos meninos, as oportunidades dos meninos, as vidas dos meninos. No entanto, será que os meninos também são ensinados a se preocupar conosco?

    Naquele espaço minúsculo, o irmão dela — que era ainda menos popular que nós duas, mais velho — se projetou sobre mim de forma desajeitada, prendendo minhas duas mãos no chão. Eu não me mexi, paralisada e curiosa sobre o que ia acontecer.

    "Levante sua blusa", disse ele. Eu ainda consigo ouvir o som de sua voz dando o comando. Ele não pronunciou o R, fazendo a palavra "shirt" (blusa) soar nojenta e absurda ("shit", que significa merda em inglês). Eu ri, e ele apertou ainda meus pulsos. "Levante sua blusa."

    "Não", respondi. Senti certo prazer por um garoto, por mais nojento que fosse para mim, achar meu corpo desajeitado e coberto por roupas masculinas desejável; foi uma mistura de prazer com um pouco de asco, um pouco de horror e, em algum lugar da minha mente, uma pontada de medo. Mas a minha amiga não ia nos deixar aqui por muito tempo, né?

    "Levante", disse ele. Eu me pergunto agora o que o impediu de tirar minha blusa sozinho. Ele achou que me prender em um armário trancado estava dentro dos limites de uma conduta socialmente aceita, mas arrancar minhas roupas seria ir longe demais?

    Não sei por quanto tempo ficamos lá, tendo a mesma conversa repetidamente — "Levante". "Não." — antes que eu começasse a ficar entediada e com um pouco de medo e conseguisse sair de baixo dele. Ele era maior, mas eu era mais alta. Eu tinha uns 12 anos, e ele em torno de 15. Depois que ouviu nossos corpos batendo contra as paredes enquanto eu tentava me livrar dele, minha amiga abriu a porta do armário.

    Quando entrei no ensino médio, conheci vários garotos diferentes e também namorei alguns. Um deles me incentivou a realizar alguns atos sexuais muito antes de eu estar pronta. Outro, sentindo minha leve hesitação durante um de nossos encontros em seu quarto, afastou-se imediatamente, vestiu suas roupas e passou o resto da noite alisando meu cabelo. Ainda houve outro que foi meu amigo por muitos anos, e a quem eu amava e admirava, em parte porque ele nunca tentou me deixar desconfortável nem me viu apenas como uma oportunidade sexual, até o dia em que, depois de muito adiar, finalmente fez tudo isso.

    Quando eu percebi que era lésbica, já no fim da faculdade, achei extremamente difícil deixar o mundo dos homens para trás. Eu estava com o mesmo cara havia quase cinco anos e achava que um dia nos casaríamos. Ele era amável, honrado, divertido e gentil. Muitos anos antes de existir a hashtags sobre agressão sexual, ele me provou que #NemTodosOsHomens são violentos; que nem todos os homens são predadores sexuais. Como um garoto de 17 anos, ele foi tão bom para mim como foi quando nos separamos assim que nos tornamos adultos.

    Mas nem todos parecem concordar que existe uma diferença entre homens jovens violentos e não violentos.

    Após vir à tona denúncias de agressão sexual contra Brett Kavanaugh, juiz indicado a uma vaga na Suprema Corte dos EUA por Donald Trump, tanto o Twitter quanto os noticiários de TV a cabo foram inundados por políticos, especialistas e formadores de opinião que parecem não ver nada de incomum ou digno de nota em atos como se deitar em cima de uma garota, tentar tirar suas roupas e abafar seus gritos.

    [Para contexto: uma mulher chamada Christine Blasey Ford acusa Kavanaugh de agressão sexual. O caso teria ocorrido em 1982, quando os dois eram adolescentes. Ela alega que, durante uma festa, ele a forçou a deitar em uma cama, começou a esfregar seu corpo no dela e tentar tirar suas roupas. Ainda segundo Ford, quando ela tentou gritar, ele cobriu sua boca com as mãos. Ela teria conseguido escapar quando um amigo dele se jogou em cima dos dois.]

    Esses comentaristas se perguntam se cometer uma agressão sexual no ensino médio deveria "prejudicar oportunidades na vida adulta". Outros querem nos fazer pensar que, mesmo que a denúncia seja verdadeira, "algo feito por um garoto de 17 anos, presumidamente muito bêbado, deve desqualificá-lo?"

    A balbúrdia em cima da indicação de Kavanaugh lembra discussões similares durante o caso contra Brock Turner, ex-nadador da Universidade Stanford que foi condenado em 2016 por três acusações de agressão sexual grave e cujo recurso foi negado no mês passado. Um homem jovem de apenas 19 anos que "queria apenas sexo sem penetração" deve ser submetido a uma sentença que destruirá sua vida por causa de uma pequena indiscrição juvenil regada a bebida? No caso de Turner, seus apoiadores argumentaram que ele não merecia a ruína que supostamente cairá sobre ele após apenas alguns meses na prisão.

    Para que fique claro, a situação de Kavanaugh é diferente — ele não foi acusado nem condenado por agressão sexual e não precisa cumprir uma pena nem ser fichado como agressor sexual. Mas talvez ele simplesmente não possa assumir uma vaga no mais alto tribunal dos Estados Unidos, no qual moldaria políticas públicas e a cultura por décadas.

