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Com US$ 10 mi, diretor brasileiro contou a história de anti-herói na Guerra do Iraque

"Não é uma visão gloriosa da guerra", diz Fernando Coimbra, que filmou Castelo de Areia, longa que estreia este mês na Netflix.

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O diretor Fernando Coimbra, 40, estreia no dia 24 pela Netflix seu primeiro longa internacional com um roteiro e um orçamento que fogem do cenário brasileiro: Castelo de Areia, um filme sobre a segunda guerra do Golfo, a um custo de US$ 10 milhões.

Seu último longa, O Lobo Atrás da Porta, contou com modestos US$ 800 mil.

Para contar a história do soldado americano Matt Ocre (Nicholas Hoult), Coimbra filmou o longa na Jordânia e usou a tensão da guerra na Síria, país vizinho, para transportar os telespectadores para as ofensivas no Iraque de 2003.

Em entrevista ao BuzzFeed Brasil, Coimbra contou como foi fazer um filme de guerra sob a perspectiva de um soldado que não queria ir à guerra e trabalhar com orçamento 12 vezes maior do que seu primeiro filme.

A seguir os principais trechos da entrevista feita em um hotel de São Paulo.

Como foi fazer um filme de guerra, algo tão diferente de sua realidade? Você teve um trabalho de imersão?

Na verdade foi um desafio. Às vezes eu pensava: “É uma loucura isso. Meu primeiro filme internacional e é uma coisa tão americana e tão específica”. Mas ao mesmo tempo era o desafio de entrar nessa realidade. E eu sempre gosto de mergulhar numa coisa nova.

A primeira coisa: conversei muito com o roteirista (Chris Roessner), que esteve na guerra por um ano e oito meses, fazendo o que está no filme. Depois foram os livros, relatos de soldados em primeira pessoa. Muita coisa de fotografia; porque um lado bom (sobre a documentação) dessas guerras mais atuais é que tem muita reportagem, muito fotógrafo, muito documentário.

E a gente tinha consultor militar. Tivemos três durante o filme, que estiveram na guerra no Iraque, no Afeganistão. E, na Jordânia, foi muita conversa com os árabes, os jordanianos, os palestinos, os iraquianos, para poder entender o outro lado.

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Você gravou por quatro meses na Jordânia em 2015, na fronteira com a Síria, e contou que chegava a ouvir os aviões da guerra síria. Que impacto teve sobre vocês fazer um filme de guerra com uma guerra acontecendo ao lado?

Teve muito. Estava no meio da Jordânia, que faz fronteira com Síria, Iraque, Palestina, Arábia Saudita, com o Egito ali do lado. Basicamente todos esses lugares tinham algum tipo de conflito, menos a Jordânia.

Quando chegamos lá e foi passando o tempo, começou a piorar a situação da Síria. Teve o ataque em Paris [em novembro de 2015]. A gente foi ficando tenso, embora nada estivesse acontecendo na Jordânia. E pensava que era mais seguro estar ali do que em Paris, naquele momento.

Você usou um pouco dessa tensão para o filme?

Não é que tinha uma tensão enorme, mas esse ambiente deixou todo mundo em alerta. Não tinha nada ali que fosse acontecer com a gente, mas tinha um pouco esse frisson de estar ali perto e incorporar isso.

E, ao mesmo tempo, a gente usava tudo o que tinha sido usado de verdade na guerra, porque o Exército da Jordânia tem basicamente os equipamentos que os americanos venderam para eles depois da guerra no Iraque.

Quando a Netflix entrou no filme?

Quando estávamos montando o filme, na fase inicial da montagem. Ouviram falar do filme, da história, do elenco e já tinham uma relação comigo por causa do Narcos e quiseram comprar o filme.

Como foi trabalhar com Henry Cavill, o Superman?

É tranquilo, é só não ter a cryptonita (risos). Brincadeira. Apesar de ser o Superman, ele é uma pessoa muito simples, fácil de trabalhar. Você nem lembra disso, só lembra quando olha para ele e o vê.

A gente tentou mudar bastante, raspar o cabelo, botar uma barba. Porque é muito emblemática a cara dele. Logo nas nossas primeiras conversas, eu perguntei se ele topava mudar radicalmente de visual. Até porque, no filme, ele é um integrante da Special Force [forças especiais], e esses caras geralmente são barbudos, não seguem o código do Exército de se vestir. E ele entrou de cabeça. Falou: “eu quero mesmo”. Ele queria muito fazer um filme militar porque tem relações na família e é patrono de uma entidade militar britânica. Ele estava muito a fim de fazer e isso conta muito para um ator.

Quanto custaram Castelo de Areia e O Lobo Atrás da Porta?

Castelo de Areia custou US$ 10 milhões. O Lobo Atrás da Porta custou R$ 1,5 milhão, algo em torno de US$ 800 mil na época.

Como foi contar com um orçamento muito maior? Você podia fazer o que queria?

A gente não pode fazer tudo o que a gente quer. Por maior que seja o orçamento, ele nunca é suficiente para isso (risos). Mas foi muito diferente. Não faltou equipamento. Não foi um choque enorme por causa do Narcos, que é uma produção de TV muito grande. Os dois episódios de Narcos [que Coimbra dirigiu] são quase esse orçamento. Ali foi o momento de fazer uma produção internacional, com uma equipe grande, de entender como funciona.

O protagonista Matt Ocre parece uma pessoa que se sente o tempo todo deslocada do ambiente da guerra, que sentia que não deveria estar ali. É um “herói” que não é exatamente do tipo que os americanos cultuam.

É um anti-herói até. Não é um herói. O que me atraiu no filme foi falar da guerra sob um ponto de vista diferente, de alguém que não é herói, que não está ali para se vingar do 11 de Setembro nem porque gosta de armas e tem uma paixão por coisas bélicas, o que a gente vê bastante nesses filmes sobretudo sobre a guerra no Iraque.

Em geral você tem o american sniper, que é herói, é o exemplo. E como brasileiro, um estrangeiro, eu vejo a guerra de uma forma um pouco diferente, com distanciamento do patriotismo.

Você teve liberdade para se distanciar desse patriotismo?

Sim. E essa foi a ideia do filme. Já está no roteiro. Não é uma visão gloriosa da guerra. E o fato de terem me contratado, um brasileiro, já mostrou isso.

Como você vê o perfil de Donald Trump em relação a Obama?

A política americana não ficou menos bélica, não, no período do Obama. Ela mudou o estilo de fazer guerra. Ela se tornou uma mais velada. Você tem uma guerra contra o Iêmen que não é oficialmente declarada. Usa drones, "special forces".

Se tornou uma guerra mais precisa, de matar nomes, possíveis rebeldes. Ela se tornou uma guerra gastando menos.

Os democratas fazem uma guerra menos danosa. O que difere agora do Trump é o querer se impor.

Seu próximo filme, "Os enforcados", quando será feito?

No segundo semestre. É uma história bem carioca (sobre jogo do bicho), mas é muito brasileira. Principalmente agora que se fala tanto em corrupção, que está replicada no nosso dia-a-dia. Eu comecei bem antes de estourar esses escândalos, então foi um processo engraçado porque o roteiro foi ficando mais atual e mais necessário.


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Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

Contact Tatiana Farah at Tatiana.Farah@buzzfeed.com.

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