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Posted on 28 de jun de 2018

A Copa da Rússia vem sendo vitrine do machismo no futebol, mas isso pode ter um lado bom

A repercussão dos casos de torcedores assediando jornalistas e outras mulheres mostra que a sociedade finalmente está deixando de ver alguns comportamentos como "brincadeiras de moleque" para classificá-los como realmente são: assédio.

Os casos vieram tal qual uma onda de chorume.

No dia 15, a repórter Julieth Gonzalez Theran fazia uma transmissão ao vivo de Moscou para a Deutsche Welle da Espanha quanto um torcedor agarrou um de seus seios e lhe deu um beijo no rosto, sumindo logo depois na multidão.

Reprodução/DW e Instagram / Via instagram.com

Torcedor assedia repórter Julieth Conzalez Theran

Depois, na manhã do domingo, dia 17, viralizou no WhatsApp e Twitter um vídeo em que torcedores brasileiros assediavam uma repórter russa. Aproveitando a barreira idiomática, eles cercaram a mulher gritando expressões sexistas e racistas, incentivando-a a repetir suas palavras.

No mesmo espírito, colombianos fizeram duas torcedoras japonesas repetirem para as câmeras de seus celulares a frase: "Eu sou uma cadela, uma puta". As imagens teriam sido gravadas após a derrota da Colômbia pelo Japão no dia 19 de junho.

Reprodução/Youtube / Via youtube.com

Colombianos assediam torcedoras japonesas

Néstor Fernando Penovi, argentino de 47 anos, também viralizou no dia 19 ao fazer uma menina russa de 15 anos repetir as seguintes palavras: “Olá, argentinos. Venham para cá. Quero chupar pintos”. Ele foi o único a ter sido punido por seu comportamento já na Rússia, ao ser proibido de entrar em outros jogos do Mundial.

Mas não só o machismo uniu esses homens. Eles também protestaram indignados por estarem no centro, segundo eles próprios, de uma grande injustiça. Como podiam estar sendo condenados individualmente por um comportamento que é, antes de tudo, generalizado?

O brasileiro Luciano Gil, que é um dos que assediam a repórter russa, é dono de uma empresa de engenharia civil no Piauí e fez questão de deixar claro à imprensa que é “pai de família”, um “trabalhador” cuja vida está sendo destruída pela repercussão do caso.

“Quem está brincando carnaval exagera um pouquinho na bebida e às vezes passa do ponto. Peço desculpas às mulheres que possam ter se sentido ofendidas, mas estão transformando um copo d’água em uma tempestade”, disse à agência UOL. "Nada ali foi forçado. Tinha mais de 40 meninas ali e os próprios russos que tinham namoradas colocavam elas na brincadeira de livre e espontânea vontade", disse, mostrando seu entendimento de que a autorização para usufruto das mulheres dependia não delas, mas de seus parceiros. Além dele, outros dois brasileiros do vídeo foram identificados: Diego Valença Jatobá, advogado, e Eduardo Nunes, tenente da Policia Militar.

Reprodução / Via youtube.com

Torcedores brasileiros assediam repórter russa

Já Penovi, o argentino, também se defendeu dizendo que tinha uma filha e que outras pessoas também estavam fazendo vídeos parecidos, tendo ele o azar de o seu ter viralizado. “Não tenho nada contra as mulheres, foi uma brincadeira de mau gosto”, disse o homem ao Ciudad Magazine, acrescentando que se considera uma “pessoa de bem”. “Fizemos um monte desses vídeos. Com brasileiros, de futebol.”

Reprodução / Via youtube.com

Néstor Fernando Penovi assedia jovem russa

Em meio a tantos erros, estes homens acertaram um ponto: eventos de futebol, como a Copa, ainda são lugares em que o assédio contra mulheres é naturalizado.

Uma realidade bem conhecida por pesquisadores da área. Segundo Jorge Dorfman Knijnik, professor da Western Sydney University (Austrália) e autor do livro “World Cup Chronicles: 31 Days that Rocked Brazil”, a Copa do Mundo masculina – assim como as instituições por trás dela, como a Fifa e a CBF – ainda é uma demonstração da chamada “masculinidade hegemônica”, ou seja, uma masculinidade heterossexual, com poder politico, que subestima e subjuga, inclusive usando violência simbólica e física, tanto outras masculinidades (como homens gays), como mulheres e outros gêneros não-conformantes.

"Até porque, quando as pessoas falam de Copa de Mundo, estamos falando do quê, na verdade? De uma Copa do Mundo de futebol masculino", exemplifica o antropólogo Wagner Xavier Camargo, pós-doutor e membro do LUDENS-USP e do LELuS-UFSCar (Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade). "Se parte do pressuposto de que o futebol é masculino. O futebol hoje ainda se assenta no machismo, no masculino como corpo instituído."

É nesta linha que podemos entender o vídeo que passou a circular nas redes sociais no dia 28 de junho, em que torcedores brasileiros em Moscou se revoltaram quando na festa da torcida começou a tocar uma música da Pablo Vittar.

🇧🇷 COPA DO MUNDO. Nem tudo foi muito legal aqui com a torcida brasileira. Em Moscou, fui a um “esquenta” dos brasileiros pro jogo do Brasil. Tudo “topzeiro”. De repente, a DJ coloca Pabllo Vittar. “Isso é proibido aqui na Rússia”, gritou um, seguido de vaias para Pabllo. https://t.co/r5jGdUIuJ2

Apesar disso, e é aí que entra a boa notícia, a Copa da Rússia parece estar servindo para dar nome aos bois: o assédio contra mulheres no futebol não será mais considerado "brincadeirinha" – uma "piada" inocente de homens que querem "fazer graça" para as câmeras – mas como efetivamente é: assédio.