    Como a escritora Moira Donegan tuitou recentemente: "Em muitos escândalos do #metoo, negar prêmios superlativos a homens que são alegadamente agressores sexuais é considerado uma punição cruel."

    A suposição de que adolescentes e jovens adultos que cometem erros (violentos, criminosos) não devem ser punidos com consequências futuras em suas vidas é, claro, um benefício oferecido quase que exclusivamente a garotos brancos e ricos, que normalmente não precisam enfrentar os destinos mais difíceis de suas contrapartes menos privilegiadas: garotos e homens negros que são levados diretamente da escola para a prisão e precisam cumprir sentenças maiores por crimes menores e não violentos.

    Talvez alguns homens do #MeToo e seus defensores também acreditem que seus supostos crimes foram menos graves; isso se foram crimes. Pelo menos, não foram graves a ponto de merecerem algo tão drástico quanto uma admissão de culpa, um pedido de desculpas ou um compromisso de se tornar uma pessoa melhor — imagine então sofrer consequências profissionais ou criminais.

    Eles opõem a dor de serem acusados com a dor das mulheres que os estão acusando, e é claro que sabemos com qual dor devemos nos preocupar mais. "Eu lamento por muitos daqueles homens", escreveu Michelle Goldberg no The New York Times, "mas eu não acho que eles lamentem pelas mulheres, ou pensem de qualquer forma na experiência delas."

    Dito de outra forma, pela escritora Heather Havrilesky: "Homens cruéis acreditam que merecem redenção e uma eventual exaltação simplesmente por terem sofrido. Imagine se as mulheres pensassem assim. Imagine se o sofrimento de uma mulher fosse pelo menos uma preocupação passageira."


    "Se alguém pode ser derrubado por acusações como essa, então você, eu e todos os homens certamente devemos nos preocupar", disse, recentemente, um advogado da Casa Branca ao site Politico, em resposta às alegações contra Kavanaugh.

    Talvez ele esteja certo. Todos os homens deveriam pelo menos pensar nas suas experiências do passado para descobrir se há algo com o qual eles precisam se preocupar, qualquer coisa que talvez precise de redenção. Tenho a sensação de que algumas das minhas lembranças mais fortes de dor e desconforto nas mãos de garotos e homens são lembranças apenas minhas. Ainda me lembro daquele espaço minúsculo perto do quarto da minha melhor amiga e do que aconteceu lá. Será que o garoto que me segurou se lembra, ou aquela manhã sumiu em meio a todos os outros verões ensolarados de sua adolescência?

    Ou talvez, caso ele se lembre, seja de uma maneira diferente. O homem que me estuprou, afinal, me mandou uma mensagem no dia seguinte dizendo que nossa noite tinha sido ótima. A perspectiva dele ofuscou a minha tão completamente, tão sumariamente, que eu levei anos para me reerguer por baixo desse peso.

    Outra questão que precisamos encarar é se devemos tentar responsabilizar supostos agressores sexuais por atos cometidos anos e até décadas atrás, quando ainda eram adolescentes.

    O debate sobre o que exatamente devemos fazer com todos esses homens do #MeToo continua; agora, outra questão que precisamos encarar é se devemos tentar responsabilizar supostos agressores sexuais por atos cometidos anos e até décadas atrás, quando ainda eram adolescentes.

    Ao escrever para a revista Atlantic, Caitlin Flanagan sugere que "adolescentes cometem erros, alguns deles sérios. Uma medida do caráter de uma criança é o que ela faz em seguida." Ela conta a história de um garoto que tentou estuprá-la e se desculpou alguns anos depois, o que a estimulou a perdoá-lo.

    As situações vão variar, claro, mas, nesse momento, o simples reconhecimento de que as agressões, tentativas ou outros atos de fato aconteceram parece ser um primeiro passo necessário rumo ao que quer que aconteça. Flanagan ressalta que, se a história de Ford for verdadeira, Kavanaugh claramente não se encaixa aqui. "Ele nunca tentou corrigir o erro, nunca se responsabilizou pelo que fez... Pelo relato de Ford, os atos de Kavanaugh causaram danos permanentes, e ele não fez absolutamente nada para tentar corrigir isso. E é por isso que o erro de um garoto de 17 anos ainda importa."

    Claro, nem todos concordam com Flanagan. Outros continuarão argumentando que homens acusados de agressão quando adolescentes tinham, afinal de contas, 15 ou 17 ou 21 anos. Apenas crianças. Tanto tempo atrás. E digamos que a agressão realmente aconteceu, quer o acusado se lembre ou não; por que se preocupar em fazer alguma coisa agora? Foi só mais uma festa, só mais uma noite, só mais uma garota. Alguma experiência sexual banal regada a bebida da qual ninguém se lembra na manhã seguinte, imagine então no mês seguinte, ou no ano seguinte, perdida no abismo onde as memórias irrelevantes são deixadas para apodrecer e desaparecer.

    Mas aquelas garotas — que também eram crianças na época — também crescem. Nós crescemos. E nós lembramos. ●

    A tradução deste post (original em inglês) foi editada por Luísa Pessoa.

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