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Você é alcoólatra?

Depois de anos negando a realidade, aos 35 confrontei meu alcoolismo. Eis as perguntas difíceis que tive de fazer para mim mesma para chegar a esta resposta.

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Aos vinte e poucos anos, minha vida era um grande happy hour. Margaritas com sal na borda do copo, chopes com o colarinho transbordando e aqueles shots de destilados que sempre acabam em arrependimento.

Sempre achei que as coisas fossem se acalmar depois que eu terminasse a faculdade. Mas elas só pioraram. Os bares abriram suas portas para mim, e me afundei naquelas banquetas de veludo e nos sofás de vinil rasgado.

Às vezes me perguntava se estava com algum problema. Tinha tendência a sofrer de amnésia alcoólica – esquecer das coisas que aconteceram numa noite de bebedeira, apesar de me manter surpreendentemente funcional (bem, "funcional" pode não ser a palavra certa para descrever uma pessoa que vira um copo de cerveja na própria cabeça) – e todos os panfletos, questionários médicos e testes de revista listavam amnésia como um fator de risco para o alcoolismo.

O problema com essas listas é que elas basicamente descrevem a vida de quem é jovem. Você bebe para ficar bêbado? Você já foi trabalhar de ressaca? Por que não perguntar: você já teve 25 anos?

Na década seguinte, continuei pensando no meu comportamento, as contas do bar continuaram aumentando – Patron em vez de José Cuervo – e minhas preferências foram ficando mais refinadas. Continuei argumentando para mim mesma que estava tudo bem, totalmente bem. Tá vendo aquele cara ali? Ele está no bar todas noite. Pelo menos não sou assim. Tinha um bom emprego, nunca tinha batido o carro. Mas, ainda assim, estava parada no mesmo lugar.

Ex-bêbados têm um ditado: "no começo, beber é divertido, depois é divertido com problemas, depois só sobram os problemas". Aos trinta e poucos, eu estava na fase dos "problemas".

Parei de beber aos 35 anos. Como soube que era a hora? Foi a preponderância das evidências. Algumas pessoas reconhecem o problema como se tivessem sido atingidas por um raio, mas para mim foi mais uma percepção que se apresentou lentamente. Tive de analisar os dados, reunir informações aqui e ali.

Fiz testes de saúde online. Falei com meu terapeuta. Li Alcoólicos Anônimos (a bíblia do AA) e muitos livros de memórias: Drinking: A Love Story (Bebida: Uma História de Amor, em tradução livre), e Meu Último Porre, e Smashed (que seria algo como "detonada" em português), e A Drinking Life (Uma Vida de Bebedeiras), e Bar Doce Lar. Todos contam histórias atraentes e variadas de pessoas que largaram o copo para sempre. Ouvir as histórias de outras pessoas pode ter me ajudado mais do que tudo. Quanto mais ouvia as dificuldades dos outros, mais encontrava as palavras para descrever as minhas próprias.

A seguir, uma lista de momentos em que a ficha caiu para mim. Não é uma lista definitiva; é simplesmente a experiência de uma pessoa. Preciso deixar isso bem claro. O alcoolismo, para mim, pode ser muito diferente do alcoolismo para outra pessoa. Minha definição de alcoolismo pode ser diferente da que um profissional médico tem (eles usam a frase "transtorno do uso do álcool") ou de outra pessoa que tenha problemas com a bebida. Não posso dizer que alguém tenha problema com o álcool, ou se uma determinada pessoa é alcoólatra, ou se ela precisa parar de beber. São perguntas complicadas, que você tem de responder sozinho. O que posso fazer é mostrar como eu as respondi.

O álcool está interferindo no seu trabalho?

Passei o começo da minha carreira em semanários alternativos, onde às vezes tinha cerveja na geladeira e fazíamos festa para quem chegava de óculos escuros por causa da ressaca. Esse espírito é comum em empresas com muitos funcionários de vinte e poucos anos: faça o seu trabalho e não vamos fazer perguntas.

Durante muito tempo fiz meu trabalho. Provavelmente por isso nenhum dos meus chefes me confrontou sobre minhas bebedeiras. Aos 30, já tinha alguns hábitos que deveriam gerar alerta. À noite, tinha uma garrafa de vinho na mesa. Levava meu laptop para o bar e escrevia tomando cerveja. Tinha uma quantidade insana de trabalho, e a bebida era em parte uma tentativa de aguentar o ritmo. Dizia para mim mesma que merecia beber, e o trabalho não estava sendo prejudicado. Mas aí as coisas mudaram.

