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As mulheres das subculturas londrinas na década de 80 e agora

Em 2014, o BuzzFeed News ajudou uma fotógrafa a reencontrar mulheres que ela havia retratado em clubes e pubs de Londres há mais de 35 anos. Neste post, elas explicam como suas vidas mudaram.

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Em 1980, a então jovem fotógrafa Anita Corbin começou a tirar fotos de outras mulheres nos pubs e boates de Londres, documentando as vidas “invisíveis” de várias subculturas da capital. Após 9 meses de trabalho, o projeto foi transformado em uma série, Visible Girls (Garotas Visíveis, em tradução livre), que mostrava um pouco do mundo punk, mod, skinhead, rasta e roqueiro britânico.

A exposição Visible Girls, composta de 28 retratos duplos, rodou o país nas décadas de 1980 e 1990, sendo recebida como uma importante contribuição para a história social, ao retratar as jovens integrantes das tribos urbanas. Porém, com o tempo, Corbin acabou perdendo o contato com essas mulheres.

Então, em 2014, o BuzzFeed News publicou uma série de fotos de Corbin que haviam sido compartilhadas no Tumblr. O post acabou sendo um catalisador para que a fotógrafa reencontrasse as garotas – todas agora mulheres de meia idade. Uma a uma, elas entraram em contato novamente com a artista, que decidiu retratá-las novamente.

Corbin já entrou em contato com 70% das mulheres e entrevistou mais de um terço para uma exposição que foi inaugurada em julho na galeria Artlink, em Hull, e que rodará o Reino Unido. “Era meio que um sonho antigo”, disse Corbin disse ao BuzzFeed News. “Tentei fazer isso em 1991, mas não consegui encontrar nenhuma delas. Os números de telefone não eram mais os mesmos ou elas tinham se mudado, por isso deixei para lá por 25 anos. E foi só quando a matéria do BuzzFeed saiu que eu pensei: Agora isso é possível.”

Algumas das mulheres da série original não se viam há décadas e se reencontraram por causa do projeto de Corbin. Uma delas, Mary, que fazia parte de uma dupla de mods, pesquisou “mod” no Google para encontrar o nome de uma música e encontrou o artigo do BuzzFeed, antes de entrar em contato com Corbin. Por acaso, Sandra, sua dupla, também entrou em contato com a fotógrafa dias depois.

“Elas puderam se reencontrar por meio do projeto Visible Girls, o que, de certa maneira, é a razão da sua existência”, afirmou Corbin. “Sabe, reavivar essas antigas amizades, aqueles laços fortes entre jovens mulheres, aquela noção de ‘eu e ela contra o mundo.’”

“É algo muito estimulante e empolgante, poder ser um catalisador para que essas pessoas se reencontrem e se reconectem com seu ‘eu’ mais jovem.”

“Não é simplesmente dizer ‘como as coisas eram maravilhosas antigamente’, é sobre se conectar com uma versão mais jovem de si mesmo. Era um período de início de uma nova fase em nossas vidas.”

Abaixo, algumas das mulheres retratadas na exposição contam suas histórias, com suas próprias palavras:

Carrie Kirkpatrick (à esquerda): Eu conheci o punk quando tinha 12 anos e fiquei louca com aquilo. Era aquela energia extraordinária, uma válvula de escape das situações complicadas em casa. Eu não entendia o real significado do punk, mas achava aquilo muito empoderador. Ir a shows, beber e se drogar era empolgante, uma outra identidade que era a minha cara. Eu me sentia livre.

Eu estava tão envolvida com o punk que comecei a ter problemas com a polícia. Naquela época, rolou uma volta do movimento skinhead, e Gill sugeriu que entrássemos nessa. Era mais fácil participar daquela cena, e não tivemos mais nenhum problema porque os skinheads eram naturalmente mais estruturados, não era tanta loucura. Tudo era mais organizado, com roupas mais arrumadas, cabelos penteados e unhas bonitas. Talvez por causa da sua origem na classe operária, era muito mais “certinho”.

A política na época era algo horrível. Eu vivia no sul de Londres – cresci cercada por uma visão de direita, e a razão disso era sociológica. O sul de Londres recebia muitos imigrantes, principalmente em certas áreas, por isso havia essa atitude de “eles e nós”. Passei muito tempo me certificando que consegui desprogramar o meu condicionamento com relação ao racismo. Em nosso grupo de skinheads, tínhamos consciência que isso [racismo] estava em toda a parte, mas nós realmente não nos importávamos com essas coisas. Fico atenta às pessoas que continuam como eram naquela época.

