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Estas são as vítimas civis dos ataques liderados pelos EUA contra o Estado Islâmico no Iraque

A campanha aérea liderada pelo governo americano teve um impacto devastador sobre os civis, mas ainda não houve prestação de contas sobre sua extensão. O BuzzFeed News visitou sete locais em Mossul onde testemunhas dizem que inocentes foram mortos por ataques aéreos dos EUA e de seus aliados.

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MOSSUL, Iraque — Moradores desta rua no leste da cidade às vezes veem seus antigos vizinhos visitarem suas casas, agora em escombros. Uma figura solitária atravessa o concreto esmagado e o ferro retorcido, abaixando-se em busca de lembranças — uma foto, um pedaço de roupa. Então, ela senta e chora.

Hassan Ali Hassan, de 45 anos, é um jordaniano que viveu por três décadas em Mossul, onde se casou com uma moradora local e criou uma família. Em junho de 2014, depois que a facção Estado Islâmico tomou a cidade, ele tentou escapar com sua esposa e suas três filhas para Amã. No entanto, os terroristas confiscaram seus passaportes e ordenaram que eles ficassem.

Hassan e sua família ainda estavam na cidade em 14 de dezembro de 2016, quando as Forças Armadas iraquianas, apoiadas pelos EUA, apertaram o cerco para retomar Mossul do Estado Islâmico. A frente de batalha ainda não havia chegado ao bairro, e a família tomou seu café da manhã com todos à mesa antes de Hassan sair para buscar gás para o gerador da casa. Mal havia passado um minuto, quando uma explosão enorme ocorreu atrás dele. Hassan voltou correndo e encontrou sua casa destruída e em chamas, pulverizada por um ataque aéreo realizado pela coalizão liderada pelos EUA. Partes dos corpos de sua esposa e de suas filhas estavam espalhadas pela rua.

"Encontramos algumas partes nas outras casas", lembrou um vizinho, Yasir Mohamed, em uma tarde recente, enquanto um pouco de vida voltava ao bairro Hay al-Sukar, libertado do Estado Islâmico em janeiro. Contatado mais tarde por telefone, Hassan ainda parecia estar em choque. "Simplesmente tudo estava em pedaços", disse ele. "Todo mundo estava morto."

"Tudo aconteceu diante dos meus olhos", repetia.

Casas como a de Hassan estão espalhadas por muitas ruas de Mossul; e Forças iraquianas ainda adentram os últimos distritos da cidade dominados pelo Estado Islâmico. A campanha aérea liderada pelos EUA teve um impacto devastador sobre os civis — e ainda não houve prestação de contas sobre sua extensão. Em qualquer bairro, os moradores podem rapidamente apontar o caminho para as casas destruídas nas proximidades, detalhando as que possuíam membros do Estado Islâmico e as que possuíam apenas civis. No final de maio, um repórter e fotógrafo do BuzzFeed News visitou sete locais onde testemunhas alegaram que civis foram mortos por ataques aéreos da coalizão. Aviões de guerra dos EUA lideram a campanha aérea, mas Reino Unido, Austrália, Canadá e França também fazem parte do esforço.

A batalha de Mossul foi uma das mais mortais desde a Segunda Guerra Mundial — e foi marcada por ataques aéreos.

Desde que a ofensiva começou até 3 de junho, a coalizão lançou cerca de 24.464 bombas em Mossul, de acordo com estatísticas do Departamento de Defesa dos EUA, e a intensidade dos ataques aumentou sob a administração do presidente Donald Trump. Nos dois anos anteriores à ofensiva, a coalizão liderada pelos EUA foi responsável por 13 mil ataques no Iraque.

No entanto, não são apenas ataques aéreos que estão colocando a vida de civis em perigo em Mossul. O Exército dos EUA implantou avançados lançadores de foguetes HIMARS, capazes de disparar seis mísseis guiados a mais de 60 quilômetros de distância. Ambos os lados usaram morteiros e outras artilharias. Jatos iraquianos também realizaram ataques aéreos.

