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Como um exorcismo de 20 anos atrás me levou a encarar o fenômeno das seitas sul-coreanas

Em 1996, meu tio participou de um ritual que matou uma mulher. No meio de novos escândalos, comecei a me perguntar se seu crime poderia estar ligado ao fenômeno maior das seitas religiosas coreanas.

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No dia 4 de julho de 1996, uma quinta-feira, um membro da patrulha da Polícia de Los Angeles respondeu a uma chamada no condomínio Century City. Choi Jin Hyun, de 46 anos, o recebeu transtornado, falando em um idioma "oriental" incompreensível, segundo o policial. Outro agente coreano-americano foi chamado e chegou pouco tempo depois para ajudar na tradução. Uma sessão de oração tinha dado errado. Além de Choi, dois outros homens coreanos de meia-idade, ambos missionários cristãos, esperavam na sala de estar, enquanto os paramédicos tentavam ressuscitar uma mulher inconsciente no quarto. Ela exibia sinais de um ataque: peito afundado e contusões roxas espalhadas do joelho ao quadril.

A mulher, Chung Kyung Jae, 53, mãe de dois adolescentes, foi declarada morta algumas horas mais tarde. A causa oficial: múltiplos traumas por força contundente. Especificamente, seu coração tinha sido esmagado contra sua espinha dorsal, 16 de suas costelas estavam quebradas e ela tinha sofrido hematomas profundos no pâncreas e nos músculos da parede abdominal.

Poucas horas depois naquela mesma tarde, 48 km a nordeste de Los Angeles, em nossa casa cor de lavanda, minha mãe estava montando um bolo decorado com a bandeira americana em comemoração ao Dia da Independência. Eu estava por perto, assistindo à TV, quando, de repente, o BREAKING NEWS interrompeu meu desenho animado. Uma foto de um homem de aparência familiar apareceu na tela. Ele se parecia com meu pai, que tinha saído mais cedo naquela manhã para jogar golfe. Cheguei mais perto da TV e percebi que eu tinha visto aquele homem magro e pálido no último Dia de Ação de Graças: era meu tio. Duas palavras estranhas, "Exorcismo local", dividiam a parte inferior de sua foto.

A única informação que eu conseguia obter da minha família era esta: Seu tio pisou em uma mulher, e ela morreu.

"O que é exorcismo?", perguntei alto. Minha mãe apareceu e vi seu rosto empalidecer enquanto o apresentador do jornal entonava nosso sobrenome, Choi, repetidamente em um tom incriminador. Ela desligou a TV com as mãos trêmulas, depois saiu para o quintal, onde estava sendo preparado um churrasco. Olhei para ela do sofá, ainda esperando por uma resposta.

Minha avó chegou pouco tempo depois, mas ninguém falava nada. Mesmo nos anos que se seguiram, a única informação que eu conseguia obter da minha família sobre o caso era: Seu tio pisou em uma mulher e ela morreu.

Não vejo meu tio há mais de vinte anos. Mas, por curiosidade, nos últimos meses, decidi pesquisar sobre seu caso a partir do pouco que eu sabia: “Exorcismo coreano de Choi LA”. Logo, manchete por manchete, a história de meu tio começava a tomar forma: "Exorcismo em julgamento"; "Caso de assassinato por missionários coreanos mistura religião, cultura e direito"; "Exorcismo: caso de morte traz questões vexatórias". Os detalhes bizarros, sobre uma cerimônia de cura xamânica visando a expulsão de um demônio por uma seita de cristãos coreanos, me assustou e formou um retrato inquietante de um homem que eu mal conhecia.

Nos anos que se passaram desde o crime do meu tio, notei que as religiões marginais sul-coreanas surgiam vez ou outra no noticiário. Até mesmo a presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, se viu num "escândalo rodopiante" envolvendo uma "seita xamânica". Seus laços preocupantes com uma líder de culto e sua filha "Rasputina" levaram Park à ruína política, provocando o primeiro impeachment do país.

Quanto mais eu pesquisava, mais eu começava a perceber que o escândalo de meu tio, junto com o de Park, pertencia a um fenômeno maior na Coreia do Sul: uma concentração única de seitas e grupos religiosos cuja influência foi para o exterior, para os EUA e para minha própria família. O que começou como uma curiosidade ociosa sobre os acontecimentos daquele 4 de julho de 1996 rapidamente deu lugar a um mistério maior: Por que existem tantas seitas na Coreia do Sul? E o que inspirou tantos coreanos a buscarem redenção por meio delas?

