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O herói da Sé

Erasmo Francisco de Lima salvou uma refém na porta da maior catedral de São Paulo e morreu alvejado poucos segundos depois. O vídeo viral da morte do morador de rua tornou-se uma bandeira da compaixão -- mas poderia a fama virtual oferecer uma compensação justa para a família de Francisco ou mudanças significativas para a população pobre das cidades do Brasil?

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O vídeo mostrado na TV naquela tarde de quatro de setembro de 2015 era cru e sem cortes. Um drone sobrevoa a Catedral da Sé, em São Paulo, antes de recuar para mostrar que a praça, antes vazia, agora está tomada por uma multidão. As pessoas começam a correr em direção à catedral, onde, no pé da escadaria, policiais estão posicionados atrás de uma barricada de carros, com as armas na mão.

Um homem vestindo casaco verde escuro e bermuda sobe os degraus em direção à porta da igreja. Ele conduz uma mulher pelo pescoço, aplicando uma gravata. Na mão que a segura, tem uma arma. Ela se debate e vira para gritar para as pessoas que ocupam a praça. Quando os dois chegam quase ao topo da escadaria, ela tenta fugir, mas o homem se joga sobre ela, prendendo-a no chão com os joelhos.

É aí que outro homem, usando casaco azul, aparece no quadro. Ele se aproxima lentamente por trás do homem de verde -- e ataca. Os dois caem, e a mulher, no chão, protege a cabeça. Enquanto eles lutam, ela tenta fugir. O homem de verde atira na direção dela, mas erra. Então, ele aponta a arma para o homem de azul e atira duas vezes. O homem de azul cambaleia para trás, em direção à porta da catedral. Segundos depois, a polícia abre fogo. Sentado na escadaria, o homem de verde é atingido por vários tiros.

O confronto sangrento parece saído de um filme. Mas o que aconteceu naquela tarde de sexta-feira no coração de São Paulo foi muito real. A catedral fica a poucos metros do marco zero da cidade e é um dos pontos de maior concentração de moradores de rua e viciados em crack da capital paulista. O homem de casaco verde escuro era Luiz Antonio da Silva, um morador de rua que vivia na região. A mulher, Elenilza Mariana de Oliveira Martins, estava rezando na igreja quando foi tomada como refém e arrastada para a rua. E o homem de azul que a salvou era outro morador de rua, Erasmo Francisco Rodrigues de Lima, que atacou Luiz e permitiu que Elenilza escapasse. Segundo as informações oficiais, Erasmo foi morto por Luiz, que por sua vez foi morto imediatamente por 19 tiros disparados por policiais militares. O vídeo foi exibido sem parar durante três horas no programa "Brasil Urgente", apresentado por José Luiz Datena. As imagens do corpo de Erasmo foram parar nas redes sociais logo depois, e a história do heroi da Praça da Sé virou o grande assunto do país nos dias seguintes. Memes, acusações de execução por parte da polícia, de exploração da tragédia por parte dos programas policiais da TV – o episódio incendiou a imprensa e as redes sociais. Seis meses depois, porém, a pergunta continua sem resposta: depois que uma tragédia se transformou em um viral, o que aconteceu com as pessoas como a família de Erasmo ou os outros milhares de moradores de rua de São Paulo? Alguma coisa mudou?

Antes de seu rosto inundar as timelines de milhões de brasileiros, a família de Erasmo Francisco Rodrigues de Erasmo estava acostumada a vê-lo de vez em quando, por curtos períodos. Nos últimos dez anos de sua vida, Erasmo, morto aos 61 anos, aparecia por um tempinho e logo desaparecia por semanas. “Às vezes ele trazia presentes, nada muito caro, mas com algum significado”, diz Ione Gabriela Pereira Reis, sobrinha de Erasmo.

Ione, 19, estuda direito na Universidade de Mogi das Cruzes, na região metropolitana de São Paulo. Em um banco do parque Villa Lobos, na zona oeste da capital, ela relembra a vida do tio. Erasmo nasceu em Ribeirão Pires, na região do ABC. Ele foi abandonado pelos pais e adotado por uma família de Pernambuco. Quando trabalhava na construção civil, conheceu uma diarista chamada Izabel, que se tornaria sua mulher mais tarde.

“Eles se gostavam”, diz Ione, acendendo um cigarro. “Ele disse que não tinha família e que, se ela quisesse, poderia ser a família dele.”