Grupos de direitos humanos acusam a coalizão liderada pelos EUA de usar fósforo branco em áreas civis no oeste de Mossul nas últimas semanas, assim como na dita "capital" síria do Estado Islâmico, Raqqa, onde investigadores da ONU dizem que houve uma "espantosa perda de vida civil".

O fósforo branco é condenado por grupos humanitários por ser uma arma que afeta tanto civis quanto combatentes, indiscriminadamente. O porta-voz da coalizão em Washington, D.C., o coronel Ryan Dillon, disse que o fósforo branco foi usado principalmente para marcar alvos e camuflar os movimentos dos veículos da coalizão que atacavam os redutos do Estado Islâmico. "A coalizão não ataca combatentes inimigos com fósforo branco e certamente não ataca civis", disse.

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Ainda que a luta contra o Estado Islâmico em Mossul pareça estar próxima do fim, o impacto humano que os ataques produziram permanece desconhecido. Como o Estado Islâmico restringe as informações, não há documentação independente do impacto de ataques a locais que estavam sob o jugo dos militantes. E ainda que o Estado Islâmico tenha perdido território, a coalizão liderada pelos EUA vem sendo lenta nas investigações.

Atualmente, apenas dois funcionários foram designados para examinar as denúncias de vítimas civis, segundo o major Mike Burns, porta-voz do Exército dos EUA para a coalizão no Kuwait. Ele afirma que a coalizão planeja aumentar o tamanho dessa equipe.

Chris Woods, diretor do grupo de monitoramento Airwars, com sede em Londres, disse que seus pesquisadores identificaram 228 incidentes com alegações confirmadas ou plausíveis de baixas civis causadas pela campanha liderada pelos EUA no Iraque. Desde que a guerra aérea da coalizão começou no país, em agosto de 2014, o Exército dos EUA investigou apenas 440 casos de possíveis baixas civis no Iraque e na Síria, de acordo com estatísticas do Departamento de Defesa dos EUA. (Quando perguntado sobre as estatísticas apenas do Iraque, um porta-voz do Departamento de Defesa se recusou a separar os cálculos para os dois países.) Neste ano, até agora, o Exército dos EUA afirmou que matou 116 civis em 10 incidentes em Mossul; dos 38 casos ainda abertos, 21 deles são em Mossul.

Segundo Woods, provavelmente há muitos outros incidentes. "Acho que isso é o que acontece nestas grandes cidades durante os grandes ataques. Não víamos [uma batalha como essa] há muito tempo", disse ele. "Deve haver muitos casos por aí dos quais ninguém ainda ouviu falar."

O ataque que matou a família de Hassan foi um que não entrou nas estatísticas. Assim como um ataque em 12 de dezembro no bairro de Hay al-Falah, leste de Mossul, que testemunhas afirmam ter matado 10 civis. O terreno grande onde havia uma casa destruída agora está achatado e vazio; uma escavadeira limpou os escombros após o Estado Islâmico ter sido expulso. O muro de concreto de uma casa adjacente ainda está coberto de fuligem; e crianças marcaram suas mãos sobre ele e desenharam corações com os dedos. Do outro lado da rua, três grandes casas que os moradores dizem que o Estado Islâmico usava como sede e depósito de armas permanecem intactas.

O ataque, que ocorreu semanas antes das Forças iraquianas invadirem o bairro, parece ter sido resultado de alguma agência de inteligência que errou por alguns metros. O ataque matou oito membros de uma família que morava na casa: uma mulher chamada Khawla Mahmoud; o filho de Mahmoud Udai Ahmed e sua esposa, Shahad Khalil, que estava grávida de sete meses; o filho de Mahmoud Umar Ahmed, e as duas filhas dele; e dois dos netos de Mahmoud. Mais quatro mulheres da família ficaram feridas e dois vizinhos também foram mortos. "Quando aconteceu o ataque aéreo, o bairro todo fugiu", disse Omar Jelal, de 32 anos, que mora nas proximidades.

