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15 asiáticos brasileiros contam o momento em que descobriram que não eram brancos

"Perambulei bastante até me conformar em não pertencer a lugar nenhum."

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Quando se é asiático ou descendente de asiáticos no Brasil talvez não seja tão óbvio se reconhecer como não-branco. Muitos de nós "passamos" por brancos e gozamos da maioria dos privilégios.

A experiência com racismo é incomparável a do racismo negro, mas ela existe e também mexe com a identidade, autoimagem e autoestima de asiáticos e descendentes.

Dentro deste contexto, perguntei a asiáticos brasileiros e descendentes quando eles descobriram que não eram brancos e essas foram as respostas e experiências que eles relataram.

1. "Ela perguntou como eu me sentia quando as pessoas eram racistas comigo. Eu fiquei quieta e ela falou: 'amiga, você sabe que você não é branca, né?!"

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"Eu sou mestiça. Toda vez que eu falava que era amarela, minha família, inclusive a japonesa, ria de mim. Eu me identifiquei como amarela quando uma amiga negra tava falando da militância dela e ela perguntou como eu me sentia quando as pessoas eram racistas comigo. Eu fiquei quieta e ela falou: 'amiga, você sabe que você não é branca, né?! Você é amarela'. A partir daquele dia eu procurei mais sobre e comecei a me identificar como amarela sempre!" - Adriana Nakasone

2. "Eu tinha 10 anos e um cara na padaria fez piadinha de tamanho de pênis comigo."

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"Aos 10 anos, quando eu estava cursando a quinta série do ensino fundamental, um grupo de garotos brancos mais velhos do ensino médio ficaram me chamando de 'o garoto do filme 'O Grito'' e rindo de mim. Neste mesmo ano, um cara da padaria fez piadinha do tamanho de pênis comigo." - C. Gustavo

3. "'Então seu pai é japonês e sua mãe é normal?"

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"Pra mim sempre foi complexo porque sou filha de mãe branca e pai asiático, então demorei pra me reconhecer como asiática apesar do meu fenótipo ser bem óbvio. Acho que me identifiquei como asiática quando percebi que muitas outras mulheres asiáticas passavam pelas mesmas situações que eu. Me senti finalmente acolhida. Houve uma situação em que um colega de trabalho curioso pra saber sobre as minhas origens perguntou se eu era mestiça e eu respondi que sim. 'Então seu pai é japonês e sua mãe é normal?' Hahahaha isso faz de mim meio anormal?" - Bárbara Kono

4. "Eu tentei relevar as piadas sobre minha origem e brincar junto, mas no meio comecei a chorar e não conseguia parar."

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"Cresci numa escola com poucos asiáticos, entao isso sempre foi uma questão de diferenciação. Eu demorei um pouco para perceber isso, mas nunca me identifiquei totalmente com os meus colegas, por mais que eles me tratassem normalmente.

Lembro de uma vez que amigas bem próximas brincavam fazendo piada sobre minha origem e, como eu não entendia muito bem, brincava junto, tentando não trazer pro pessoal. Até que em um momento eu comecei a chorar e não consegui parar mais." - Olivia Kari

5. "Quando eu encontrei essa imagem ao pesquisar sobre segunda guerra."

("Continuem andando, japoneses, essa aqui é uma vizinhança de homens brancos")."Quando vi essa imagem na internet pesquisando sobre a segunda guerra" - Gabriel Yuzo
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("Continuem andando, japoneses, essa aqui é uma vizinhança de homens brancos").

"Quando vi essa imagem na internet pesquisando sobre a segunda guerra" - Gabriel Yuzo

6. "Eu entendi só de olhar para minha mãe, que é loira de olhos claros. Eu me comparava o tempo todo às crianças loiras."

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"Acho que eu meio que sempre soube que não era branca, embora mestiça de mãe branca e pai coreano. Mas isso veio de forma sutil, sob forma de processos implícitos relacionados à minha construção de auto-imagem/estima... Só de olhar para minha mãe, que é loira de olhos claros, eu me comparava com as crianças loiras que eram tidas como o epítome da beleza.