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Tark Ji-il, professor de religião da Universidade Presbiteriana de Busan, na Coreia do Sul, é um dos maiores especialistas deste fenômeno. O assunto o toca particularmente, e por razões sombrias: o pai de Tark, que estudou as seitas coreanas por quase 30 anos, foi assassinado por um membro de uma seita em 1994.

De acordo com Tark, é quase impossível determinar quantas seitas coreanas existem atualmente, embora ele estime que o número seja provavelmente superior a 100. É difícil obter uma estatística sólida, porque muitas seitas na Coreia do Sul se consideram entidades cristãs. De acordo com o censo de 2015, 27,6% dos sul-coreanos se identificam como cristãos e 15,5% como budistas, enquanto 56,9% se consideram sem filiação religiosa ou aliados a grupos não registrados ou ao Sindo (religião popular também conhecida como xamanismo coreano). Um estudo de 2012 do Pew Research Center oferece estatísticas semelhantes. Já onde as seitas se encaixam nesses números é uma incógnita.

Apesar disso, sua presença é palpável na Coreia do Sul. Há tantos rumores e boatos sobre celebridades e políticos em seitas que comecei a cogitar que seria possível ligar quase qualquer pessoa, dentro de seis graus de separação, às atividades desses grupos. Até mesmo uma das tragédias mais devastadoras do país em décadas, o naufrágio da balsa MV Sewol em 2014, pode ser rastreada até uma seita. Mais de 300 passageiros se afogaram, provocando, (entre outras acusações) uma caçada nacional a Yoo Byung-eun, o presidente da transportadora que operava o navio. Yoo também tinha fundado a Igreja Evangélica Batista da Coreia, conhecida alternativamente como a Seção da Salvação, considerada uma seita pela Assembleia Geral das Igrejas Presbiterianas na Coreia do Sul.

Eu me deparei com a frase "novo movimento religioso", em vez de "seita", várias vezes em minha pesquisa, então pedi esclarecimentos a Tark. Ele disse que uma variedade de termos é usada para descrever os grupos que existem nas margens da religião convencional, cujas intenções vão desde a meditação inofensiva, como o Falun Gong, às manipulativas e destrutivas, como o Ramo Davidiano de David Koresh -- ligado à morte de mais de 80 pessoas em 1993 no Cerco de Waco, no Texas. Também descobri que os sociólogos popularizaram o termo "novo movimento religioso" para evitar que as pessoas associassem automaticamente esses grupos a práticas depreciativas que normalmente são subentendidas como ligadas à palavra "seita", como o controle mental e a lavagem cerebral.

No entanto, Tark prefere usar "seita" ou o termo bíblico "heresia" quando se refere a qualquer grupo na Coreia que tenha divergido das igrejas principais. Esses grupos, ele me disse, normalmente seguem quatro princípios:

1. Deus/a Segunda Vinda de Cristo/o Espírito Santo é coreano.

2. A nova revelação ou doutrina é escrita em coreano.

3. As pessoas escolhidas que serão salvas são, na maior parte, coreanas.

4. O novo reino será estabelecido na Coreia.

A maioria dessas seitas se originou, principalmente, durante três períodos de agitação política e opressão cultural na Coreia do Sul: no regime imperialista japonês (1910-1945), na Guerra da Coreia (1950-1953) e na ditadura do pós-guerra durante a industrialização (1960-1986).

Tark acredita que isso não é coincidência. "A ditadura militar [na Coreia] precisava de apoiadores cegos porque não havia nenhuma base democrática, e as seitas precisavam de um guarda-chuva sob o qual se esconder das principais igrejas e das críticas da sociedade", disse ele. Novas religiões centradas na Coreia, que misturam facetas do budismo, do cristianismo e do xamanismo, respondiam aos anseios dos coreanos que estavam buscando salvação em tempos de desespero nacional.

O fundador de um site coreano chamado antisybi.org há anos se dedica a escrever artigos contra as seitas coreanas. A.S., como irei chamá-lo, prefere permanecer anônimo devido à natureza sensível de seu trabalho e porque, diz ele, sua família tem recebido ameaças de morte. A.S. me disse por telefone que foi criado em uma "espiritualidade coreana tradicional" e se deu como missão proteger a "boa tradição coreana" da influência prejudicial das seitas. Por meio do antisybi.org, A.S. fornece "informações privilegiadas" sobre as seitas da Coreia, especificamente "como elas funcionam, o quanto cobram e como elas coagem as pessoas... como mentem, como enganam". Vítimas de seitas e pessoas que procuram ajuda frequentemente contatam A.S. para obter orientação, a qual ele oferece voluntariamente.

