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A derrocada da maior estrela do YouTube é sintoma de uma doença maior

A celebração da desgraça de Felix Kjellberg ignora um problema maior e mais insidioso: homens jovens testando limites nos cantos mais raivosos da internet.

publicado

Este artigo foi escrito pelo subeditor do Screener, site de críticas de TV e a nova casa do Television Without Pity (televisão sem dó, em tradução livre).

Em meados de fevereiro, a Disney rompeu com Felix “PewDiePie”, sueco que era a maior estrela do YouTube, depois de o jornal "The Wall Street Journal" apontar mensagens anti-semitas em vários de seus vídeos. O YouTube fez o mesmo logo depois, cancelando a próxima temporada da série "Scare PewDiePie". Parte do conteúdo mais controverso foi apagado, e ele não conta mais com o status de produtor “Preferido do Google” – apesar de continuar lucrando com a publicidade exibida em seus vídeos, como explica Patricia Hernandez, do site Kotaku.

Para quem não é fã, os vídeos de Kjellberg – nos quais ele joga videogames e faz comentários aleatórios – são como ouvir alguém arranhando as unhas no quadro negro, mesmo que não haja referências a nazistas. E não é surpreendente que, fora da comunidade de video games/vloggers, a reação à sua derrocada tenha sido quase unânime: satisfação, mesmo que enrustida.

A investigação de grande porte e o destaque da notícia no "Wall Street Journal" deveriam ser lembretes tanto da enorme quantidade dinheiro que essas personalidades digitais ganham (a revista "Forbes" estima que Kjellberg tenha faturado 15 milhões de dólares no ano passado, o que faria dele a estrela mais bem remunerada do YouTube) quanto do vasto contingente de fãs que elas reúnem. Em dezembro de 2016, Kjellberg tinha nada menos que 50 milhões de assinantes no YouTube.

Essa é uma das histórias que poderíamos contar -- como as esferas da tecnologia, do
dinheiro e das celebridades convergem para a questão mais quente de 2017: a
ascensão do nacionalismo branco e do fascismo nos Estados Unidos. Seria um gol de placa. Mas essa não é a história que importa.

A verdadeira história em relação a PewDiePie não é que aquela pessoa que você está pré-condicionado a odiar – porque ele combina uma energia estridente com a pose de DJ europeu ou porque você não acredita que alguém possa ganhar tanto dinheiro fazendo basicamente nada – tenha finalmente levado o que merece. Isso é perder de vista a questão maior, porque PewDiePie não é a questão maior.

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A alt-right (direita alternativa) da internet depende da zoeira, do senso de privilégio desfrutado por pessoas que não têm nenhuma compreensão histórica das coisas que seus privilégios lhes permitem dizer. Reescrever a história de Felix Kjellberg para que ele pareça um monstro é
preguiça investigativa. É deixar de lado algo muito mais importante: que os “edgelords”, os meninos e homens que se reúnem online com o objetivo explícito de disseminar discurso misógino e de ódio, vão quase inevitavelmente continuar testando os limites, até finalmente cair em desgraça.

Como a relação de PewDiePie com seus seguidores é tanto um sistema de validação recíproca quanto um culto da personalidade masculina, não enxergamos nada fora do comum: aceitamos tudo pelo valor de face, porque “os homens são assim mesmo”. Podemos demonizá-los (os que foram longe demais) como ideia, podemos continuar ignorando o que eles dizem e, então, parecer chocados quando a necessidade de atenção deles encontra a capacidade que eles têm de se fazer ouvidos.

Não se trata de estar certo. É claro que os autores de piadas racistas, os fascistas que estão despontando e os trolls estão errados; é claro que estão fora do controle,
ajudados por corporações que proporcionam as plataformas nas quais eles se
organizam e se manifestam. Trata-se de entender o que está por trás desse lado
escuro da internet, e como combatê-lo.


Kjellberg não é o primeiro nem o único vlogger do seu estilo, mas seu dedo está em toda parte. Suas marcas, suas expressões e seu discurso nervoso podem ser vistos na maioria dos vídeos “Let’s Play” e outros conteúdos relacionados a games que compõem a maioria dos canais de sucesso do YouTube. Por sorte e acaso, Kjellberg tem impacto permanente nesse formato emergente da mídia do século 21, gerando clichês e formatos e padrões de expressão que têm tanto alcance quanto sua fama. Se o YouTube é arte, ele é um Picasso acidental.