Erasmo e Izabel foram casados por 25 anos. Tiveram quatro filhos: Juliane, Danilo, Erasmo e Kauane. O apelido de Erasmo era “Baixinho”, e ele era torcedor fanático do São Paulo – o resto da família era de corinthianos. Ione dá risada quando lembra disso.

“Ele chegava na minha casa com a camisa do São Paulo, sentava no sofá, pegava o controle remoto e mudava para o jogo do São Paulo”, diz ela. “Só pra zoar com a gente.”

Segundo a sobrinha, Erasmo e Izabel tinham uma vida normal e relativamente feliz até cerca de 10 anos atrás, quando Danilo, então com 18 anos, foi assassinado. Ele brigou em uma pelada no Parque Villa Lobos. Dias depois, andando de bicicleta, foi morto a tiros. Danilo era o filho com quem Erasmo tinha o relacionamento mais próximo.

“Quando o Danilo morreu, o Francisco ficou muito triste”, diz Ione, referindo-se ao tio pelo nome usado pela família. “Ele ia ao cemitério o tempo todo.” Ela diz que o tio começou a beber muito. “Ele ficava muito nervoso quando bebia, problema típico que o álcool causa em uma família.”

Erasmo se separou de Izabel e saiu de casa, mas nunca desapareceu completamente. Todo ano, no aniversário de Danilo, ele ia ao cemitério, mesmo que não tivesse dinheiro para pagar a passagem do ônibus. “Ele também sempre ligava no aniversário da Juliane. E, quando não podia ligar, aparecia na minha casa para pedir que a gente ligasse por ele”, diz ela, sorrindo.

Mas, tirando os contatos eventuais com a família, é difícil conhecer os detalhes dos últimos dez anos da vida de Erasmo. Ele fazia bicos de pedreiro e encanador na região da Sé. A mãe de Ione ajudou Erasmo a comprar um isopor para que ele pudesse vender água do lado de fora do estádio do Morumbi.

Ele também tinha ficha corrida. Segundo a polícia, Erasmo era acusado em quatro casos: homicídio doloso em 1980, agressão em 1995, incêndio criminoso em 1998 e receptação e venda de itens roubados em 2000. (Os registros da polícia não incluem informações a respeito de condenações ou passagens pela cadeia relacionadas a nenhuma das acusações.)

Até onde sua família sabia, Erasmo estava morando em albergues públicos na região da Sé. Mas, quando visitava a família, estava sempre de banho tomado e arrumado. Ione achava difícil conciliar a imagem de um morador de rua com seu tio. “Achava que todo mundo que morava na rua era mendigo”, disse ela. “Mas ele sempre aparecia limpo – ele trabalhava.”

Um mês depois do incidente, em outubro, a cacofonia da Praça da Sé se esvai e a noite cai sobre o bairro. É fim de expediente, e as pessoas caminham rápido para o metrô. As bancas ainda estão abertas, os engraxates esperam os últimos clientes, mas todos parecem ansiosos – assim como os policiais que fazem a ronda na praça. Com um microfone e um amplificador distorcido, um homem fala sobre Jesus. Um pouco mais ao norte fica a região da cidade conhecida como Cracolândia.

Na catedral, três ou quatro homens estão deitados em pedaços de papelão. O segurança Paulo Luiz Ferreira está parado junto à enorme porta de madeira da igreja. Os buracos de bala ainda são visíveis. Paulo diz que conhecia Erasmo: costumava acordá-lo de manhã. Todo mundo gostava dele, diz Paulo. “Era uma pessoa muito calma. Às vezes até ajudava a recolher o lixo.”

“Os moradores de rua não são todos sujos, loucos, viciados e todos esses outros adjetivos negativos. São seres humanos.”

Paulo estava trabalhando na catedral na tarde do tiroteio e lembra que o lugar estava cheio de vida. Um grupo de 80 crianças estava visitando a igreja. Elenilza estava sentada em um banco perto da porta quando, por volta das 14 horas, Luiz subiu a escadaria e entrou na catedral.

Luiz tinha 49 anos e também era uma pessoa conhecida na região. Segundo a polícia, sua ficha criminal começava em 1987, quando ele foi indiciado por roubo e tentativa de homicídio. Ele tinha envolvimento em vários outros crimes e passou pela cadeia em três oportunidades diferentes por tráfico de drogas.

Luiz também era conhecido por aterrorizar os moradores de rua. “Ele usava uma chave de fenda para incomodar quem estava dormindo, espetava a bunda deles”, diz Paulo. “Ele era um cara do mal! Do mal!”. Luiz passava a maior parte do tempo na feira do rolo, um mercado de produtos roubados na lateral da igreja. Certa noite, segundo Paulo, Luiz arrumou briga com um senhor de idade que estava vendendo celulares e furou o olho do homem com a chave de fenda.

