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Doleira da Lava Jato quer estrelar talk show na TV

Presa na 1ª fase da operação, Nelma Kodama quer explicar, no programa, por que ainda há tantos políticos que participaram do esquema soltos.

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Em meados de março de 2014, os jornais estampavam em suas machetes notícia dando conta da prisão, no aeroporto de Guarulhos (SP), de uma doleira tentando embarcar para Milão, na Itália, com 200 mil euros escondidos na calcinha.

Era a primeira fase da operação Lava Jato.

De lá para cá, a até então pouco conhecida Nelma Kodama foi alvo de muitas outras reportagens. Ela cantou trechos da música "Amada Amante" na CPI da Petrobras para falar de sua relação com o doleiro Alberto Youssef.

Apelidada de “Dama do Mercado”, fechou acordo de delação premiada e chegou a posar em fotos sensuais para a revista Veja, exibindo a tornozeleira eletrônica que lhe permitiu ir para a prisão domiciliar.

Agora, Nelma quer usar o que acredita ter de popularidade para estrelar um talk show na TV, no qual falará, claro, da operação Lava Jato e suas implicações.

De acordo com seu advogado, Adib Abdouni, a ideia do programa é discutir o sistema de corrupção no país, mostrar quem acabou entrando em cana sem ter participado efetivamente de crimes e até mesmo explicar por que tantos políticos citados no esquema ainda não foram presos.

O advogado diz que a proposta do talk show não surgiu da doleira, mas sim de uma produtora de vídeos, que tenta vender o pacote para alguma emissora de TV — algo que ainda não foi fechado.

Abdouni disse ao BuzzFeed News que Nelma precisa de um trabalho lícito para se sustentar e se ressocializar.

Segundo ele, a doleira já havia feito uma proposta à Justiça, que acabou não dando a autorização para o trabalho.

Nelma queria fazer consultorias a clínicas médicas. A intenção era orientar a decoração de consultórios, treinar funcionários para atendimento a pacientes e auxiliar na parte administrativa.

O pedido para este trabalho foi negado, conforme Abdouni, pois a doleira precisaria atuar em dias e horários não contemplados por seu acordo de prisão domiciliar, que a impede, por exemplo, de sair de casa aos sábados, domingos e feriados.

Dentro do projeto do talk show, o advogado tenta, agora, fazer sua adequação legal.

Por um lado, quer mostrar à Justiça a viabilidade do programa; por outro, garantir que Nelma e seus convidados não revelem dados sigilosos da investigação nem deem declarações que possam comprometer seus acordos ou os processos que ainda correm na Justiça.

A depender de decisões recentes da Vara de Execuções Penais de Curitiba, a tarefa do advogado não será das mais fáceis.

No fim do ano passado, a doleira, que foi condenada a 18 anos de prisão por crimes como corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e organização criminosa, viu negado um pedido para passar o Ano Novo no Rio de Janeiro.

Severino Motta é repórter do BuzzFeed News, em Brasília

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