Um velho se inclina contra a parede externa da casa vizinha, aliviando o peso na perna direita. Khayradeen Abdur Razzaq, trabalhador aposentado, disse que estava em seu jardim quando o ataque aconteceu, cobrindo-o com escombros e quebrando sua perna em três lugares. Seus vizinhos foram enterrados em seu quintal da frente, disse ele. Seus corpos permaneceram lá por semanas, até que membros de suas famílias vieram e os mudaram para um cemitério. "Se eles não têm certeza sobre o alvo, não é certo que ataquem", disse ele sobre a coalizão.

Contatada por telefone, a prima de Mahmoud, Nawal Fathi Khala — que morava ao lado e levou as quatro mulheres feridas no ataque para o hospital — disse que a família estava lutando para conseguir cuidados médicos. "Ninguém bateu na nossa porta. Ninguém nos perguntou sobre o que aconteceu. Ninguém investigou. Não vimos uma única pessoa", disse ela. "Somos pessoas pacíficas. Nunca machucamos ninguém. Por que isso deveria acontecer conosco?"

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Os moradores de Mossul descreveram o medo constante que sentiam por morar ao lado dos combatentes do Estado Islâmico.

Eles sabiam que os militantes eram prováveis alvos de ataques aéreos, mas não tinham para onde fugir. O Estado Islâmico proibiu que as pessoas deixassem suas casas e, mesmo quando cedeu terreno em Mossul, obrigou os civis a recuar com eles. Ali Salem, de 41 anos, disse que uma maneira de o Estado Islâmico impor seu odiado regime de arrecadação de dinheiro — os civis eram cobrados sobre tudo, desde possuir um narguilé até usar um celular — era levar um parente como garantia. "Se você não pudesse pagar, eles poderiam pegar seu filho e o manter em uma de suas bases", disse ele. "E as bases deles eram atingidas por ataques aéreos o tempo todo. Você faria qualquer coisa para pagar e ter seu filho de volta."

A alguns minutos de carro da antiga casa de Khawla Mahmoud, estão os escombros da casa de Mohamed Ghassan Salem, destruída por um ataque aéreo há dois anos. Militantes do Estado Islâmico haviam tomado a casa adjacente e, na noite de 22 de abril de 2015, ambas foram atingidas por foguetes. Na época, Salem estava trabalhando em uma loja de eletrônicos que possuía na mesma rua. Após a explosão, ele saiu correndo e encontrou sua família morta: sua mãe, seu irmão, sua esposa grávida e seu filho de 5 anos. "Minha mãe estava deitada aqui, perto dessa árvore", disse ele, atravessando os destroços espalhados entre o metal retorcido e os objetos de uso pessoal de sua família. "Meu irmão estava aqui perto da porta. Minha esposa e meu filho estavam no porão, mortos. Havia fogo — fogo por toda parte."

Salem disse que entrou em contato tanto com a coalizão quanto com o governo iraquiano, mas que isso pouco ajudou. "Eu entendo que o Estado Islâmico está colocando bases em casas civis. Mas foi a coalizão que cometeu o erro e matou minha família", disse. "Não importa o que a gente consiga — compensação moral ou financeira. Não será igual ao meu filho de volta. Mas alguém precisa assumir a responsabilidade."

O oeste de Mossul viu alguns dos piores combates da ofensiva, e seus bairros ficaram repletos de combatentes do Estado Islâmico. Em ruas assoladas por ataques aéreos e artilharia, casa após casa foi destruída.

Em uma tarde recente, moradores ainda estavam revirando os escombros do local do ataque mais infame dos EUA, no bairro de al-Jadida. Na manhã de 17 de março, quando as Forças iraquianas entraram na área, um ataque dos EUA visando atiradores do Estado Islâmico destruiu uma grande casa onde vários civis haviam se abrigado, matando mais de 100 pessoas e provocando indignação internacional.

Em um relatório divulgado no fim de maio, o Pentágono admitiu ter matado pelo menos 105 civis no ataque. No entanto, também disse que o Estado Islâmico havia contribuído para o número de mortos, colocado bombas dentro da casa, provocando uma explosão secundária que havia causado o desmoronamento do prédio.

O prédio agora se parece com qualquer um das centenas ao redor de Mossul que foram destruídos por ataques aéreos. Testemunhas rejeitam a ideia de que o Estado Islâmico havia colocado bombas lá dentro, dizendo que o dono da casa havia aberto suas portas para outros moradores porque aquele era considerado um lugar seguro para ficar.

