back to top

O que leva as pessoas a arrancarem os próprios olhos

No mês passado, a americana Kaylee Muthart, 20, ganhou as manchetes após arrancar os próprios olhos enquanto estava sob efeito da metanfetamina. Embora seja chocante, não é a primeira vez que isso acontece. Conversamos com um especialista para saber o que leva uma pessoa à automutilação ocular.

publicado

Kaylee Muthart, jovem de 20 anos da Carolina do Sul (EUA), virou manchete em fevereiro após arrancar seus olhos enquanto estava sob efeito de metanfetamina. Recentemente ela contou sua história pela primeira vez à revista "Cosmopolitan".

Kaylee Muthart / Via facebook.com

Em seu depoimento, Muthart descreve sua transformação de uma aluna nota 10 no ensino médio em Anderson, Carolina do Sul (EUA), para alguém que largou a escola e consumia álcool e maconha regularmente.

Após perder seu trabalho e seu namorado, Muthart (que disse ter sido posteriormente diagnosticada com transtorno bipolar) começou a usar ecstasy e fumar metanfetamina. Muthart se descreveu como "católica praticante" e disse que lia a Bíblia quando estava drogada.

"Estava convencida de que a metanfetamina me deixaria mais perto de Deus", disse ela à "Cosmopolitan". Apesar de várias tentativas de largar as drogas, a dependência química levou Muthart a cheirar e a injetar metanfetamina.

Preocupada com a saúde mental e o uso de drogas da filha, a mãe de Muthart tentou convencê-la a fazer reabilitação ou ir a uma clínica de tratamento psiquiátrico. A mãe gravou uma conversa na qual a filha disse que "não queria estar neste mundo", algo que esperava utilizar para conseguir uma ordem judicial para internar Muthart compulsoriamente. No dia seguinte, Muthart comprou mais drogas e, naquela noite, usou-as como nunca.

Após injetar uma alta dose de metanfetamina, Muthart começou a ter alucinações e passou a acreditar que tinha que sacrificar seus próprios olhos para salvar o mundo. Então, ela fez isso.

Muthart estava alterada e caminhando por uma ferrovia, indo em direção à sua igreja, quando se convenceu de que Deus estava lhe pedindo para fazer esse sacrifício. Anestesiada pelo efeito das drogas, ela arrancou seus próprios olhos. Foram necessários vários homens para controlá-la antes dos paramédicos chegarem e a sedarem.

Depois que Muthart foi levada a um hospital e seus ferimentos foram tratados, ela foi transferida para uma clínica psiquiátrica. Foi lá que finalmente foi diagnosticada com transtorno bipolar e, então, lhe prescreveram medicação antipsicótica.

Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Também conhecida como "autoenucleação", a automutilação ocular é uma forma rara de lesão geralmente associada à psicose.

Georg Bartisch / Wellcome Library, London / Via wellcomeimages.org

Ainda que pareça uma história digna de filme de terror, a autoenucleação é uma recorrência psiquiátrica infeliz e real. Nos últimos 50 anos, mais de 50 casos de autoenucleação completa ou parcial foram relatados em periódicos médicos ingleses, de acordo com um estudo de 2012 publicado na "British Journal of Ophthalmology" [Revista Britânica de Oftalmologia, em tradução livre].

O que levaria alguém a cometer ato tão violento contra si mesmo? A resposta está na psicose e na perda de contato com a realidade.

"Todos esses pacientes tiveram um episódio psicótico e desenvolveram delírios sobre seus olhos", disse Matthew Large, coautor do estudo e professor-associado de psiquiatria na Universidade de New South Wales em Sidney (Austrália), ao BuzzFeed News.

Em dezembro do ano passado, um presidiário de Colorado (EUA) deixou suas unhas crescerem e arrancou seus olhos após guardas ignorarem seus episódios psicóticos, de acordo com o jornal "The Guardian".

Os sintomas da psicose incluem alucinações, ouvir coisas que não existem, delírios, crenças falsas e deficiência cognitiva ou incapacidade de pensar logicamente. "As pessoas que arrancam seus próprios olhos devido à psicose geralmente acreditam que podem ver o mal ou que estão causando o mal", disse Large. De modo semelhante a Muthart, muitos pacientes acreditam que seus olhos representam uma ameaça para os seus entes queridos.