No dia do tiroteio, Paulo e seu parceiro viram Luiz subindo a escadaria e caminhando em direção a Elenilza, no fundo da igreja. “O jeito dele me chamou a atenção, mas eu não sabia se ele estava sozinho porque ele estava só subindo a escada”, diz Paulo. O que o segurança não sabia naquela hora é que, além da chave de fenda, Luiz tinha uma arma.

Luiz se sentou ao lado de Elenilza, e os dois começaram a conversar. Paulo conseguia ouvir um pouco da conversa. Luiz parecia estar pedindo desculpas por alguma coisa. “Vamos esperar. Se ele arrumar confusão ou bater nela, a gente faz alguma coisa”, disse ele para o companheiro. Mas o que começou como uma simples conversa logo virou uma discussão. Elenilza parecia tentar se afastar. Ela se levantou e saiu da catedral. Luiz foi atrás. Quando os dois chegaram ao pé da escadaria principal, Luiz a atacou.

Àquela altura, Luiz e Elenilza tinham chamado a atenção de dois policiais que faziam a patrulha da praça. Os PMs abordaram os dois e mandaram Luiz encostar na parede. Foi nesse momento que o morador de rua sacou o revólver, agarrou Elenilza e atirou contra os policiais, errando o alvo.

Os cerca de 30 moradores de rua que costumam passar o dia na escadaria correram para dentro da catedral e ajudaram Paulo e seu companheiro a fechar as enormes portas da igreja. As crianças da escola, de 10 a 14 anos, perceberam a comoção. “Pedi para o professor dizer que eram rojões ou alguma coisa parecida”, diz Paulo.

As crianças foram levadas para a cripta da catedral. Paulo, seu companheiro e os moradores de rua fechavam a porta. Segurando Elenilza, Luiz estava tentando subir a escadaria para entrar na igreja. A última coisa que Paulo viu antes de trancar a porta foi Luiz se virando em direção à praça, já cheia de policiais e curiosos.

O que aconteceu depois teria grande impacto no entendimento do público em relação ao que aconteceu naquela tarde de sexta-feira. Uma equipe do programa "Pânico na Band" estava filmando a modelo Mari Baianinha perto da catedral. O "Pânico" é exibido pela Rede Bandeirantes, a mesma emissora do "Brasil Urgente". Usando um drone e uma câmera no pé da escadaria, a equipe do programa humorístico gravou imagens do episódio de vários ângulos diferentes: Erasmo partindo para cima de Luiz, Elenilza fugindo, a polícia atirando. As imagens foram repassadas para o "Brasil Urgente". Quando o programa foi ao ar, cerca de duas horas depois, às 16 horas, a matéria principal era o tiroteio na Praça da Sé.

Enquanto o "Brasil Urgente" era exibido, ligações e mensagens de texto ricocheteavam entre a família de Erasmo. Ione, a sobrinha, disse que soube do que estava acontecendo por uma mensagem de WhatsApp. “Um amigo me mandou uma mensagem de voz, dava para perceber que ela estava nervosa”, diz Ione. “Ela falou: ‘Gabi, é seu tio! O que tá acontecendo?! Ele tá na TV!'”

Não demorou para que a notícia se espalhasse. No começo, a família estava confusa. Ione disse que seus parentes começaram a gritar: “O Baixinho tá na TV!” Só então eles se deram conta do que estavam assistindo. Juliane, a filha mais velha de Erasmo, estava trabalhando na hora em que o programa foi ao ar. Ela mora em Ibitinga, cerca de quatro horas ao norte de São Paulo. Saiu do trabalho às 17 horas e recebeu uma mensagem da tia – a mãe de Ione – dizendo que seu pai estava morto. “Assisti tudo pela TV”, diz Juliane. “Eles não paravam de mostrar a imagem, dizendo que ele tinha salvado a moça, mas tinha morrido. Quando vi, pensei: ‘É meu pai!’ Meu marido disse: ‘Não, não é’. Eu disse: ‘É meu pai. É meu pai caindo’.”

A equipe do "Pânico" poderia ter as melhores imagens, mas eles não foram os únicos a registrar o incidente. Nas imagens feitas pelo drone, dá para ver pessoas correndo em direção à escada, filmando com o celular. No fim do dia, a internet brasileira foi inundada de vídeos do tiroteio.