"Não havia explosivos. Não havia nada acontecendo. Havia apenas civis", disse Ahmed Abdul Karim, que mora ao lado do prédio destruído e perdeu seis membros da família no ataque.

Karim e outras testemunhas disseram que havia 137 pessoas morando no prédio e que 111 foram confirmadas mortas. Outras oito ficaram feridas, e corpos ainda estão desaparecidos. Eles acreditavam que alguns ainda estavam enterrados sob os escombros.

A reportagem desce a rua até outro local em que houve um ataque que não foi investigado. No final da tarde de 14 de março, foguetes destruíram uma casa que ficava ali, matando 27 pessoas, sobretudo mulheres e crianças, segundo testemunhas. Uma mochila rosa estava entre os escombros, ao lado de alguns sapatos de crianças e de um suporte de cama quebrado. "Eles estavam todos aqui, esmagados uns sobre os outros", falou Yusuf Yahya Abed, que disse que era parente de todos os mortos.

Abed e outros moradores não sabiam dizer qual poderia ser o alvo do ataque. "Escuta aqui, o Estado Islâmico pula de telhado em telhado", disse Noar Nazar, que teve parte de sua casa destruída no mesmo ataque.

No bairro de Hay al-Mamun, no oeste de Mossul, testemunhas de um ataque em 1º de fevereiro também ficaram sem entender. Elas se lembraram de mulheres sentadas nos telhados e crianças brincando na rua pouco antes de duas casas adjacentes serem destruídas de repente, matando 15 pessoas. "Todos eram civis. Eram famílias e crianças", disse Shalan Suadi, que perdeu seu irmão e sua cunhada. "Não fazemos ideia do que aconteceu."

A natureza caótica da batalha -- com civis encurralados entre as forças lideradas pelos EUA e os militantes do Estado Islâmico -- significa que a ameaça pode vir de qualquer direção. Zayd Younes Mohamed, um mecânico de 45 anos, lembra do dia em que o Estado Islâmico colocou uma arma antiaérea perto da casa de seu irmão, que fica em frente à dele. Foi em 3 de março, dias antes de as Forças iraquianas chegarem ao bairro de Hay al-Mansur. A coalizão disparou contra a arma antiaérea, mas destruiu a casa de seu irmão no processo. Cinco pessoas, incluindo três crianças, foram mortas, enquanto seu irmão e mais cinco pessoas ficaram feridas.

Enquanto Mohamed se apressava para recuperar os corpos, ele ouviu um avião passando sobre sua cabeça. Apavorado, correu de volta para sua casa para colocar bandeiras brancas no telhado. Um combatente do Estado Islâmico ameaçou atirar nele. "Abaixe as bandeiras brancas", disse o miliciano. "Se morrermos, você morre com a gente."

Mohamed e seu irmão enterraram as crianças em um cemitério nas proximidades. Quando eles procuraram o governo iraquiano para obter uma indenização, eles ouviram que, como os corpos não estavam mais no local do ataque aéreo, não havia provas de que eles haviam sido vítimas do ataque. "Perdemos tudo", disse.

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Após receber detalhes dos sete ataques, um porta-voz da coalizão, em Bagdá, disse em uma declaração por e-mail que apenas o ataque de 17 de março em al-Jadida havia sido investigado.

O porta-voz afirmou que os outros seis casos agora seriam revistos. "A Coalizão leva todas as denúncias de vítimas civis a sério e avaliará essas denúncias, como fazemos com todas as denúncias de possíveis vítimas civis", disse em comunicado.

"A Coalizão respeita a vida humana e está ajudando as forças parceiras em seus esforços para libertar suas terras do Estado Islâmico, ao mesmo tempo em que protegemos os civis. As forças da Coalizão estão de acordo com a lei do conflito armado e tomam todas as precauções razoáveis durante o planejamento e a execução de ataques aéreos para reduzir o risco de danos a civis. Nosso objetivo é sempre não ter vítimas civis."