A.S. vai um passo além de Tark, dizendo que a enorme presença de seitas na Coreia é produto de uma "crise de inferioridade espiritual" que já dura um século. Segundo ele, religiões importadas dominaram a história coreana por mais de 1.500 anos. "Nós nunca tivemos nosso próprio Buda, nosso próprio Confúcio", disse A.S. "Então, quando alguém chega e diz: 'Eu sou o salvador, eu sou o Messias...', é claro que as pessoas ficam animadas em ter sua própria divindade."

O xamanismo coreano, que também é conhecido como musim, é um sistema de crenças nativo da Coreia. Mudangs ou baksus, xamãs coreanos, são os intermediários entre o mundo espiritual e o plano humano. Os tradicionais rituais gut ainda são realizados hoje, em ocasiões como cerimônias de inauguração, para ajudar as pessoas a estabelecer a paz e o equilíbrio com as energias circundantes. Em um artigo de 1997 que eu li recontando o caso do exorcismo de meu tio, especialistas afirmaram que o xamanismo "continua influenciando fortemente o pensamento coreano... um xamã, como um padre, acredita-se possuir poderes especiais".

Como uma criança americana, eu não cresci visitando xamãs nem assistindo a rituais gut. No entanto, minha avó materna, uma budista que se tornou cristã, frequentemente o fazia na Coreia. Ela também afirma que pode prever o futuro. Minha avó não é uma líder de seita ou uma xamã, mas, como meu tio, sua mistura de crenças mostra as maneiras pelas quais as camadas da espiritualidade coreana não são distintas, mas facilmente se sobrepõem.

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Os artigos desenterrados do "Los Angeles Times" capturaram um momento curioso no julgamento do meu tio. Ele se sentou diante de um júri de Malibu 10 meses após a morte de Chung Kyung Jae, grunhindo "em uma voz diabólica", imitando o estado supostamente atormentado da vítima. Ele havia aceitado um acordo em troca do seu testemunho, que implicava os dois missionários cristãos também encontrados na cena do crime: o exorcista-líder, reverendo Choi Sung Soo (que era de Bangladesh e não tem nenhuma relação com minha família) e o marido da falecida, Chung Jae Whoa, ambos com quarenta e poucos anos.

A igreja presbiteriana de Glendale onde meu tio servia como diácono estava hospedando o reverendo Choi durante sua viagem aos Estados Unidos. Meu tio testemunhou que um demônio que assombrava o corpo de Chung a tinha tornado "espiritualmente arrogante" e como "às vezes ela recusava a obedecer" a seu marido. Então o reverendo Choi disse aos Chungs que ele tinha experiência em realizar rituais de exorcismo. Assim, o casal concordou em participar do ritual ansukido, uma combinação de oração e imposição de mãos, liderado pelo reverendo Choi.

Não ficou claro por que meu tio concordou em participar do ritual ou se ele já havia feito a oração ansu alguma vez. No entanto, os homens passaram quase dois dias tentando expulsar os demônios do corpo de Chung, parando apenas para um culto de uma hora na igreja entre as sessões. As contas variam sobre o número de demônios que Chung supostamente estava abrigando, mas meu tio afirmou ter derrotado vários deles. Usando suas mãos, seus pés e até mesmo uma colher, eles cutucaram e pressionaram Chung até que um dos espíritos que a estava perseguindo, um militar chamado Gundae, aparecesse quase rendido. De acordo com o testemunho de meu tio, o reverendo Choi então ficou em pé em cima de Chung para forçar a saída de Gundae através de sua boca. Quando Gundae prometeu sair do corpo da mulher e ir para o corpo de um cão que estava ao lado, os homens apoderaram-se da fraqueza do demônio e começaram a pisotear Chung, como se estivessem apagando um cigarro fumegante. "Ela não se queixou nem gritou nenhuma vez", disse meu tio à polícia, como se ele não pudesse acreditar que ela tivesse morrido. "Eu achava que era aquilo que devia ser feito para tirar os demônios."

