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Como o governo Temer foi sitiado pela Lava Jato

Pedidos de prisão de cúpula do PMDB são duro golpe no Palácio do Planalto

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Os pedidos de prisão feitos pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra a cúpula do PMDB encurralaram o presidente interino Michel Temer. Caciques de seu partido, que são fundamentais para viabilizar seu governo politicamente, são suspeitos de tentar atrapalhar a Lava Jato.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu as prisões do presidente do Senado, Renan Calheiros, do senador Romero Jucá, do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, e do ex-presidente da República José Sarney. Ainda não são conhecidos detalhes que embasam os pedidos de prisão.

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A informação dos pedidos de prisão de Renan, Jucá e Sarney foi revelada pelo jornal "O Globo". Leia aqui.

O homem-bomba do PMDB é o ex-presidente da Transpetro Sergio Machado. Ele fez acordo de delação premiada, gravou secretamente os caciques da legenda e denunciou a entrega de R$ 70 milhões a Renan, Jucá e Sarney. Além disso, recolheu evidências de obstrução da Justiça que motivaram os pedidos de prisão.

Agência Petrobras / Via Fotos Públicas

O ex-presidente da Transpetro, Sergio Machado, foi indicado pelo PMDB para a presidência da Transpetro, subsidiária de transporte da Petrobras, virou delator da Lava Jato e traiu antigos chefes políticos.

Os pedidos das prisões estão com o ministro Teori Zavascki, relator das ações da Lava Jato no STF (Supremo Tribunal Federal), mas a questão deve ser resolvida pelo plenário, isto é, por todos os 11 ministros da corte. Ainda não há prazo para isso acontecer.

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A possibilidade de prisão da cúpula do PMDB ainda é encarada com ceticismo por operadores políticos de Brasília. A interpretação corrente é que se autorizar as prisões, o STF vai fragilizar o Congresso e o governo Temer a níveis inéditos. Mesmo se não for acolhido, o pedido de Janot faz o PMDB sangrar.

Se deixar comando do Senado, Renan Calheiros será substituído interinamente pelo petista Jorge Viana (AC). O presidente da comissão de impeachment do Senado, Raimundo Lira (PMDB-PB), afirma que o agravamento da crise não deverá interferir no processo de Dilma Rousseff.

“É uma situação que não vai interferir no processo porque a questão (das denúncias) já vinha sendo abordada pela imprensa", disse ao BuzzFeed Brasil.

Renan Calheiros é o presidente do Senado. Peemedebista influente, ele tem o controle da pauta de votações do Senado. Ele já é investigado em ao menos 12 inquéritos no STF (Supremo Tribunal Federal).

Ueslei Marcelino / Reuters

Presidente do Senado, Renan Calheiros, foi o último dos caciques do PMDB a embarcar no governo Temer: fiador da governabilidade de Dilma, ele é peça fundamental na tramitação do processo de impeachment.

Em nota divulgada há pouco, Renan se disse "sereno e seguro" e criticou o pedido de prisão como "desproporcional e abusivo".

Camisa 10 da articulação do impeachment no Senado, Romero Jucá durou apenas 11 dias como ministro do Planejamento. Ele foi abatido por uma gravação de um ex-aliado, agora delator, em que dizia que era preciso "estancar a sangria" da Lava Jato.

Em nota, o senador criticou o "vazamento seletivo" do pedido de prisão sem que tivesse a chance de se defender.

Contra José Sarney, que tem 86 anos, o pedido de Janot foi de prisão domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica. Com base política no Maranhão e no Amapá, o ex-presidente da República exerce forte influência sobre a base de Temer no Senado e na Câmara. Ele é pai do ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho.

O advogado de Sarney e Jucá, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, disse à agência Bloomberg que o pedido de prisão dos dois é "sem sentido". Leia mais aqui.

O pedido de prisão contra Eduardo Cunha foi o único não baseado na delação de Sérgio Machado. Afastado da presidência da Câmara pelo STF, Cunha ainda interferia na Casa, segundo Janot.

O peemedebista, que fez o impeachment tramitar a toque de caixa, ainda tem influência no "centrão", o bloco conservador que é fundamental para Michel Temer aprovar as medidas econômicas e reformas. O pedido de prisão foi conhecido no dia em que o Conselho de Ética da Câmara vota relatório que pede sua cassação.

A sessão do Conselho de Ética foi interrompida na tarde desta terça e deve ser retomada amanhã.

Principal ministro político do governo, Eliseu Padilha esteve com Temer nesta manhã e evitou, em entrevista coletiva, comentar os pedidos de prisão dos homens-fortes do seu partido. "Só quem pode responder é o doutor Janot. Ele sabe porque fez, o que fez, o que escreveu e o que pediu. Eu não sei de nada", esquivou-se o ministro-chefe da Casa Civil.

Os pedidos de prisão são um novo capítulo da crise. Em menos de um mês, Temer já coleciona os seguintes desgastes:

Escolha de um ministério formado apenas por homens.

Extinção e recriação do Ministério da Cultura.

Queda de dois ministros por causa da operação Lava Jato: Romero Jucá (Planejamento) e Fabiano Silveira (Transparência).

Denúncia de que o ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, recebeu propinas de empresas contratadas pela Petrobras.

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