Mas a maioria das pessoas que estão falando dele agora não o conhece tão bem assim. Temos a tendência de exagerar nossas confluências de interesses e posições, um fenômeno conhecido como efeito do falso consenso. Ele explica por que nossos parentes
ficam sempre chocados com as coisas do Facebook; por que, em parte, tanto a
esquerda quanto a direita ficam chocadas com as reações aos presidentes Trump e
Obama. Também explica por que Felix Kjellberg é uma folha em branco pronta para receber nossos artigos e pensatas: porque ele é importante basicamente para os jovens cujas ideias e obsessões ainda não são levadas a sério pelo discurso mainstream.

A revista "Variety" relatou em 2014 que PewDiePie é mais reconhecido que Jennifer Lawrence. Se você acha isso impossível, está começando a entender o que é o efeito do falso consenso. A molecada e suas telas – que essencialmente ignoram as notícias e o
entretenimento que você e nós todos julgamos importantes – estão criando seu
mundo próprio: construindo o futuro. Estamos falando de 50 milhões de pessoas. E os fãs de PewDiePie enxergam algo real nele, goste você disso ou não.

“Muita gente me considera um amigo com quem pode passar uns 15 minutos de boa todo dia”, disse Kjellberg em 2014. “A solidão na frente da tela do computador nos aproxima. Mas nunca tive a intenção de ser um exemplo; só quero convidá-los para visitar a minha casa.”

Dada essa conexão, essa espécie de intimidade simulada, não há nada tão decepcionante quanto uma personalidade do YouTube deixando escapar um preconceito ou uma atitude indesejada. No começo deste ano, Kjellberg e seu entendimento intransigente das dinâmicas políticas e sociais acabaram em desastre – como costuma acontecer.

Primeiro, o tabloide inglês "The Sun" isolou o áudio de um vídeo em que Kjellberg usa um xingamento racista durante uma comemoração. Dias depois, começaram a aparecer referências a nazistas, Hitler e outros tópicos anti-semitas – o "The Wall Street Journal" contabilizou nove --, chegando ao ápice num esquete em que Kjellberg pediu para dois índios erguerem um cartaz que dizia “Morte a todos os judeus” (ele diz jamais ter considerado a possibilidade de que eles realmente o fariam).

Kjellberg nunca foi um indivíduo particularmente iluminado. Seu estilo distraído e estridente sempre incluiu muitos xingamentos de “vaca!”; sua insistência em se referir aos seguidores como “manos” anda de mãos dadas com a visão machista que a cultura dos gamers tem a respeito de sua demografia (aquele efeito do falso consenso, mais uma vez). E, como influenciador, isso significa que Kjellberg é cúmplice: ele é ao mesmo tempo criatura e líder intelectual de uma indústria nominalmente masculina que atravessa uma profunda crise de identidade.

"Ironistas" do Reddit, criadores de memes do Pepe e todos os outros profissionais do choque da internet são fruto de uma cultura isolada da vida real. Piadas com Hitler ou com estupro têm origem na ingenuidade, mas depois se endurecem como crença: veja quantos comediantes foram pegos de calças curtas e, depois de flagrados, ficam tão magoados com as reações que redobram o ódio.

Projetar nossa sombra cultural sobre o Outro – nós, os bons, pisando naqueles que
secretamente não são bons – nos impede de enxergar como essas comunidades
nascem, crescem e se alimentam do nosso pouco caso.

Não se trata de argumentar contra o politicamente correto, que é um conceito desprezível criado pelo conservadorismo, e tampouco é um pedido de simpatia pelos trolls da internet. Mas o sol é o melhor desinfetante, e não dá para consertar o que você não enxerga – ou se recusa a enxergar. Esconder-se das partes mais terríveis da nossa cultura é colocá-las em posição de causar mais danos.