Nos dias seguintes, imagens do "Brasil Urgente", de pessoas que filmaram suas TVs e de outros celulares circularam pelas redes sociais. Os vídeos foram clonados em dezenas de canais do YouTube. Eles foram remixados, cortados e reduzidos e depois transformados em memes publicados no Facebook. Capturas de tela inundaram o Twitter. Uma semana depois, os vídeos chegaram ao Reddit, um dos fóruns mais populares do mundo. Erasmo virou o “Heroi da Sé”. De repente, o mundo inteiro sabia quem ele era.

Nas seções de comentários embaixo de cada vídeo, os usuários começaram a escrever a mesma frase: “Seu nome era Erasmo Francisco de Lima”. Era um protesto contra a omissão do nome de Erasmo na mídia – a imprensa brasileira e internacional se referia a ele apenas como o “morador de rua”. Os brasileiros queriam que o mundo soubesse que Elenilza não fora salva apenas por um morador de rua, mas sim por um homem com nome e história.

Muitos souberam do nome de Erasmo graças aos esforços de gente como Vinícius Lima (não há parentesco entre os dois). Estudante de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Vinícius também é o criador do "São Paulo Invisível", um projeto parecido com o Humans of New York que tem o objetivo de contar a história de moradores de rua da cidade. Quando seus parceiros de projeto Gabriel Marques e César Rota viram as notícias, os dois foram imediatamente para a Praça da Sé e entrevistaram um amigo de Erasmo, chamado Lúcio. Também tiraram uma foto da escadaria – ainda com manchas de sangue – e a postaram no Instagram. A imagem recebeu quase 2 500 curtidas.

“A foto deixou claro o que queríamos mostrar desde que criamos [o São Paulo Invisível]”, diz Vinícius. “Os moradores de rua não são todos sujos, loucos, viciados e todos esses outros adjetivos negativos. São seres humanos.”

Outra imagem que viralizou naquele final de semana – o corpo ensanguentado de Erasmo adornado com asas de anjo – foi criada por Carlos Viniciusy, um estudante universitário de 19 anos que mora perto da catedral da Sé. “Fiz a imagem para gerar conscientização”, diz Viniciusy. “Ele podia ser pobre em bens materiais, mas tinha outro tipo de riqueza e acabou perdendo a vida de forma trágica.” Carlos acompanhou as reações à morte de Erasmo naquele final de semana, e sua foto foi compartilhada milhares de vezes, acompanhada de legendas como “heroi” ou “heroi sem medalha”. Ele acredita que a reação intensa à morte de Erasmo foi causada pela repetição incessante das imagens gravadas pela TV. “Moro a dez minutos de onde tudo aconteceu. Pensei no assunto durante três ou quatro dias seguidos, vendo as imagens sem parar”, disse ele. “Não dava para acreditar, era demais. Violento e surreal.”


As redes sociais brasileiras têm uma relação simbiótica com a TV. Memes e assuntos de destaque costumam ser criados a partir do que se passa na televisão. Em 2013, o The Wall Street Journal chamou o Brasil de “capital universal das redes sociais”, graças à proliferação de smartphones de baixo custo e ao que executivos do setor de tecnologia chamam de uma cultura “hipersocial”. Cerca de 70 milhões de brasileiros estão no Facebook, a terceira maior audiência do serviço depois de Estados Unidos e Índia. O país também está entre os dez maiores mercados do mundo do YouTube em termos de audiência.

“Tragédia sempre viraliza”, diz Vinícius. E, embora a morte do moradores de rua tenha sido em si uma tragédia, ela também foi um reflexo de muitas das calamidades com as quais o país se depara diariamente. Um censo de 2011 indica que São Paulo tem cerca de 15.000 moradores de rua. Um terço dos 11 milhões de habitantes da cidade mora em favelas, e 1% da população brasileira adulta – mais de 1 milhão de pessoas – é usuária de crack.

Notícias sobre mortes envolvendo a polícia não são novidade para os brasileiros, o que quer dizer que as lembranças da morte dos dois moradores de rua na Praça da Sé logo seriam suplantadas por outros atos violentos. Mas a morte de Erasmo, noticiada com destaque em todo o país e exibida com todos os detalhes na TV e na internet, forçara as pessoas a enfrentar a realidade da violência policial e do problema do crack. “Não sei se viralizou por causa do tiroteio entre os policiais e [Luiz] ou se viralizou por causa do ato de justiça”, diz o estudante Vinícius. “Mas, na minha opinião, este evento pode ter mudado como as pessoas enxergam os moradores de rua.”