Um mérito que está longe de vir das autoridades envolvidas nestes eventos esportivos.

O próprio ministro do Turismo brasileiro, Vinicius Lummertz, minimizou o caso do assédio cometido por torcedores brasileiros, reproduzindo o velho discurso que a violência só existe quando alguém se fere fisicamente. "Não morreu ninguém, ninguém foi assassinado. Perante o mundo real, eu entendo o simbolismo, mas o simbolismo não representa nada estatisticamente”, disse, segundo o UOL.

Estive no @planalto para uma reunião com o presidente @MichelTemer. Na pauta, temas ligados ao turismo nacional e de Santa Catarina. https://t.co/rajTd4Nlsy

Michel Temer cumprimenta Vinicius Lummertz, ministro do Turismo

“[O que o ministro disse] é uma vergonha e um reflexo do tipo de política pública que temos para esse tipo de atitude – que é de total descaso”, diz Lívia Gonçalves Magalhães, professora da Universidade Federal Fluminense, autora do livro “Com a Taça nas Mãos: Sociedade, Copa do Mundo e Ditadura no Brasil e na Argentina” e organizadora da coletânea “Lugar de Mulher: Feminismo e Política no Brasil”. “E ele fala isso enquanto a gente vive em um país em que a cada duas horas uma mulher é morta por ser mulher, por feminicídio."

A professora explica como o "simbolismo" pode, sim, ter impacto estatístico: “As pessoas acham, como o próprio ministro, que é exagero, tempestade em copo d’água. Mas a gente tem que pensar que tudo isso faz parte da cultura do estupro. A ideia que você pode usar a mulher como um objeto para se divertir mostra como você desmerece a mulher. E mostra como você desmerece qualquer mulher no mundo, porque você vai a outro país [a Rússia], que sabe que tem leis muito restritas a diversas coisas, e mesmo assim você não tem qualquer tipo de medo de destratar uma cidadã russa, pois ela é mulher. E, para combater o feminicídio, você precisa também combater essas outras coisas, é isso que muita gente não entende."

O antropólogo Wagner Camargo concorda. “Falar que é só brincadeira [os casos de assédio] é esvaziar o significado desses episódios. As pessoas têm que aprender que essas brincadeiras preconceituosas possuem um fundo de validação por parte de quem emite a opinião. Eles [os assediadores] estão usando do lugar deles de homens, brancos, heterossexuais, os machos-alfa da sociedade, para fazer valer suas posições machistas, sexistas, racistas e de exotização de uma outra cultura. O outro, o exótico, é consumido como objeto para satisfazer seus prazeres.”

Tampouco a Fifa é quem está por trás do atual movimento de desnaturalização do assédio no futebol, segundo os pesquisadores, sendo uma instituição ainda conservadora e autoritária.

“A Fifa, ao escolher países-sede [Rússia e Qatar] em que mulheres e a comunidade LGBTQ têm suas liberdades limitadas, já mostra que não tem uma pauta de gênero. A Fifa faz o discurso de que não é política, mas ela boicotou a África do Sul durante o apartheid. Ou seja, não é que eles não são políticos, é que nem tudo eles consideram [importante] o suficiente para politizar”, diz a professora Lívia Magalhães, da UFF.

“As grandes redes de TV, a Fifa e a CBF têm um posicionamento ambíguo. Às vezes eles defendem algumas causas porque não querem perder apoiadores e espectadores, mas não penso que haja um política de gênero por parte desses organismos", diz Wagner Camargo. "A Fifa dança conforme a música. Na África do Sul abordou o racismo, mas nessa Copa da Rússia nem fala mais nisso. O posicionamento é situacional e momentâneo.”

A mudança observada nessa Copa, acredita Magalhães, longe de vir das autoridades futebolísticas ou nacionais, vem sendo impulsionada pelo que muitas pesquisadoras cogitam ser uma nova onda do feminismo, vinda de e impulsionada pelas redes sociais.

“O espaço virtual não é a única plataforma que existe para o ativismo, mas é importante. E vimos isso recentemente com a campanha das argentinas sobre a questão do aborto. Foram nas redes sociais que essas mulheres conversaram, divulgaram a causa, fizeram contatos. Esses torcedores [que assediaram mulheres na Copa] estão sendo agora escrachados e denunciados porque estamos compartilhando isso nas redes sociais. Se não fosse por isso, apareceria talvez uma ou outra nota no jornal e acabou. O que está dando impulso à discussão sobre esse tipo de assédio são as redes sociais.”

Além disso, cada vez mais mulheres vêm adentrando espaços do futebol que antes eram dominados por homens. "Você tem, cada vez mais, jornalistas esportivas mulheres. Agora temos mulheres narrando jogos, comentando jogos, em mesas redondas. Conforme a mulher tem mais voz nesses espaços – como profissional ou torcedora – e fica cada vez mais claro o que é assédio, esse tipo de comportamento passa a ser mais condenado, inclusive por homens”, diz Lara Stahlberg, mestre e pesquisadora especializada em questões de gênero no futebol masculino que fez pesquisa em estádios no Brasil e na Argentina.

“A batalha ainda é dura. A mulher ainda tem muito espaço para ganhar no futebol, assim como outros grupos, como os LGBTQs. Mas, lentamente, as coisas podem começar a mudar. As crianças de hoje estão tendo a oportunidade de ver esse movimento [contra o assédio e o machismo no futebol] e refletir. Se elas vão problematizar essas questões para uma mudança futura ou se passarão batido, não sabemos. Porém, talvez a gente assista a uma mudança cultural de médio e longo prazo”, conclui Wagner Camargo.

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