Publicidade

No passado, estudiosos achavam que a autoenucleação era uma forma de automutilação proveniente da culpa sexual ou da religião cristã. O ato é descrito em uma famosa passagem do Evangelho segundo Mateus: "Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti." Mas, sem dúvida, o relato mais famoso de autoenucleação é o da tragédia épica de Sófocles "Édipo Rei". Nela, o protagonista, Édipo, arranca os próprios olhos depois de perceber que dormiu com sua mãe e matou seu pai.

A crença de que as pessoas ferem os olhos devido à culpa psicossexual foi prolongada pelo "complexo de Édipo" de Sigmund Freud, apresentado pela primeira vez no início dos anos 1900, disse Large, e tornou-se um mito central que envolve a autoenucleação. "Agora sabemos que o fenômeno está muito pouco relacionada à religião ou à culpa sexual e que não há um entendimento psicológico profundo; é devido à psicose", disse Large.

A psicose pode resultar de um transtorno psiquiátrico não tratado, como esquizofrenia ou uso de drogas. Cerca de 40% dos usuários de metanfetamina têm sintomas psicóticos enquanto estão sob o efeito da substância.

Visuals Unlimited, Inc. / Getty Images / Via gettyimages.com

As doenças psiquiátricas comuns que causam psicose são esquizofrenia não tratada, depressão psicótica, mania psicótica e transtorno bipolar, disse Large. "Muitos desses pacientes têm esquizofrenia que nunca foi tratada, o que significa que podem ter ignorado esse fato até terem seu primeiro episódio de psicose e arrancarem seus olhos", disse Large.

A psicose também é causada por certos medicamentos e drogas, disse Large, e a metanfetamina é uma culpada comum. "Acredita-se que uma das causas da psicose é o excesso de dopamina, e a metanfetamina causa uma liberação maciça de dopamina no cérebro", disse Large. Embora esse excesso de dopamina (imagem acima) possa causar um estado temporário de euforia, também pode prejudicar a tomada de decisões e causar delírios.

Em alguns desses pacientes, o uso recorrente de metanfetamina realmente induz a um transtorno psicótico, então os sintomas psicóticos podem ocorrer após a intoxicação ou a abstinência da droga. Dos que passaram pela psicose de metanfetamina, disse Large, cerca de metade desenvolverá a esquizofrenia com o tempo.

No caso de Muthart, seu transtorno bipolar não tratado a deixou mais propensa ao uso de drogas, como cristais de metanfetamina, assim como mais propensa a ter sintomas psicóticos após seu consumo.

A única forma de prevenir esse tipo de automutilação é por meio da compreensão da psicose e do tratamento de sua causa subjacente o mais rápido possível.

Jenny Chang / Via buzzfeed.com

"As pessoas têm uma reação muito forte à [autoenucleação], e isso, na verdade, não ajuda os pacientes. São pessoas muito doentes que precisam de bastante cuidado, tratamento e reabilitação", disse Large. É importante tratar a doença psiquiátrica subjacente ou a dependência de drogas antes que os delírios sobre os olhos se tornem fortes o suficiente para levar alguém a se automutilar.

Sem falar que tentar provocar a própria cegueira pode ser fatal. "Alguns desses pacientes morrem porque acabam rompendo uma artéria e causando uma hemorragia no cérebro", disse Large.

Muthart, agora cega, voltou para casa e está se adaptando à sua nova vida.

Ao completar seu tratamento psiquiátrico ambulatorial, 90 dias de Narcóticos Anônimos e fisioterapia, Muthart espera voltar para a escola e concretizar seu sonho de se tornar uma bióloga marinha. Embora esteja sendo difícil após perder sua visão, ela se mantém otimista.

"Precisei perder minha visão para voltar ao caminho certo, mas, do fundo do coração, estou feliz por estar aqui", disse Muthart.

Você já tem o app do BuzzFeed Brasil no seu celular? Baixe gratuitamente no Android e no iOS para ver todos os nossos testes, vídeos, notícias e muito buzz.

Este post foi traduzido do inglês.