A estratégia do Estado Islâmico para defender a cidade incluía militantes se camuflando entre civis, e muitas vezes os usando como escudos humanos.

Testemunhas dizem que os terroristas executavam as pessoas que eram pegas tentando fugir e que, quando o Estado Islâmico perdia o controle dos bairros, às vezes os atacavam com morteiros. O governo iraquiano aconselhou os estimados 1 milhão de civis que estavam em Mossul no início da batalha a permanecer lá e a esperar o resgate — mas isso os deixou presos. À medida que as Forças iraquianas atravessaram os bairros, bandeiras brancas frequentemente podiam ser vistas em cima das casas de civis, enquanto algumas pessoas simplesmente se escondiam em seus porões. O Estado Islâmico, enquanto isso, disparava contra as tropas iraquianas de posições ocultas nos prédios e casas de Mossul, que, em resposta, eram marcados como alvos de ataques aéreos.

O general Rick Uribe, militar sênior dos EUA em Bagdá, é a autoridade da coalizão responsável pelo campo de batalha em Mossul, supervisionando a aprovação dos ataques aéreos. Ele trabalha em uma sala de operações na capital juntamente com oficiais de cada uma das forças iraquianas que participam da ofensiva.

Em uma entrevista por telefone, Uribe forneceu um esboço geral do processo de aprovação: avaliar primeiro as informações de inteligência disponíveis sobre o alvo, depois os padrões da vida civil em torno dele; selecionar uma arma "proporcional"; verificar as regras de engajamento; e, por fim, dar permissão se tudo estiver de acordo. Após sua assinatura, os oficiais iraquianos dão uma autorização final. Então a coalizão lança o ataque. "Posso te dizer que há muitos nãos", disse Uribe. "Às vezes, os iraquianos dizem não. Às vezes, nós dizemos não. E, quando dizemos sim, é porque todos estão de acordo."

"Nosso modus operandi é primeiro não causar dano", disse ele. "Acidentes aconteceram. Erros foram cometidos. Mas o processo é sólido."

Uribe disse que os planejadores militares da coalizão esperavam enfrentar a maior resistência do Estado Islâmico no oeste de Mossul e, por essa razão, se concentraram primeiro na libertação da metade leste da cidade, pressionando gradualmente os redutos do Estado Islâmico no oeste. "Os iraquianos entenderam o tempo todo que o oeste seria a batalha mais feroz que [eles] enfrentariam. E aqui estamos", disse ele. "Foi exatamente isso que aconteceu."

Sob a administração de Trump, a autoridade para solicitar ataques aéreos caiu com mais frequência para comandantes de nível inferior do que sob a administração de Obama, que às vezes exigia a aprovação de um general de quatro estrelas. A autoridade para solicitar ataques agora está no nível de uma estrela, no quartel-general em Bagdá e Erbil, a capital da região curda do Iraque. Os comandantes dos EUA agora têm maior liberdade para realizar ataques com menos supervisão e mais intensidade.

Enquanto a coalizão liderada pelos EUA se tornou mais agressiva em seus ataques em áreas urbanas como Mossul, críticos dizem que ela não tem sido proativa na investigação de baixas civis. Muitas das investigações realizadas foram autorrelatadas por pilotos e outras pessoas envolvidas nos ataques. Mas, tirando isso, ela depende da equipe de duas pessoas para filtrar um mar de denúncias em mídias sociais e na imprensa, e, às vezes, de vítimas e testemunhas.

"Ao longo do ano passado, a Coalizão procurou melhorar seu monitoramento de baixas civis. Relatórios mensais agora detalham avaliações e investigações em curso, e o tempo médio (em casos admitidos) entre a Coalizão causar dano a um civil e reconhecer publicamente caiu de uma média de cerca de seis meses para seis semanas", disse Woods, da Airwars.

No entanto, ele acrescentou que os avaliadores da coalizão "ainda estão lidando com cerca de um quarto de todas as denúncias conhecidas."

