Hacker que clonou celular de Marcela Temer pode ser sentenciado a 15 anos de prisão

Enquanto o país prestava atenção no impeachment, a família Temer apelava para Alexandre de Moraes para lidar com um chantagista que ameaçava vazar fotos e áudios.

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Silvonei de Jesus Souza, 35, hacker que clonou o celular da primeira-dama Marcela Temer e tentou arrancar dela R$ 300 mil para não vazar fotos íntimas e áudios, vai a julgamento nas próximas semanas.

O processo já está pronto para ser julgado pela juíza Eliana Cassales de Melo, da 30ª Vara Criminal da Barra Funda. Faltam apenas ser anexados alguns laudos. Tanto defesa quanto acusação já entregaram suas alegações finais.

Para evitar o assédio, o preso foi transferido, mesmo sem conhecimento de seu advogado, para o presídio de Tremembé, no interior do estado. Réu primário, pode ser sentenciado a uma pena de sete a 15 anos de prisão. Ele está preso desde maio.

O processo corre em segredo de Justiça. Nos autos, Marcela Temer e seu irmão Karlo Tedeschi são identificados, respectivamente, como "Mike" e "Kilo", correspondentes às iniciais M e K no alfabeto fonético usado por militares e aviadores.

Silvonei queria R$ 300 mil por fotos íntimas. Pessoas que dizem ter tido acesso a imagens afirmam que não se trata de nudez, mas que a primeira-dama aparece diante de um espelho de roupa íntima. Ao falar de fotos, os autos falam apenas de imagens dela com o marido e o filho.

A chantagem contra Marcela Temer aconteceu em abril e o caso veio a público em maio. Ele conseguiu invadir o celular após comprar, numa rua do centro de São Paulo, um CD pirata com os dados sigilosos e telefones das pessoas. Era por ali que escolhia seus alvos.

Aparentemente, Marcela não foi a primeira vítima. O hacker se gabou a um amigo de ter descoberto que a mulher de um senador nordestino tinha um caso com o dentista.

Pediu R$ 100 mil, o político regateou e o silêncio acabou custando R$ 50 mil, de acordo com uma pessoa próxima de Silvonei. O caso, contudo, nunca foi registrado.

Silvonei clonou o celular de Marcela, um número de São Paulo, invadiu sua conta de WhatsApp e estudou as conversas. Escolheu o irmão dela como primeiro alvo.

No dia 4 de abril, o hacker começou a conversar com o Karlo, fazendo-se passar por ela. Chamava o irmão pelo apelido que Marcela usava. Falava sobre uma reforma que à época ela estava fazendo e pediu dinheiro ao irmão para pagar a pintura da obra.

Karlo estranhou o pedido. No primeiro pedido, o hacker chutou alto: R$ 150 mil, mas o irmão disse que tinha apenas R$ 15 mil.

Ao perceber na troca de mensagens que o irmão estava reticente, a falsa Marcela então deu o bote: “não confia em mim?”

Karlo falou que ia depositar imediatamente. O hacker indicou a conta que seria de uma casa de tintas. Na verdade, tratava-se de uma conta de uma pessoa que Silvonei usou como intermediária e acabou implicada no crime.

No dia seguinte, Karlo ligou para Marcela e confirmou o depósito. A irmã não entendeu nada e então os dois se deram conta do golpe.

Mas aquele era só o começo do problema da primeira-dama. Logo Marcela começou a ser chantageada.

Silvonei queria R$ 300 mil pelas fotos. Marcela não cedeu.

O hacker insistiu, dizendo que tinha conversas comprometedoras entre Karlo e ela, arquivos de áudio que, tirados do contexto, poderiam complicar a vida de Temer. Naquele momento, o país estava às vésperas da votação do impeachment de Dilma na Câmara.

Silvonei dizia que queria "ganhar algum"e falou para Marcela: “pensa direito”. Ela se apavorou e avisou o marido.

No princípio, o presidente acreditava que o hacker agia com intenções políticas e, assim, preferiu evitar a Polícia Federal.

O então vice-presidente pediu ajuda a Geraldo Alckmin (PSDB), que acionou o secretário de segurança pública de São Paulo, Alexandre de Moraes.

Sem alarde, o secretário acionou a Divisão Anti-Sequestro (DAS), uma espécie de tropa de elite da polícia paulista.

Os dados bancários da correntista usado por Silvonei para receber R$ 15 mil depositados pelo irmão de Marcela Temer foram o ponto de partida da investigação que levou à prisão do chantagista.

Em 11 de maio, véspera de Temer ser empossado presidente interino, foram presos Silvonei, a mulher e mais duas pessoas. Alexandre de Moraes tornou-se ministro da Justiça do novo governo.

O maior mérito das autoridades paulistas foi a discrição. O caso teve leve cobertura da imprensa e foi abafado pelo noticiário da queda de Dilma. O próprio Alexandre de Moraes chegou a pedir às partes que guardassem a máxima discrição.

O BuzzFeed Brasil procurou o Palácio do Planalto na segunda, mas a assessoria de Temer não comentou o caso.

Divulgação/Ministério da Justiça

Quando ainda era secretário de Segurança de São Paulo, Alexandre de Moraes montou a operação que resultou na prisão do hacker que clonou o celular de Marcela Temer. Logo depois, virou ministro da Justiça.

Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

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