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Como “Buffy, a Caça-Vampiros” abriu caminho para nossas séries favoritas

A série "Buffy" está fazendo 20 anos. E, para realmente honrarmos seu legado, não podemos nos esquecer de sua premissa revolucionária e como ela influenciou de "Grey's Anatomy" a "Game of Thrones".

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Se você já se emocionou com a morte de um dos protagonistas de um seriado, saiba que a culpa disso é de "Buffy, a Caça-Vampiros", pelo menos parcialmente. Se você já se divertiu ou teve de aguentar um episódio musical em uma série que não era musical, bem, pode colocar isso na conta de "Buffy" também.

Em "Buffy", havia uma corajosa mistura de gêneros, uma abordagem divertida dos diálogos e o compromisso com uma narrativa de longo prazo que transformou todos os personagens do elenco em ícones culturais. Além disso, a série abriu o caminho para inúmeras outras histórias e personagens LGBT+.

Quer você analise a série pela soma de todas as suas partes ou por ela como um todo, o legado de "Buffy" é grandioso. Passados 20 anos, hoje isso é ainda mais evidente.

Quando a série estreou na TV, em março de 1997, ela ficou famosa por inverter as convenções do gênero de terror: a já tradicional loira atraente não era uma presa para monstros perigosos em vielas escuras. Em vez de ser a vítima, ela era a heroína. Ela carregava estacas, ela matava monstros. Ela praticamente pisava no patriarcado.

De acordo com o seu criador, Joss Whedon, as palavras de ordem de "Buffy" eram “a alegria no poder feminino”. Na prática, eram tanto alegrias quanto tribulações. Apesar de "Buffy" ter apresentado diversos vilões ao longo dos anos, os mais memoráveis seguem a fórmula clássica da série: eles são inimigos das mulheres e Buffy deve derrotá-los. Seja um colega de classe misógino, um trio de homens brancos nerds que personificavam a masculinidade tóxica muito presente na vida real ou um desprezível pastor (Nathan Fillion) com um ódio fanático de tudo que é feminino, Buffy Summers (Sarah Michelle Gellar) enfrentava todos. A série vivia e respirava a crença que mulheres são sim poderosas — um conceito que parece simples, mas que ainda não é tão presente em Hollywood, mesmo com todo o progresso que já foi alcançado. Por muito tempo, "Buffy" foi um dos principais exemplos do que era uma “série de TV feminista” nos anos 90. Ela não apenas definiu esse tipo de debate na cultura pop — ela ajudou a trazê-lo para o século 21.

A própria Buffy era praticamente uma obra-prima. Seu heroísmo e coragem provocante coexistiam com seus defeitos e uma angústia profunda, além da habilidade de arremessar alguém para o outro lado da sala. Buffy foi uma figura pioneira e a série preencheu o vazio cultural de papéis de destaque para mulheres em um indústria que há muito tempo buscava perdão pelos seus pecados. É uma série muito significativa para muitas pessoas, em parte porque casou perfeitamente a premissa e a execução, permitindo que suas histórias ganhassem uma importância maior do que ela própria.

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Antes de escrever seu primeiro episódio para a TV, Shonda Rhimes fez um maratona de "Buffy" e assistiu à série inteira. “Para mim, foi uma série muito inspiradora, em termos do que havia e do que era possível”, contou ela ao site Hollywood Reporter em 2014.

Você pode ver influências sutis de "Buffy" em todas as série de Rhimes. Principalmente "Grey’s Anatomy", que está em sua 13ª temporada. Tomemos a personagem principal, Meredith Grey: assim como Buffy, ela sobreviveu a inúmeras crises, incluindo um acidente de avião, as mortes de quase todos seus parentes próximos, um espancamento aleatório e sem sentido realizado por um paciente, um incidente com uma bomba e um tiroteio. E, apesar de "Grey’s Anatomy" continuar focada no melodrama, ela é igualmente devotada a quem Meredith é, no contexto dos traumas pelos quais ela passa. É uma aula de construção de personagens e é uma aula que pode ser aprendida com "Buffy".

As outras produções de Rhimes, "Scandal" e "How to Get Away With Murder" — bem como "Off the Map", "Private Practice" e "The Catch" —, também carregam um pouquinho do DNA de "Buffy". Seja com diálogos engraçados (vide os bate-papos na Pope & Associados), com um elenco divertido enfrentando pequenos apocalipses (pense em todos os finais que nos deixavam em suspense nas séries acima mencionadas) ou na crueldade registrada com que Rhimes e Whedon mataram personagens importantes (ALERTA DE SPOILERS DE COISAS QUE ACONTECERAM ANOS ATRÁS: como George e Derek em "Grey’s Anatomy" e James em "Scandal"), a produtora ShondaLand utilizou os alicerces deixados por "Buffy" e criou uma cidade inteira de arranha-céus sobre eles.

E, obviamente, não é apenas na ShondaLand que a influência de "Buffy" é evidente.

Você também pode notá-la em grandes impérios com inúmeros fãs, em romances sobrenaturais adolescentes e em obras que desafiam gêneros. Ela está presente nas heroínas de ação mordazes e conflituosas cujas jornadas terminam na derrubada das estruturas de poder mais tóxicas do mundo.