O resultado, até mesmo os oficiais de defesa dos Estados Unidos admitem internamente, é que ninguém saberá com certeza quantos civis morreram na guerra. Críticos do Pentágono ressaltam que, mesmo quando a coalizão investiga denúncias de vítimas civis, o ônus da prova é extremamente elevado. Em uma entrevista, um militar dos EUA ironicamente chamou os ataques da coalizão de "tiros justos", um golpe na afirmação dos EUA de que todos os ataques são precisos a não ser que alguém possa provar o contrário.

O major Burns, porta-voz da coalizão no Kuwait, disse que, se a equipe de avaliação considera uma denúncia como plausível, podem marcá-la para uma investigação mais aprofundada, que pode incluir uma revisão dos registros de ataque, imagens de satélite e entrevistas com os militares envolvidos. Os resultados de todas as avaliações, quer as denúncias sejam consideradas plausíveis ou não, são publicados pela coalizão em um relatório mensal. Burns disse que a equipe de avaliação da coalizão foi expandida para cinco pessoas, com um total de sete membros em tempo integral e dois em meio período.

Burns acrescentou que nem todos os incidentes com prováveis vítimas civis são totalmente investigados — isso acontece apenas se "o caso em si é tão grande que precisamos fazer uma investigação para determinar o que deu errado." Ele acrescentou que testemunhas, vítimas e seus parentes "não são automaticamente" contatados, e os investigadores da coalizão raramente, ou nunca, visitam locais. "Eu diria que isso acontece principalmente porque temos recursos limitados na zona de guerra. Não é o exército de 100.000 pessoas que tínhamos lá antes", disse ele. "Nós simplesmente não temos recursos para analisar todas as denúncias e colocar as pessoas no local."

De acordo com os militares dos EUA, atualmente existem 5.260 tropas no país. "Estamos aconselhando o Exército iraquiano", disse Burns. "É a luta deles, e estamos ajudando-os nessa luta."

No auge das guerras dos EUA no Iraque e no Afeganistão, os comandantes tinham autoridade para distribuir dinheiro para pagamentos de condolências ou por danos à propriedade. Durante a maior parte da Guerra do Iraque, os militares pagavam apenas 2.500 dólares pela morte de um ente querido — e diziam que o pagamento não era uma admissão de erro. A coalizão não fez nenhum pagamento ao longo da ofensiva contra o Estado Islâmico no Iraque. "Em circunstâncias apropriadas, podemos considerar o pagamento de condolências aos feridos ou às famílias dos falecidos", disse Burns. "No entanto, neste momento, não houve pagamentos feitos aos membros das famílias dos falecidos resultantes desses incidentes."

Quando Hassan, um eletricista, se mudou da Jordânia para Mossul na década de 1980, ele não tinha certeza se ficaria. Mas ele se apaixonou pela cidade — ele a achou linda, com o Rio Tigre cortando o centro da cidade e áreas arborizadas e cachoeiras nas proximidades. Ele conheceu sua esposa, Sabah, por meio de sua irmã, que estava estudando na famosa universidade da cidade, e, depois que eles se casaram em 1992, ele achou que viveria lá para sempre. "Ela foi um presente de Deus", disse ele. Primeiro o casal teve um filho, que estuda na Jordânia, e depois três filhas, que tinham 16, 18 e 20 anos quando foram mortas no ataque de 20 de dezembro, juntamente com Sabah e seu irmão, um diretor de colégio.

Nos dias após o ataque, Hassan escavou entre os escombros e recolheu o que pôde dos destroços. "Eu continuava procurando. Às vezes eu achava uma mão, às vezes eu achava um pé", disse ele. "Enterrei parte da minha família no oeste de Mossul. E o resto, depois que encontrei mais partes, enterrei em outra parte do meu bairro."

Metade do corpo de uma de suas filhas ainda está desaparecida. Assim que encontrar o restante de seus restos mortais, ele disse que pretende ir embora. "Eu não penso nos EUA, ou na coalizão, ou no governo iraquiano", disse ele. "Eu perdi tudo. Tudo o que eu quero agora é ajuda para encontrar o corpo da minha filha e enterrá-la. Depois eu quero voltar para a Jordânia. Não quero dinheiro. Não quero uma casa. Não quero nada."

Nancy A. Youssef colaborou de Washington, D.C. (EUA).

Este post foi traduzido do inglês.

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