Estamos condicionados a nos distanciar dos idiotas do Reddit, dos trolls que usam
avatar de animé e, agora, dos bichinhos fofinhos nazistas. Assim, eles continuam invisíveis – só que não. Parece que eles apareceram do nada. Mas eles vieram de algum lugar: do tédio, da solidão e da sensação universal de ser protagonistas do universo (algo
que a maioria, por sorte, supera ainda na infância).

Para esses meninos, estupro e Anne Franke são histórias de fantasmas, caminhos para o extremismo. Esse tipo de homem nerd melindrado sempre vai falar mais alto, atropelar os outros, atropelar as mulheres. Os nerds gritam porque não se sentem ouvidos. Essa é a única razão pela qual as pessoas gritam.

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Daí para que eles se juntem e se radicalizem é um pulinho: ninguém entende suas dificuldades, sua necessidade de validação, sua necessidade de ajuda. Na verdade, eles são demonizados por isso. Então, eles se incentivam. E, como todo humor é baseado em sementes de desconforto, e as sementes podem florescer, as piadas de ódio acabam por evoluir para o ódio real.

Imagine o nível aceitável de ódio no humor, mesmo algumas décadas atrás, do blackface à violência doméstica e às piadas sobre drogar mulheres – e como ele poderia ter evoluído sem uma reação da sociedade para impedi-lo. Imagine que as pessoas fazendo essas “piadas” hoje em dia existem num mundo que, até onde elas conseguem entender ou dar valor emocional, está cheio de gente as aplaudindo.

Se ignorarmos como essas pessoas vão de A a B, presumimos que A é igual a B; elas nunca “mudaram”, só tiveram seus véus removidos. Desviamos o olhar o tempo suficiente para que a mudança acontecesse em nossa visão periférica. A realidade é que eles estavam implorando por limites, e nós nos recusamos a colocá-los porque tínhamos nojo de olhar. Confortar-se com uma suposta fronteira entre os “idiotas do Reddit” daqui e os “monstros” dali não ajuda a combatê-los, muito menos a ajudá-los. Os únicos beneficiados somos nós mesmos.

Estamos tão acostumados a invocar a Lei de Godwin (a ideia de que toda discussão online inevitavelmente vai acabar com a comparação de algo ou alguém com Hitler ou os nazistas) que a internalizamos e simplesmente não aguentamos mais ouvir certos termos, porque eles são grandes demais para passar pela porta. Quando você diz algo tão grande, leva as coisas tão longe, e ainda assim não se sente ouvido, você fala mais e mais alto, exagerando cada vez mais – e ainda se sente invisível?

E pessoas como Felix Kjellberg e Milo Yiannopoulos não são americanos, o que traz uma camada extra de ruído entre eles e uma compreensão visceral do que eles estão dizendo. O aspecto venenoso disso é que seus seguidores americanos têm uma rede de segurança: eles fazem suas “piadas” de um lugar mais distante.

Imagine como seria fácil idolatrar uma pessoa que regularmente reenquadra sua Janela de Overton pessoal -- aquilo que você considerava impensável --, incluindo coisas que você não diria seis meses atrás. É uma sensação maravilhosa, libertadora e transgressora, e não acaba nunca: o que te empolgava agora é lugar comum, todo mundo repete, todo mundo normalizou; precisamos encontrar outra coisa. Algo pior, ou ninguém vai prestar atenção. Esse discurso reciprocante significa uma validação incrível e nos ensina que a pior coisa que um cara pode pensar não faz dele uma pessoa terrível, mas sim um heroi.

Essa estratégia de terapia de grupo também significa conceder um ao outro uma
espécie de permissão: passamos batido pelo fato de que homens estão constantemente procurando uns aos outros, ou ao “alfa”, e enxergamos onde está a linha demarcatória – por exemplo, Trump dizendo para o jornalista Billy Bush no vídeo vazado durante a campanha que “elas” deixam que você faça qualquer coisa. Quando nenhum lado da conversa tem senso de autoridade, tudo acaba virando um sistema de OKs e consensos que se auto-reforça.

O cambalear-e-cair, portanto, é um arco previsível: é a criança hiperativa que arranca risadas na mesa do jantar e depois repete a piada tantas vezes que tem de sair da mesa. Só que, no caso de Kjellberg, a atenção que ele recebia não era dos adultos, escondendo as risadas com a mão, mas sim da base que ele passou cinco anos cultivando, agradando e incentivando.


