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Como Alicia Keys reconstruiu sua imagem pública

Sua campanha pelo não uso de maquiagem pode ser empoderadora, mas também é uma maneira astuta de mudar a percepção do público sobre ela.

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Se a segunda noite da Convenção Nacional Democrata de 2016 pareceu para os americanos vagamente anacrônica, não foi apenas pelas aparições em horário nobre dos políticos dos anos 1990 Bill Clinton e Madeleine Albright. A cantora Alicia Keys, que teve seu último hit na Billboard em 2012, com "Girl on Fire", também estava na Convenção, discursando em um painel sobre direitos civis e se apresentando em um horário cobiçado, logo após o discurso do ex-presidente. Sem maquiagem e vestida com um traje soltinho, ela cantou uma combinação de músicas antigas e novas, incluindo "In Common", uma ode romântica ao populismo.

A aparição na Convenção Democrata e uma série de performances em premiações durante o verão americano pareceram marcar o retorno de Keys à relevância na cultura pop, após alguns anos relativamente silenciosos fora dos holofotes, exceto por um pequeno arco no seriado "Empire", da Fox, em 2015.

No BET Awards, em junho, ela cantou músicas novas usando um traje em estilo boho e óculos escuros redondos, enquanto tocava ao som de um sequenciador e soltava seu vozeirão para o público boquiaberto do anfiteatro. No VMA, no fim de agosto, ela apareceu em um vestido vermelho e preto, exibindo um coque afro e recitou um poema em homenagem ao discurso "Eu Tenho um Sonho", de Martin Luther King.

No entanto, algo soou um pouco fora de tom durante sua performance na Convenção Democrata. Keys começou sua apresentação com "Superwoman", de 2007, uma improvisação feminista para inspirar a base de Hillary Clinton. A performance dela foi inflamada, mas ao cantar "Eu sou uma supermulher / sim, eu sou", estranhamente, o sentimento soou pouco convincente, devido aos anos de controvérsia pública que abalaram sua reputação.


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Quando Alicia Keys (nascida Alicia Augello Cook) alcançou a fama, em 2001, com seu álbum de estreia Songs in A Minor, ela encarnava o retrô chique.

Usando o cabelo em trancinhas, echarpes fluidas e calças justas boca-de-sino, ela explodiu na cena musical como uma enviada pop do multi-instrumentista de jazz dos anos 70 Patrice Rushen.

Em um perfil de 2001, a revista "Rolling Stone" deu a ela uma lista de títulos honrosos, exaltando-a como "A Próxima Rainha do Soul" e "a mais nova princesa do neosoul, uma mulher negra igualmente influenciada pelo hip-hop, pelo soul, por Prince e pela música clássica". Keys era duplamente versátil: tocando piano e cantando, ela reivindicou a vaga de prodígio que Lauryn Hill havia recentemente abandonado, ao mesmo tempo que conseguia agradar ao público mainstream como seus pares do R&B alternativo — tais como D'Angelo e Erykah Badu — não haviam conseguido (em um episódio de 2006 de "The Office", Michael Scott, uma caricatura da fragilidade dos brancos, se gabava por ter ido a um show de Keys). Em 2002, o SF Gate a chamou de "namoradinha da crítica e do público".

Songs in A Minor vendeu mais de 6 milhões de cópias nos EUA e rendeu a Keys cinco prêmios no Grammy de 2002, incluindo o de Melhor Artista Revelação, Música do Ano e Melhor Álbum de R&B. Seu álbum de 2003, The Diary of Alicia Keys, a catapultou ainda mais alto no estrelato, escorada pelo que o jornal "The Guardian" chamou de uma imagem "inofensiva". Papéis em filmes — em "A Última Cartada", "O Diário de Uma Babá" e "A Vida Secreta das Abelhas" vieram logo em seguida.