Apesar dessa conscientização, as mortes não levaram a nenhuma nova iniciativa do governo em relação aos moradores de rua. Também não houve pressão por uma investigação do incidente. Seis meses depois, não se sabe por que Luiz tomou Elenilza como refém nem se Erasmo foi atingido pelos disparos de Luiz ou da polícia. E, infelizmente para a família de Erasmo, a cultura de internet brasileira nem sempre acaba em final feliz – por mais forçado que seja – como costuma acontecer nos Estados Unidos depois de demonstrações de heroísmo desse tipo. À família de Erasmo, restou sentar e assistir horrorizada a morte dele pela TV, e depois pelas redes sociais.

Erasmo Francisco Rodrigues de Lima completaria 62 anos em 24 de setembro de 2015. Sua família não tinha nada planejado. A ex-mulher não mora mais em São Paulo e foi de Fortaleza para a capital paulista para enterrá-lo. Ione tinha aula o dia inteiro, então não pode visitar o túmulo do tio. Acendendo outro cigarro no Parque Villa Lobos, ela explica que Kauane, a filha mais nova, também mora na região, mas não tinha tempo para ir ao cemitério. “Ela quer ir antes do dia de Finados para arrumar um pequeno jardim”, diz Ione. “Ela disse que vai cuidar do túmulo.”

A última vez que a família de Erasmo se encontrou em São Paulo foi no sábado seguinte à sua morte. Nove parentes – incluindo Ione, sua mãe, a ex-mulher de Erasmo e as filhas Juliane e Kauane – foram ao necrotério reconhecer o corpo. “Quando chegamos, o corpo de Francisco já tinha sido preparado”, diz Ione, elevando o tom de voz. “Dava para ver os pontos, o caixão não estava revestido de tecido, a camisa estava torta no colarinho. Foi tudo muito mal feito.”

“Apesar de toda a notoriedade, todos os compartilhamentos na internet, toda a repetição na TV, ele não teve o enterro que merecia.”

No dia seguinte, uma manhã fria e nublada, a família foi ao enterro. Ao todo, 11 pessoas estavam presentes, entre familiares e jornalistas. O caixão chegou ao cemitério às 11 horas, e Erasmo foi enterrado ao meio-dia. “Era feito de papelão”, diz Ione sobre o caixão. A família gastou 3.000 reais com o enterro – dinheiro que não tinham. Ione e Kauane são estudantes. Juliane, a filha mais velha de Erasmo, trabalhava como caixa de um supermercado na época. Sua ex-mulher trabalhava como faxineira, e Erasmo, o filho remanescente, não morava no Estado e não tinha condições de contribuir. “Nenhum canal de TV perguntou se a gente precisava de ajuda”, diz Ione. Ela diz que a Rede Globo mandou repórteres para cobrir o enterro e entrevistar a família. “Mandaram um motorista para nos levar à Globo, mas não ofereceram uma coroa de flores dizendo: ‘Da Globo para Francisco’. Isso mostra como as pessoas enxergam os moradores de rua.”

Ione precisa precisar parar a entrevista para voltar para a aula. Todos os seus colegas sabem que Erasmo era seu tio, e uma foto dela no enterro circulou pelo WhatsApp do pessoal da faculdade. As pessoas também começaram a taguear Ione em posts do Facebook que mencionavam o tiroteio. Foi assim que a “fama” online de Erasmo foi sentida pela família na vida real. Quando Ione fala sobre aquele fim de semana, alterna entre raiva e orgulho. “Apesar de toda a notoriedade, todos os compartilhamentos na internet, toda a repetição na TV, ele não teve o enterro que merecia.”

Mas ver Erasmo na TV representou uma espécie de conclusão, por mais complicada que seja – algo que poderia não acontecer se ele um dia ele simplesmente desaparecesse. “Se ele fosse para o albergue e nunca mais aparecesse, seria ruim”, diz Ione. “Mas a gente teria a esperança de que ele voltasse.”

Apesar de as mudanças no mundo real acontecerem numa velocidade muito mais lenta que a velocidade das notícias na internet, Ione acredita que a história do seu tio fez alguma diferença. “Ele foi um heroi! Ele foi fodão”, diz ela. “Acho que isso ajuda as pessoas a sentirem mais empatia quando veem um morador de rua. Eles têm valor. Têm história. Meu tio tinha história, e no final as pessoas viram como ele tinha valor.”

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