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Como é namorar sendo uma mulher transgênera

Mulheres trans aprendem a se sentir gratas por qualquer migalha de afeto. Em minha vida amorosa, já fui relegada a um papel de professora e terapeuta – e muitas vezes temi pela minha segurança.

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“Tenho que te contar uma coisa”, eu disse. Ele olhou para mim, apertando os olhos. Tínhamos acabado de nos conhecer, então só posso imaginar as infinitas possibilidades que passavam pela cabeça dele. Ele acabara de se mudar de Chicago para Atlanta (EUA) e tinha essa postura estereotipada de macho. Era lutador amador de MMA, veio da periferia aparentemente foi membro de uma gangue, como descobri mais tarde.

Não que eu necessariamente tenha me sentido ameaçada por ele, mas conhecia as estatísticas. Sabia o que acontecia com meninas como eu. Somos as mulheres que os caras amam às escondidas. Somos aqueles segredos inconfessáveis, só recebemos telefonemas tarde da noite. Podemos ser lindas, inteligentes ou bem-sucedidas, mas temos de nos contentar em ser nada mais que receptáculos para os desejos e as inseguranças dos homens.

Pensei no pior, mas disse assim mesmo: “Sou uma mulher transgênera.”

Enfatizei a parte da mulher. Mas isso não impediu a expressão de profunda confusão que tomou conta do rosto dele.

“Então, você é homem?”, perguntou ele. “Você sabe o quanto você é sortudo que eu não sou, tipo, louco? Porque conheço vários caras que te encheriam de porrada.”

“Não, sou mulher, mulher transgênera”, respondi, tentando fazê-lo entender.

No entanto, sabia que não importava o que eu dissesse. A imagem que ele tinha de mim mudou, não havia mais volta.

Quando fui embora da casa dele, no meio da noite, prometi que nunca mais me colocaria numa situação de perigo como aquela. E, mesmo que agora eu me certifique de que as pessoas saibam da minha identidade antes de estarmos a sós, ainda existem alguns aspectos dessa interação que parecem surgir na minha vida amorosa, não importa as
precauções que eu tome.

Apesar do equívoco generalizado de que as pessoas transgêneras fazem a transição para obter aprovação ou aceitação de futuros parceiros sexuais, quando fiz a minha não havia nada que me assegurasse que eu seria considerada desejável. Não sabia se um dia teria a chance de ser amada. Pensei: “quem vai me querer?

Namorar é difícil para a maioria das pessoas. Mas, quando você é trans, é difícil de uma maneira completamente diferente. É muito simples internalizar os pressupostos de que
somos fac-símiles rudimentares das pessoas que realmente queremos ser, ou que
assumimos um estilo de vida que se baseia inteiramente na mutilação de nossos
corpos “criados por Deus”. Ser uma pessoa não branca que flutua entre o
mundo gay e o mundo hétero aumenta ainda mais essa pressão. Muitas vezes tenho de fazer malabarismo com as preocupações e os preconceitos simultâneos dos outros a
respeito de gênero, sexualidade e raça.

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Fico surpresa com a frequência com que encontro pessoas normalmente homens cis que não entendem o que significa ser transgênero, mesmo em um mundo em que Caitlyn Jenner (celebridade e ex-atleta norte-americana) e Laverne Cox (atriz norte-americana) estão nas manchetes. A maré está virando aos poucos, mas lidar com esses parceiros em potencial é difícil porque muitas vezes tenho de servir de terapeuta e professora.

Como com esse cara vamos chamá-lo de J. Ele estava muito afim de mim, mas levou alguns meses para admitir. J era bem homofóbico e transfóbico quando o conheci, o que ele atribuiu à sua educação. Ele é negro, de ascendência jamaicana, e costumava explicar que o fato de ter sido criado por uma mãe solteira significava uma pressão extra para que ele fosse certo tipo de homem.

Tínhamos muita química, mas ele não era capaz de entender como constantemente invalidava minha identidade. E, para que fique claro, não preciso de validação constante da minha feminilidade, mas preciso de respeito o que J não estava preparado para dar. Ele fazia piadas sobre mim, como eu “era homem”, criticava meus textos, meu ativismo e até mesmo a maior das ofensas usou meu nome de batismo em nossas brigas. Foi demais para mim.

É exaustivo e injusto ter de me definir e me explicar o tempo todo. Sinto que tenho de compartilhar a história da minha vida inteira logo de cara algo que aprendemos a evitar nos primeiros encontros para não deixar a outra pessoa acuada. Depois de uma série de encontros e situações não muito diferentes da interação que tive com o lutador de MMA, precisei pensar seriamente no risco de não revelar que sou trans. Descobri que é importante contar logo, porque vivemos em um mundo em que o pânico em relação às pessoas transsexuais serve como justificativa para a desvalorização e até a agressão contra as mulheres trans.