O desconforto de Keys com o papel de símbolo sexual fez com que o início de sua carreira fosse marcado por rumores de que ela seria lésbica, aparentemente exacerbados pela decisão da cantora de não discutir sua vida amorosa publicamente (no início de 2012, a artista Syd tha Kid reacendeu essas alegações). Mas, na verdade, Keys estava em um namoro de longa data e quase secreto com seu parceiro musical Kerry "Krucial" Brothers.

Após o fim do relacionamento, Keys começou a sair com Swizz Beatz (nascido Kasseem Dean), produtor prolífico de hip-hop conhecido por seu trabalho com Beyoncé, Jay Z e DMX em 2008. O problema era que ele ainda era legalmente casado com a cantora de R&B Mashonda Tifrere. Diferentemente de seus relacionamentos anteriores, os encontros públicos de Keys com Beatz foram acompanhados de perto por sites de fofocas, um resultado inevitável dada a posição de destaque de seu novo parceiro.

Blogs como o TheYBF ("Seria Alicia Keys uma destruidora de lares?") e o Bossip postavam frequentemente desde o início do romance ilícito: como Keys havia alugado o Museu Guggenheim para o aniversário de Beatz, como Swizz Beatz havia se gabado do romance no remix de "Best I Ever Had", de Drake, e como Keys supostamente tuitou uma indireta para Mashonda, dizendo "Tendo um debate acalorado no estúdio. A pergunta é... no amor, é melhor fazer a escolha SÁBIA ou a escolha com SABOR??"

O casal continuou junto apesar das fofocas e dos esforços da esposa de Swizz de envergonhá-los publicamente. Mashonda escreveu que Keys "ajudou a destruir uma família" em uma carta aberta publicada em 2009 no Twitter. A atenção dos tabloides rapidamente erodiu a privacidade de Keys — e a imagem de boa moça da qual ela desfrutava.

As manchetes, que antes eram elogiosas, tornaram-se ácidas: "Estaria Alicia Keys destruindo um casamento?"; "Por que as mulheres negras odeiam Alicia Keys?"; e, talvez a mais contundente, "Por que Swizz Beatz continua arruinando Alicia Keys?".

Mesmo após Keys e Beatz terem se casado em 2010, após ela ter negado os rumores de que ela havia interferido no primeiro casamento dele na revista "Essence" e após o triângulo amoroso ter feito as pazes (inclusive, saindo juntos em férias), a noção de que a carreira dela havia sido manchada pela má publicidade permaneceu.

Em 2011, quando o casal enfrentou boatos de que Beatz teria traído Keys, e novamente em 2014 quando ele foi pego contatando uma modelo no Instagram, os blogs citaram a lei do carma. O esforço mais recente de Keys, o álbum Girl on Fire (2012), vendeu pouco mais de 750 mil cópias nos EUA. Além da torcida alheia pelo declínio na venda de discos, o turbilhão na vida pessoal de Keys pareceu ter parcialmente impactado o alcance do álbum.

Agora a cantora está tentando se desvencilhar desse drama sórdido, reorientando sua imagem pública. Recentemente, ela fez sua primeira aparição como jurada no programa "The Voice" da NBC.

Desde Christina Aguilera (escândalo no casamento), passando por Usher (batalha pela guarda dos filhos), Gwen Stefani (um rompimento público com o ex-marido Gavin Rossdale) até Miley Cyrus (apropriação racial, dança sensual pouco inspirada), o programa tem sido a salvação de vários astros em decadência.

Para Keys, que já havia sido mentora no programa, a promoção parece ter vindo na hora certa, em um momento em que ela reinventa a si mesma e divulga tanto seu novo álbum ainda sem título como "Back to Life", sua contribuição para a trilha sonora do novo filme "Rainha de Katwe".

Em maio de 2016, Alicia publicou uma série de fotos de cara limpa no Instagram e publicou um artigo no site Lenny, a newsletter da Lena Dunham, intitulado "Tempo de se descobrir".

