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Como a tentativa de me ofender pichando “gorda” no meu muro mudou minha vida – para melhor

Um ato escancarado de gordofobia fez minha autoestima melhorar e me levou a ganhar dinheiro com, quem diria, meu corpo fora dos padrões.

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Há dois anos eu saía de casa para trabalhar em um dia comum quando me deparei com uma pichação no meu muro que dizia, em letras garrafais, “JÉSSICA GORDA”. Tirei uma foto e postei na minha página profissional no Facebook. Desde então, minha vida nunca mais foi a mesma.

Na postagem eu disse: “Aí hoje eu acordei para ir trabalhar e tinha essa pichação no meu muro. Acho que faltou o “linda” na frente, mas, ainda bem que contaram algo que eu sou, né. Se a intenção era me ofender, deu errado, porque me representa. Ficaria chateada se tivessem dito que sou burra, criminosa, ou algo do tipo. Gorda é exatamente o que eu sou <3”

A história virou um post no BuzzFeed e a partir daí repercutiu em muitos outros veículos de mídia, do El País na Espanha ao Yahoo nos EUA. Também apareceu em programas de TV como o “Encontro com Fátima” e sites como o Extra, G1, e a versão brasileira do El País.

Depois disso, tudo mudou. E pra melhor. Ainda que eu tenha demorado a me dar conta disso.

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A exposição do caso popularizou o debate sobre gordofobia.

Nas duas primeiras semanas, eu mal conseguia trabalhar. Meu telefone não parava de tocar, com convites para participar de programas televisivos, debates em universidades, escolas e eventos. Recusei alguns, mas independentemente da minha presença, vários programas de TV passaram a discutir a questão, falando com outras mulheres gordas, com especialistas e ajudando a quebrar o preconceito que existe com quem não se encaixa num padrão – ou não cabe num muro.

Nestas discussões falamos muito sobre a falsa preocupação que as pessoas têm com a saúde das pessoas gordas, para disfarçar a gordofobia. Essa preocupação na verdade é preconceito quando ela só aflora com pessoas gordas.

O peso de uma pessoa não tem relação direta com a sua saúde. É possível – sim, é possível – alguém ser magro e ter problemas e alguém gordo ser perfeitamente saudável. Aceitar o próprio corpo não significa que você faz “apologia” à obesidade, mas que se ama como é: saudável e bonito. Dito isso, a gordofobia é mais perigosa do que o suposto excesso de peso.

Não se deve defender a obesidade como um estilo de vida adequado, mas é necessário apontar que a preocupação com a saúde alheia parece ter a aparência como pré-requisito.

Na verdade, a sociedade não é preparada para pessoas que não estejam padronizadas e não caibam nela, nos bancos dos bares, nas catracas dos ônibus e metrôs, nos cintos dos carros, nas poltronas de aviões, nas roupas – e isso não tem absolutamente nada a ver com estar fisicamente saudável.

A pichação chamou a atenção para o fato de que meu corpo é político.

Antes da pichação eu já fazia posts e debatia a questão, porém, sem tanta repercussão. Com o caso exposto na mídia – e no muro – recebi vários convites para falar sobre isso e fui remunerada na maioria deles. Eu passei a ganhar dinheiro por ser quem eu sou, ter um corpo gordo e não abrir mão dele para agradar a sociedade. Estive em escolas, ONGs, universidades e festivais literários para falar sobre isso. Participei de um documentário sobre preconceito.

Meu corpo é político e poder lutar dignamente com ele foi uma das melhores coisas que já me aconteceu. Ter consciência de que meu corpo é um instrumento na luta para quebrar preconceitos e trazer mais conforto às pessoas gordas, foi, definitivamente, uma das melhores coisas que já me aconteceu.

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Fui demitida – e não poderia ter me acontecido coisa melhor.

A repercussão da pichação e a maneira como o caso foi tratado resultou na minha demissão. Eu trabalhava como editora em um portal de notícias nacional e tinha um chefe bem machista, que já tinha dado várias bolas fora. Ele não tolerava a ideia de uma jornalista virar notícia. Então, pouco tempo depois, eu tinha sido demitida. Confesso que num primeiro momento fiquei meio perdida sem saber o que fazer, que rumo tomar. Aproveitei o dinheiro da rescisão e do seguro-desemprego para terminar o mestrado em comunicação com calma e depois pensar no que faria.

Foi então que pude experimentar tanta coisa bacana que me deliciei com a possibilidade de não estar mais na CLT, com horário e ponto para bater. Eu poderia fazer qualquer coisa que eu quisesse. E fiz. Investi no meu projeto pessoal, que é o Margens e valoriza a literatura feita por mulheres periféricas, e montei uma empresa de assessoria de comunicação onde trabalho basicamente com mulheres e projetos culturais – literários, especialmente – que tenham a ver comigo. Hoje ganho mais, tenho mais tempo e sou muito mais realizada. E ainda recebi dois prêmios, um pela minha pesquisa no mestrado e outro como assessora de imprensa.

Claro que eu tive medo de não ter dinheiro. Hoje, quase dois anos depois, ainda é um desafio. E sim, há o medo financeiro. Mas a liberdade é incrível, bem como o prazer de se trabalhar o tempo todo com aquilo se ama e ainda militar. O que fica disso tudo é: fazer o que se ama é sempre o melhor caminho. O que sempre foi uma causa se tornou uma fonte de renda e isso não aconteceu da noite pro dia. O preço foi alto, mas compensatório.

Desisti de pintar o muro e fiz até um ensaio de fotos nele.

Quando vi a pichação no muro, pensei em chamar alguns amigos para fazerem um graffiti ou em colar alguns lambes, mas... me apeguei à pichação e em como ela mudou a minha vida. Tanto que a fotógrafa Cintia Rizoli fez um ensaio meu no muro. Passamos uma manhã inteira fazendo cliques que resultaram fotos lindas, que uso para divulgação do meu trabalho.

Minha autoestima aumentou depois da pichação.

Eu já era feliz com meu corpo quando a pichação aconteceu, mas ter vários holofotes sobre minha cabeça – e minha barriga – e falar quase diariamente sobre isso, fazer textos, ir a palestras e eventos, dialogar com adolescentes e saber que minha postura pode, de fato, mudar alguma coisa,fez com que eu tornasse meu amor pelo meu corpo uma prática quase diária. Tenho muito orgulho da pessoa que sou e as letras garrafais pichadas no muro só me fazem lembrar disso todos os dias. Sou uma mulher gorda, saudável e feliz com meu corpo.

Nunca agradeci a pessoa que pichou o muro.

Mas deveria. Não o fiz simplesmente porque não sei quem é. Já faz dois anos e até hoje não imagino quem tenha tido a vontade de me agredir – ou elogiar, vai saber? – mas quero aproveitar este post para agradecer. A pichação me fez muito mais feliz. Me fez conhecer pessoas, viajar pra lugares que eu ainda não conhecia, palestrar em ambientes que jamais imaginei, escrever bastante sobre o tema, aumentar minha autoestima e ganhar dinheiro sendo gorda.

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