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Pastor manda tirar boneca negra de creche em Vitória porque diz que é vodu

"Não te falei nem a cor da boneca, falei? Se a boneca fosse holandesa, eu faria a mesma coisa."

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Líder da Igreja Evangélica Batista de Vitória (IEBV), o pastor João Brito mandou que um dos funcionários do templo tirasse uma boneca abayomi, símbolo da cultura africana, da parede de uma creche municipal que funciona dentro das instalações da igreja.

A boneca fazia parte de um trabalho realizado pelas crianças e uma professora sobre as origens africanas do Brasil. Para o pastor, a boneca é "um vodu".

Questionado pelo BuzzFeed Brasil sobre racismo, o pastor respondeu: "Eu não estou falando nem de cor. Não te falei nem a cor da boneca, falei? Se a boneca fosse holandesa, eu faria a mesma coisa."

A abayomi, como são chamadas as bonecas negras cujas roupinhas são feitas com retalhos de tecidos africanos, é um símbolo de resistência cultural. De origem iorubá, o termo abayomi designa "encontro precioso".

Em entrevista ao BuzzFeed Brasil, João Brito negou que tenha tido motivação racial para retirar a boneca. Ele disse que não age de "maneira politicamente correta".

"Só lamento não ter sido eu (a retirar o cartaz com a boneca)", disse ele, afirmando que fieis telefonaram para sua casa no domingo (7) para reclamar da abayomi.

"Quanto à cultura africana não temos nada contra. É uma boneca que representa orixá, amuleto, comparado aos vodus haitianos. Isso é o que eu li e você pode encontrar na internet", disse o pastor.

O espaço da igreja foi alugado pela prefeitura de Vitória, que instalou ali o Centro Municipal de Ensino Fundamental Professora Cida Barreto.

A Secretaria de Educação informou que parte das instalações, como o corredor onde estava a boneca presa ao cartaz, é compartilhada com a igreja.

O pastor disse que, na verdade, com excessão de duas salas (a da diretoria e a dos professores), toda a creche é usada pela igreja nos finais de semana e a partir das 18h dos dias úteis.

A Secretaria de Educação paga R$ 39,1 mil de aluguel do espaço.

"Há um acordo que fizemos de que a escola é laica. Ficou acertado que a escola não trataria de assuntos religiosos. A questão religiosa fica a cargo da família", disse o pastor. O acordo, no entanto, não faz parte do contrato de aluguel. Teria sido tratado apenas por conversa.

"Tem vários outros cartazes de cultura africana que não foram mexidos. Mas ela (uma professora) colocou a boneca de jeito afrontoso", disse ele.

O pastor não quis dizer quanto recebe da prefeitura pelo aluguel. A creche funciona no local há quatro anos.

A Secretaria de Educação informou que, na próxima semana, fará uma reunião com o pastor para esclarecer o caso. Ele mantém sua posição. "Não vivo para agradar. Quem vive para agradar é político".





Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

Contact Tatiana Farah at Tatiana.Farah@buzzfeed.com.

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