"Parasita" estende os limites da obsessão com a crueldade

    Se a temporada de golpes não tinha acabado ainda, o filme de Bong Joon-ho dá o pontapé fatal escadas abaixo. (Spoilers leves à frente.)

    Madmen Films

    Desde sua estreia vencedora na Palma de Ouro em Cannes, em maio, o filme "Parasita", de Bong Joon-ho, arrasou no circuito do festival internacional. O filme, que chegou aos cinemas americanos hoje, foi aclamado como um retrato do conflito de classes que vende sátira e violência exageradas. É a história de duas famílias vivendo na Coreia do Sul dos dias atuais, semelhantes em seus desejos. Ambas querem conforto e segurança materiais, e as duas sabem das dificuldades de sobreviverem no século 21 sem uma certa quantia de dinheiro. As duas famílias são separadas por classe, educação e uma colina considerável. Uma é super rica e a outra super pobre. No final do filme, elas acabam destruindo uma a outra.

    Mas, antes que o sangue comece a jorrar, "Parasita" começa com todo o humor e familiaridade de um assalto estilo Danny Ocean. Ele apresenta, como muitos filmes divertidos fazem, um bando de coitados prestes a dar seu primeiro e maior golpe. Os Kims moram em um apartamento no subsolo infestado por percevejos, onde o quarteto ganha um salário insignificante dobrando caixas de pizza. Embora a família seja próxima, suas vidas são constrangidas por certas indignidades subterrâneas. Eles precisam agachar-se em um canto do banheiro para pegar o sinal do Wi-Fi. Há uma vizinhança de bêbados, cujo local favorito para urinar é na janela dos Kims, que fica no nível da rua. Ki-woo (Choi Woo-Shik), o filho empreendedor, está irritado com a sua realidade, mas seus pais (Song Kang-ho and Jang Hye-jin) estão mais conformados. Eles têm percorrido uma série de carreiras fracassadas, e em cada tropeço, seu abandono por parte do governo coreano tem sido cada vez mais completo.

    É agradável ver outros se aproveitarem das pessoas ricas. É agradável assistir alguém contar uma mentira muito boa.

    Ainda assim, um filme que começa em um porão tem apenas uma direção a seguir: subir. Quando Ki-woo entra em um trabalho como professor de inglês para uma família rica, os Kims começam sua lenta ascensão para fora da pobreza. O patroa de Ki-woo, Sra. Park (Jo Yeo-jeong), é um tipo familiar da burguesia, a primeira dona de casa que imagina forças invisíveis e malévolas assediando seus privilégios, e que se emociona secretamente com qualquer notícia de sua crescente intromissão. Ki-woo a convence de que o filho mais novo de Park poderia se beneficiar da atenção de uma renomada "terapeuta de arte" chamada Jessica (Park So-dam), supostamente uma preferida entre a elite empurradora de carrinhos de bebê na Coreia.

    "Jessica" é na verdade irmã de Ki-woo, munida de um diploma photoshopado de escola de artes (ela consegue o emprego depois de dizer a Sra. Park que o filho dela tem tendências esquizofrênicas). Ela e Ki-woo são logo instalados como frequentadores na casa da colina dos Park, onde eles colhem frutas frescas e cultivam uma confiança profunda em seus empregados. Se aos irmãos faltam qualificações reais, eles prosperam na meritocracia solta do golpe, que recompensa o carisma e a esperteza naturais. Dentro de algumas semanas, Ki-woo e sua irmã, cujo nome verdadeiro é Ki-jung, derrubam o motorista e a empregada dos de Park, e trazem seus pais como substitutos. Os Parks agora têm uma segunda família vivendo sob seu patrocínio. Em vez das coisas amadoras dos museus de arte ou cassinos, nossos protagonistas se entrelaçam através de toda uma estrutura socioeconômica.

    Para um filme de prestígio sobre a divisão de classes na Coreia, a primeira hora de "Parasita" parece estranhamente como um prazer secreto. É agradável ver outros se aproveitarem das pessoas ricas. É agradável assistir alguém contar uma mentira muito boa. É agradável, senão ingênuo, imaginar que uma sombra de meritocracia exista junto com o nosso extinto sistema tradicional e que o marginalizado pode ainda impulsionar o talento para sair da dificuldade. Ainda assim, "Parasita" é um filme de trapaça consciente, e sabe que a desigualdade não pode ser resolvida através de uma série de esquemas; o sistema se autocorrige muito rapidamente para isso. Vemos os Kims tirarem proveito dos jardins espaçosos e das banheiras dos Parks por 10 minutos antes da ex-empregada da mansão — lembra dela? — retornar com uma agenda própria. O filme, junto com nosso prazer imerecido, começam a desenrolar-se à medida que os Kims lutam para manter os pequenos ganhos que conseguiram.

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    Bong descreveu seu roteiro como algo que estava "crescendo dentro" dele e que ele tinha que "arrancar" de sua mente. Sua analogia encapsula os mitos que o capitalismo tardio desenvolve dentro de todos nós — mitos que subsistem tão obstinadamente que podem apenas ser extraídos através de alguns ataques criteriosos de derramamento de sangue. Os Kims saíram de seu porão por causa de sua ingenuidade, mas às custas de outras pessoas da classe trabalhadora. "Parasita" força a família Kim e o público a considerarem essa dominação, externalizando-a em socos, brigas coreografadas, e em cenas em que uma pessoa deve sentar realmente nas costas da outra. No entanto, para a maioria do filme, os ricos Parks precisam da subordinação daqueles abaixo deles sem infligir um ferimento sequer.

