back to top

Mulher acusa laboratório Fleury de racismo por causa de cabelo black power

Fleury afirma que 51,3% das funcionárias são negras ou pardas e que está apurando a denúncia.

publicado

A recepcionista Mayara Oliveira, 25, foi demitida do laboratório Fleury na terça-feira (3) e acusou a empresa de racismo. Em um depoimento no Facebook, ela disse que trabalhou seis meses na unidade Villa-Lobos do laboratório e que sua chefia não aceitava que ela trabalhasse com seu cabelo black power solto.

"O que não me explicaram no dia da entrevista é que negras com cabelo Black Power não poderiam fazer parte da recepção, pois 'os clientes Fleury são muito criteriosos' e acham esse tipo de cabelo um absurdo, 'chama muita atenção, né'", escreveu ela.

Mayara afirmou que seu cabelo cumpria a regra da empresa para ser usado solto, mas que isso não foi aceito por se tratar de um black power.

'A regra sempre foi muito clara: cabelos abaixo do ombro, presos. E acima do ombro, soltos, desde que não tenham franja. Mas isso não serve para a preta de black power. Fui obrigada sob ameaça de demissão a ir com ele 'bem presinho, da forma mais discreta possível'", escreveu.

Mayara Oliveira
Reprodução/Facebook

Mayara Oliveira

Em entrevista ao BuzzFeed News, a recepcionista, que é estudante de psicologia, contou que ouvia piadas racistas de colegas e que chegou a se queixar para seus superiores. Mas a queixa mais grave é contra suas superioras imediatas. Segundo Mayara, elas a orientaram diversas vezes para usar os cabelos presos, amarrados para trás.

"Eu tentei, usei no começo. Mas meu cabelo é muito sensível, começou a quebrar. Doía muito a minha cabeça. Comecei a amarrar de forma mais solta e chamaram minha atenção diversas vezes. Eu não aguentei. Chorei horrores. Acontece sempre na minha vida: alguém implicar com o meu cabelo."

Mayara disse que tentou manter o emprego porque tem um filho pequeno, mas que não aceitaria mais usar o cabelo preso porque entendia que ele estava dentro do padrão para ser usado solto: "Tenho cabelo curto, crespo e sem franja".

"Vinha me queixando à supervisão fazia tempo e eles diziam que não é racismo, que é padrão", disse Mayara.

A jovem contou que foi aprovada no período de experiência e que, antes de usar os cabelos amarrados, mas de forma mais solta, recebia elogios. "Eles diziam que eu estava de parabéns, que não estava espalhafatosa".

No dia 3 de outubro, no entanto, ao completar seis meses no emprego, ela foi demitida: "Eles dissseram que eu não supria as necessidades da empresa, mas esse era um argumento que deveria ter sido usado no período da experiência", afirmou.

Em nota ao BuzzFeed News, a empresa afirmou que está apurando o caso por meio de sua ouvidoria e que 51,3% de suas funcionárias são negras ou pardas. Disse também que tem um canal de Ética e Conduta para receber denúncias. Profissionais da ouvidoria entraram em contato com Mayara para apurar o caso.

Veja a íntegra da nota do Fleury

O Grupo Fleury é uma instituição médica de 91 anos de existência, caracterizados por um comportamento rigorosamente ético e de respeito no relacionamento com todos que atuam na empresa e com as pessoas que procuram os seus serviços.

O quadro de colaboradores da empresa é marcado pela diversidade. É composto por 9 mil colaboradores, dos quais 80% são mulheres, sendo 51,3% negras ou pardas.

O Grupo Fleury mantém um Canal de Ética e Conduta independente para apurar denúncias de práticas e posturas contrárias ao seu Código de Conduta, que veta qualquer ato discriminatório. Assim que o Grupo tomou conhecimento do relato de sua ex-colaboradora, iniciou, de forma imediata, apuração do caso que, enfatiza, não reflete em nenhuma medida o comportamento ético ao longo de sua trajetória de mais de nove décadas.

O texto de Mayara teve forte repercussão nas redes sociais. Seu post no Facebook, em 24 horas, teve mais de 1,3 mil compartilhamentos e 6,3 mil reações. A página do laboratório Fleury tornou-se alvo de críticas. Até as 12h de hoje, cerca de 100 pessoas haviam escrito reviews negativos na página, dando a nota mínima (uma estrela). O laboratório, um dos mais relevantes do país, ficou com 1,8 estrela.

Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

Contact Tatiana Farah at Tatiana.Farah@buzzfeed.com.

Got a confidential tip? Submit it here.

Você já tem o app do BuzzFeed Brasil?

Baixe gratuitamente no Android e no iOS para ver todos os nossos testes, vídeos, notícias e muito buzz.