Uma certa manhã, cheguei ao meu escritório, em Manhattan, às 10h30. Tinha ficado bebendo até as 4h, e meu amado editor-assistente me mandou uma mensagem no Gchat: "Talvez seja melhor você mascar um chiclete". Ele estava sentindo o cheiro do álcool, porque eu ainda estava bêbada. Outro dia, liguei para dizer que não ia trabalhar porque estava doente. A ressaca era tão forte que não conseguiria chegar até o escritório sem vomitar no metrô ou no táxi. Meus amigos do trabalho mandaram mensagens desejando que eu ficasse bem. Senti-me uma completa idiota.

Não conseguia mais escrever. Acordava às 5 horas com ataques de pânico. Se você já esteve num cargo de muita pressão, sabe que isso é parte do trabalho. Mas as peças começaram a se encaixar: a bebida ESTAVA interferindo com minha capacidade de trabalhar. Eu já não estava funcionando tão bem, e nem sei se posso dizer que estava funcionando antes.

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Você mente sobre a bebida?

Como mentir sobre o peso, mentir sobre a bebida é uma coisa que muita gente faz, mesmo que não seja alcoólatra. "Quantos drinques você tomou, querido?" "Ah, uns dois". As pessoas mentem por razões benignas (elas esquecem) ou talvez nem tanto (para evitar uma briga, para manter uma imagem perfeita). Mas com que frequência você mente? E por quê?

Eu "errava na conta" quando necessário, mas também fazia outras coisas. Em Nova York, saía para jantar com amigos, dividia uma ou duas garrafas de vinho e no caminho de casa passava na loja de conveniência para comprar umas cervejas. Mesmo depois de beber a noite inteira, precisava de mais. Às vezes me pegava contando mentirinhas para o cara da loja, dizendo que tinha amigos em casa. Por que eu estava mentindo para esse cara?

Porque eu sabia que estava fazendo a coisa errada.

Morava sozinha na época, e podia beber o quanto quisesse sem que ninguém me importunasse. Mas me sentia vigiada pelos caras da loja de conveniência, que provavelmente viram minha boca roxa do vinho e meus olhos de farol baixo. Em geral eu tentava entrar e sair da loja sem nenhum tipo de interação.

Outros humanos podem ser uma métrica valiosa para nossos próprios comportamentos. Você tem medo de que te peguem no pulo? Talvez você esteja fazendo alguma coisa errada.

Você se arrependeu de certos encontros sexuais?

De novo, pode ser a impetuosidade da juventude. Mas esses encontros também podem arrancar pedaços da alma. Nas primeiras vezes em que fiquei bêbada e passei a noite com caras, fiquei empolgada. Até mesmo depois de fazer 30 anos, achava essas colisões uma aventura, uma medida do quanto eu era desejável e fodona. Ou seja, não me arrependia desses encontros e, se a sociedade pensasse diferente, não estava nem aí.

Mas os cenários começaram a ficar mais perigosos. Acordei de uma amnésia alcoólica num quarto de hotel em Paris, transando com um estranho. Isso não era medida da minha fanfarronice, mas sim da minha absoluta falta de cuidado e de uma necessidade equivocada de me conectar. Álcool e consentimento podem ser parceiros de cama muito complicados.

Você diz “preciso de um drinque” o tempo todo?

Sei que todo mundo fala isso. Já entrei no Facebook. Pode ser outra maneira de dizer "tive um dia interminável". Ou "estou enlouquecendo". Mas percebi que precisava de um drinque em praticamente TODAS as situações. Quando estava feliz, quando estava triste, quando estava entediada, quando estava solitária. Quando estava sentada no futon, assistindo Flavor of Love (talvez só seja aceitável assistir Flavor of Love bêbado). Evitava bares lotados, em que o acesso ao garçom ou ao barman era difícil. E, quando meus amigos diziam "preciso de um drinque", eles sempre iam para o bar por algumas horas e voltavam para casa. Eu ficava a noite inteira bebendo.

Você acha difícil parar de beber depois de ter começado?

