10 perguntas e respostas sobre a crise da água em São Paulo

A conta vai ficar mais cara? Como saber quando vai faltar água no meu bairro? Dá para usar a água do Tietê?

1. Dá para aproveitar a água do rio Tietê?

Paulo Whitaker / Reuters

Por enquanto, não.

Serão necessários ainda mais de 20 anos de investimentos e esforços para que o rio possa ser considerado recuperado e com água utilizável, segundo Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da Fundação SOS Mata Atlântica. Só para lembrar: as obras do projeto de despoluição do Tietê começaram em 1993.

2. Por que muitas vezes quando chove na cidade não chove nos sistemas de represa?

André Lucas/Futura Press/Estadão Conteúdo

O primeiro e mais óbvio motivo é que a maioria das chuvas registradas nas últimas semanas aconteceram na capital, distante das represas.

Mas há ainda outras explicações complementares.

Os sistemas estão sobrecarregados, com solos ressecados e a chuva de convecção, outro nome do que conhecemos por ‘chuva de verão’, de curta duração e alta intensidade, causada pelo massas de ar quentes, dão pouco resultado para a condição atual do Cantareira, explica Antônio Carlos Zuffo, professor do Departamento de Recursos Hídricos da Unicamp.

3. Quais são as consequências da redução de pressão na rede de distribuição de água, medida que a Sabesp tomou recentemente?

Tippapatt

Há duas principais, uma boa e outra ruim.

A boa é que com a pressão reduzida, as perdas em falhas de encanamento, problema crítico da rede de distribuição hídrica paulistana, também diminui.

A ruim é que, com menos força, a água deixa de chegar antes em regiões periféricas, mais distantes e geralmente mais pobres, ou difícil acesso, como bairros construídos em cima de morros, explica Ivanildo Hespanhol, diretor do Cirra (Centro Internacional de Referência em Reúso de Água) da Universidade de São Paulo.

4. Já vi prédios e condomínios jogando água na rua. De onde vem essa água? É desperdício, não dá para aproveitar?

rua Frei Caneca, no centro de São Paulo / Via Google Earth

Dá sim.

Muitos prédios (como vários da rua Frei Caneca, centro de São Paulo) foram construídos em cima de lençóis freáticos e minas d’água. Para evitar o alagamento de garagens e andares inferiores, a administração dos edifícios costuma bombear a água e, muitas vezes, jogar na rua.

Não há lei que proíba a dispensa da água. Mas para utilizá-la é preciso autorização do Daee. Leia aqui nosso post sobre o assunto.

5. Vi que o governador Alckmin citou a possibilidade de utilizar a terceira cota do volume morto do sistema Cantareira. Afinal, quantas cotas de volume morto existem?

Paulo Whitaker / Reuters

Este é a terceira e última. Não há uma quarta cota.

“O volume morto total tem cerca de 500 bilhões de litros. A primeira e a segunda cota, juntas, somavam quase 300 bilhões de litros. Em tese, há mais 200 bilhões de litros”, disse Vicente Andreu, diretor-presidente da Ana (Agência Nacional das Águas).

O “em tese” do diretor é por conta das dificuldades técnicas da captação dessa terceira cota, muito próxima ao solo e bastante misturada a lodo. Alckmin, que não tinha planos de usar esses outros 200 bilhões de litros de água, disse que a captação não será problema.

6. Aliás, a água do volume morto faz mal para o consumo?

Pode fazer muito mal se não tratada corretamente. A água do volume morto é, com certeza, de qualidade inferior e pode custar até 40% a mais para ser tratada.

Promotores do Gaema (Grupo de Atuação Especial para o Meio Ambiente) do Ministério Público de São Paulo alertam que a água do volume morto pode estar contaminada por metais pesados, como chumbo e cádmio, que podem acarretar em problemas renais, diarreias, alergias, ou mesmo doenças graves como Parkinson e Alzheimer.

Sílvia Regina Gobbo, professora de ecologia da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), diz que o tratamento de água usado atualmente não elimina totalmente os metais pesados que podem estar acumulados na água do volume morto.

Alckmin diz que a água do volume morto é tratada corretamente. Mas, por via das dúvidas, não beba água sem que ela tenha passado por um filtro.

7. Como posso saber se (e por quanto tempo) meu bairro pode ficar sem água?

Reprodução/Sabesp

Reprodução/Sabesp

 

A Sabesp criou um site onde divulga os dias e os horários em que a pressão na rede de distribuição de água será reduzida na Grande São Paulo.

Por exemplo, o bairro de Pirituba terá redução de pressão diariamente entre 13h e 4h. “Em pontos elevados e que não possuem caixa-d’água, a crise hídrica pode significar longas horas sem água nas torneiras. Em casos excepcionais, até mesmo alguns dias”, explica a Sabesp no site.

Por isso, os horários representam o risco, e não a certeza, de que a região ficará sem água.

8. Não aguento mais ficar sem água, quanto custa chamar um caminhão-pipa?

Márcio Neves

Várias empresas disponibilizam o serviço. Segundo a prefeitura, São Paulo tem 23 empresas credenciadas para distribuir água potável em caminhões.

Márcio Neves, que trabalha no portal UOL e mora no bairro Tatuapé, diz que o prédio contratou o serviço da Água Leste - um caminhão com capacidade de 10 mil litros, que pode abastecer o prédio, de dez apartamentos, por uma semana. O custo foi de R$ 600.

9. De onde vem e qual é a qualidade dessa água dos caminhões?

Otávio Nogueira / Via ruralpecuaria.com.br

De poços artesianos, na grande maioria dos casos. Os caminhões são abastecidos com água subterrânea, proveniente de aquíferos.

A Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) precisa atestar se a área onde o poço está não é contaminada e quem comercializa a água precisa ter cadastro na Vigilância Sanitária.

Em áreas urbanas, é alto o risco do poço ser contaminado por esgoto; por isso há fiscalização de três em três meses.

10. A conta de água vai ficar mais cara?

A tarifa já foi reajustada em pouco mais de 6% em dezembro e a Arsesp (Agência Reguladora de Saneamento e Energia) autorizou cobrança de sobretaxa de clientes que gastarem mais neste ano do que antes da crise.

O governo de São Paulo estuda aumentar mais a tarifa, embora ainda não esteja nada definido.

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Alexandre Orrico é redator do BuzzFeed, em São Paulo.
 
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