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8 de mar de 2018

É impactante como homens e mulheres entendem assédio sexual de forma diferente

Muito além de mimimi.

by ,
BuzzFeed Brasil

“Hoje em dia o mimimi tá em alta”. Este foi o comentário de um homem jovem adulto no campo Gostaria de dizer mais alguma coisa? da pesquisa do BuzzFeed Brasil abordando como nossos leitores definem assédio sexual.

“Fico imaginando quantos homens acham essas questões besteira ou frescura”, escreveu uma mulher de idade entre 16 e 24 anos. “Para o assediador nada é assédio, tudo é exagero, tudo é mimimi ou feminismo em excesso. Para o assediado, é uma forma de violência velada, que te faz temer quando um comentário inapropriado pode virar um estupro”, comentou uma mulher com idade entre 16 e 24 anos.

Estas pessoas não estavam conversando entre si, mas é impactante como as mulheres já sabem o que esperar quando o assunto é assédio sexual.

BuzzFeed Brasil / Via infrogr.am

A pesquisa não tem valor estatístico, mas é reveladora. Através de um formulário online, recebeu anonimamente respostas de 3.700 homens e 24.391 mulheres. Propusemos 13 situações que a pessoa deveria julgar se configuravam assédio sexual respondendo "sim", "não" ou "depende". Muitos homens acharam pertinente indicar que responderam "não" ou "depende" porque as perguntas não davam um contexto para a ação. Algumas mulheres também comentaram isso, mas em um número muito menor. O que ficou bastante claro é que quando se é mulher e se convive com o medo do assédio sexual constantemente e desde muito cedo, você já pressupõe facilmente que não há consentimento em situações como "olhar para uma pessoa de maneira que a deixa desconfortável".

“Houve situações do questionário que eu não havia pensado que poderiam ser assédio. Ao responder, deu pra perceber que 'assédio sexual' é algo muito mais amplo do que eu imaginava”, comentou um leitor com idade entre 16 e 24 anos.

BuzzFeed Brasil / Via infrogr.am

Destacamos dados e depoimentos da pesquisa que mostram como homens e mulheres enxergam o assédio sexual de forma diferente.


O MEDO NA RUA

Mais de 3 a cada 10 homens acham que pode ser ok desviar o caminho para seguir alguém na rua.

 8 em cada 10 mulheres acham que esta situação sempre é assédio.

“Eu tenho 22 anos e uma irmã de 12. Tudo o que eu queria no mundo é que ela pudesse fazer as coisas sem medo. Que ela não recebesse olhares ameaçadores na rua, não tivesse medo de ser seguida. Que eu não precisasse ensinar a ela que ninguém pode tocá-la sem ela querer”, mulher, 22 anos

“Acho que desviar o caminho se você tem a intenção de conversar com a pessoa de uma maneira adequada não é um problema, se for para seguir a pessoa como um maníaco aí não dá”, homem, idade entre 25 e 34 anos

“Estes dias, voltando do trabalho para a casa, um senhor de idade começou a me seguir. Utilizei aquela 'técnica' de diminuir o passo para ver se ele me ultrapassava, mas ele parou e me abordou perguntando meu nome e telefone. Continuei andando e falando 'não' e uma hora ele parou de me seguir. Muitos podem achar 'normal' a conduta desse idoso e que estou de mimimi, mas seguir um mulher meia-noite de um domingo em uma rua mal iluminada? Insistir em saber nome e telefone? Isso não é normal", mulher, idade entre 25 e 34 anos


OLHAR É ASSÉDIO?

63% das mulheres consideram assédio sexual olhar uma pessoa de maneira que a deixe desconfortável.

45% dos homens acham o mesmo.

“Para mim, assédio só acontece quando há contato físico”, homem, idade entre 16 e 24 anos

“Quando homens não falam nada, mas ficam olhando obsessivamente para uma mulher na rua, também estão assediando”, mulher, idade entre 16 e 24 anos

“Fiz faculdade de Física e sempre foi muito difícil ser mulher nesse meio dominado por homens. Desisti de cursar uma matéria porque o professor me 'comia com os olhos'. Não senti segurança para falar disso com ninguém nem liberdade para denunciar, pois o professor 'só estava olhando'”, mulher, idade entre 16 e 24 anos


A TAL DA "CANTADA"

Perguntamos dois cenários: "fazer comentários não solicitados sobre o corpo e atributos físicos de uma pessoa conhecida ou desconhecida" e "fazer um comentário elogioso, mas de cunho sexual ou a respeito da aparência, para uma pessoa desconhecida na rua".