"Eu estava tão perto de livrá-la da coisa", teria dito o revendo Choi a um policial. "Mas acho que não foi uma boa ideia usar o pé."

Os homens não pareceram ter se dado conta da sua própria brutalidade até que fosse tarde demais. "Eu estava tão perto de livrá-la da coisa", teria dito o reverendo Choi a um policial na época. "Mas acho que não foi uma boa ideia usar o pé."

Um artigo do "LA Times", publicado em 6 de abril de 1997, forneceu, de longe, o relato mais detalhado da morte de Chung e das audiências no tribunal que se seguiram. No artigo, Chung e o advogado do reverendo Choi, Christopher Lee, afirmavam que, "com base em seus antecedentes culturais, o comportamento em que [os réus] estavam envolvidos não era tão irracional". O relatório também descreveu o ritual como uma combinação de antigos princípios xamanistas asiáticos coreanos com a oração cristã. No entanto, em outro artigo, o reverendo Chun Soon-Young, pastor da igreja presbiteriana Valley First, criticou essa ideia. "Este é um caso extremo envolvendo um grupo de minoria da comunidade cristã coreana", disse Chun. "Eu diria que o que aconteceu foi quase um ritual de seita."

No entanto, as fontes variam sobre o que realmente aconteceu e por que aconteceu, frustrando meu anseio por encontrar qualquer verdade conclusiva. Uma reportagem de 6 de abril observa que todos os acusados praticavam o cristianismo pentecostal coreano (uma forma de cristianismo carismático), que enfatiza a possibilidade dos milagres modernos por meio do trabalho do Espírito Santo.

Os cristãos carismáticos coreanos costumam realizar uma variação agressiva de oração ansu conhecida como oração anchal. O procurador-distrital-adjunto Hank Goldberg argumentou durante o julgamento que o reverendo Choi era "um exorcista ambicioso que queria fazer um nome" e que pretendia executar um ato religioso tão ultrajante que ele seria preso e martirizado pela Igreja Pentecostal da Coreia.

Entretanto, em um perfil da congregação de meu tio, que é presbiteriano, não pentecostal, um membro chama o exorcismo de "tão fora do comum que está além do meu entendimento". No mesmo artigo, o presidente das igrejas coreanas do sul da Califórnia descreve a oração anchal como uma "espécie de massagem corporal religiosa" agradável, ao contrário da história de 6 de abril, que diz que a técnica pode levar a "torcer ou estapear" o possuído.

Dois outros exorcismos envolvendo coreanos foram notícia nos EUA no final da década de 1990, abrindo o julgamento do meu tio. Ambos foram liderados por indivíduos persuasivos, como reverendo Choi, que pareciam ansiosos para fazer milagres em nome de Deus.

Em março de 1995, uma seita fundamentalista cristã coreana chamada Jesus-Amen Ministries, com sede em Emeryville, na Califórnia, orou e matou uma mulher com esquizofrenia, golpeando-a quase 100 vezes no rosto e no peito. Seu líder autoproclamado supostamente disse à polícia que o ritual mortal era "uma vitória para Jesus Cristo". Já em agosto de 1996, um cirurgião coreano em Chicago socou e sufocou sua esposa, com a ajuda de um ministro evangélico, para fazer dela uma "cristã melhor".

O "Chicago Tribune" relatou que essa série de crimes ofereceu um "vislumbre preocupante da expansão do evangelismo coreano", que seria especialmente atraente para imigrantes religiosos obcecados pela demonologia.

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Em maio de 1997, meu tio se declarou culpado de homicídio culposo (sem intenção) e foi condenado a três anos de liberdade condicional.

Minha família nunca discutiu esse assunto. Meu tio simplesmente apareceu em um Dia de Ação de Graças para o jantar, e foi isso. Eu era adolescente na época e sabia apenas que ele tinha matado uma mulher, então evitei segurar as mãos dele durante o nosso círculo de oração antes da refeição. Enquanto a vovó Choi abençoava nossa festa, em vez de fechar os olhos, eu o monitorava do outro lado do círculo. Com a sobrancelha franzida, ele gritava: Aleluia!, em cada segmento da oração com uma convicção tão frenética que eu tinha que desviar o olhar.

Enquanto isso, além de nossa casa no sul da Califórnia, relatos de outros movimentos religiosos coreanos fanáticos começavam a surgir.