Gill Soper (à direita): Era divertido ser skinhead. Era rebelde e diferente. Entre 78 e 79 você tinha muitas opções [de subculturas] para poder escolher: punk, disco, reggae, o ressurgimento do mod, 2 Tone. E quando você é jovem, é volúvel e acaba sendo atraído por novidades, o que para nós era ser skinhead. Todo mundo que conheci tinha sido punk um dia – antes de raspar a cabeça e usar jeans e suspensórios.

O que me atraiu foram as roupas – bem, para falar a verdade, a princípio foram os caras. Mas as roupas, a música e a atitude não ficavam muito atrás. Era um visual “durão” – não era agressivo, mas era forte. Quando saíamos todos juntos, era muito bom. Todos mandávamos fazer nossas roupas. Havia as camisas, o corte de cabelo e os sapatos. Mas eu não achava que os skinheads eram a minha família. Havia aquela sensação de pertencer ao grupo, mas era mais como uma válvula de escape. Acho que as roupas, a música, a cena, o grupo, tudo oferecia um pouco de estrutura.

Originalmente eu era punk, mas eu não podia mergulhar fundo nesse estilo porque também gostava de discoteca. Se você aparecesse em um evento disco com um moicano azul, não seria muito bem-vinda.

Susan Stecker (à direita): [Minha irmã Linda e eu] não fazíamos parte de nenhuma subcultura, na verdade. Na época eu tinha 16 anos, jovem demais para compreender o que eram as subculturas. Mas não tínhamos medo dos punks e nem atravessávamos a rua quando víamos um. Não me lembro de alguma vez ter ficado com medo ou me sentido intimidada ao andar por Londres. Na verdade, acho que tínhamos medo de poucas coisas. O mundo era muito menos assustador na época – isso ou era apenas a coragem da juventude!

Havia muitas pessoas [no nosso grupo social], mas eu era jovem e ainda não havia descoberto quem realmente era e gostava de um monte de coisas diferentes. Foi a época que eu comecei a sair.

Vestíamos o que estivesse na moda – acho que o pulôver que estou usando é da rede de lojas Miss Selfridge, mas também comprávamos muita coisa em lojas locais. Acho que eu ainda não vivia em boates nessa época, olhando bem para o que estou vestindo nessa foto – caso contrário eu não usaria essa jaqueta horrível!

Muitas boates tocavam disco, mas eu também gostava de Spandau Ballet, Adam and the Ants, Heaven 17, David Bowie, então era meio que o início, acho, dessa nova onda romântica. Eu tinha o meu próprio aparelho de som que tocava cassete e vinil e vários discos de singles.

Linda Robinson (à esquerda): Eu me lembro quando tiramos essa foto, mas só a vi pela primeira vez 30 anos depois, quando estava no Facebook. Morri de rir. Tive de ligar para Susan. Falamos: “MEU DEUS! QUE LOOK HORRÍVEL!” Meus filhos ficaram se perguntando sobre o que eu estava me esgoelando no telefone às 7h da manhã.

Durante a adolescência, eu adorava tirar fotos – a estação de Southgate tinha uma cabine fotográfica que sempre atraía uma multidão. Eu tinha uma máquina Instamatic – eu sempre ia a uma loja da Boots revelar minhas fotos. Se tirasse uma foto que não gostasse, eu simplesmente rasgava a foto e ninguém nunca a veria, mas isso é diferente para minhas quatro filhas. Eu vejo o estresse pelo qual elas passam, olhando fotos suas nas mídias sociais, preocupando-se em não estarem bonitas. Hoje, se alguém tira uma foto sua, ela estará para sempre na internet.

Somos judias, então essa era o nosso grupo. No início da adolescência, íamos ao McDonald’s, à sorveteria Baskin Robbins em Golders Green, a pubs… mas não bebíamos, ficávamos do lado de fora. Íamos a Hampstead e nos encontrávamos em uma cafeteria chamada Milk Churn, para comer salada ou tomar sorvete, e ficávamos lá a noite inteira, conhecendo pessoas novas, principalmente meninos.

Charlotte Wager (à esquerda): Tessa e eu vivemos em lados opostos do mundo atualmente, mas mantivemos contato e nunca me esqueci da fotografia original, bem como daquela época.

Lembro-me da sensação de ser mod: empolgante, parte de algo realmente legal, um clube, uma equipe, algo que você aguardava com expectativa, planejava, se arrumava para aquilo. Essa sensação era muito mais sobre a minha juventude, do que onde estou agora – em parte porque aquela sensação também era sobre ser jovem e não ter preocupações. Obviamente não é como me sinto agora. O que não significa que eu seja infeliz, mas minhas amizades e o que me motiva hoje em dia são completamente diferentes.