Por muito tempo tentei me encaixar neste padrão, principalmente na adolescência, seja pintando o cabelo, fazendo uso de maquiagem pesada que alterasse meus traços a ponto de nem me reconhecer em fotos ou até mesmo usando lentes de contato coloridas todos os dias, suprindo uma frustração por não ter puxado mais o lado branco da família.

E sempre ouvi as piadas e perguntas sobre ser asiática, sabia bem que as pessoas me viam dessa forma, muito embora tenha conflitos até hoje por não ser descendente direta." - Ingrid Sá Lee

7. "'Pastel de flango', 'e aí Sabrina Sato', 'e aí xing ling', Eu ouvia tudo e sentia muita raiva, mas não entendia aquilo como racismo."

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"Meus pais têm uma barraca de pastel, minha família paterna inteira trabalha com isso. Quando eu era criança só ia para acompanhar, mas na adolescência já comecei a trabalhar, ganhar meu dinheiro e tal. Trabalhar com o público sendo amarela e mulher sempre foi bastante complicado, eu ouvia de tudo: 'pastel de flango', 'e aí Sabrina Sato', 'e aí xing ling', 'não me traz pastel de cachorro não hein china' etc.

Eu sentia muita raiva, mas não entendia que aquilo era uma violência racista e xenófoba. Numa conversa que tive com um amigo descendente de japoneses, ele me chamou a atenção para essas coisas, me explicou que eu não era branca e sim amarela. Fui atrás de outras coisas para ler, me apaixonei pelo 'Corações Sujos' e acabei encontrando grupos de discussão asiática no Facebook. A partir disso comecei a entender melhor minha identidade: brasileira, japonesa e okinawana.

O ataque xenófobo mais pesado que eu sofri aconteceu depois que eu comecei a me entender como não-branca. Uma mulher estava muito bêbada na barraca de pastel, ficou caçoando de mim falando 'flango' e eu acabei revidando, dizendo que sabia falar 'frango' perfeitamente. Depois disso ela começou a me xingar e dizer que eu deveria 'voltar para o meu país'" - 伊波明美

8. "Eu tinha medo que outras crianças falassem que a minha comida era nojenta."

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"Quando tinha quatro anos e fiquei com medo das outras crianças falarem que minha comida era 'nojenta'. Coisa que realmente aconteceu uns anos depois." - Iris Chen

9. "Dei meu depoimento sobre racismo e ninguém deu a mínima. Eles simplesmente não se importaram com o fato de eu sentir alguma coisa."

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"Foi numa aula de história no 3º ano do Ensino Médio, em que o professor comentou de relance sobre os campos de concentração criados para japoneses no Pará durante a Segunda Guerra Mundial. Na mesma semana, houve um debate na escola sobre racismo e, como a única amarela da sala, eu expus minha opinião e minha experiência como asiática. Quase chorei, ninguém ligou e aí percebi como eles me viam com tanta indiferença que nem se importavam com o fato de eu sentir alguma coisa pelas zoações que eles faziam, quase como se eu fosse um objeto inanimado." - Ayumi Domingues

10. Eu ficava me questionando: 'Eu não tenho uma nacionalidade? Sou um forasteiro em todos os lugares?'"

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"Eu me lembro das crises que tive na infância. Metade foi no Japão e metade aqui, e lá fui chamado de 'Gaijin' (forasteiro) e aqui de 'japoneis'. Com uns 7, 8 anos de idade eu ficava me questionando: 'Eu não tenho uma nacionalidade? Sou um forasteiro em todos os lugares?'. Eu só queria ser amparado." - Yukio Torihara

11. "Perambulei bastante até me conformar em não pertencer a lugar nenhum."

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"Minha mãe tinha loja, meu processo foi muito parecido. As pessoas iam lá para falar besteira e a gente tinha que ficar sorrindo na esperança de ter uma venda, ainda que a pessoa ficasse falando que tudo que é chinês é sujo ou ruim.