74.6% das mulheres consideram assédio sexual receber "cantadas".

52.8% dos homens concordam. Um terço deles acha que depende da situação.

“Esses dias, um vizinho que é cerca de 15 anos mais velho que eu disse que cresci muito rápido, que se lembrava de mim pequena e, agora, se surpreende ao ver que me tornei um mulherão, mas ‘com todo o respeito’. Fiquei sem palavras, me senti invadida, envergonhada, queria sair correndo e chorar. Gostaria de dizer a todos os homens que, pra mim, isso foi assédio sexual e que não tem como alguém dizer isso ‘com todo o respeito’", mulher, idade entre 16 e 24 anos

12% dos homens NÃO consideram que é assédio fazer um comentário elogioso, mas de cunho sexual ou a respeito da aparência de uma pessoa desconhecida na rua.

3% das mulheres concordam.

“Obviamente é possível elogiar uma pessoa desconhecida na rua sem ser desrespeitoso e na minha opinião isso não configura assédio", homem, idade entre 16 e 24 anos

“É triste como o assédio tem efeitos permanentes em mulheres que passaram a vida inteira ouvindo fiu-fius e palavras de cunho malicioso. Com o passar do tempo comecei a andar de cabeça baixa para evitar olhar para qualquer homem, passei a não dar bom dia para nenhum vizinho e a desconfiar de qualquer cara que demonstre interesse por mim, porque me sinto apenas um objeto. É revoltante ouvir alguém falar que elogiar uma mulher na rua não é nada demais. É sim, cara, é assustador e traumatizante”, mulher, idade entre 25 e 34 anos


INSISTIR É PIOR QUE TOCAR OU ROUBAR BEIJO?

Para 87% das mulheres e 75% dos homens, insistir quando alguém já disse "não" é assédio sexual. 

“Falta empatia. Quando não nos colocamos no lugar do outro, achamos exagero quando a pessoa reclama. O problema todo sobre o assédio está nisso: o que pode não ser assédio para você pode ser para mim e se eu disse não/para/chega, é pra respeitar”, mulher, idade entre 25 e 34 anos

“Os homens precisam entender que quando dizemos 'não', não estamos fazendo charme”, mulher, idade entre 16 e 24 anos

“Muitas das situações dependem de como a pessoa irá reagir, pois a diferença entre flerte e assédio é muito pequena. Logo, se após o primeiro 'não' a pessoa continuar insistindo em qualquer situação, eu considero assédio”, homem, idade entre 16 e 24 anos

“Eu acho que até num relacionamento, quando um dos dois diz que não quer fazer algo como sexo ou beijar em público, mas o outro insiste, é abuso sexual. Já sofri abusos de vários tipo, sexual, psicológico, moral, e queria ter a confiança de que quando tiver filhos eles estarão seguros para sair de casa e se relacionar sem medo de sofrer abusos", mulher, idade entre 16 e 24 anos

Quando o assunto é beijo roubado, 76% das mulheres e 67% dos homens consideram ser assédio todas as vezes.

“Fui a uma festa e um menino sentou do meu lado e começou a puxar papo. Eu não queria ficar com ele. Ele disse que iria embora se eu desse um beijo nele. Fiz uma cara de ‘cara, você é chato, hein’ e ele pediu pra eu olhar pra ele. Quando eu olhei, ele me beijou. Cortei o beijo. Ele levantou e disse que ia procurar os amigos deles e foi embora. Fico me perguntando se isso foi assédio. Vocês conseguem me responder?”, mulher, idade entre 16 e 24 anos

“O beijo roubado, com o bom senso de que a pessoa também está a fim e mandando sinais de que quer, pode ser muito legal. Na dúvida se a pessoa quer e está permitindo isso, é melhor não”, homem, idade entre 16 a 24 anos.

Um terço dos homens acha que tocar alguém em lugares sugestivos só é assédio dependendo da situação. Mais de dois terços das mulheres consideram que isto sempre é assédio sexual.

“Meu colega de trabalho, hétero, foi em uma balada LGBTQ e alguém passou a mão na bunda dele. Ele não gostou nem um pouco e quis agredir o assediador. Mas já presenciei esse mesmo colega forçando beijos com mulheres embriagadas”, mulher, idade entre 16 e 24 anos

“Uma vez estava em casa com amigas e amigos da minha mãe. Fui pegar uma cerveja pra ela e um dos 'amigos' me seguiu até o cozinha e disse que eu 'já estava grande, tinha crescido e ficado muito bonita'. Dei um passo pra trás com medo do olhar dele, ele me encurralou na parede e me deu um beijo no pescoço. Mesmo sendo 'só' um beijo no pescoço eu me senti imunda. Gostaria de ter dito 'não' e me afastado dele, mas na hora eu congelei, não sabia o que fazer”, mulher, idade entre 16 e 24 anos


20% das mulheres NÃO consideram assédio sentar-se sem ser convidado em uma mesa de bar onde está a pessoa que você quer abordar.