Biografias, investigações internacionais e até um episódio do programa "60 Minutes" expuseram o funcionamento interno da Igreja da Unificação, uma "nova religião" sul-coreana originalmente fundada pelo líder e "verdadeiro pai" Moon Sun Myung em 1954.

O grupo de Moon ganhou presença nos EUA e em outros países, como Rússia e Tchecoslováquia, conquistando até 3 milhões de seguidores em todo o mundo. Os "Moonies", como eram chamados, tornaram-se sinônimo de pessoas desmioladas que concordavam com casamentos arranjados e casamentos em massa, que torravam suas poupanças, que trabalhavam 21 horas por dia, sete dias por semana, e que, mais tarde, depois de todo o cansaço, exigiam intensa "desprogramação".

O fanatismo de Moon e seu apelo internacional chocaram os coreanos, como minha mãe.
Para ela, Moon era um membro desonesto da comunidade coreana cujo comportamento indecoroso ela esperava ser esquecido rapidamente. Moon voltou a aparecer no noticiário em 2012, por ocasião de sua morte, mas sua igreja recentemente voltou de forma inesperada.

Quando a Casa Branca impediu a presença de vários órgãos de imprensa em uma coletiva com o secretário Sean Spicer, em fevereiro, uma das organizações escolhidas a dedo para participar, além da Breitbart News, foi o "Washington Times", um jornal conservador fundado por Moon em 1982 e que é atualmente propriedade de uma subsidiária da Igreja da Unificação. O legado de Moon, que continuou a prosperar além das controvérsias dos anos 90 na minha juventude, ilustra o impacto cultural duradouro desses líderes espirituais e seu enorme alcance.

Segundo um ex-recrutador, as seitas não procuram pessoas marginalizadas e solitárias, mas aquelas "normais"que estão passando por um momento em que estão mais suscetíveis de serem influenciadas.

Steven Hassan, um ex-membro da Igreja da Unificação, dedicou dois anos e meio à organização de Moon em meados dos anos 70. Como alguém que liderou grupos de recrutamento nos EUA, ele é bem versado sobre os métodos de doutrinação dessa seita.

Em seu livro "Combating Cult Mind Control", ele argumenta que as seitas não procuram necessariamente pessoas "perdidas, solitárias e marginalizadas", mas, sim, "pessoas normais com vida equilibrada" que estão passando por momentos em que estão mais suscetíveis a serem influenciadas -- como passando por uma perda, grandes transições ou outras "vulnerabilidades situacionais". Em outras palavras, quase qualquer um pode potencialmente ser vítima da manipulação das seitas.

Hassan foi criado por uma família judaica conservadora no Queens. Ele contou como um dia, logo após um recente rompimento amoroso, três simpáticas japonesas se aproximaram dele no refeitório da escola. Elas se apresentaram como membros da One World Crusade, um clube não religioso dedicado a superar as diferenças culturais.

No entanto, como Hassan descreve em seu livro, as reuniões do One World que ele começou a participar acabaram levando a uma "oficina conjunta" com a Igreja da Unificação, e ficou claro que o grupo era na verdade uma frente para a organização de Moon. "Me fizeram acreditar que a Terceira Guerra Mundial estava prestes a acontecer e que Sun Myung Moon, o Messias, estava na Terra", disse Hassan por telefone. "Estes eram os últimos dias, Deus iria julgar a todos, o Jardim do Éden seria reestabelecido e eu tinha duas escolhas: seguir o meu destino de ajudar Deus a fazer esta grande obra ou ser amaldiçoado para sempre por todos os meus ancestrais no mundo espiritual." E, assim, ele se tornou um recrutador.

Desde que deixou a igreja, Hassan se tornou uma das principais autoridades sobre a influência do grupo e desenvolveu um método que identifica como algumas seitas recrutam e manipulam seus seguidores por meio do que ele chama de "modelo BITE": behavior (comportamento), information (informação), thought (pensamento) e emotional control (controle emocional).

"Se as pessoas querem acreditar que Sun Myung Moon, Charles Manson ou seu cachorro é o Messias, elas estão no seu direito", diz Hassan em seu livro. "No entanto, e este é um ponto crucial, as pessoas precisam ser protegidas dos processos que as fazem acreditar que Manson ou Moon são o Messias."

