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Máfia da merenda também atuava na Secretaria de Agricultura do governo de São Paulo, apontam gravações

Pasta é a quarta da gestão Geraldo Alckmin (PSDB) a ser envolvida na Operação Alba Branca, que apura denúncias de desvio de verba da merenda escolar

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Alunos de uma escola ocupada, em 2015, preparam refeição na cantina do local - Rovena Rosa/Agência Brasil

Investigadores da Operação Alba Branca, que apura suspeitas de superfaturamento e pagamento de propina em contratos de merenda escolar, indicam ter indícios de que o esquema envolvia a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do governo paulista. É a quarta pasta da gestão Geraldo Alckmin (PSDB) citada no escândalo.

Em interceptações telefônicas realizadas pela Polícia Civil, com autorização da Justiça, supostos participantes do esquema dizem que funcionários da secretaria ajudaram a liberar o dinheiro do contrato que a Secretaria de Educação possuía com a Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf) — principal associação de agricultura familiar investigada —, no valor de R$ 8,5 milhões. O BuzzFeed Brasil teve acesso à íntegra dos relatórios policiais.

Em telefonema no dia 21 de dezembro do ano passado, o lobista Marcel Júlio, cujo papel se supõe que era de aproximar a Coaf de prefeituras e secretarias interessadas em participar do esquema, diz que o servidor público Cleiton Gentili, que trabalhava na Agricultura e migrou para a Educação em janeiro do ano passado, estaria auxiliando a cooperativa a liberar o dinheiro do contrato, a pedido da pasta em que trabalhou anteriormente.

Segundo relata Marcel a um funcionário da Coaf, César Augusto Bertholino, Gentili teria questionado a superiores por que era o responsável por tratar desta liberação. "Ele foi chamado lá [na Secretaria de Agricultura, por seus superiores] e vai levar fumo de todo lado, pra ficar quieto", afirma Marcel ao interlocutor, conforme o relatório da polícia.

Ainda de acordo com o documento, os investigados teriam comparecido à sede da Secretaria de Agricultura no dia 15 de dezembro, a fim de protocolar documento cujo objetivo era permitir que a cooperativa passasse a receber dinheiro do contrato assinado com o Estado. Neste dia, a polícia registrou uma ligação em que eles combinam de se encontrar no local. "Na praça Ramos dá para estacionar", diz Marcel. A Secretaria de Agricultura fica na praça Ramos de Azevedo, 254, no Centro de São Paulo.

Em nota ao BuzzFeed Brasil, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento disse que "não há qualquer fundamento nas declarações dos representantes da Coaf". O texto diz, ainda, que são "ilações absolutamente irresponsáveis" as suspeitas de que a máfia da merenda tenha agido na pasta. "O secretário Arnaldo Jardim não recebeu as pessoas citadas nas gravações da Polícia Civil na secretaria, tampouco discutiu com elas a inclusão de qualquer item na cesta básica estadual."

A Secretaria de Educação, por sua vez, disse que Cleiton Gentilli é "servidor de carreira concursado e esteve cedido à Agricultura até o início do ano passado, quando foi demitido e retornou à pasta de origem". Por fim, o governo de São Paulo informou que servidores e contratos citados na investigação estão sendo investigados pela Corregedoria-Geral da Administração.

Deputado é pego em grampo

Segundo a polícia, os integrantes do esquema foram à secretaria acompanhados do deputado estadual Fernando Cury (PPS), cuja voz foi gravada em um dos grampos após o parlamentar usar o celular de Marcel para conversar com um vereador, conforme registra o relatório no inquérito policial. Cury é do mesmo partido que o secretário da pasta, o deputado federal licenciado Arnaldo Jardim (PPS), e não havia sido citado nas investigações até agora.

O deputado estadual paulista Fernando Cury (PPS) - Divulgação

Procurado pelo BuzzFeed Brasil, o deputado negou, em nota, que tenha participado de qualquer reunião com integrantes da cooperativa. "Em momento algum o deputado Fernando Cury acompanhou essas duas pessoas nesta ou em qualquer reunião", afirma o texto. Ainda de acordo com a assessoria do deputado, o chefe de gabinete dele esteve na Secretaria de Agricultura e "acompanhou duas pessoas ligadas a agricultura familiar para apresentar um projeto de parceria da entidade com o governo".

Em outra conversa com Bertholino, no dia 10 de dezembro, Marcel sugere que membros da cooperativa se encontrem com o secretário de Agricultura para convencê-lo a incluir suco de laranja — principal produto feito pela Coaf — na cesta básica do Estado. "Dois milhões e meio de cestas por mês, já pensou?", especula Marcel, de acordo com o relatório.

Além da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, até agora integrantes de outras três pastas do governo Alckmin foram mencionados por participantes do esquema.

O ex-chefe de gabinete da Casa Civil Luiz Roberto dos Santos, conhecido como Moita, foi demitido na véspera do dia em que a polícia cumpriu os primeiros mandados de prisão e de busca e apreensão. Segundo as autoridades, as interceptações teriam demonstrado uma combinação de pagamentos de propina.

Único delator do esquema até agora, Cássio Izique Chebabi, ex-presidente da cooperativa, disse em depoimento que o secretário Duarte Nogueira (Logística e Transporte) é beneficiário do esquema, conforme revelou o jornal "O Estado de S. Paulo" — o tucano nega.

Por fim, Chebabi também disse em depoimento que a Secretaria de Educação cancelou uma chamada pública de 2013, em que a Coaf foi vencedora, a fim de forçar integrantes do esquema a pagarem propina, segundo publicou o jornal "Folha de S.Paulo" — no ano seguinte, a cooperativa venceu outra chamada pública. Em nota ao jornal, a pasta admitiu o cancelamento, mas disse que o contrato assinado em 2014 era mais vantajoso para o Estado.

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