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Entrevistamos a jogadora de rugby que foi pedida em casamento na Olimpíada

Izzy Cerullo falou ao BuzzFeed Brasil sobre como conheceu sua namorada, preconceito no esporte e como a imagem do beijo que correu o mundo pode inspirar as pessoas para torná-las mais seguras.

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Izzy Cerullo estava muito animada para a primeira Olimpíada do rugby feminino, mas nem imaginava que a maior emoção viria de fora do campo — um pedido de casamento.

Nesta entrevista, a titular da camisa 11 da seleção brasileira fala sobre a importância de a noiva dela, Marjorie Enya, ter feito publicamente a grande pergunta: "Quer se casar comigo?"

"Não teria tido tanta atenção se fosse um pedido hétero", ela afirma. "É preciso, sim, ter visibilidade para se tornar uma coisa mais aceita".

De passagem pelo Parque Olímpico para um encontro do Bradesco, que patrocina a seleção de rugby, ela falou ao BuzzFeed Brasil. Leia a íntegra abaixo.

BuzzFeed Brasil - Qual foi a importância de a sua noiva ter tomado a decisão de fazer o pedido de casamento publicamente?

Izzy Cerullo -
Toda a importância. O espírito olímpico tem tudo a ver com a diversidade e o respeito. Até o lema que estão usando nessa Olimpíada é "um mundo novo". Então é para mostrar que o mundo está mudando, por ter mais visibilidade e mais tolerância, mais respeito à diversidade. E também para mostrar que não precisamos nos esconder, ou nos sentirmos menos seguras em quem nós somos.

Claro que sempre tem aquele comentário ruim, de que a gente fez só pela atenção. Na realidade, não teria tido tanta atenção se fosse um pedido hétero. É preciso, sim, ter visibilidade para se tornar uma coisa mais aceita. É algo que não é fora do comum, é só para mostrar que o amor é o amor — e isso é motivo para comemorar.

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BuzzFeed Brasil - Nessa Olimpíada, ao menos 43 atletas são assumidamente gays. Você acha que o esporte está mais tolerante ou ainda é cedo para tirar essa conclusão?

Izzy Cerullo - É cedo, porque tem vários atletas que já nessa primeira semana dos jogos admitiram que a própria confederação e a federação internacional mantêm um silêncio, uma invisibilidade sobre atletas que são gays. Além do medo de perder patrocínios se assumir que é gay. Isso é um absurdo, um atleta precisar lidar com todas essas outras pressões, essas coisas que podem tirar o foco do esporte, tirar o foco do empenho do atleta que ralou tão duro para chegar nesse momento.

BuzzFeed Brasil - Você já passou por alguma situação de preconceito dentro do esporte?

Izzy Cerullo - Não. Eu acho que o rugby é único porque é baseado em valores. Há os cinco valores do rugby, e o respeito é um dos pilares. Então, por ser um esporte tão baseado nesses valores, seria quase impossível você enfrentar uma discriminação. Um dos melhores árbitros do rugby internacional [Nigel Owens] é assumidamente gay. Isso é incrível: ele é O MELHOR árbitro do rugby. E tem vários atletas que são abertamente gays e são abraçados pelos clubes, as pessoas até estranham quando alguém fala algo do tipo: "Não sou preconceituoso, mas..." É pra mostrar que realmente não estão vivendo os valores do rugby. Eu sempre me senti muito abraçada.

BuzzFeed Brasil - Como você e a Marjorie se apaixonaram?

Izzy Cerullo - A gente se conheceu na seleção, ela era gerente da seleção. Desde o início a gente percebeu que tinha muito em comum, que tínhamos várias prioridades alinhadas e perspectivas de vida muito parecidas. Aí começamos a ter várias conversas mais sérias e percebemos que queríamos, sim, continuar namorando. Foi em 2014.

BuzzFeed Brasil - Apesar de esta ser a estreia do rugby feminino na Olimpíada, você já competiu em vários países do mundo, até em alguns que são famosos por não serem receptivos com gays. Você percebe diferença na Olimpíada aqui no Rio e em outras competições?

Izzy Cerullo - A gente tem uma etapa do Circuito Mundial que é em Dubai, nos Emirados Árabes. Então, é uma cultura muito mais conservadora, um país muito mais conservador, mas o rugby é uma bolha. Dentro do rugby a gente não percebe.

BuzzFeed Brasil - A seleção brasileira de rugby feminino terminou a Olimpíada em nono lugar. O que isso significa?

Izzy Cerullo - Há três anos que existe o Circuito Mundial, que é essa rodada de seis etapas pelo mundo com as 12 melhores equipes do mundo. E nesses anos o Brasil era um time convidado, por ser o país-sede da Olimpíada e precisar ter mais experiência contra as melhores equipes do mundo. E nesse tempo a gente mostrou que a gente consegue ficar entre as 10 melhores, nosso ranking mundial é décimo.

Na América Latina nós estamos invictas — nunca perdemos uma partida oficial contra uma seleção daqui, somos 11 vezes campeãs sul-americanas. Então, a gente vem conquistando um monte de coisa e nossa esperança é só continuar nesse desenvolvimento, porque nesse ano a gente vai ter cinco ou seis etapas do circuito e teremos a oportunidade de continuar diminuindo a diferença entre nós e as melhores.

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