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A recente queda da presidente sul-coreana Park Geun-hye também pode ser vinculada ao seu envolvimento com um líder de seita. Park é de linhagem política. Seu pai, o ex-presidente e ditador Park Chung-hee, chegou ao poder por meio de um golpe em 1961. Sua mãe foi assassinada em 1974, fazendo com que ela tivesse que assumir precocemente as tarefas de primeira-dama. Pouco tempo depois da trágica morte, Choi Tae-Min, líder e fundador da seita xamânica Igreja da Vida Eterna, se aproximou de Park Geun-hye, alegando que sua mãe tinha aparecido em seus sonhos.

Quando seu pai também foi assassinado em 1979, Park passou o luto em uma casa com fotos e relíquias de seus pais assassinados, enquanto Choi (novamente, nenhuma relação com minha família) reforçava seus laços com a sua protegida.

A embaixada americana em Seul relatou boatos, em um telegrama diplomático que se tornou público via WikiLeaks em 2007, que Choi "teve o controle completo sobre o corpo e a alma de Park durante seus anos de formação e que seus filhos acumularam uma enorme riqueza como resultado disso".

Choi morreu em 1994, altura em que sua filha, Choi Soon-sil, tomou o papel de seu pai como conselheira espiritual e melhor amiga de Park. Quando Park ganhou destaque político com sua vitória presidencial em 2012, Choi Soon-sil virou uma confidente indispensável. Apesar de não possuir nenhum título oficial do governo, Choi Soon-sil influenciava as decisões de Park, desde a escolha de bolsas às questões de Estado. Em um dos vários anúncios públicos antes de seu impeachment, Park negou qualquer envolvimento com seitas, rejeitando a crítica pública popular de que ela permitia que rituais xamânicos acontecessem em propriedade do governo.

Embora Park não pareça ter sido membro oficial da Igreja da Vida Eterna, a influência dos Chois sobre ela combina com o modo como os líderes de seitas manipulam seus seguidores.
"Com base em minhas observações", disse-me por telefone A.S., do site antisybi.org, "o modo como [Park] reagiu diante das câmeras e politicamente, a forma como ela respondeu aos meios de comunicação, tudo foi uma resposta bastante típica de uma pessoa que se envolveu com uma seita".

Pessoas que lutam com sua identidade "seitista" frequentemente sofrem estágios de negação e raiva, A.S. explicou. "Vi as fotos e [Park estava] passando por todas essas etapas." A.S., que enfatizou que essa era apenas sua opinião subjetiva, disse-me que reconhecia o "olhar vazio" de Park, característica daqueles que foram comprometidos por alguma seita. Ele também me disse que,"quando você se junta a uma seita, a primeira coisa que [eles] criam artificialmente é um ambiente de isolamento e solidão".

Park admitiu sua vulnerabilidade em um pedido de desculpas televisionado. Nele, ela apareceu magra e abatida, quase em lágrimas. "Vivendo sozinha, eu não tinha muitas pessoas para me ajudar", disse ela. "É verdade que eu relaxei as barreiras entre nós... porque [Choi Soon-sil] ficou ao meu lado nos momentos mais difíceis."

Agora, com a remoção oficial de Park Geun-hye do cargo, a Coreia do Sul entra no que parece ser um quarto período de crise nacional. O escândalo de Park Geun-hye mergulhou seu país em um caos político. Destituída de imunidade executiva, ela deve assumir o seu papel em um escândalo de corrupção à medida que a Coreia do Sul se esforça para eleger um novo líder em menos de 60 dias.

As ameaças nucleares feitas pela Coreia do Norte também nos lembram da fragilidade da península; o Norte renunciou ao Acordo de Trégua da Coreia pelo menos seis vezes desde 1994, sem nenhuma resolução pacífica no horizonte. "Em tempos de situações críticas", adverte Tark, "seitas ou novos movimentos religiosos surgem facilmente".

Eu cresci em uma igreja presbiteriana totalmente coreana que Tark poderia classificar como "principal". Nossas experiências nunca mergulharam no extremo: não falávamos em línguas nem fazíamos contagens decrescentes para o dia do juízo final, muito menos exorcismos.

Minha mãe cantava na equipe de louvor; meu pai era tenor no coral. O ato mais anormal que praticávamos envolvia pão havaiano e suco de uva, a versão da nossa congregação para o pão e o vinho da Comunhão.

Eu amava Jesus.

