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Em meio ao avanço contra Estado Islâmico, civis viram suspeitos no Iraque

"Não confiaria nem mesmo em meu pai se o visse por aqui", disse um soldado iraquiano, após a retomada de um vilarejo das mãos da facção terrorista.

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TOPZAWA, Iraque — Um soldado iraquiano gritava pelo megafone entre 20 Humvees armados, após esta vila nos arredores de Mossul ter sido tirada das mãos do Estado Islâmico (EI). "Não temos problemas com vocês", dizia enquanto os moradores se refugiavam em suas casas. "Coloque uma bandeira branca em sua casa e estará seguro".

Enquanto o megafone ainda soava, um raio cortou o céu e o vilarejo tremeu com a explosão de bombardeio. "Irmãos, venham em minha direção", continuou o soldado. "O avião não irá atingi-los. Apenas venham."

Assim que os moradores começaram a caminhar nervosamente em direção aos Humvees, os membros das forças especiais iraquianas saíram de seus veículos com armas em riste. Muitos se lembravam de cenas parecidas do passado, em que membros da facção terrorista Estado Islâmico se escondiam entre os civis no final das batalhas como uma última tentativa de matá-los.

with Iraqi special forces from the famed "Golden Division" as they attack an ISIS-held village on Mosul's outskirts:

A batalha de Topzawa havia sido cruel. Agora, uma hora depois, os soldados estavam tentando persuadir os civis a sair de suas casas. As mulheres carregavam crianças no colo e os homens tiravam suas camisas para mostrar que não estavam com bombas suicidas.

Duas mulheres se aproximaram carregando um velho enfermo. Os soldados ficaram em alerta ao verem o trio avançando, o impulso natural de ajudá-los sendo sufocado pela cautela do momento. "Vá e o ajude", disse finalmente um oficial, quebrando a tensão. Parecendo aliviado, um soldado jogou seu rifle no capô do Humvee e correu para pegar o idoso em seus braços.

O caminho à frente é difícil para os civis e também para os soldados, conforme se aproxima a ofensiva apoiada pelos Estados Unidos para tirar a cidade iraquiana de Mossul das mãos do Estado Islâmico. Os terroristas estão entrincheirados entre, estima-se, 1 milhão de civis, que provavelmente serão usados como escudo. Organizações humanitárias estão há meses alertando sobre uma crise iminente e tentando preparar acampamentos e provisões para a massa de refugiados que estão por vir.

Os civis de Mossul, que passaram mais de dois anos presos sob a lei brutal dos extremistas, tem quase nenhuma escolha, a não ser se preparar para o derramamento de sangue e esperar sobreviver.

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Depois de conduzir a primeira onda de civis para fora da vila, chamada Topzawa, os soldados entraram em formação e se dispersaram. Crianças pequenas ficaram olhando de suas casas conforme os soldados passavam pelas ruas. Alguns homens e mulheres espiavam das portas. Outros colocavam panos brancos em varetas.

Um grupo de soldados entrou em uma casa, onde sete crianças estavam escondidas. Uma mulher que estava com elas perguntou: "Você sabe se libertaram os prisioneiros do EI?"

Segundo a mulher, seu pai havia sido preso três meses antes pelos militantes, acusado de passar informações para o inimigo. O Estado Islâmico não permitiu que a família deixasse a vila, que fica a cerca de 8 km de Mossul. "Éramos como prisioneiros. Venha ver nossa cozinha — não temos comida, farinha, nada. Se tínhamos café da manhã, então nos preocupávamos com o almoço, se tínhamos almoço, preocupávamos com o jantar".

Atravessando a rua, um homem sem camisa e com cerca de vinte anos de idade permanecia agachado, com suas mãos atadas atrás do pescoço. Os soldados em volta diziam que ele era um guerrilheiro do EI. "Não estou com o EI. Não fiz nada", falava o homem.

"Cale a boca e fique com a cabeça para baixo", respondeu um soldado.

Um colete suicida havia sido encontrado nos arredores, e o homem havia tentado correr ao ver as tropas, segundo os soldados iraquianos. Mais soldados se juntaram, e o homem, que dizia se chamar Habash, passou por uma sequência estonteante de desprezo e bondade: Um soldado apagou um cigarro nele e outro o limpou. Outro deu a ele um cigarro para fumar, outro deu uma pancada em sua nuca e outro tirou sarro de ele estar chorando.

Finalmente, um tenente pegou o homem pelo colarinho e o tirou da multidão, dizendo que iria atirar nele. Ele pegou a pistola, mas então pensou melhor e colocou o prisioneiro de volta em um Humvee. Ele foi liberado depois.

O costume do Estado Islâmico de se esconder entre civis após a retomada de vilarejos fez com que os soldados se mantivessem em estado de alerta. "Não confiaria nem mesmo em meu pai se o visse por aqui", disse um dos soldado conforme um grupo de moradores passava com uma bandeira branca. Ele descreveu um incidente na província de Anbar, no início do ano, em que guerrilheiros escondidos entre civis abriram fogo contra ele.


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