No artigo, ela detalhou seu desconforto crescente com os padrões convencionais de beleza, como eles lhe causavam ansiedade e como as ideias equivocadas sobre ela estavam enraizadas na percepção que o público tinha de sua apresentação física. "Antes de começar meu novo álbum, escrevi uma lista de todas as coisas das quais eu estava cansada. E uma delas era o quanto as mulheres sofrem uma lavagem cerebral para sentirem que precisam ser magras, sensuais, desejáveis ou perfeitas. Uma das muitas coisas de que eu estava cansada era do julgamento constante imposto às mulheres", escreveu.

Ela explicou mais adiante: "Percebi que, durante esse processo, escrevi várias músicas sobre máscaras, repletas de metáforas sobre se esconder. Eu precisava dessas músicas porque eu realmente sentia essas inseguranças. Eu estava finalmente descobrindo o quanto eu me censurava, e isso me assustou. Quem eu era mesmo? Será que eu ainda sabia COMO ser brutalmente sincera? Quem eu queria ser?" Ela descreve como canalizou essa frustração para sua música, em uma canção intitulada "When a Girl Can't Be Herself" ("Quando uma garota não pode ser ela mesma"), que cita a empresa de cosméticos Maybelline.

Se parece um pouco que o foco na maquiagem reflete um conflito existencial mais profundo, não é apenas porque, para muitas mulheres, deixar de usar maquiagem produz uma crise semelhante de autoconfiança. Também é porque, após enfrentar anos de ataques por um comportamento supostamente inadequado, a guinada de Keys para o que ela chamou de "o eu verdadeiro e natural" parece claramente ligada a seus problemas pessoais. Não é difícil enxergar uma crítica à cobertura midiática que ela recebeu, formulada em sua insatisfação com o "julgamento constante imposto às mulheres".

Em outras palavras, a aversão que Keys expressa sobre a indústria da beleza reflete sua política pessoal quanto a fofocas. Em uma matéria de 2011 na "Essence", a melhor amiga de Keys, Erika Rose, chamou de "irritante" a relutância da cantora em fazer fofoca. Rose disse à redatora Jeannine Amber, "nesses momentos em que quero começar um papo de mulherzinha, por exemplo, sobre a roupa de alguém, a Alicia nunca participa. Eu digo algo do tipo: 'Será que dá pra você se divertir comigo por dois segundos e falar sobre como ela está ridícula?' Ela não participa. É assim que ela é".

Em outra parte do artigo, Keys explica que os rumores de infidelidade "definitivamente a magoam". Ela também falou entusiasticamente sobre o poder de revelação de seu casamento, dizendo: "Me fechei por muito tempo. Mas me sinto tão aberta agora. Se sentir assim quer dizer que você encontrou o centro em si mesma. Você não está se escondendo e nem está preocupada com nada. Tudo irá simplesmente ficar bem".

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A campanha de cara limpa de Keys é provavelmente um gesto sincero. Ainda assim, tem uma repercussão cada vez maior em sua carreira.

Se seu casamento foi a base para a cura de suas inseguranças pessoais, aparentemente Keys acredita que a solução para suas ninharias públicas é deixar de lado a base, o hidratante e o corretivo.

É um desnudamento literal que é coerente com a abertura interior que ela tem expressado. Como ela disse no site Lenny, "Não quero mais me cobrir. Não quero mais cobrir o meu rosto, nem minha mente, nem minha alma, nem meus pensamentos, nem meus sonhos, nem minhas dificuldades nem meu crescimento emocional. Nada".

A campanha de cara limpa de Keys provavelmente é um gesto sincero. Ainda assim, tem uma repercussão cada vez maior em sua carreira. Essa é uma escolha pessoal e política nobre e, da forma como tem se desenrolado publicamente, também um sinal sutil de como noções de pureza e de redenção podem se confundir em Hollywood e ser utilizadas para causar e absolver a desonra (pensem em como atores são elogiados por passarem por transformações físicas drásticas para papéis em filmes, ou a forma como celebridades que optam por cirurgias plásticas podem ser cruelmente ridicularizadas).