Questionar essa estrutura básica – de ideologia colaborativa, das deixas complexas que meninos e homens usam para influenciar e policiar a si mesmos e aos outros – é romper as regras do Clube dos Meninos. É impossível fazer a pergunta sem deparar-se com a fragilidade masculina, com a defesa #NemTodosSãoAssim: “Como você ousa sugerir que estou seguindo o líder?”

Com uma celebridade como Kjellberg, também invoca-se a ideia de que, se ser “fã” é parte da sua identidade, questioná-lo significa ser indiciado em pelo menos dois níveis: tanto como um pensador heroico e independente quanto como um homem de gostos refinados o suficiente para gostar daquilo que você gosta. Explorar sua cultura, sejam video games ou YouTubers ou supremacia branca, é um ataque contra você, de um ponto tão cego quanto as suas costas. Porque, como toda questão de privilégio, seu efeito é existencial e praticamente Lovecraftiano: você acha que o mundo é assim, mas na verdade é assado, e seu cérebro não é capaz de processar essa informação.

Isso se torna um status quo autoprotetor que leva à loucura; todos os membros da turba garantindo que isso tudo é normal e OK: na verdade, são os outros que não entendem. Todo “edgelord” e fascista que está florescendo se considera um Neo, abrindo os olhos para a verdade secreta.

A fantasia do Escolhido é a mais difícil de
desmontar, porque ela empanturra o ego – e porque não há nenhuma “prova”,
argumento ou vergonha que seja eficaz contra ela; ela come tudo. É o que alguns
dos homens desses círculos de privilégio descrevem como “A Abertura Xanatos” – ou seja, de qualquer jeito eu sairei vencedor. Você já vê uma versão disso na
resposta de PewDiePie às críticas: “Acho que ser a polícia do politicamente correto vai nos foder”, disse ele em um vídeo. “E neste ano, 2017, decidi que vou reagir. Vou ser fiel a mim mesmo.”

Some a isso o fato de que os homens da nossa cultura são treinados para se enxergar como o único ator racional e objetivo e você tem uma forma de radicalização particularmente americana que ainda nem sequer tem nome, de tão nova que é. Em outros países, se um jovem se considera tão importante e certo, e também tão invisível, a ponto de ignorar as leis ou machucar os outros para que eles o entendam, temos uma palavra: terrorismo. Só não enxergamos isso em nós mesmos.

Em algum ponto dos últimos 10 ou 20 posts da sua timeline do Facebook – não vai precisar descer muito --, você provavelmente vai ver um post de um cara de quem gosta muito fazendo uma piada fácil com A Lista de Schindler ou se referindo a um estupro em um video game, ou secretamente/não-tão-secretamente pensando que Hillary é uma vaca e fim de papo.

Eles são monstros? Não. Mas você usa os “monstros” para não reconhecer este fato a respeito deles, para não ter de falar do assunto com eles, para não ter de abrir a caixa e ver o que tem lá dentro. Você prefere esperar e espera que, no fim das contas, ele seja um pouco diferente. Violência, ódio e atividades organizadas são coisas dos outros, não de quem você conhece e ama.

PewDiePie é sintoma de uma doença da maioria, mas como ele ficou acidentalmente rico, parecemos contentes em jogar a culpa nas costas dele. A derrocada dele parece anticapitalista, não-conformista, nos faz sentir melhor que tudo aquilo. Mas a verdade é que esse negócio cresce num terreno que é a realidade dos EUA e do nosso mundo, e vamos continuar incentivando esse comportamento, e esses pensamentos, até que eles deem frutos.

A razão para isso é terrível e bastante simples: a autoimportância e autoindulgência é tão repugnante que é quase impossível enxergar além delas. Mas não vamos nos curar, e eles não serão curados, se não tentarmos. A dor deles é patética, mas observem como ela está se espalhando.



Jacob Clifton é ex-redator do Television Without Pity e do Gawker e atualmente é subeditor do Screener.

Este post foi traduzido do inglês.


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