Em 2015, pelo menos 18 mulheres trans foram mortas nos Estados Unidos. Várias outras foram atacadas ou tentaram o suicídio. Raramente discutimos o fato de que muitas vezes as mulheres trans são assassinadas por amantes, parceiros românticos ou sexuais, como Ty Underwood, uma mulher negra trans que teria sido assassinada a tiros por um homem com quem teve um breve relacionamento. Mais ou menos uma semana depois, Yazmin Vash Payne teve um destino semelhante: foi esfaqueada pelo namorado.

Um dos meus maiores medos é virar estatística: uma pessoa cujo gênero será identificado incorretamente pelos meios de comunicação, levando o público a acreditar que, de alguma forma, eu merecia perder a vida.

Na esteira dessas tragédias, tento sufocar meus próprios sentimentos de medo e vergonha assim que conheço alguém. Hoje em dia, normalmente me abro por mensagem de texto ou em meus perfis on-line. Não é muito pessoal, mas diminui os riscos.

Às vezes, a resposta é positiva. Algumas pessoas homens e mulheres perceberam que sou trans antes mesmo de eu contar. Outras vezes, namorados em potencial pareceram sentir pena de mim e se parabenizaram silenciosamente por se dignar a sair comigo; passei a prestar mais atenção no valor que dava aos cis que ousavam me considerar digna de sua atração. Em outras situações, a resposta particularmente dos homens cis era esmagadoramente negativa: “Se soubesse, jamais teria perdido meu tempo” ou “Como você achou que eu estaria interessado nisso?” ou “Não sou gay.”

Essas ideias equivocadas não afetam negativamente apenas as mulheres trans envolvidas. A atriz Laverne Cox falou sobre o estigma em torno de homens que amam mulheres trans. Embora eu não concorde necessariamente que eles sejam mais estigmatizados do que as mulheres reais com quem estão envolvidos, sei que eles lidam com sua própria luta.

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Quando surgiu a informação de que o rapper Tyga foi preso em um escândalo com a modelo transexual Mia Isabella, por exemplo, as mídias sociais fizeram a festa. Como ele circula pelo mundo hipermasculino do hip-hop, esse momento destacou os problemas profundamente enraizados que nossa sociedade tem com os homens atraídos pelas mulheres trans. Elas continuam sendo descritas como “homens de vestido” então, quando os homens nos amam, há uma preocupação com a (potencialmente) identidade sexual complicada deles.

Muitos héteros continuam achando que a atração que sentem por mulheres trans significa que eles são homossexuais (ou então eles acham que não podem sentir atração por mulheres trans porque insistem que não são homossexuais). Mas, na verdade, as pessoas sentem atração antes mesmo de saber que genitais a outra pessoa tem. A maioria dos cisgêneros não anda ativamente buscando um tipo específico de genitália eles simplesmente se interessam por, e começam a namorar com, pessoas que têm o tipo que eles estão acostumados. Por extensão, os homens héteros cisgêneros que sentem atração por mulheres trans sentem essa atração porque as mulheres trans são mulheres. Confundir gênero e sexo é um problema para todos nós.

No começo eu tinha essa ideia, como muitas outras trans: se você simplesmente permitir que um parceiro em potencial te conheça, o fato de você ser trans acaba desaparecendo. Às vezes acontece, com certeza. Mas, muitas vezes, não. Normalmente você tem que escalar essa montanha enorme de estigma e vergonha junto com a pessoa antes de vislumbrar uma verdadeira conexão.

Algumas coisas jogaram a meu favor. Alcançar padrões convencionais cisnormativos de beleza me deu mais acesso social a parceiros potenciais do que muitas outras pessoas trans. Definitivamente, são caras que me encontram e que expressam, no mínimo, estarem abertos para continuar conversando comigo. Eles dizem: “Uau, você não parece com nenhuma outra trans que eu já vi” ou “Bom, mas você ainda é bonita”. Estaria mentindo se não admitisse que, de alguma forma, esses comentários me fazem sentir bem mas, quando penso no espacinho em que tenho de me encaixar para ser desejada e amada, não me sinto nada bem.

Pode parecer que eu teria mais sucesso se evitasse o mundo dos relacionamentos hétero, mas namorar no mundo gay também não é fácil. Definitivamente existem pessoas (tanto cis como trans) que claramente não estão interessadas em mulheres trans ou dizem que são por influência política ou social, mas não nos procuram ativamente.

Os círculos de mulheres gays estão particularmente infestados pela transmisoginia. Ser uma “lésbica 100%” significa nunca ter tido relações sexuais com homens ou com um pênis. As lésbicas têm que ter um determinado corpo e só fazer sexo com certos corpos para serem consideradas as “melhores” gays o que não apenas causa vergonha nas mulheres trans, mas também envergonha as mulheres que as amaram.

Assim como quem descarta potenciais parceiros com base na raça deveria pensar de onde vêm essas “preferências”, quem automaticamente descarta todas as pessoas trans deveria fazer uma reflexão.

Tanto gays como héteros que se recusam a namorar as pessoas trans se baseiam no argumento de que todos podem preferir determinados tipos de genitais. Claro, todos têm direito a preferências sexuais, mas é temerário descartar categoricamente todas as mulheres trans com essa premissa. Como sociedade, todos devemos nos estimular a refletir sobre o porquê dessas preferências, particularmente no que diz respeito às pessoas trans.