Durante anos, fui a festas jurando que ia tomar só um drinque, mas voltava para casa depois de oito. Mas que diabo? Eu era uma pessoa de palavra. Tinha (um pouco de) disciplina. Bom, para começar, o álcool tira a inibição e atrapalha o discernimento; todo mundo tem dificuldade de cumprir promessas depois de beber. Mas o mais importante: meu corpo respondia ao álcool de forma diferente das outras pessoas.

Tenho amigos que ficam derrubados depois de dois drinque. Amigos que tomam uma taça de vinho e dizem chega. ("Chega"? O que é "chega"?) Nunca entendi. Álcool, para mim, era como cocaína, e provavelmente por isso nunca quis experimentar cocaína. O álcool acendia alguma coisa dentro de mim; eu ficava acordada a noite inteira.

A primeira vez que li a frase "o fenômeno da ânsia" foi em Alcoólicos Anônimos. Assim que vi essas palavras, soube exatamente o que elas descreviam, uma sensação que conhecia havia anos. Quando bebia, precisava de mais. Se estava bebendo e era interrompida por alguém – acabou a bebida da festa, ou íamos para outro lugar – sentia a coceirinha que imagino que os fumantes têm quando precisam de um cigarro. Eu era a pessoa da festa procurando os destilados quando acabava o barril de chope. Era a pessoa que martelava a rolha pra dentro da garrafa quando ninguém encontrava um saca-rolha.

Para mim, "não consigo parar" é uma das distinções-chave entre "problema com bebida" e "alcoolismo". Outras pessoas têm suas próprias definições, mas essa é a minha. Quando você tem um "problema com bebida", há esperança de voltar, de moderar o comportamento. Com o alcoolismo, não. Não dá para moderar, porque uma dose nunca vai ser suficiente. É por isso que sua melhor estratégia de defesa é nunca mais começar a beber – exatamente o que nenhum alcoólatra quer ouvir.

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Você está sempre inventando novas maneiras de controlar o quanto bebe?

Uma lista curta das coisas que já fiz para tentar controlar o quanto bebia: parei de tomar destilados marrons, como uísque; bebia só nos fins de semana; parei de tomar vinho tinto, só tomava branco; só começava a beber depois das 17 horas; tomava um copo d'água depois de cada drinque; parei de tomar shots de destilados. Nada disso funcionou. Ou melhor: funcionou durante uma semana, ou um ano, mas sempre tinha recaídas.

Uma certa noite, desesperada para ser salva por alguém, liguei para uma mulher que tinha experiência com esse negócio. "Mas eu simplesmente não SEI se sou alcoólatra", disse para ela. Não tinha exame de sangue, nem teste caseiro. Dependia de mim.

Ela disse para eu tentar beber com controle. Gostei da ideia. O experimento de "beber com controle" – durante seis meses, você só toma de um a três drinques, sem desculpas – é um teste maravilhosamente prático de saber se você tem um problema. Fui reprovada em três dias. Tentei de novo e bombei em uma semana. Aí parei de fazer o teste. Tomar só duas ou três cervejas numa noite parecia segurar a respiração embaixo d'água. Eu odiava. Precisava de mais. Não parei imediatamente depois. Ainda passaria um ano de luto, agarrada ao copo. Mas ficou claro que eu não ia me curar sozinha.

Existe um ditado comum na literatura do vício: "A genética carrega a arma, e o ambiente puxa o gatilho". Tenho descendência de duas culturas que bebem muito: irlandeses e finlandeses. (Se você não sabe se sua herança genética tende ao desvario alcoólico, dê uma olhada nessa lista dos países que mais bebem no mundo. Meus sentimentos a quem é da Europa Oriental.) Meus pais não bebiam muito quando eu era criança, mas embaixo da minha árvore genealógica tem um monte de garrafas vazias. No começo, minha predisposição genética para beber era incrível. Eu era a "menina que segurava a onda" (mas depois da uma da manhã tinha a tendência de derramar muita bebida).

No fim das contas, era um alvo pintado na minha testa. "A menina que segura a onda" e "o cara que toma todas" acabam num salão iluminado por lâmpadas fluorescentes, sentados em cadeiras dobráveis de metal.

Qual é o histórico da sua família?

