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John Ritter for BuzzFeed News

A segunda encarnação do iPad

Com novo hardware e uma nova geração do sistema operacional, cheia de melhorias específicas para tablets, a Apple quer fazer do iPad seu principal computador.

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Steve Jobs, o fundador da Apple, tinha uma analogia predileta para a era pós-PC: os computadores eram caminhões, e os tablets carros. Jobs gostava de comparar a transição de PCs para tablets com a transição dos caminhões para os carros que acompanhou a urbanização dos Estados Unidos.

“Quando éramos um país agrário, todos os carros eram caminhões, porque era o que você precisava na fazenda”, disse Jobs na conferência D: All Things Digital, em 2010. “Mas, conforme o veículos começaram a ser usados em centros urbanos, os carros ganharam popularidade. Inovações como transmissão automática, direção hidráulica e outras coisas que não eram tão importante nos caminhões passaram a ser fundamentais nos carros. ... Os PCs serão como caminhões. Ainda estarão por aí, ainda terão muito valor, mas serão usados por uma entre X pessoas.”

Os comentários de Jobs, feitos apenas seis meses depois do lançamento do primeiro iPad, provaram-se prescientes. Um ano depois, em um slide de sua apresentação “Tendências da Internet”, a investidora Mary Meeker retratou o iPad como um foguete, um produto cujas vendas cresciam quase três vezes mais rápido que as do iPhone logo após seu lançamento.

KPCB

“Os iPods mudaram a indústria de mídia… os iPhones cresceram ainda mais rápido… o crescimento do iPad deixou seus irmãos’ comendo poeira. 



Cumulativo de unidades enviadas nos 6 primeiros trimestres, iPod x iPhone x iPad”

Mas, nos anos que se seguiram, as coisas mudaram. Em meados de 2013, o negócio do iPad começou a encolher. E não foi uma retração temporária nas vendas. Embora enorme, o número de unidades vendidas vem caindo há 13 trimestres consecutivos. As pessoas demoram um bom tempo para trocar de iPad.

Neste ano, a Apple está decidida a convencer os consumidores a comprar novos aparelhos. Em março, anunciou um modelo de tela de 9,7 polegadas, focado em usuários casuais. E, nesta segunda (5), a empresa revelou dois iPad Pros que miram nos usuários hardcore – uma nova versão do modelo de 12,9 polegadas e um iPad inteiramente novo, de tela de 10,5 polegadas. Ambos têm telas dramaticamente melhores, componentes mais avançados e mais capacidade de armazenamento (uma das opções oferece 512GB!). Junto com eles, a Apple apresentou uma nova versão do sistema operacional móvel iOS, que tem diversas melhorias específicas para os tablets.

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Craig Federighi, vice-presidente sênior de engenharia de software, diz que o iOS 11 é “tranquilamente o maior lançamento” para iPads. Phil Schiller, chefe do marketing da Apple, vai além. “O que fizemos para o iPad no iOS 11 é suficiente [para ser considerado] um grande lançamento de software”, explica. “Você poderia dizer: ‘Eis a versão do iOS 11 para o iPad’ – se tivéssemos algo do gênero.”

Devotos do iPad ansiavam havia anos por melhorias de produtividade – e essa versão finalmente atende a esses desejos, como a possibilidade de arrastar imagens ou links de um app para outro e um sistema inteligente de organização de arquivos. Há um novo modelo de iPad de preço mais acessível e dois modelos mais potentes para os usuários avançados que esperavam uma atualização do iOS feita sob medida para os tablets.

Desde sua primeira versão, o iOS sempre priorizou o iPhone, com eventuais atualizações específicas para o iPad.

Esta é a primeira vez que o iOS foi (aparentemente) pensado desde o princípio para o iPad. Embora o iPad Pro, lançado no ano passado, tivesse bom hardware, sem um sistema operacional à altura o conjunto parecia incompleto para ser um computador “principal”. Com o novo iOS, especialmente levando-se em conta o hardware recém-anunciado, parece que o iPad está em um ponto de inflexão.

Essa certamente parece ser a esperança da Apple: “Queremos que o iPad seja o principal computador para as pessoas que assim desejem”, diz Schiller.

Para criativos e profissionais que abraçaram o iPad Pro de 9,7 polegadas, mas se viram frustrados pelo teclado pequeno e por um multitasking que simplesmente não era digno do nome, o novo iPad Pro de 10,5 polegadas e o teclado Smart Keyboard de tamanho maior provavelmente serão a medida certa.

“[O modelo de] 10,5 polegadas ultrapassa um limiar interessante”, diz Federighi. “Diminuindo as bordas, conseguimos manter um tamanho bom para ler na cama, mas que também tem um teclado de bom tamanho. A aparência engana, mas quando você começa a digitar imediatamente pensa: ‘Ah, sim, agora posso digitar exatamente como no meu Mac’.”

Parece uma melhoria elementar, mas a sensação é de uma evolução crucial. Se o iPad Pro é de fato “a mais clara expressão da visão da Apple para o futuro da computação pessoal”, como disse seu CEO, Tim Cook, você deveria ser capaz de digitar com conforto, certo? Pelo menos até que inventem a digitação telepática.

Igualmente, como o iPad é antes de tudo um aparelho baseado na interface de toque – seja com o dedo ou com o acessório Apple Pencil --, a resposta da tela deveria ser instantânea, viva. E é isso o que se vê nos novos iPad Pros, graças a uma daquelas inovações incríveis que a Apple passa anos desenvolvendo. Esta tem o nome de ProMotion e significa que a imagem é atualizada o dobro de vezes em comparação com os modelos antigos. Como a maioria dos dispositivos móveis, o iPad Pro de primeira geração tinha uma taxa de atualização de tela de 60Hz. O novo iPad Pro pode chegar a 120Hz, um número que costuma ser encontrado em TVs 4K.