    Isso não é porque eles sejam mais refinados em virtude ou por classe; em vez disso, como "Parasita" enfatiza, a violência do capitalismo tardio é mais visível naqueles lutando na pior, enquanto camuflam-se em motivos e alusões para o benefício daqueles que estão no topo. A Sra. Park é tão alheia aos planos dos Kims quanto é a sua própria dependência parasitária do trabalho e conforto emocional deles. Por décadas, temos vendido a nós mesmos o mesmo roteiro, sobre pessoas espertas saindo da pobreza, quase sempre através de patrocinadores fantasticamente benevolentes. Bong executa essa convenção como uma fita amada antes de arruiná-la com o terrível ruído branco.

    Não podemos contabilizar o excesso material e a acumulação perversa que estruturam esses golpes, mas podemos falar sobre os trajes que Anna Delvey usou no tribunal.

    A cobertura da mídia de hoje das fraudes da vida real, forjada por herdeiras ingênuas e organizadores de festivais de música falidos, tem perpetuado uma fixação Hollywoodiana na pessoa: quem são essas pessoas? Como elas conseguiram entrar? Golpistas transformam o artista do golpe no estudo de personalidade mais fascinante da sociedade, a caixa-preta psicológica da audácia e do engano. Torna-se um modo objeto de análise impressionante — o arbitrário capitalismo tardio, a autoperpetuação da divisão de classes — em uma história de interesse humano. Não podemos contabilizar o excesso material e a acumulação perversa que estruturam esses golpes, mas podemos falar sobre os trajes que Anna Delvey usou no tribunal. Frequentemente, isso parece tudo o que podemos fazer. Essas fraudes nos permitem esboçar obsessivamente seus contornos mesmo que ignoremos quanto o espaço negativo ao redor deles é o mesmo espaço negativo ao nosso redor: capitalismo, com toda sua previsibilidade opressiva.

    Se a temporada de golpes não tinha acabado ainda, "Parasita" dá o pontapé fatal escadas abaixo. O filme, por fim, se mostra mais interessado em expor a mistura mecânica de um sistema de classe do que a psicologia daqueles tentando jogá-lo. Vale a pena notar que os Kims e os Parks parecem, às vezes, intercambiáveis. Cada uma é um núcleo familiar perfeito (mãe, pai, irmão, irmã), são igualmente bonitos e carinhosos, igualmente confiantes e bem vestidos (a troca de roupas estilosas de "Jessica" é o elemento menos realista do filme). Os protagonistas de "Parasita" foram destituídos da sensibilidade moral, de qualquer marcador distintivo que não esteja relacionado com a luta constante para sobreviver. As personalidades dos membros da família são principalmente determinadas por classe, não por emoções ou histórias de fundo particulares. Como diz um personagem, os Parks não são legais apesar de serem ricos — eles são legais porque são ricos.

    Reduzir os personagens às suas posições socioeconômicas permite ao filme encenar uma crítica sobre a desigualdade sem ter que conectá-la a um herói empático ou virtuoso. Em uma série memorável de intercâmbios, Bong contrasta a mansão minimalista dos Parks com um ginásio público na vizinhança dos Kims, onde residentes procuraram abrigo de uma enchente recente. Vemos um armário cheio de seda, e depois uma multidão de pessoas remexendo pilhas de roupa no chão. É um dos visuais mais repugnantes do filme, poderoso pela forma como deixa os objetos falarem por si mesmos, sem uma história intermediária (e falsa) sobre pessoas "merecedoras" ou "não merecedoras".


    Durante o filme, Ki-wo exclama frequentemente certos momentos do seu arco dramático por ser "tão metafórico"! "Parasita", entretanto, está tentando ser o mais literal possível. Bong coloca sua família de classe superior em uma colina e relega os inferiores aos porões. A violência socioeconômica é igual à violência física. Em várias cenas, os personagens usam um interruptor de luz para fazer código Morse por meio de uma lâmpada de teto na mansão dos Parks. Os abastados proprietários acham essa luz piscante assustadora simplesmente: estanha, uma estética sinistra que poderia sugerir fantasmas ou um problema doméstico latente. Para os Kims, a luz é um pedido de socorro literal, irradiado por um vazio não receptivo. Quando se trata de classe, "Parasita" sugere que quanto mais complexa a metáfora, mais dor é capturada da cena.

    Escrevendo no Los Angeles Review of Books, o crítico Seo Hee Im descreve "Parasita" como "socos" pois empurra a luta mortífera entre seus personagens de classe inferior, enquanto raramente implica os ricos Parks. No entanto, a violência não parece marcante por sua direção — "socos" sendo o modelo de operação básico do capitalismo — mas seus excessos.

    "Parasita" acaba em tragédia, depois de vários artigos domésticos terem sido empunhados como espetos e várias pessoas terem morrido na frente de seus entes queridos. Em sua crueldade, "Parasita" relembra os extremos de "The Square: A Arte da Discórdia", outro vencedor da Palma de Ouro, que dilacerou a burguesia e o inútil mundo da arte sem muita dó de seus personagens. "The Square: A Arte da Discórdia", embora não tenha sido sangrento, esticou os confrontos até o limite mais antissocial, deixando o público em desconforto, insinuando que eles eram fracos — tão burgueses quanto os sujeitos do filme — se tentassem desviar o olhar. Esse é o cinema da crueldade, e às vezes o corolário que imagina entre a brutalidade e a profundidade se estende à suas críticas muito verdadeiras das hipocrisias da sociedade. Às vezes, no entanto, Parasita parece o trabalho de um menino autor, queimando uma formiga com sua lupa. Em outras vezes, este tipo de filme é tão dilacerante, tão insensível em como omite a redenção ou a ternura, que o mal que ilustra parece não oferecer saída. No fundo do mar profundo da crítica está o niilismo. Nas palavras oportunas do pai de Ki-woo, falando em Parasita, "nada importa". ●


    Este post foi traduzido do inglês.

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