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Com o PT na lona, deputados querem criar novo partido de "esquerda"

Grupo reúne cerca de 35 parlamentares e quem toca as negociações é o deputado federal petista Décio Lima (SC), que faz reunião em seu apartamento funcional de Brasília. Nome sugerido é Frente Ampla.

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Alguns petistas e parlamentares de outros partidos tentam colocar de pé um projeto inusitado: fundir siglas de esquerda como PT, PCdoB e PDT (o que parece improvável) ou criar uma nova legenda. Se o negócio prosperar, será o 36º partido na sopa de letras do sistema eleitoral brasileiro.

O articulador do movimento é o deputado federal Décio Lima (PT-SC). Ele tem se dedicado integralmente a conversar com os colegas e fazer reuniões para discutir o que ele considera uma alternativa para a esquerda enfrentar tempos conservadores.

Nesta segunda, o grupo faria uma reunião no apartamento funcional de Lima, na asa Norte de Brasília, para os deputados.

Ele é um dos fundadores do PT em seu estado e se localiza mais próximo da corrente interna Construindo um Novo Brasil (CNB), do ex-presidente Lula.

"O que estou fazendo é o pragmatismo da política. Estamos diante de um cenário desfavorável, com hegemonia conservadora liberal ,e achamos que o melhor é uma fusão dos partidos de esquerda, como PT, PDT e PCdoB", diz o catarinense, para quem a esquerda tem de "reconhecer seus erros".

Parlamentares estão descontentes dentro do PT desde o ano passado, quando se agravou a crise do governo Dilma.

"Eles falam em sair do partido. Mas, se você perguntar, oficialmente, eles negam", conta um parlamentar aliado ao petistas, que pediu para não ser identificado.

Os nomes dos envolvidos são mantidos em segredo e poucos se dizem prontos para desembarcar de suas legendas para criar uma nova, embora já exista até a sugestão do nome: Frente Ampla. É o mesmo nome da coalizão de centro-esquerda que governa o Uruguai, mas os deputados brasileiros negam que o modelo do país vizinho se trate de inspiração.

A fusão dos partidos incluiria pequenas legendas, não necessariamente de esquerda, mas que correm o risco de serem prejudicadas se uma cláusula de barreira for instituída na nova legislação eleitoral que entra em discussão no Senado em novembro.

Mesmo Décio Lima e outros parlamentares ouvidos pelo BuzzFeed Brasil sob anonimato admitem que dificilmente partidos históricos como o PCdoB e o próprio PT abram mão de suas siglas para uma fusão de legendas. O negócio seria um novo partido mesmo.

"Mas temos de entender que temos de agir para que a causa da esquerda sobreviva a uma avalanche conservadora. Os partidos são efêmeros. Nenhuma estrela é importante e bonita se não brilhar", disse o petista referindo-se ao símbolo de seu partido.

A questão é que o PT e outros aliados viram seu eleitorado desmanchar na eleição municipal, no início do mês. Isso diante do crescimento de seu principal adversário, o PSDB.

Um estudo interno do PT ao qual o BuzzFeed Brasil teve acesso mostrou que, entre 2012 e 2016, os tucanos registraram um aumento de 25% nos votos recebidos entre as duas eleições municipais, enquanto o PT perdeu dois terços de seus eleitores (10,5 milhões de votos).

O PCdoB caiu 6%, o PSB, 5% e o PDT cresceu apenas 2%.

Neste grupo da "Frente Ampla" está o deputado Silvio Costa (PTdoB/PE), que durante os meses mais duros para o governo Dilma tornou-se um dos mais ferrenhos defensores da petista.

Costa, que agora votou pela aprovação da PEC do Teto dos Gastos, diz que esse novo partido teria "zero possibilidade" de ser adesista ao governo Michel Temer. "Votei pela aprovação porque a PEC é uma proposta legítima de um governo ilegítimo", explicou-se ele.

"Não tem adesista nesse grupo. Se falar a palavra 'aderir', o grupo implode. E eu sou o primeiro a sair", disse Costa.

Sem citar nome de colegas, Silvio Costa confirmou que há entre os petistas com quem se relaciona uma insatisfação com o partido, o fim do governo e, agora, o resultado das urnas. "Mas eu digo a eles que essa ideia de sair do PT agora não é boa".

Décio Lima não descartou uma possível saída do PT caso não haja a fundição com outras legendas, mas afirmou que não faria um desembarque à moda da senadora Marta Suplicy, que migrou para o PMDB atirando contra seu partido. "Não vou desembarcar sem a horizontalidade do debate. Não vou fazer como a Marta", disse ele.

O grupo agora vai tentar atrair nomes do Senado, sobretudo os notadamente descontentes com o governo e desempenho de seus partidos.

Décio Lima quer falar ainda na próxima semana com Roberto Requião (PMDB-PR), João Capiberibe (PSB-AP) e Katia Abreu (PMDB-TO). A conversa ainda não foi alinhavada pelo petista, que já encontrou dificuldade em atrair os deputados do PCdoB, como Orlando Silva (SP).

A fusão de legendas ou a criação de uma nova sigla seria a única forma desses parlamentares da "Frente" não perderem seus mandatos caso deixem seus partidos de origem. Já há entendimento da Justiça de que o mandato do deputado federal pertence à sigla e, caso ele a deixe, sua cadeira fica para o partido. No Senado, a situação é diferente; o senador migra com seu mandato para a legenda escolhida.

Para criar um novo partido, no entanto, além dos nomes de 101 fundadores, seria necessária a assinatura 430 mil eleitores para o registro.

Para criar a Rede, a ex-ministra Marina Silva teve dificuldade em obter as assinaturas, o que se arrastou por alguns anos.

Já o ministro Kassab, que começou pela articulação de seu PSD no Congresso Nacional, não teve problema em colocar seu novo partido em movimento em poucos meses

Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

Contact Tatiana Farah at Tatiana.Farah@buzzfeed.com.

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