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Como os próprios manifestantes fizeram os black blocs baixarem a bola

No protesto organizado por frentes de esquerda, jovens mascarados ficaram sob vigilância estrita de outros manifestantes. Não houve confronto.

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No protesto contra o governo Michel Temer, manifestantes ligados a frentes políticas de esquerda montaram uma tática para neutralizar adeptos da tática black bloc (que prega a ação violenta contra autoridades e contra símbolos do capitalismo) e, assim, minimizar o risco de novas cenas de violência.

O protesto de quinta (8) consistiu em uma passeata do Largo da Batata, na zona oeste de São Paulo, até a casa do presidente Michel Temer. Os manifestantes pediam a saída de Temer e eleições diretas.

Protesto vai seguir até a casa de Temer, mesmo com policiamento ostensivo, diz Boulos, do MTST.

O ato foi organizado pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, que é composta por movimentos como o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto).

Os black blocs eram “enquadrados” por militantes do MTST que não permitiram nenhum ato fora do planejado: a passeata pacífica até as proximidades da casa de Temer.

O protesto parou diante de um bloqueio policial, poucas quadras antes da casa do presidente. Um grupo de jovens, usando máscaras, não se conformava com o fim do protesto e com o monitoramento dos próprios manifestantes.

“Por que eles estão colados?”, perguntou um dos jovens. “Não sou bandido, não”, disse outro enquanto o grupo tentava organizar uma pequena reunião atrás do carro de som.

Saldo: nenhum enfrentamento.

Como funciona a contenção de provocadores.

Países com forte tradição de protestos de esquerda, como a França, desenvolveram –à custa de muito quebra-quebra no passado– uma "tecnologia" para controlar a ações que provoquem respostas violentas da polícia e, assim, protegem o conjunto dos manifestantes.

Depois do Maio de 1968, quando Paris foi sacudida por uma onda de violência civil, centrais sindicais e a polícia passaram a discutir detalhes das manifestações para evitar violência. Basicamente, as duas partes entram em acordo sobre data, hora e trajeto do protesto.

Os manifestantes são organizados dentro de um cordão, que é cercado por seguranças dos próprios sindicatos e movimentos políticos –em geral, são militantes parrudos que intimidam tentativas de manifestantes exaltados de sair do perímetro delimitado pelos organizadores e provocar a polícia.

A contenção dos black blocs na quinta e no último domingo seguiu um esquema similar, com os ativistas do MTST marcando os grupos de black blocs.

Isso foi possível basicamente porque existe uma organização e uma decisão política clara dos organizadores de evitar o confronto com a polícia.

No domingo, logo no final do outro ato organizado pelas mesmas frentes, a polícia lançou bombas, mas não há evidências de que tenha havido nem depredação nem ataque a policiais, como alegou o comando da PM nas duas versões diferentes que apresentou.

Abuso policial, como o espancamento de um jornalista identificado e o uso de gás de pimenta contra frequentadores de um bar, foi fartamente documentado em vídeo no domingo. O Ministério Público Federal passou a acompanhar a ação da polícia.

Atos sem organização clara facilitam ação de black blocs.

Os black blocs que têm se manifestado nos protestos anti-Temer parecem bem mais jovens do que os adeptos desse tipo de ação nas manifestações de 2013.

No protesto de 7 de Setembro, eles tomaram a linha de frente do ato que percorreu oito quilômetros pela região central de São Paulo. Mas a polícia ficou a distância e não houve incidentes.

Na terça da semana passada (30), véspera da votação do impeachment de Dilma Rousseff, houve um protesto que começou na Paulista, desceu a Augusta e parou na praça Roosevelt (centro).

Era um ato de secundaristas, mal organizado e sem direção clara. O acordo era pôr fim à manifestação na praça Roosevelt, mas o debate "horizontal" –isto é, sem uma liderança clara e decisão por uma assembleia improvisada de quem estava na rua– resultou numa decisão de seguirem até a sede do jornal Folha de S.Paulo.

Quando a multidão descia pela rua Rego Freitas, no centro, o BuzzFeed Brasil notou que alguns jovens, com os rostos cobertos, pegaram pedaços de pau em um contêiner de sobras de material de construção. O local estava escuro e outros manifestantes se afastaram.

Poucos metros adiante, na esquina com o Largo do Arouche, policiais prenderam uma mulher (não é possível afirmar se ela era ou não uma black bloc), e então começou o confronto.

A polícia recebeu pedras e garrafas d'água e respondeu com bombas e gás. Sacos de lixo foram incendiados, se transformando em barricadas improvisadas.

A confusão durou ao menos 20 minutos. A maioria das pessoas que participavam do protesto correu e se escondeu como pôde.

A polícia recebeu pedras e garrafas d'água e respondeu com bombas e gás. Sacos de lixo foram incendiados, se transformando em barricadas improvisadas. A confusão durou ao menos 20 minutos. A maioria das pessoas que participavam do protesto correu e se escondeu como pôde.

No final, a manifestação de algumas centenas se dispersou por ruas laterais e algumas dezenas –majoritariamente mais velha do que os secundaristas que predominavam antes– conseguiram chegar à frente do jornal para acusá-lo de golpista.

No dia seguinte, eles voltaram ao jornal. Aí houve depredação.

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Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

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