Uma vez, uma criança de uns 7 anos fez xixi na loja (?), a gente só foi limpar e a mulher foi super racista com a gente dizendo que o filho dela mijava onde quisesse (??) e que chinês era tão sujo que era até favor (???). E eu nem tinha falado nada.

Curiosamente, quando fui para a China ou para a colônia na Liberdade, eu era lembrada constantemente que não falo chinês bem, que não como certo com os palitinhos. Perambulei bastante até me conformar em não pertencer a lugar nenhum". - Anônimo

12. "Eu não era reconhecida como brasileira, ao contrário dos meus colegas brancos de descendência italiana, portuguesa etc."

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"Quando fiz intercâmbio foi a primeira vez as pessoas perguntavam de onde eu era, e ao dizer que era do Brasil, elas diziam que eu tinha cara de japonesa, chinesa, árabe etc. E eu explicava que isso acontecia porque sou descendente de japonês e iraniano e elas respondiam algo como: 'ah, então você não tem sangue brasileiro, eu sabia!".

Isso não permitia que eu fosse reconhecida como brasileira, mesmo sendo, ao contrário de colegas de intercâmbio brasileiros que, mesmo sendo de descendência italiana, portuguesa etc - ou seja, branca, não eram questionados quando diziam que eram brasileiros." - Nassim Golshan

13. "Uma amiga exaltava minhas características étnicas consideradas 'desejáveis', mas logo justificava o fato do garoto que eu gostava não me corresponder pelo fato de eu ser 'japonesa demais'."

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"Acho que percebi que não era branca quando uma colega da minha escola ficou falando sobre como devia ser maravilhoso ter os cabelos lisos, a educação do meu povo e a inteligência – como se isso fosse exclusivo da minha etnia.

Mas falava que se o garoto que eu gostava não me correspondia, devia ser a minha falta de curvas - 'pois japonesas, né?', os 'desenhos estranhos' – ela se referia a animes. Eu era japonesa demais para qualquer um da nossa sala.

Na época tudo isso isso me deixou bem intrigada e insegura, abalou minhas concepções e minha autoestima horrores." - Larissa Tamasiro

14. "Faziam questão de mostrar como eu era diferente das outras crianças. Eu não era branco. Mas eles faziam questão de me fazer sentir que eu não era brasileiro também."

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"Sempre morei em bairros de periferia aqui em São Paulo. Minha mãe tem ascendência japonesa e meu pai é filho de pernambucanos. Quando pequeno, achava essa coisa confusa e tal. E como na periferia não tem muito descendente de japoneses, a galera na escola, por exemplo, reforçava muito esta questão de como eu era diferente das outras crianças. Falavam comigo forçando sotaque, perguntavam – de maneira jocosa – se a gente só comia sushi ou só comia de palitinho em casa. Achavam um absurdo quando eu falava que meu pai não é descendente de japoneses. Acho que foi este contexto que já me mostrou, logo de cara, que eu não era branco. Mas queriam, ao mesmo tempo, que eu sentisse que não era brasileiro também. Isso rola até hoje, mas de uma maneira mais branda." - Rafael Techima

15. "Considerava o racismo apenas um tipo de 'piada' que me incomodava mas que eu tinha que aprender a rir junto pra não ficar como a pessoa desagradável."

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"Eu tenho consciência de que minha aparência é diferente desde muito nova, quando faziam piada com os meus olhos. Eu tinha lá pelos seis anos. Mas eu fui ter mais consciência de que eu era não-branca e o que isso significava há uns dois anos.

Antes disso, eu sabia que eu não era exatamente branca, mas eu achava que não-branco era sinônimo de negro e indígena. Não conseguia me encaixar aí. Achava que não sofria racismo, que era só 'piada' das pessoas, que me incomodava mas eu tinha que aprender a rir junto pra não ficar como a pessoa desagradável.

Depois entendi que podemos não sofrer na mesma gravidade que outras minorias sofrem, mas que definitivamente sofremos. Ou seja, descobri que apesar de ser uma minoria que sofre com um racismo menos pesado, ainda somos minorias. E estamos do lado oposto do privilégio branco." - Tatiane Mayumi Ito

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