A empolgação possui uma qualidade diferente atualmente. Eu corro maratonas, o que pode ser muito solitário, mas sinto a mesma empolgação com os treinamentos e a corrida. Tenho um grupo de amigos de corrida adorável, composto inclusive por muitas mulheres, apesar de não nos socializarmos. Talvez parte disso seja porque me sinto uma mulher bem-sucedida, já estabelecida, então mesmo amando minhas amigas, não preciso de uma rede de mulheres para me apoiar e me dar confiança como precisava no passado.

Na década de 1980 eu ainda era mod, mas também tinha me tornado uma líder juvenil da Campanha pelo Desarmamento Nuclear. Eu curtia muito o ativismo político, fazer campanhas e organizar marchas, debates no país todo. Havia um pouco de tensão entre esse grupo mais político e o grupo de mods, mas eu era apaixonada por ambos e consegui levar os dois.

Tessa Morton (à direita): [Charlotte e eu] nos envolvemos com a turma dos anos 60 quando tínhamos 16 e 17 anos. Depois entramos para a turma das scooters. Adorávamos o fato de ser um grupo arrojado. Não queríamos que as pessoas soubessem que éramos de classe média [risadas], queríamos ser vistas meio que como personagens do filme Quadrophenia. Mas voltávamos para casa para agradáveis almoços de domingo, camas quentinhas e pais que não sabiam o que andávamos fazendo.

A Motown dos anos 60 – curtíamos muito isso, e garotos de scooters eram parte daquela cena. Tínhamos de subir na garupa das scooters deles porque as melhores boates ficavam espalhadas por Londres. O único problema era que, após chegar lá, se os meninos decidissem ir embora, você ficava ilhada. Charlotte e eu pensamos: ‘Tudo bem, vamos arranjar scooters então – e poderemos ir aonde quisermos!’ E isso se tornou uma identidade, um grupo só de mulheres que andavam de scooter chamado As Rosettes.

Na época, lembro de pensar: “Vou casar com um mod, ter uma casa mod e filhinhos mods.” Íamos passar o fim de semana em Brighton, a pouco menos de 100 km de Londres, mas eu dizia aos meus pais que estava na casa de Charlotte. Se eles achassem que eu estava com Charlotte – outra menina educada de classe média que estudava em uma boa escola – não tinha problemas.

Sue Lenham (à direita): Ninguém mais curtia rock and roll quando eu estava na escola – era algo muito retrô. Fomos criadas pelo meu pai, algo incomum para os anos 1960, e minha família passava por uma situação difícil. Eu tinha de ser independente e acho que essa cena [roqueira] permitia que eu me expressasse.

Depois descobri que meu pai era um Eduardiano [um tipo específico de Teddy Boy, outra subcultura britânica]. Até frequentávamos os mesmos locais! Sem saber, segui os passos do meu pai. Ele também teve uma infância difícil e por causa disso se tornou muito independente. Talvez ambos víssemos nossas subculturas como uma válvula de escape.

Nos primórdios, Nikki [Nicole] e eu entrávamos escondidas na base aérea de Mildenhall para treinar nossos passos de dança na enorme pista de dança que havia lá. Os homens da base achavam que éramos gays, por dançarmos juntas, o que era bom porque não queríamos ninguém nos importunando enquanto treinávamos.

Nikki sempre foi “a família que escolhi”. Eu não me dava bem com minha irmã e Nikki também passou por alguns problemas familiares sérios, então éramos as duas meio órfãs e acabamos virando a família uma da outra. Eu cuidava dela.

Quando nos reencontramos para a nova fotografia… Nossa, após 20 anos, levamos apenas cinco minutos para perceber que ainda éramos irmãs de sangue. Foi incrível.

Nicole Le Strange (à esquerda): Eu tinha 18 anos na foto, era 1981. Eu era rockabilly – adorava a música, as roupas, o cabelo e a dança. Mas, além disso, era o meu refúgio. Sofri abusos na infância, então a minha subcultura era um local seguro para mim: mais do que qualquer outra coisa, era onde eu me sentia totalmente aceita.

Cresci ouvindo da minha mãe que eu não era boa o bastante porque não nasci menino, porque era feia, porque era muito alta e magra. Eu me lembro de ouvir ela dizer: “Se o aborto fosse legalizado quando engravidei de você, você não estaria viva.”

Então encontrei as pessoas que se tornariam minhas amigas [nesse grupo de rockabilly] – principalmente Sue – e elas não tentaram me moldar. Elas não queriam que eu mudasse. Eu me senti como uma super-heroína. As roupas que eu vestia não eram uma fantasia – eu me vestia assim o tempo todo porque queria – mas eram meio que minha “roupa de super-heroína”. Foi quando minha aparência externa passou verdadeiramente a refletir como eu me sentia por dentro, e eu era totalmente aceita por isso.

