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O que a desistência de Fabiana Cozza em interpretar Dona Ivone Lara pode nos ensinar sobre racismo

Entenda todos os lados dessa história e o que são "pessoas retintas" e "colorismo".

publicado

Na última quarta-feira, dia 30, a cantora e atriz Fabiana Cozza anunciou nas suas redes sociais que aceitou o convite para interpretar Dona Ivone Lara no espetáculo "Dona Ivone Lara - O Musical".

Facebook: fabianacozzacantora

Porém, a notícia recebeu algumas críticas, já que Fabiana, que é negra e se declara como tal, mas tem a pele mais clara, iria interpretar uma mulher negra de pele mais escura.

Fabiana Cozza, atriz convidada a interpretar Dona Ivone Lara no musical da Dona Ivone Lara //// real Dona Ivone Lara

As opiniões contrárias levaram Fabiana Cozza a renunciar ao papel neste domingo (3). A cantora publicou um longo texto em que enfatizou suas origens e lamentou que num dia "dormiu negra e no outro acordou branca".

Facebook: fabianacozzacantora

Nessa história surgiram muitos pontos de vista e detalhes complexos sobre racismo. Aqui estão alguns dos principais:

1. Por mais que muitas pessoas tenham questionado se Fabiana é mesmo negra, o principal debate levantado por ativistas negros foi o COLORISMO.

@mulatanao @kevonymartins A Fabiana Cozza nao é branca. Temos que aproveitar a oportunidade para discutir o colorismo. É um equivoco colocar uma preta clara para interpretar a Dona Ivone.

2. Colorismo é o termo utilizado para se referir ao fato de que a tonalidade da pele de uma pessoa negra vai determinar como ela será tratada. Quanto mais escura, maior o preconceito.

Quando uma pessoa negra de Tom escuro não é representado por sua real tonalidade isso é um embranquecimento da sua origem, cultura e perda de si, não compactuem com essa ideias

3. Ou seja, não estava em discussão o talento de Fabiana, mas sim como o racismo exclui pessoas negras de pele mais escura (ou retintas).

Facebook: recine12

4. Por outro lado, falar que Fabiana é branca também é um reflexo do racismo e do colorismo. No Brasil, é comum chamarem um negro de pele clara de branco, uma vez que, por séculos, ser negro foi e ainda é considerado uma ofensa por muitas pessoas. Fabiana é uma referência justamente por enfatizar a sua negritude. Negar que a cantora é negra seria mais um processo de embranquecimento.

Eu conheci o trabalho de @FabianaCozza há mais de uma década. A voz dela estava num rol de artistas que me ajudavam a conhecer, compreender e processar a minha iniciação como filho de orixá. Fabiana sempre foi uma referência negra na minha vida.

5. Da mesma forma que escalar Fabiana para o papel também é visto como um processo de embranquecimento, já que ela é mais clara.

Embranquecimento e Colorismo: estratégias históricas e institucionais do racismo brasileiro #geledes #embranquecimento https://t.co/sOPUbMztWs https://t.co/uT3vlRuzyR

6. O produtor do espetáculo, Jô Santana, também publicou um longo texto no Facebook. Ele disse considerar as reivindicações legítimas e comemorou o fato do teatro ser uma ponte para importantes debates. Mas lembrou que Fabiana Cozza foi escolhida e indicada pela própria família de Dona Ivone Lara.

Facebook: MusicalDonaIvoneLara

Esse é um debate antigo dentro do movimento negro. Se podemos tirar alguma lição dessa história, ela é: o racismo afeta todos os negros, mas de formas diferentes.

Colorismo não tá aí só pra gente falar "sou negra sim, colorismo!!!", mas pra entender como o racismo estrutural afeta todos nós sim, mas de maneiras diferentes.

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