35% dos homens acham que sentar na mesa de bar sem ser convidado não é assédio.

“Tudo depende do consentimento. Qualquer coisa que deixe alguém desconfortável é acima de tudo desrespeito e não deveria ser posta em prática. Caso faça sem a intenção, peça desculpas e pare imediatamente. Como no caso do sentar na mesa de bar: se você foi paquerar a pessoa e ela se mostrou desconfortável, peça desculpas e se retire", mulher, idade entre 16 e 24 anos

“Sentar sem oferecer incômodo ou desconforto não é problema algum. Conversar com a pessoa que você deseja abordar DE FORMA INTELIGENTE E AGRADÁVEL não é problema algum. Mas a partir do momento em que rola um 'não' é hora de pedir desculpas e se levantar”, homem, idade entre 16 a 24 anos


ASSÉDIO NO AMBIENTE DE TRABALHO

80% dos homens e 93.6% das mulheres consideram assédio sexual fazer comentários de cunho sexual ou sobre aparência no ambiente de trabalho. De todas as situações, foi a com maior índice de respostas “sim, é assédio”.

“Sou assediada todos os dias no meu trabalho desde que estou solteira. Colegas de trabalho com quem nem tenho amizade fazem comentários não requisitados sobre minha roupa, meu batom e posts meus em redes sociais com uma intimidade que nunca existiu. Recebo massagens não requisitadas nas costas, toques no cabelo, beijos de bom dia segurando minha cintura. Me sinto invadida, mas infelizmente tenho que agir com educação, pois dependo diretamente dessas pessoas para que meu trabalho aconteça com fluidez. Trabalho em um local onde o machismo é institucionalizado, recebemos e-mails com regras para vestimenta feminina, inclusive e-mails diretos de minha chefe proibindo o uso de itens como: batom vermelho e bota de cano alto, pois deixam a mulher sensual. É desanimador”, mulher, idade entre 25 e 34 anos

Já quando o comentário é um galanteio para elogiar o trabalho, 24.7% dos homens e 27.9% das mulheres consideram que depende da situação.

“Hoje as pessoas levam tudo muito a sério e se sentem ofendidas com qualquer coisa. Na minha opinião, existem muitos casos que podem ser resolvidos com diálogo: se você não gosta do tratamento que recebe no seu ambiente de trabalho, diga isso a pessoa que tem te 'assediado', pois do ponto de vista dela isto pode ser apenas uma maneira de te tratar com mais familiaridade, sendo uma piada ou até um elogio”, homem, idade entre 16 e 24 anos

“Nunca trabalhei em um lugar onde não existisse assédio. O pior foi no último emprego, um chefe sempre tocava o meu cabelo e queria saber sobre a minha vida pessoal. Uma vez perguntei se precisavam de alguma coisa antes de ir almoçar e um chefe me respondeu 'um abraço' e me agarrou. Antes de ser demitida, formalizei minhas insatisfações por e-mail para os sócios e meu gerente. Conversaram comigo e disseram que não sabiam que eu era tão sensível. Essa é a primeira vez que exponho isso. Ainda não voltei para o mercado de trabalho e tenho depressão e pânico”, mulher, idade entre 25 e 34 anos


COMENTANDO NA RODINHA

76.4% das mulheres considera que ser alvo comentários sexuais quando se está em uma rodinha de amigos é assédio. O número cai para 69.4% se alguém pergunta do nada sobre a vida sexual ou pessoal delas.

Já 18% dos homens não consideram assédio sexual nenhuma das duas situações.

“Sobre fazer comentários sexuais sobre alguém na rodinha de amigos, isso ocorre muito com meus amigos, mas apenas porque temos esse tipo de relacionamento. Com certeza não nos sentiríamos bem se isso ocorresse em outro tipo de ambiente ou caso estivessem pessoas estranhas ou alheias no nosso meio”, mulher, entre a 25 a 34 ano

“Gostaria de esclarecer melhor as minhas respostas no 'não'. Penso que realizar esses tipos de comentários não se caracteriza como assédio (crime) mas são completamente desnecessários e podem deixar as pessoas desconfortáveis, por isso precisa criar um pouco mais de consciência nas pessoas (homens principalmente) para evitá-los”, homem, idade entre 16 e 24 anos