Nunca gostei dessa foto, mas um dia percebi, após ficar pensando sobre ela, que não se trata do meu visual e sim do que a fotografia significa. Ali eu estava em um momento tão difícil da minha vida, mas eu estava com Sue, a única pessoa no universo que me amava incondicionalmente. Com quem eu podia (e ainda posso) ser exatamente quem eu quero ser.

Nicola Griffith: A única coisa que me lembro daquela foto é que eu estava tentando proteger Carol, porque cerca de dois minutos antes ela estava surtando um pouquinho. Estávamos tomando uns cogumelos mágicos, você sabe como é. Anita apareceu e disse: “Ei, posso tirar uma foto de vocês?” Eu me virei para dizer “Não!”, mas Carol abriu um sorriso e disse “Claro!”

Se me identifiquei com uma tribo na época, eu diria que foi com a do feminismo lésbico. Tínhamos alguns símbolos – o corte de cabelo, os distintivos com o símbolo feminino, gravatas e suspensórios – e eu os usava porque gostava do que representavam: igualdade. Mas também os usava porque se você estivesse no supermercado e visse outra pessoa com o símbolo do duplo vénus, pensaria: Graças a Deus, eu não sou a única. Nem todo mundo aqui virará a cara e cuspirá na sapata.

Quando envelhecemos nos tornamos mais nós mesmas, indivíduos, e isso nos faz menos tribais – menos dispostas a simplesmente aceitar as coisas, mais propensas a questionamentos. Quando eu tinha 19 anos, não havia aprendido as regras da tribo e simplesmente falava as coisas. Eu não era muito popular. Após cerca de um ano, aprendi a ficar de boca calada, porque fazer perguntas era algo que não se fazia. Mas o que eu mais odiava no etos do feminismo lésbico era O Coletivo: não éramos apenas iguais, mas todas tínhamos de fazer as mesmas coisas, independentemente das habilidades individuais. Tudo juntas, o tempo todo. Isso me enlouquecia – ridículo e supérfluo.

Desde então, já participei de muitas tribos. Ainda faço parte da comunidade homossexual aqui nos EUA e de diferentes comunidades de escritores – ficção científica, ficção com pessoas com deficiência (crip fiction), ficção histórica. Faço pesquisas, sou PhD, por isso também me relaciono com historiadores e acadêmicos. Há a comunidade da minha vizinhança, a comunidade online de pessoas com deficiência. Faço parte de muitas subculturas atualmente, mas não “pertenço” integralmente a nenhuma.

Carole Holmes: Naquele dia [em que a foto original foi tirada] estávamos em uma discoteca depois de participarmos da primeira conferência nacional de lésbicas em Londres. Foi emocionante – havia uma enorme sensação de solidariedade. Era importante mostrar às pessoas que não éramos apenas um “grupinho”.

Ao crescer, percebi que havia algo dentro de mim que eu precisava entender, mas não sabia o que era. Eu sabia que precisava me afastar daquela mentalidade de cidade pequena: trabalhar na fábrica local, casar e ter sabe Deus quantos filhos. Não diria que o que eu estava fazendo era rebeldia. Era, creio, desespero.

Minha subcultura me ofereceu o espaço para relaxar um pouco. Ela me proporcionou um senso de família, mas, pensando bem, aquela não era eu de verdade. A verdadeira eu era aquela menina de cidade pequena e, subitamente, eu havia conhecido todas aquelas feministas lésbicas estudiosas e inteligentes. Eu vinha da classe operária e elas falavam de um modo que eu apenas fingia entender.

Mas foi através dela [da subcultura] que me dei conta: Uau, eu sou lésbica! E foi importante para mim encontrar aquela tribo. Aquela subcultura específica permitiu o florescimento daquela parte que representava quem eu realmente era – mas isso nem sempre aconteceu em sintonia com as outras partes. As pessoas são mais complexas do que as suas comunidades.


Visible Girls Revisited (Garotas Visíveis Reexaminadas, em tradução livre) estará em exposição no Hull Artlink de 7 de julho a 11 de agosto, no Exeter Phoenix de 17 de novembro a 21 de dezembro, no Norwich Arts Centre de 7 de fevereiro a 14 de março e no Bristol 3CA de 6 de setembro a 4 de outubro de 2018.

Anita Corbin ainda está tentando contatar algumas das Garotas Visíveis originais. Se você puder ajudar, acesse visiblegirls.com.

Entrevistas por Deborah Willimott.

Este post foi traduzido do inglês.

Patrick Smith is a senior reporter for BuzzFeed News and is based in London.

Contact Patrick Smith at patrick.smith@buzzfeed.com.

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