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Lázaro Ramos Ensina...

Novo livro do ator e escritor traz episódios de sua trajetória e reflexões sobre a igualdade racial no Brasil. Confira alguns trechos

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Na minha pele

Via bit.ly

Esse é o nome do novo livro de Lázaro Ramos, antes ele escreveu "A Velha Sentada" e "Caderno de Rimas do João". A publicação, da Editora Objetiva, é uma espécie de biografia híbrida, no qual o ator resgata sua história e comenta temas relacionados à questão racial no Brasil.

Quantas páginas, hein?

Divulgação

São 147 folhas de papel pólen (olha o detalhe), nas quais estão inclusos:

1# Dedicatória aos filhos: João Vicente e Maria Antônia

2# Epígrafe do Emicida: "Todos nós fomos educados de uma maneira muito torta acerca do outro. O que a gente pode fazer é admitir que estamos em obra e ir corrigindo isso"

3# A história inteira, né? Que vai desde o lugar onde nasceu à carreira no cinema e televisão.

4# Agradecimentos: o ator dá um abraço metafórico em Taís Araújo (<3) e em seus pais -- Ivan Ramos e Célia do Sacramento. Sobra carinho também para os amigos-atores Wagner Moura e Vladimir Brichta, entre outros.

"Amo as ilhas como amo lembrar da minha mãe"

Lázaro inicia o livro falando de sua mãe, Célia Maria do Sacramento. Ela morreu em 1999, devido uma doença degenerativa. Logo depois, ele parte para o local onde nasceu, a Ilha do Paty. O lugar é parte do distrito de São Francisco do Conde, localizado a cerca de setenta quilômetros de Salvador.

"Padre, toca uma lambada!"

Via bit.ly

"O clima no Paty sempre foi lúdico e divertido, e a religiosidade é outro traço do seu cotidiano. O padroeiro dos moradores é São Roque. Tudo começou quando uma doença de pele se espalhou pela ilha e eles prometeram ao santo que seria erguida uma igreja em sua homenagem se o surto desaparecesse -- e assim foi feito. Apesar da capela ser católica, as cerimonias têm certa influência africana, principalmente o som de percussão acompanhando as músicas. No sincretismo, São Roque é o orixá Omolu, e essa presença da percussão e de atitudes "não-católicas" é naturalmente do candomblé. Quando criança, eu achava as missas tão animadas que certa vez gritei entre uma oração e outra: 'Padre, toca uma lambada!'. Todo mundo caiu na gargalhada".

"Estudem para ser alguém na vida"

Depois do Paty, Lázaro vai para Salvador. Depois de morar com uma tia, vive com seu pai, Ivan Sacramento, no bairro do Garcia. O clima de incentivo e igualdade da ilha vai aos poucos se desfazendo.

Filme Madame Satã/ Divulgação / Via bit.ly

"Como ninguém era filho de médico ou advogado, não existia a cobrança de herdar uma profissão. Na verdade, nossos pais só queriam uma coisa: que fôssemos poupados dos perrengues por que haviam passado. "Estudem para ser alguém na vida", repetiam. E nós, no auge da adolescência, não tínhamos planos traçados. Não planejávamos fazer cursos ou viagens, como acontece nas casas de classe média alta. Existia apenas o compromisso de levar os estudos a sério e buscar um caminho digno. Que caminho era esse? Ninguém sabia muito bem, mas provavelmente estaria ligado a algum curso técnico, que poderia garantir mais rapidamente um emprego".

"O encontro com teatro veio em um dos momentos mais duros da minha vida. Nessa época, minha mãe ficou muito mal de saúde"

Bando Teatro Olodum

Via bit.ly

"Entrar para o Bando me deu argumentos e coragem para falar sobre a assim chamada questão racial. Existe todo um discurso de que não há racismo no Brasil. Afinal, nós fazemos parte de um povo para lá de miscigenado. Mas quem é negro como eu sabe que a cor é motivo de discriminação diária, sim. Um bom exemplo é blitz de ônibus. O cara branco era chamado de cidadão e eu virava minininho, garoto ou moleque. Ou vocês nunca reparam na cor da pele de quem é "menor" e de quem é "criança" nos textos da imprensa, no vocabulário popular ou mesmo em pronunciamentos de autoridades?".

"Ô, admiro seu trabalho. Quero ser seu amigo"

Fime Cidade Baixa/ Divulgação / Via glo.bo

"Um ator da minha idade, integrante de outra companhia de Vila Velha, despertava minha curiosidade entre um ensaio e outro. Ele tinha cabelo comprido, era calado e esquisitão. talvez um tanto quanto eu. Um dia, depois de encenar Zumbi, o tal cara apareceu no camarim para me dar parabéns.

-- Ô, admiro seu trabalho. Quero ser seu amigo.

O tal sujeito era Wagner Moura e ali começou uma grande amizade".

Não vai comprar porque ele é negro?

A frase acima foi motivo de muita dor de cabeça para o ator. Em uma matéria da revista TPM, pediram para que ele segurasse um cartaz com esse dizer. Ele não gostou, porque sinalizava uma abordagem da questão racial que não o agradava. Fez uma contraproposta, pensou que tinha sido ouvido, mas, entre a produção e publicação da matéria, algo aconteceu...

Reprodução/TPM

Depois de muita reflexão, conversa com a jornalista (-- O que teria acontecido para o trato não ser comprido?) e carta de um amigo, o ator se acalma e reflete, "Só sei que precisamos estar nas capas, sim. Mais e mais a cada dia".

Durante a escrita do livro, ele revisita o episódio e diz: "Toda essa reflexão que fiz em 2005, retornou várias vezes no meu dia a dia. No fundo, ela pode ser resumida numa frase: "Mesmo quanto tentamos esquecer que somos negros, alguém nos lembra".

"Com o tempo, vieram outras capas, com outros títulos. O que mudou, o leitor ou as revistas? Uma mudança que posso apontar é o consumidor de cultura que quer usar como arma a valorização dos produtos que o retratam ou nos seus anúncios e formatos"

E o mozão?

Sergio Zalis/Globo/Divulgação

"Com Taís, me tornei mais leve. Compreendi a importância de, sendo um artista, estar presente em plataformas de comunicação mais populares. É ela quem me mostra, diariamente, o que é ser mulher -- e como é belo e complexo pensar na força que ela tem".

Empodera aê!

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Via bit.ly

O ator não se ensimesma e está ligado na movimentação puxada por jovens negros: "A chamada geração tombamento é composta por jovens negras que usam a estética, a autoestima e a liberdade no dizer e no agir para se empoderar. Cabelos crespos ou cacheados passaram a ser símbolos de resistência, luta e identificação, por exemplo. Essa geração traz também na música frases de empoderamento e aceitação, como na canção "É o poder", da Karol Conká".

"Luto para não viver sob a demanda do racismo e dos racistas, e buscar diariamente estratégias de sobrevivências traz muitos pequenos machucados"

Estamos no filma, último trechinho, #lacralázaro:

Via bit.ly

"Quanto ódio verdadeiro senti ao ver mulheres e homens negros lindos sendo considerado algo menor e não desejável? Tive raiva quando, na época em que vivi o André Gurgel, em Insensato Coração, fui chamado de macaco. Odiei a mulher que, há menos de um ano (foi em 2016), em São Paulo, me confundiu com um ladrão e, depois que se deu conta do engano, disse que não entendia porque eu estava ofendido com a 'confusão' dela. Mas essa raiva não me paralisa. Eu busco a fé. A fé na possibilidade da reinvenção e na força criativa".

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