Existe um ditado comum na literatura do vício: "A genética carrega a arma, e o ambiente puxa o gatilho". Tenho descendência de duas culturas que bebem muito: irlandeses e finlandeses. (Se você não sabe se sua herança genética tende ao desvario alcoólico, dê uma olhada nessa lista dos países que mais bebem no mundo. Minhas desculpas a quem é da Europa Oriental.) Meus pais não bebiam muito quando eu era criança, mas embaixo da minha árvore genealógica tem um monte de garrafas vazias. No começo, minha predisposição genética para beber era incrível. Eu era a "menina que segurava a onda" (mas depois da 1h tinha a tendência de derramar muita bebida).

No fim das contas, era um alvo pintado na minha testa. "A menina que segura a onda" e "o cara que toma todas" acabam num salão iluminado por lâmpadas fluorescentes, sentados em cadeiras dobráveis de metal.

Seus amigos já te confrontaram sobre a bebida?

Essa me marcou. Até meus amigos começarem a falar sobre meu problema, estava convencida de que éramos todos basicamente iguais. Todo mundo bebe assim, né? Todo mundo acha engraçado quando estou bêbada, certo? Não e não. Tive a sorte deles não me abandonarem. Um casal de amigos me chamou para uma conversa. Disseram que estavam preocupados comigo. Era a frase que meus amigos sempre usavam: preocupados comigo. Eles não contavam meus drinques, o que me faria brigar com eles. Eles nem sequer diziam: "Você está bebendo demais". Eles diziam: "Estou com medo que aconteça alguma coisa com você" e "Me preocupo com você". No começo fiquei com raiva. Porra. Eles também bebiam. Mas não como eu. Eu estava perdendo o controle, e eles fizeram o favor de me dizer de maneira gentil, amável e sincera.

Você tem amnésia?

Durante décadas, a comunidade médica achou que amnésia era um sinal certeiro de que você acabaria virando alcoólatra. Pesquisas mais recentes sugerem que a ligação não é tão direta. Em um estudo de 2002 da Universidade Duke, mais da metade dos bebedores disseram ter tido amnésia. Elas são muito comuns na vida universitária, com festas frequentes, competições para ver quem bebe mais e o hábito de beber de barriga vazia (tudo isso significa risco de amnésia).

Portanto, um ou outro episódio de amnésia não significa necessariamente um problema. Mas amnésias frequentes – ao longo dos anos, ou tê-las mesmo que você se esforce no sentido contrário – sugerem incapacidade de se controlar, que é o ponto fundamental da questão. A amnésia sugere que você continua se arriscando, apesar das potenciais consequências terríveis. Vamos deixar bem claro: não tem graça e não é OK ter amnésia alcoólica.

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Você passa muito tempo se perguntando se tem problema com a bebida?

É saudável questionar de vez quando seu consumo de álcool. Mas uma obsessão com o assunto sugere menos ambivalência e mais negação da realidade. Quem não tem problema não ficam acordado lendo tudo sobre o assunto na internet. Quem não tem problema raramente passa uma tarde inteira de domingo lendo teorias sobre o vício.

Se você é essa pessoa, o que posso te dizer? Provavelmente nada que você já não saiba. Contei para uma amiga que estava escrevendo este artigo e perguntei o que ela gostaria de saber na época em que tentou parar de beber. "Ah, não perguntei para ninguém se eu tinha um problema com a bebida", disse ela. "Eu sabia a resposta."

No fim, eu também sabia. Só queria uma resposta diferente. Queria que a resposta fosse: "Eis um comprimido milagroso". Ou "Tome esse suco de vitaminas". Qualquer coisa, QUALQUER COISA a não ser "pare de beber". Se você bebe, quer beber. Não precisava de outro teste. Não queria me consultar com outro profissional. O que eu precisava era ouvir alguém me garantindo que a vida não acabaria.

Então deixa eu te garantir uma coisa: não chega nem perto disso.

O livro de memórias de Sarah Hepola, Blackout: Remembering the Things I Drank to Forget (amnésia: lembrando as coisas que eu bebi para esquecer, em tradução livre), foi lançado em 23 de junho, pela editora Grand Central. Ela é editora de ensaios pessoais na Salon.

Thumbnail via ruslansemichev/ThinkStock

Sarah Hepola is the author of "Blackout: Remembering the Things I Drank To Forget," which comes out June 23. She is also the personal essays editor at Salon.com.

Contact Sarah Hepola at sarahhepola@gmail.com.

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