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Na prática, isso quer dizer que tudo o que se move na tela – sejam vídeos, uma linha sendo traçada ou o zoom em uma foto – parece mais suave e detalhado. Algumas interações de toque têm resposta muito mais rápida; você fica com a sensação de que a Apple está levando a tela do iPad a um nível de resposta semelhante ao de colocar o dedo numa poça d’água.

Enquanto isso, a latência do Apple Pencil – o pequeno atraso que se nota na tela quando você está desenhando – foi reduzido a ponto de ser virtualmente imperceptível; a Apple diz que a latência é de apenas 20 milissegundos. Como a Apple está tão decidida a capturar a experiência de usar papel e caneta, ainda há esforços para que esse atraso desapareça completamente. Uma das tecnologias é baseada em algoritmos de inteligência artificial que tentam prever para onde a caneta está se movendo.

“Programamos a próxima imagem para onde achamos que o Pencil está indo, de modo que ele desenhe ao chegar lá, em vez de depois de passar por lá”, diz Schiller.

Para Federighi, envolvido em uma ampla gama de inovações da Apple desde sua volta à empresa, em 2009, o ProMotion é um upgrade dramático para o iPad Pro. Questionado sobre suas origens, ele se inclina para a frente e descreve o momento “puta merda!” da descoberta com a mesma empolgação de uma criança que acaba de aprender a fazer um vulcão com vinagre e bicarbonato de sódio.

“Fizemos alguns protótipos para experimentar em telas de 120 Hz de baixíssima latência. Conectamos as telas a esses sistemas equipados com Mac Pros”, diz Federighi. “A experiência do toque era incrível. Era como se a tela estivesse conectada ao dedo.”

Vale notar que isso foi há quatro anos, e quase imediatamente a Apple começou a trabalhar no chip que tornaria isso possível num dispositivo móvel. Só agora vemos a aplicação comercial, o que dá ideia do enorme esforço de pesquisa e desenvolvimento para a criação de um chip poderoso e eficiente o bastante (em termos de consumo de energia) que possa ser usado num iPad. Isso mostra o quanto a Apple está comprometida com o iPad; o produto vale o investimento de vários anos.

“Foi um esforço enorme e que envolveu várias áreas da empresa”, diz Federighi. “Praticamente não há uma equipe de engenharia que não tenha participado, e acho que acertamos. ... Sei que usamos demais a palavra ‘mágico’, mas é isso o que acho desse [novo iPad].”

Isso é o hardware. Mas a Apple se orgulha de fazer “a coisa toda”, como dizia Steve Jobs – uma integração perfeita entre hardware, software e serviços.

O iOS 11 promete estar à altura no que diz respeito ao iPad. Pode não ser o “padOS” – um sistema operacional específico para o iPad – que alguns queriam, mas lá estão várias funções específicas e muito bem pensadas. Há um dock (parecido com o do Mac) para seus apps favoritos e um sistema intuitivo de arrastar praticamente tudo entre um programa e outro.

Melhor de tudo, e finalmente, há um aplicativo chamado Files, que oferece acesso rápido e fácil para todos os seus arquivos, estejam eles no iPad, no seu Mac ou em um serviço de armazenamento na nuvem de terceiros, como Dropbox ou Box. Ele é simples o suficiente para usuários casuais que querem encontrar o que estão procurando. Mas também é robusto o bastante para os, hum, fodões do workflow que querem criar suas próprias hierarquias de arquivos.

Há diversas outras funções, mas, para quem já tentou usar o iPad como seu computador principal, essas três são excelentes argumentos para dar uma nova chance ao tablet. Não é difícil olhar para o novo iPad de 10,5 polegadas e lembrar do slogan “The computer for the rest of us” [O computador para a gente, em tradução livre], usado pela Apple no lançamento do primeiro Mac, em 1984. Será que poderíamos dizer o mesmo do iPad hoje em dia?

Talvez ainda não. A Apple diz enxergar um longo futuro tanto para o iPad como para o Mac. “É simples, na realidade”, diz Federighi. “Existe um produto que você segura nas mãos e que é pensado para manipulação direta. E existe um produto que você usa em cima da mesa que é pensado para manipulação indireta. Quando você leva essas duas ideias à sua expressão máxima, quando estende o alcance de ambas, haverá uma sobreposição inevitável. Mas, no fim das contas, as pessoas vão escolher o que for mais adequado para o que quiserem fazer.”

O que nos traz de volta à analogia de Jobs sobre caminhões e carros. Será que ela ainda é válida sete anos depois, numa época em que o principal computador usado pelas pessoas é o smartphone? E se os celulares, não os tablets, forem os carros?

Federighi e Schiller acreditam que a comparação ainda seja verdadeira. “Não quero forçar demais a analogia, mas acho que existe espaço para o caminhão, o carro e algo que se sobreponha um pouco a ambos”, diz Schiller. “O smartphone é nosso principal modo de transporte. Está conosco o tempo todo – é nosso browser, nossa câmera, nosso comunicador. Mas ele consegue executar tarefas pesadas como fazer um filme ou programar um aplicativo? Claro que não. Para tarefas mais sofisticadas, você precisa de um caminhão; precisa de um Mac.”

“O iPad é algo único entre os dois”, diz ele. “É como um SUV. E, no mundo dos automóveis, os SUVs estão crescendo dramaticamente.” ●

Este post foi traduzido do inglês.

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