Voltando à referência que Keys faz à Maybelline: Talvez ela tenha nascido com isso, ou talvez ela tenha construído cuidadosamente uma fachada literal que sutilmente faz alusão ao seu problema de admirabilidade.

Esta não é a primeira vez em que Keys é o rosto de uma campanha de beleza. Em 2005, ela apareceu como embaixadora de um comercial do remédio para acne sob encomenda Proactiv. À maneira típica desse tipo de comercial, fotos de antes e depois foram comparadas, com a primeira destacando suas pequenas espinhas e cicatrizes de acne.

O movimento #NoMakeup de Keys agora serve como uma imagem metafórica de antes e depois. "Olhem para mim antes e olhem para mim agora! Quanta diferença! Nova e melhorada!", diz.

É quase como se Keys quisesse impulsionar o ciclo de 20 anos de nostalgia, resgatando sua imagem inócua, de antes do escândalo de adultério e da estagnação de seu sucesso. Na sequência, vieram o cabelo natural crespo, os trajes boêmios simples, a campanha de verão impactante como aquela que a pôs no mapa 15 anos atrás e o rosto juvenil que nos lembra da jovem mulher que a América conheceu em junho de 2001 (em maio passado, Swizz Beat escreveu na legenda de um post no Instagram com sua esposa sem maquiagem: "Ela parece ter 19 anos!").

Leve-se em conta também a performance politicamente carregada de Keys no VMA, que lembra uma aparição que ela fez 10 anos atrás em "Def Poetry", na HBO, e a ênfase renovada de Keys em demonstrar seu talento como multi-instrumentista, o que fez dela a namoradinha da América.

Apesar de a reação do público ao projeto dela ter sido esmagadoramente positiva, há alguns críticos, incluindo trolls nas redes sociais e aqueles que citam as complicações do projeto para pessoas que não são naturalmente bonitas.

Em um editorial para o jornal "Washington Post", a redatora Autumn Whitefield-Madrano elogiou a decisão de Keys, mas questionou a coragem em optar por não usar maquiagem. Talvez uma razão não dita para a reação negativa à campanha pelo não uso de maquiagem é a suspeita pela forma como uma decisão pessoal e política pode coincidir com uma estratégia de relações públicas bem planejada.

A estratégia da selfie sem maquiagem pode ser utilizada da mesma forma que as matérias especiais nos tabloides apresentando celebridades em toda a sua glória pixelizada, queimada e manchada de sol. As diferenças entre a selfie sem maquiagem no Instagram e a foto espontânea no "National Enquirer" são o local e o controle que os artistas exercem sobre a distribuição dessas imagens.

Para Keys, que tem sido exposta pelo olhar dos comentaristas de fofocas como uma destruidora de lares e uma mulher falsamente conscienciosa de si, sua campanha sem maquiagem permite que ela refute essas acusações enquanto mostra a si mesma como fisicamente vulnerável perante o público. Aquele antigo comercial do Proactiv em que ela estrelou é agora um estranho prenúncio da sua atual exploração das tendências de beleza para conquistar o encanto do público, ou ao menos, sua atenção.

Quanto à inconveniência das erupções de acne, Keys dizia no anúncio: "Lembro de ir aos aeroportos com chapéus puxados até aqui embaixo", enquanto fazia o gesto de puxar um chapéu até abaixo do queixo. "Naquele momento eu estava apenas reagindo, mas não dá para apenas reagir, dá para ser proativa". Claro que é um slogan corporativo usado para divulgar seu patrocinador, mas, para alguém que realmente tem um foco intenso na própria imagem, que é reservada e criticamente consciente da pressão imposta sobre artistas mulheres para que apoiem e reflitam valores da sociedade, é um mantra apropriado para seu ressurgimento agressivo.

Ironicamente para Keys, uma celebridade para quem a lei do carma tem sido um tema tanto pessoal como profissional (vide "Karma", de 2003), sua imagem pública parece ter completado um ciclo.




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