As descendentes de "Buffy" estão por todos os lados — em Katniss Everdeen de "Jogos Vorazes" e no elenco de "The 100". Na levada sobrenatural meio “Scooby Doo” de "Teen Wolf". Na anarquia e nos romances de "Veronica Mars". Nas narrativas de heroísmo e de morte que desafiam gêneros em "Lost" e "Game of Thrones". Nas discussões pró-mulher sobre autonomia em "Orphan Black". No grupo de amigos tagarelas em "Happy Endings". No grupo heterogêneo de caçadores de demônios em "Crazyhead". No romance vampiresco em "Crepúsculo". E, claramente, nos poderes e no clima sombrio de "Jessica Jones".


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Na quarta temporada de "Buffy", quando Willow Rosenberg (Alyson Hannigan) revelou que estava se apaixonando por Tara Maclay (Amber Benson), essa não foi a primeira vez em que o amor de uma mulher por outra apareceu na TV. Mas, mesmo assim, foi um momento histórico na representação da comunidade LGBT — e um que progrediu e se aprofundou assim como a relação de Willow e Tara. E isso numa rede tradicional de televisão no início dos anos 2000, quando era raro que relações do mesmo sexo tivessem o mesmo nível de intimidade que Willow e Tara tiveram — tão raro, na verdade, que Whedon ameaçou largar a série caso a Warner Bros. o impedisse de mostrar o casal se beijando.

Graças a Whedon, o estúdio deu sinal verde para o beijo e o público pôde se divertir com um romance que continua sendo um dos mais encantadores da época. Hoje, os filhos desse amor não são óbvios, mas podemos crer em certa influência — em Callie e Arizona de "Grey’s Anatomy", em Nomi e Amanita de "Sense8" e em Karma e Amy de "Faking It". Sem mencionar Emily e Maya (coincidentemente interpretada por Bianca Lawson, que foi uma caça-vampiros em "Buffy") de "Pretty Little Liars".

A execução do relacionamento não foi perfeita, obviamente. Em uma decisão influenciada por um longo histórico de mulheres homossexuais assassinadas na ficção (e que ainda é utilizado), Tara foi súbita e brutalmente assassinada no fim da sexta temporada, morrendo nos braços de Willow. E, após o incidente, Willow se transformou na “grande antagonista” da temporada, dando início a uma vingativa série de assassinatos que fez com que a antiga heroína virasse vilã.

Enquanto Willow era uma personagem coadjuvante, apesar de central à trama da sua série, em 2015 o drama apocalíptico adolescente "The 100", do canal CW, utilizou as bases deixadas por "Buffy" para fazer sua personagem principal, Clarke (Eliza Taylor), ser bissexual. Seu interesse amoroso, Lexa (Alycia Debnam-Carey), também foi subitamente assassinada — em uma cena que remete, assustadoramente, à morte de Tara. Os fãs da série responderam de maneira crítica, exigindo mais cuidado na representação de personagens LGBT+ nas telas.

Algumas coisas mudam drasticamente em 20 anos, outras permanecem iguais. E "Buffy" permanece no centro de tudo isso, como um lembrete do progresso alcançado e do que ainda resta a ser feito.

Mas Willow e Tara, assim como muitos outros aspectos da série, levantam a questão: se há discípulos de "Buffy" por toda parte, o que isso significa décadas após a estreia da série? "Buffy" ajudou a inspirar o desenvolvimento de mais do que apenas alguns exemplos de obras influenciadas pelo feminismo no cenário da cultura pop. Num dilema que se encaixa perfeitamente no modo como discutimos a cultura pop hoje em dia, "Buffy" teve tanto impacto sobre a cultura que, por causa disso, parece retrógrada.


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Hoje a ideia de uma mulher branca magrinha chutando traseiros não é mais revolucionária — na verdade, meio que se tornou o padrão exigido por Hollywood. Nos 20 anos que se passaram desde a estreia de "Buffy", o debate responsável pela criação de Buffy Summers mudou e tornou-se mais intersetorial. Suas conquistas não foram esquecidas — assim como seus defeitos, incluindo, mas não se limitando, a uma grave escassez de personagens negros bem desenvolvidos (e vivos).

Rhimes pode ter sido inspirada em parte por Buffy, mas ela levou as coisas a um outro patamar quando criou Olivia Pope, a advogada brilhante, porém cheia de defeitos, que estreou na TV em 2012. Olivia acabou com um "jejum" de quase 40 anos de um protagonista negro na TV aberta dos EUA. Ela também preencheu um vazio e sua popularidade comprovou que mulheres negras são plenamente capazes de carregar uma série nas costas como protagonistas cativantes e complexas.

A TV não estagnou após "Buffy". Muito pelo contrário, a indústria pegou o que a série pregava, misturou com todo o resto que estava acontecendo no mundo e construiu um novo cenário com esse material. Então, ao falarmos sobre "Buffy" hoje, devemos falar sobre tudo o que a TV realizou graças ao legado da série — mas não podemos esquecer onde tudo começou: com um roteirista invertendo as convenções e dando poder a quem frequentemente tinha isso arrancado de si pela cultura pop. Para realmente valorizarmos todas as inovações que "Buffy" ajudou a inspirar, precisamos cuidar daquela primeira centelha de criatividade.

Este post foi traduzido do inglês.



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