No meu estágio mais fervoroso, eu era uma adolescente atrapalhada de óculos e aparelho que me agarrava ao evangelho como uma craca a uma baleia. Aprendi que Deus também me amava, mas, para meus desgosto, essa forma incondicional de amor não era entendida pelos meus colegas. Aos domingos, eu me oferecia para distribuir panfletos do programa antes do culto, cantava hinos com os olhos fechados e zelosamente imitava a coreografia de adoração dos salmos em cada apresentação especial. Meu entusiasmo espiritual até me fez ganhar um apelido da esposa do pastor: pequena diácona.

No entanto, da mesma forma fácil com que abracei a igreja, também a abandonei. Minha adolescência introduziu as lentes de contato e uma carteira de motorista e, de repente, o mundo parecia muito pequeno entre aqueles bancos de madeira. Abandonei todas as minhas responsabilidades dominicais com surpreendente facilidade. Acho que isso atormentou minha mãe, mas, fora os cultos obrigatórios de Natal, ela me deixou a livre escolha.

A palavra heresia, Tark me disse, deriva do grego hairesis, que significa "escolha" ou "coisa escolhida". No entanto, há uma grande diferença entre fazer livremente uma escolha e ter essa escolha feita para você.

Os líderes espirituais destrutivos, à margem da religião ou não, podem oferecer às pessoas, como Steven Hassan ou mesmo meu tio, a ilusão de autonomia, quando suas convicções são de fato escolhidas por outra pessoa.

Acho que meu tio nunca foi parte de uma seita. Parece muito mais plausível que ele se considerasse alguém escolhido por Deus, destinado a resgatar aqueles em perigo espiritual.

Durante a onda de rituais de cura coreanos da década de 1990, um jornalista do "Chicago Tribune" concluiu que as "promessas de rápida eficácia da oração anchal" provavam ser especialmente atraentes para os imigrantes coreanos operários da primeira geração, como meu tio, "que lutavam pela sobrevivência" na América.

Se eu encontrei um fio comum que liga a proliferação de cultos da Coreia do Sul à história do meu tio, é que as pessoas mais vulneráveis à manipulação espiritual estão buscando uma maneira de serem vistas, de lidarem com o desespero ou com o deslocamento. Talvez também porque, ao realizar milagres ou ao aceitar uma doutrina que tenha "escolhido você", eles podem se aproximar de Deus, transcendendo, ainda que por pouco tempo, as inevitáveis deficiências da realidade.

Não tenho certeza de onde meu tio está hoje ou o que ele está fazendo. A última vez que o vi foi em uma de nossas festas de Ação de Graças, no final dos anos 1990.

Daquele dia eu me lembro mais de sua esposa, uma mulher coreana de voz suave, com sobrancelhas tatuadas que a fazia parecer constantemente perturbada. Ela deu à luz ao filho do casal enquanto meu tio aguardava o julgamento na prisão. Eles deram o nome de Yosef ao garoto, José na Bíblia, conhecido como o pai terreno de Jesus Cristo.

Minha irmã ouviu alguns comentários de familiares de que nosso tio ainda é um ávido fiel. "Eu acho que ele está um pouco enfraquecido", me disse, "mas não tenho certeza".

Não posso deixar de me perguntar se nosso tio ainda se encontra no mesmo terreno espiritual borrado que uma vez o obrigou a exorcizar demônios. Mas mesmo que ele não esteja, outros continuaram em seu lugar.

Um mês atrás, um tribunal de Frankfurt condenou uma mulher sul-coreana de 44 anos a seis anos de prisão por seu papel em um exorcismo violento. O caso ecoou detalhes familiares e horripilantes: uma sessão de oração de duas horas conduzida em um quarto de hotel que terminou com a morte de uma mulher coreana de 41 anos.

O filho de 16 anos da vítima, sua sobrinha e seu sobrinho (de 19 e 21 anos, respectivamente), bem como outro rapaz de 15 anos, todos seguraram a mulher "possuída" e abafaram seus gritos enchendo sua boca com um pano e roupas. Eles a espancaram até o seu sufocamento.

Segundo uma reportagem, os perpetradores praticavam "uma forma de cristianismo com influências de uma antiga religião xamanista asiática". Mas qual forma exata de cristianismo ninguém conseguiu determinar.

Eu não acho que o caso de Frankfurt será o último do gênero. O apelo da redenção é persistente. Deve ser uma espécie de alívio para aqueles que entregam as suas vidas a um poder superior, de confiar que um futuro melhor os esperará se eles se renderem e simplesmente acreditarem.


Este post foi traduzido do inglês.

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