Quando ouço que alguém não quer transar com uma mulher trans por causa de seu pênis uma lésbica que quer manter seu status de “100%” ou um hétero que insiste não ser “gay”, por exemplo , ouço os pressupostos sobre como esse sexo se desenrolaria. Muitas mulheres trans que têm pênis não estão interessadas em validar essa parte do corpo durante o sexo, e há muitas maneiras de ser respeitoso em relação a isso. E nem todas as mulheres trans têm a mesma configuração genital ou história cirúrgica nossos corpos são todos diferentes. Quando se trata da cultura feminina gay, em particular, muitas lésbicas lidam com traumas do patriarcado de forma equivocada, atacando noções essencialistas de masculinidade. Mas o pênis não é um elemento essencial da masculinidade pode coexistir linda e confortavelmente com a feminilidade em um só corpo.

Assim como quem descarta potenciais parceiros com base na raça deveria pensar de onde vêm essas “preferências”, quem automaticamente descarta todas as pessoas trans deveria fazer uma reflexão.

Ao longo dos anos, conversei com pessoas que sugeriram que eu procurasse apenas o tipo de pessoa particularmente interessada em mulheres trans, o que chamamos de "chasers". Embora exista muita gente capaz de valorizar uma mulher trans em sua totalidade, outros só dão valor ao elemento sexual de suas relações potenciais conosco. Os "chasers" de trans costumam ter seus desejos guiados pela indústria pornô, pela sexualização excessiva dos trans na mídia e pela longa história das mulheres trans relegadas ao trabalho sexual. Exista ou não em um desses domínios, a mulher trans merece ser considerada mais do que um brinquedo sexual vivo.

Encontrei alguns "chasers", e a experiência é quase sempre a mesma. Eles adoram fazer perguntas sobre nossos órgãos genitais, presumem que você tem um pênis e que está disposta a usá-lo. E tem pouquíssimo respeito pela questão muito real da disforia, vivida por muitas pessoas trans.

Não é incomum encontrar casais cis-héteros que querem que as mulheres trans sejam seu “unicórnio” na cama. Com certeza não sou contra ménages mas não é fácil lidar com o fato de ser um acessório para a experiência dos outros por causa do seu corpo.

E tem os “experimentadores”. Os que dizem: “Nunca fiquei com uma menina como você, mas sempre tive vontade”.

Conheci um cara que queria ficar comigo, mas, quando discutimos se ele já tinha namorado uma mulher trans a sério, a história era completamente diferente. Ele não tinha problema nenhum em transar e sair com trans, mas não as via como parceiras reais. Além de se preocupar com o que sua família e amigos pensariam, ele decidiu que, como as mulheres trans não podem ter filhos, ele não queria um relacionamento sério. Acho difícil acreditar que esse tipo de homem trataria as mulheres cis da mesma maneira se elas não pudessem ter filhos.

Pode parecer que namorar com uma mulher trans sempre envolve tragédia ou corações partidos, mas nem sempre é o caso. No último ano, tenho encontrado mais parceiros em potencial que me valorizam por quem eu sou, não por estereótipos preconcebidos. Namorar tem mais a ver com compatibilidade geral do que com o que está (ou não está) lá embaixo.

Um cara com quem saí alguns meses se esforçou muito para superar suas dificuldades. Brigamos muito, mas com o tempo ele conseguiu entender alguns detalhes importantes sobre identidade de gênero e orientação sexual. Certa vez, fomos a uma livraria e ele me surpreendeu escolhendo "Redefining Realness" (Redefinindo o que é Real, em tradução livre), de Janet Mock, e lendo o livro inteiro. Depois, ele veio cheio de perguntas para provar o quanto ele havia mudado desde quando nos conhecemos. São pessoas assim dispostas a aprender que me dão esperança.

O fato de que muitas trans estão saindo do armário ajuda. Hoje em dia existem exemplos de pessoas trans em relacionamentos saudáveis,​ trabalhando para mudar a narrativa de que não podemos ser amadas. O mundo está vendo nossos “eus” plenamente realizados. A sociedade está percebendo que as trans não foram moldados na mesma forma. Somos tão diversas quanto qualquer outra população.

E, sem querer causar histeria generalizada, mas para qualquer um que possa ter pensado o contrário: trans podem ir a qualquer lugar frequentado por cis. Estamos em toda parte. Aquela pessoa trans que você conheceu, que pode ter te interessado, provavelmente tem uma história rica e interessante, bem como uma visão única e esclarecedora do mundo. Ela provavelmente teve uma longa e intensa jornada de autodescoberta, que não deve ser minimizada ou descartada.

Com o tempo, imagino que veremos um mundo que valoriza a nossa autenticidade e acaba com a vergonha xenófoba direcionada a nós e a quem nos ama. Se continuarmos a empoderar as trans, também fortaleceremos a humanidade como um todo. Ninguém deveria ser obrigado a viver ou a amar escondido.

Este post foi traduzido do inglês.

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